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CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

Diarios de Motocicleta ****

26.10.04, Rita

Realização: Walter Salles. Elenco: Gael García Bernal, Rodrigo de la Serna, Mía Maestro, Mercedes Morán, Jean Pierre Noher. Nacionalidade: Argentina / EUA / RU / Alemanha, 2004.





1952, ERNESTO GUEVARA DE LA SERNA (García Bernal), 23 anos, finalista de medicina e oriundo de uma família burguesa de Buenos Aires decide partir com o seu amigo ALBERTO GRANADO (Rodrigo de la Serna), um bioquímico de 29 anos, numa viagem pela América Latina. Com a mota LA PODEROSA lançam-se numa aventura que os leva da Argentina à Venezuela, por mais de 10.000 kms ao longo de 7 meses.


A par do caminho físico é também percorrido um caminho espiritual, que transforma uma viagem iniciática quase de fuga à responsabilidade adulta numa tomada de consciência da realidade de um continente e de um povo. Uma viagem que viria a transformar um jovem no líder da revolução cubana, e que viria a encontrar a morte na Bolívia, apenas 15 anos após os factos aqui narrados.


Com apoio de Robert Redford e do seu Sundance Institute, Walter Salles assume o risco de filmar um mito fortemente enraizado no imaginário colectivo. Mas teve a vantagem deste se basear de perto nos escritos dos seus directos intervenientes, os livros ‘Notas de Viaje’ de Che Guevara e ‘Con el Che por Latinoamérica’ de Alberto Granado, permitindo-lhe assim evitar a tentação de cair no cliché heróico.


Com um olhar documental, a câmara oscila pelos caminhos e centra-se nos rostos. Instantes cómicos característicos da juventude contrastam com momentos dramáticos de confronto brutal com a pobreza, a doença, a injustiça social, a ignorância e, simultaneamente, com a dignidade e solidariedade de um povo que, segundo o mesmo Guevara “constituye una sola raza mestiza que desde México hasta el Estrecho de Magallanes presenta notables similitudes”. A consciência social de Salles deixa de ser exclusiva do Brasil para se estender a todo o continente sul-americano.


Salles constrói dois personagens consistentes: Granado, impulsionador pragmático; e Guevara, introspectivo e sensível, no romance, no auxílio, na sinceridade. Coloca-os nos belíssimos cenários de Buenos Aires e Bariloche (Argentina); Temuco, o deserto de Atacama, Valparaíso e uma mina (Chile); e Iquitos e Machu Pichu (Peru). Um road movie, episódico por natureza, mas onde todos os momentos se unem com a continuidade e fluidez de uma história bem contada.


O filme traz-nos alguns momentos de revelação: Machu Pichu, a barcaça dos pobres a reboque, a colónia de leprosos; mas o momento de transição, de choque com a realidade, é o encontro com o casal de comunistas perseguidos no deserto de Atacama, onde a validade do progresso económico é posta em causa e onde se começa a definir uma convicção ideológica.


García Bernal confirma-se inequivocamente como um talento, mas a descoberta de Rodrigo de la Serna (curiosamente primo em 2º grau de Guevara) é, no mínimo, uma emoção refrescante. A cumplicidade de ambos transpira da tela. O exemplo mais marcante, que não figura no livro de Guevara, é a travessia do rio a nado, como símbolo de um ritual de passagem.


Este retrato social e antropológico de uma América Latina que gostaríamos tivesse mudado é pintado com a deslumbrante fotografia de Eric Gautier. Salles retoma a técnica do álbum final a preto e branco que já tinha sido usado em “A Cidade de Deus” (do qual foi co-produtor) para construir a memória de uma viagem inesquecível. E Jorge Drexler encerra este filme com o delicioso tema Al Otro Lado del Río, para o qual foi expressamente escrito e composto.


“No sé que voy a hacer, este viaje me ha cambiado muchas cosas”, diz Guevara.
Quanto vale para a humanidade o passo de um homem?



CITAÇÕES:


” La vida es jodida. Hay que luchar por cada boca de aire. Y mandar la muerte al carajo.”
GAEL GARCÍA BERNAL (Ernesto Guevara)

“El personaje que escribió estas notas murió al pisar de nuevo tierra argentina, el que las ordena y pule, yo, no soy yo, por lo menos no soy el mismo yo interior. Ese vagar sin rumbo por nuestra ‘Mayúscula América’ me ha cambiado más de lo que creí.”
ERNESTO GUEVARA, in Notas de Viaje

“Si hay una cosa que puedo decirle sobre esta experiencia – y creo que hablo por todos los que nos "echamos a la carretera" durante dos años para llevar a término este proyecto – es que cuando llegamos al final de nuestro viaje, nosotros también habíamos cambiado.”
WALTER SALLES

“El Che ha tenido una influencia muy fuerte en nuestras vidas, especialmente en las de quienes nacimos después de la revolución cubana... (Mi generación) nació con la idea de un héroe latinoamericano moderno, un hombre que luchó por sus ideas, un argentino que peleó en un país que no era el suyo, que se convirtió en ciudadano de Latinoamérica, del mundo... Creo que esta historia podría animar a la gente a intentar encontrar sus propias creencias...”
GAEL GARCÍA BERNAL
























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