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CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

La Niña Santa **

15.12.04, Rita

Realização: Lucrecia Martel. Elenco: Mercedes Morán, Carlos Belloso, Alejandro Urdapilleta, María Alche, Julieta Zylberberg, Mía Maestro. Nacionalidade: Argentina / Itália / Holanda / Espanha, 2004.





Precedido pela enorme expectativa que gerou a extraordinária primeira longa-metragem da argentina Lucrecia Martel, La Ciénaga, chega agora La Niña Santa, um filme que mistura o místico e o erótico.


Se o primeiro se destacou pela marcada importância das atmosferas, sem uma história “forte”, trazendo ao espectador uma forma diferente de viver a experiência do cinema; este vem dar evidência aos olhares e aos rostos, que ambiguamente transmitem sentimentos em substituição das palavras. Aqui a mestria de Martel continua intacta e foi até um pouco mais longe.


Amalia (Alche) é uma adolescente ansiosa por receber um sinal de Deus e acredita identificar a sua missão divina na conversão de um homem (Belloso) que a aborda em plena rua, com uma intenção nitidamente sexual. Mais tarde, Amalia acaba por descobrir que este homem é um dos médicos do congresso que tem lugar no hotel onde vive com a sua mãe (Morán).


A fé toma aqui o lugar de uma pequena obsessão. Na adolescência todos nos consideramos os donos do mundo e seguimos cegamente, sem questionar, as ideias dos nossos ídolos. Como se cantasse a canção do seu grupo preferido, Amalia reza automaticamente, debitando orações decoradas.


Mas o ambiente indolente e desordenado de La Ciénaga perde muito do seu sentido neste filme, tornando-o inclusivamente aborrecido. Martel distancia-se tanto dos seus personagens, olhando-os de fora e sem julgamentos, que impede que nos aproximemos ou identifiquemos com eles, ou que compreendamos as suas motivações.


Martel recusa-se a evidenciar a atracção de Amalia por Jano (Belloso), a fazer dela uma Lolita; recusa-se a expressar claramente a atracção simultânea de Jano por Amalia e por Helena (Móran); recusa-se a libertar Helena na paixão. Deixa-nos sempre no limbo das possibilidades, quando na vida não é disso que se trata, mas sim de escolhas.


Na ânsia de marcar os dilemas religião vs. ciência; fé vs. agnosticismo; “visão” vs. “surdez”, Martel acaba por reduzir cada um dos personagens a meros instrumentos cirúrgicos, impedindo-os de serem humanos. Tal como Jano, Martel roça, mas não se compromete. Esquiva-se, deixando-nos a sensação de termos sido usados para o seu prazer. Só nos damos verdadeiramente quando nos comprometemos e, aqui, Martel fica-se por uma relação superficial, sem grandes sentimentos.






CITAÇÕES:


“Es natural que los poetas místicos y los eróticos usen un lenguaje parecido: no hay muchas maneras de decir lo indecible.”
OCTAVIO PAZ.



















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