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CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

Munique ****

13.02.06, Rita

T.O.: Munich. Realização: Steven Spielberg. Elenco: Eric Bana, Daniel Craig, Ciarán Hinds, Mathieu Kassovitz, Hanns Zischler, Geoffrey Rush, Mathieu Amalric, Michael Lonsdale, Ayelet Zurer, Moritz Bleibtreu, Valeria Bruni Tedeschi, Yvan Attal, Gila Almagor, Lynn Cohen. Nacionalidade: EUA, 2005.





Finalmente, acho que descobri o que me tem afastado de Steven Spielberg desde “A Lista de Schindler” (1993) e, antes disso, desde “O Império do Sol” (1987).


É indubitável a sua qualidade técnica como realizador, a sua mestria na manipulação de todas as regras cinematográficas, a sua direcção de actores (mesmo de um Tom Cruise) e a sua capacidade de oferecer finais felizes “a la E.T.” que têm o dom de tranquilizar (mesmo que por breves segundos) a maioria das pessoas sobre as suas próprias desgraças.


Mas o grosso da sua produção deixa-me, por norma, insatisfeita. E agora já sei porquê. É um problema de coração. Não um problema cardíaco, entenda-se. Mas daquele coração que é alma, espírito, entrega, compromisso, entendimento, aceitação, amor. À semelhança dos dois filmes que mencionei acima, também “Munique” é um ‘labour of love’. E isso nota-se, sente-se e aprecia-se imensamente.


É a pesquisa, a reconstrução histórica, os detalhes, as subtilezas e, sobretudo, a isenção de julgamentos que seduzem nesta recriação das acções que se seguiram ao sequestro e assassinato de onze atletas israelitas nas Olimpíadas de Munique em 1972.


Spielberg intercala a descrição dos acontecimentos perpetrados pelo grupo palestiniano Setembro Negro e as acções de um grupo de homens israelitas, liderado por Avner (Eric Bana) que, colocado propositadamente à margem da Mossad e com o aval da primeira-ministra Golda Meir (Lynn Cohen), tem por missão eliminar diversos líderes palestinianos suspeitos de estarem envolvidos no ataque.


O sentido de missão, da tal guerra apelidada de “santa” pelas diversas facções, só sobrevive com a rapidez das acções, com ordens autoritárias e precisas e, sobretudo, com o pensamento congelado por argumentos que anulam o ser humano, reduzindo-o a uma generalidade ambígua. E é quando o ser humano se confronta com outro ser humano que as certezas se abalam. Quando vemos que o que move um e outro, o que os faz lutar, o que os faz chorar, é exactamente o mesmo. E é nessa identificação que a arrogância e os consequentes actos de inominável crueldade só podem conduzir a um fim: a destruição (mútua e individual).


Como disse Ghandi, com a regra do “olho por olho, dente por dente, o mundo acabará cego”. E, se não tivermos cuidado, é isso mesmo que nos espera. Mas talvez antes, nos ceguemos a nós próprios, como Édipo movido pela culpa.


A guerra que Spielberg nos mostra não é a dos palestinianos contra os israelitas, mas a de um homem em luta consigo próprio, com os seus valores, com as sus crenças, com os seus deveres e, em última e mais cruel instância, com a sua consciência.


Eric Bana tem aqui uma interpretação memorável, de uma densidade e versatilidade impressionantes. A ajudá-lo está um elenco de excepção, onde apetece destacar o genial Geoffrey Rush, mas depois surgem colados os nomes de Daniel Craig, Ciarán Hinds, Mathieu Kassovitz, Hanns Zischler, Mathieu Amalric e Michael Lonsdale. Confesso outra coisa que me agradou muitíssimo, o uso e abuso de um fantástico e diverso elenco europeu, onde além dos acima mencionados soube bem rever Moritz Bleibtreu, Valeria Bruni Tedeschi e Yvan Attal.


Com este produto de bom cinema, fica explicado (quase até desculpado) o “War of the Worlds”. Afinal de contas, o amor e a entrega só são possíveis se forem totais. Aqui deixo um agradecimento a Spielberg, por ter posto o seu coração no filme certo e se ter entregue desta maneira.






CITAÇÕES:


“Forget peace for now. We have to show them we're strong.”
LYNN COHEN (Golda Meir)

“We kill for our future. We kill for peace.”
GEOFFREY RUSH (Ephraim)

“I knew guys like you in the army. You do any terrifying thing you're asked to do, but you have to do it running. You think you can outrun your fears, your doubts. The only thing that really scares you guys is stillness.”
CIARÁN HINDS (Carl)

“Home is everything.”
OMAR METWALLY (Ali)

“That is our tragedy: butchers' hands, and gentle souls.”
MICHAEL LONSDALE (Papa)

“We are supposed to be righteous! I lose that, that's my soul!”
MATHIEU KASSOVITZ (Robert)

“All of this blood comes back to us.”
YVAN ATTAL (Tony)

“There’s no peace at the end of this.”
ERIC BANA (Avner)





























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