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CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

En la Cama ***

05.06.06, Rita

Realização: Matías Bize. Elenco: Blanca Lewin, Gonzalo Valenzuela. Nacionalidade: Alemanha / Chile, 2005.





“En la Cama” começa, como o título mais do que sugere, com sexo. Em frente à câmara os lençóis agitam-se, ao som de gemidos de prazer. Essa mesma câmara vai-se movimentando entre o tecido em direcção aos corpos, até ao momento climático, em que os desvenda.


Daniela (Blanca Lewin) e Bruno (Gonzalo Valenzuela) conheceram-se numa festa e foram para um motel. É aqui que se encontram e é aqui que se desenrola, no período de umas breves horas, toda a “acção” de “En la Cama”. “Acção” porque, de facto, este é um filme de palavras onde o diálogo é o ponto chave (é fácil cair na tentação de mencionar os filmes de Richard Linklater, mas a dinâmica das personagens é completamente distinta).


Por algum motivo que nenhum deles consegue explicar, este dois estranhos sentem uma urgente necessidade de trocarem perguntas, de fazer confidências um ao outro, e de mentirem sobre o mundo lá fora. Quase sempre na cama, rodeada de espelhos, Daniela e Bruno são filmados em grandes planos, por vezes desfocados (como quem se aproxima ou afasta demasiado rápido, num jogo semelhante ao que as personagens jogam entre si).


A utilização dos mínimos recursos - um cenário, dois actores - é um desafio que Matías Bize supera sem nunca roçar o tédio ou pôr em risco atenção do espectador. Para ajudar a isso está o argumento de Julio Rojas e a montagem vivaz (ainda que com algumas falhas) de Paula Talloni, transformando a troca de Daniela e Bruno numa descoberta urgente.


Mas mais do que as imagens, o som é aqui a forma de comunicação essencial, dos gemidos da luxúria às palavras que os desvendam pouco a pouco. Os diálogos vão evoluindo, os temas de conversa mudam, e das originais abordagens cheias de leveza passam a um quase-interrogatório com os pesados clichés que marcam a intromissão dos sentimentos na relação casual.


A constante nudez dos corpos acaba por tornar-se secundária à nudez das almas, e a ânsia de desembaraçar o outro das roupas com que oculta os seus verdadeiros desejos, é superior à vontade de possuir o seu corpo. “En la Cama” inicia-se com sexo, como muitas vezes acontece com o amor. Mas o sexo acaba por tornar-se numa forma de chegar mais perto, de tentar tocar um pouco mais o outro, e de perceber até que ponto o outro nos consegue tocar. Daniela e Bruno testam a sua resistência física da mesma forma que testam a sua capacidade de se enganarem a si mesmos. Em “En la Cama” a mentira é usada simultaneamente para manter o outro à distância e para conquistá-lo, ocultando elementos que poriam em causa a hipótese (mesmo que ténue) de que aquele encontro casual pudesse alguma vez ser algo mais. Daniela admite mesmo, a dado momento, que o sexo casual não significa nada e não tem nenhuma importância.


“En la Cama” está profundamente dedicado às suas duas personagens (e dependente delas também), mas capitaliza na impressionante empatia (e beleza) de Lewin e Valenzuela. Ainda assim, é Lewin quem se destaca, não só por o seu corpo ter mais tempo de ecrã, mas também porque este filme acaba por abordar o papel da mulher como fonte de iniciativa, do seu calculismo e, ainda assim, da sua subjugação (seja à sociedade, seja aos seus próprios objectivos de vida).


Nunca chegamos a perceber exactamente quem são aquelas duas pessoas, ou o que pretendem de tudo aquilo. As máscaras que colocam para o sexo casual oculta a imensa necessidade de serem amados. Uma máscara que parecem não conseguir tirar. Eles vivem não só a angústia de não perceber o que estão à procura no outro, como também a de não conseguirem entender o que verdadeiramente querem da vida.


Vencedor dos prémios de Melhor Filme nos festivais de cinema de Valladolid e de Viña del Mar, onde também recebeu o prémio de Melhor Actriz, e de Melhor Guião no Festival de Cinema de Havana, “En la Cama” é um pedaço de existencialismo degladiando-se em frente a espelhos e sobre lençóis.



















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