Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

La Petite Lili ***

07.09.04, Rita

Realização: Claude Miller. Elenco: Nicole Garcia, Bernard Giraudeau, Jean-Pierre Marielle, Ludivine Sagnier, Robinson Stévenin, Julie Depardieu, Yves Jaques, Anne Le Ny. Nacionalidade: França / Canadá, 2003.





Acabei por seguir o meu próprio conselho, para variar, e ontem fui ver o filme “La Petite Lili”, de Claude Miller, uma adaptação livre da peça “A Gaivota”, de Anton Tchékhov. A concretização desta versão não se afasta do objectivo cénico do dramaturgo em relatar o drama da vida comum tal como ela é na realidade, onde a acção é bastante mais reduzida que as palavras.


A projecção da primeira curta metragem de Julien (Stévenin) no início do filme invoca desde logo o cinema como assunto central. A entrada em cena dos personagens tem uma sequência quase teatral, cada um deles representando o seu arquétipo: Brice (Giraudeau), o realizador de sucesso; Mado (Garcia), a actriz célebre; Julien, o filho rebelde; Simon (Marielle) o avô compreensivo; Léone (Le Ny), a governanta e o seu marido; Jeanne-Marie (Depardieu), a sua filha não correspondida no seu amor por Julien; o médico de família (Jaques); e a luminosa presença de Lili (Sagnier), musa e paixão de Julien.


Reacções, antagonismos, rivalidades, ciúmes, frustrações e ambições em duelo: entre mãe e filho, entre diferentes formas de ver o cinema, entre a promessa de talento e o talento confirmado, entre o amor maculado de oportunismo e o amor secreto e incondicional.


São diálogos ásperos os que se desenrolam entre os diversos personagens, que têm em comum a luta de cada um pela sua porção de poder: o poder da experiência, da fama, da inocência, do desejo. E o que observamos são estados de alma que se sucedem numa cadeia de reacções. Onde a inércia desempenha um papel tão importante como a decisão, onde a realidade toma o lugar do sonho, concretizando-o, e o sonho o da realidade, frustrando-a.


Miller envolve a história numa série de pormenores poéticos, entre os quais há a referir a imagem da mão idosa de Simon pousada na sua perna enquanto dorme a sesta, e onde é de destacar o soberbo trabalho de iluminação. Por sua vez, Ludivine Sagnier, depois de “Swimming Pool”, de François Ozon e de “Petites Coupures”, de Pascal Bonitzer, vem mais uma vez reforçar o seu estatuto de mais recente símbolo sexual do cinema francês.


Não foi sem alguma inquietação que, no final do filme, dei por mim a pensar: e se o que vemos no cinema fosse a realidade, e aquilo que vivemos fosse apenas uma alternativa ficcional da nossa própria história? E nós meros actores representando o nosso próprio papel numa versão do que poderia ter sido? O que mudaríamos se decidíssemos filmar a nossa própria vida? Que actor seleccionaríamos para representar o nosso papel? Que personagens da nossa vida escolheríamos para contracenarem com o nosso?... Cheguei a casa sem respostas.



CITAÇÕES:


“Que tudo no palco seja como na vida: as pessoas almoçam e só almoçam e ao mesmo tempo se forma a sua felicidade ou quebra a sua vida.”
ANTON TCHÉKHOV (sobre a sua peça A Gaivota)

















Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.