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CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

5x2 ***

18.10.04, Rita

T.O.: 5x2 cinq fois deux. Realização: François Ozon. Elenco: Valeria Bruni-Tedeschi, Stéphane Freiss, Géraldine Pailhas, Françoise Fabian, Michael Lonsdale, Antoine Chappey. Nacionalidade: França, 2004.





De regresso ao drama romântico, François Ozon conta-nos, em ordem cronológica inversa, a história de um casal (o 2) em diversos momentos da sua vida conjunta (o 5). De uma originalidade já um tanto questionável e um pouco à semelhança de “Memento”, de Christopher Nolan, e de “Irreversível”, de Gaspar Noé, esta opção narrativa vem sobretudo evidenciar a ilusão do “felizes para sempre”. A tendência do cinema para o conto de fadas (a meu ver, uma das causas da sociedade depressiva), está bastante longe da verdade. Por definição, um final nunca é feliz, porque é ruptura, é desmoronar, é frustrar, é partir.


Aqui somos, desde início, confrontados com o fim do casamento de Marion (Tedeschi) e de Gilles (Freiss). Um final legalmente pacífico, mas emocionalmente violento, onde ambos tentam ainda resgatar algo do que os uniu, mas o vazio do silêncio é agora o único que têm em comum. Somos depois levados a um jantar entre amigos, onde começamos a vislumbrar a amargura das palavras, a indiferença dos gestos. E o julgamento de outras opções de felicidade diferentes da nossa torna-se irónico, sabendo já o desfecho.


No nascimento do filho, Gilles evidencia a sua fraqueza de carácter. Percebemos que um gesto de ternura anterior (ou seja, posterior) mais do que genuíno é quase compensatório. Vemos que Gilles passou toda a vida a pedir desculpas, a tentar voltar atrás. A idêntica deterioração do casamento dos pais de Marion traduz uma outra hipótese: o conflito directo das palavras (em vez do silêncio reprimido) e a aceitação da condição de falha, mantendo a coabitação (em vez do divórcio).


O casamento. A felicidade dolorosa. Não só porque já a sabemos finita, mas porque também ela é pautada por mácula. E, finalmente, o momento do encontro, onde Marion faz o aviso, sem saber, do desfecho da sua própria história.


Ozon deixa-nos adivinhar alguns detalhes, usando a luz/sobra como reflexo da crescente (ou melhor, decrescente) amargura. A música de Philippe Rombi acompanha todo o desvendar da equação, isto é, das equações. A única forma de encontrar uma solução para as duas incógnitas (dois seres individuais) é considerar duas equações distintas, dois conjuntos de especificidades, necessidades, sonhos, vontades. Por isso este filme não se chama 5x1. Porque uma relação não é uma unidade. Mas duas.


Apesar da sensação geral de desencanto, 5x2 é também o retrato de cinco momentos de felicidade: a da descoberta, a do entendimento, a da criação, a da amizade, a da liberdade, por ordem cronológica.






CITAÇÕES:


“Não devíamos nadar nesta parte do mar, é perigoso.”
VALERIA BRUNI-TEDESCHI (Marion)


















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