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CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

Le Temps du Loup ****

03.09.04, Rita

Realização: Michael Haneke. Elenco: Isabelle Hupert, Béatrice Dalle, Patrice Chéreau, Olivier Gourmet, Anaïs Demoustier, Lucas Biscombe, Rona Hartner, Maurice Bénichou, Brigitte Roüan, Hakim Taleb. Nacionalidade: França / Áustria / Alemanha, 2003.





Ao chegarem à sua casa de campo, Anne (Hupert) e a sua família deparam com a casa ocupada por estranhos. Este é o início de um drama familiar que rapidamente se estende ao drama colectivo. Num contexto pós-apocalíptico, este filme-catástrofe, bem longe dos efeitos especiais típicos e bem mais perto do que gostaríamos de uma possível realidade, levanta questões perturbantes através de uma alegoria.


As referências bíblicas dos nomes (Ana, Eva, Benjamim), da água e do fogo e dos 36 justos que tomam conta da terra, reforçam a ideia de que o dia do julgamento está perto. Ou talvez tenha já chegado. O tempo em que o Homem é um lobo (predador) para o próprio Homem. Não é sem angústia que consigo encaixar alguns acontecimentos relativamente recentes nesta descrição.


Até onde prevalecem os valores morais? Que princípios resistem à infelicidade e à crueldade que dela nasce? É fácil demais condenar as atitudes dos personagens, julgá-los pela nossa medida. Mas nunca as circunstâncias atenuantes foram tão bem expostas. Nunca o ambiente escuro e soturno expressou tão claramente a nossa mente virada do avesso, e o nevoeiro e a cegueira foram tão simbólicos da falta de discernimento causado pelo desespero.


Poucos terão a noção das suas reacções em situações extremas. E é assustador pensar que todo o tempo que levamos a tentar conhecer-nos a nós mesmos, não chega a ser suficiente. Mas não somos certamente nunca tão bons quanto pensamos. Na luta pela sobrevivência (nossa e dos que amamos) podemos de facto suprimir toda nossa noção de bem e de mal. Porque somos, na nossa essência, animais. E, como tal, é o impulso de vida que nos move: para comer, para trabalhar, para amar. Viver continua a ser a melhor alternativa, a qualquer custo. Mesmo que o preço a pagar seja deixar de ser humano.


Mas depois de nos mostrar o pior da natureza humana, a suja exploração do sofrimento alheio, a miséria da subjugação, o salve-se quem puder da selva que é a vida (e, como parte da vida, também a morte), o silêncio doloroso de quem não pode chorar, as lágrimas escondidas de quem tem de se mostrar forte, Haneke dá-nos alento, um sopro da dignidade que emerge do caos e a leve esperança de que Homem pode ainda redimir-se.


Tirando partido do cenário rural e inóspito, Haneke joga com a luz (do fogo) e a luminosidade natural (ampliada e dispersa pelo nevoeiro) e enche os silêncios com significado de fim, mas alguma da tensão criada perde impacto ao ser quebrada por um compasso demasiado lento de algumas passagens. Mas Haneke tem o mérito de fazer um filme aberto, em que nos deixa livres para formular os nossos próprios julgamentos, e sobretudo para olhar para dentro de nós mesmos e buscar o que cada um tem de humano e de lobo.














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