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CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

Crimson Gold - Sangue e Ouro ****

04.04.05, Rita

T.O.: Talaye sorkh. Realização: Jafar Panahi. Elenco: Hussein Emadeddin, Kamyar Sheisi, Azita Rayeji, Shahram Vaziri, Ehsan Amani, Pourang Nakhael, Kaveh Najmabadi, Saber Safael. Nacionalidade: Irão, 2003.





“Crimson Gold” começa com um assalto a uma joalharia. Um acto de violência que, em flashback, vai procurar entender como a hipocrisia e o desrespeito pelo indivíduo podem levar uma pessoa normal para além dos seus limites. Essa pessoa é Hussein (Emadeddin), um homem pobre, feio, com excesso de peso, que está noivo da irmã do seu melhor amigo, Ali (Sheisi).


Nos seus trajectos como entregador de pizzas, em Teerão, Hussein vê-se muitas vezes confrontado com o outro lado do prisma social, ostensivo, arrogante, fútil, depreciativo. Como uma criança a quem estendem um doce mas não o deixam comer, Hussein é atraído pela facilidade desta forma de vida. Só uma ínfima parte permitiria que ele oferecesse à sua noiva as jóias que tanto queria.


Do argumento de Abbas Kiarostami, Panahi mantém uma subtileza ao longo de toda a história, quer na expressão dos sentimentos quer no desenrolar da acção. O resultado é, ao mesmo tempo, um retrato realista e humanista da sociedade iraniana, não deixando igualmente de ser uma observação preocupada sobre a discriminação e a desigualdade em termos universais. O vale profundo que se abre da varanda de um 18º andar de um prédio de luxo é símbolo do crescente abismo entre ricos e pobres.


Num ponto da história ficamos a saber que Hussein lutou na guerra Irão-Iraque (conflito iniciado em 1980, que durou 8 anos e matou 1 milhão de pessoas), mas a sua luta pessoal/social está longe de ter terminado. Hussein é grande, mas invisível, continuamente humilhado pelas injustiças que o rodeiam.

Panahi constrói um diálogo espontâneo, até cómico, e silêncios plenos de angústia e raiva. Com sequências longas, e ocupando um espaço entre o comentário e o cinema, “Crimson Gold” baseia-se num incidente real passado em Teerão. Também perto da verdade está Hussein Emadeddin, o actor que interpreta o papel de Hussein e que, na realidade, é entregador de pizzas e sofre de esquizofrenia.


Vencedor em 2003 do Prémio do Júri na categoria de Un Certain Regard em Cannes, “Crimson Gold” é um filme perturbante e corajoso. Um relato íntimo do insustentável peso do ser. “Crimson Gold” – o ouro carmim, manchado de sangue. É também essa a cor do amanhecer em Teerão.














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