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CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

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CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

Porque Scorsese não deve receber o Oscar

24.02.05, Rita

Martin Scorsese é considerado por muitos o maior cineasta americano vivo. E se este estatuto até pode ser contestado por muitos, já é quase unânime a consideração de que se trata do maior cineasta americano vivo que nunca ganhou um Oscar. A Academia sabe-o. Tem vergonha disso. E tem razão para o ter. Basta lembrar que em 1976 “Taxi Driver” perdeu para “Rocky”, que em 1980 “O Touro Enraivecido” perdeu para “Gente Normal” de Robert Redford, ou, mais recentemente em 1990, “Tudo Bons Rapazes” perdeu para “Danças com Lobos” de Kevin Costner.


De tempos a tempos (porque Scorsese apesar de realizar filmes a um bom ritmo, nunca foi um realizador académico e a maior parte dos seus filmes, independentemente da sua qualidade, não se adequa aos parâmetros que atribuem o estatuto de oscarizável a um filme, e por outro lado porque já tem um estatuto demasiado grande para ocupar o lugar de “independente de estimação” que anualmente tem lugar cativo nas nomeações, vide este ano “Sideways”) lá vai aparecendo uma nomeação de Scorsese para melhor realizador, e a conversa vai-se repetindo. Será desta?


Este ano foi um desses anos que deu origem a um filme oscarizável de Scorsese, “O Aviador”, uma biopic de estilo épico sobre Howard Hughes, retrato do sonho americano com zonas de sombra q.b. como se quer nos dias de hoje, e com o extra de reportar para Hollywood e os seus anos dourados da década de 40. De facto poder-se-á dizer que desde 1980 Scorsese não tinha uma hipótese tão grande de ganhar o tão desejado Oscar.


Porquê então o autor destas linhas acha que Scorsese não deveria recebê-lo este ano? A primeira razão é muito simples. Porque existe entre os nomeados pelo menos um filme que é muito melhor (mais concretamente “Million Dollar Baby”, que confirma Eastwood se não como o tal maior cineasta americano vivo, pelo menos como o cineasta americano em melhor forma no presente).


Resta o argumento de se ver a atribuição do Oscar a Scorsese como uma espécie de prémio de carreira. E também sobre este pressuposto não concordo com a sua atribuição. Não porque não concorde que a carreira de Scorsese o mereça (ainda que ache que o génio de Scorsese já anda por baixo há muitos anos, para mim o seu último grande filme foi o “Tudo Bons Rapazes”, de 1990) merece-o certamente mais do que a maioria daqueles que já o ganharam, e olhando para os palmarés dos últimos anos esse merecimento é ainda maior. Não porque minimize a importância dos Oscares, apesar de não os ver como mais do que os prémios com que uma indústria cinematográfica (mais concretamente Hollywood) se celebra a si própria, ainda assim vejo-os como o maior reconhecimento dessa comunidade para os seus membros e Scorsese, mesmo sendo um cineasta de Nova Iorque, faz parte dessa comunidade e esse reconhecimento, até pela sua dimensão mediática, tem muita importância.


Não concordo porque iria corrigir um erro (a não atribuição do Oscar no seu devido tempo em detrimento de um filme menor) por um erro idêntico (preterindo um filme, e um realizador, que neste momento o merece mais). Mas acima de tudo porque “O Aviador” não faz justiça à carreira de Scorsese. Não que se trate um mau filme (e a esse nível fica a muitas milhas de distância da desgraça que foi “Gangs de Nova Iorque”) mas porque não se trata de um grande filme. Porque deixa transparecer de Scorsese um academismo que não é o dele, porque não mostra o olhar inconformado e real sobre o tempo presente que os seus grandes filmes têm, porque não tem a sua marca indistinta que o transformou no tal maior realizador americano vivo. Porque um Oscar deixa marcas muito fortes para a posteridade, porque um Oscar para “O Aviador” irá valorizar em demasia (para memória futura) estes últimos anos de Scorsese e poderá enevoar a lembrança do período de 70/80 (que são indiscutivelmente os anos do grande Scorsese).


Resumindo, porque mais vale Scorsese ser lembrado como aquele grande realizador que nunca ganhou o Oscar, apesar de ter realizado obras-primas como o “Touro Enraivecido” ou “Taxi Driver”, do que como o realizador que ganhou o Oscar por ter realizado “O Aviador”.



por Sérgio

 

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