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CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

A SEGUNDA GRANDE GUERRA EM FILMES

14.06.05, Rita

A história é escrita pelos vencedores, dizem os mais cépticos. Mas nos dias que correm, em que a divulgação dessa história passa por outros meios que os simples manuais académicos, o que se pode dizer é que há uns vencedores que são mais vencedores que outros.


Um dos acontecimentos históricos mais revisitados pelo cinema, que é disso que estamos a falar, foi a segunda guerra mundial (e nunca nenhuma guerra foi tão retratada no cinema como esta). Muitos desses filmes foram (e vão) chegando até nós, e foi em muito através deles que a nossa visão da história deste conflito foi sendo formada.


Devido à realidade em que nos inserimos, foi principalmente o cinema americano que nos forneceu essa visão. E como tal foi através da visão americana da guerra que fomos sendo “educados” quanto a ela. Isso leva, obrigatoriamente, a uma visão parcial do que foi essa realidade. Uma visão que tende a privilegiar as frentes onde as suas tropas combateram (a frente ocidental no teatro de guerra europeu, o pacífico) menorizando as frentes onde não estiveram directamente envolvidos (especialmente a frente leste na Europa, onde o exército soviético combateu o exército alemão), a destacar os “heróis” americanos e a ignorar ou a diminuir a importância dos feitos dos seus aliados (como exemplo basta ver a forma como Montegomery, comandante máximo das tropas britânicas no conflito e que é visto por estes quase como o maior génio da história militar, é retratado nos filmes americanos, quase sempre como um incapaz ou no máximo como uma boa hipótese para um momento de comic relief, vide “Patton” ou “O Resgate do Soldado Ryan”). Isto para não falar da visão como nos são apresentados os derrotados, alemães (esses tipos que falavam inglês com sotaque) e japoneses.


Não querendo daqui passar a ideia de uma conspiração americana para reescrever a história (mas que las hay...), o objectivo último de Hollywood é o lucro e o caminho mais rápido para o conseguir é apresentar ao público um herói americano, a verdade é que o que daí resultou foi sermos confrontados, quase sem contraditório, com essa visão parcial do conflito (mas há que dizer em sua defesa que os americanos não têm culpa que os outros países não consigam acompanhar o seu ritmo de produção cinematográfica). Mas com a celebração dos 60 anos do fim da guerra, surgiu o mais variado leque de produtos a comemorá-lo. E com ele a possibilidade de alargarmos a nossa visão do conflito.


A mais óbvia foi a estreia de dois filmes alemães (“A Queda” de Oliver Hirschbiegel e “Sophie Scholl – Os Últimos Dias” de Marc Rothemund), que nos permitiram a visão da guerra do lado de lá, dos derrotados. E trata-se de uma visão efectivamente renovadora (que não obrigatoriamente mais “isenta” que a que nos foi mostrada até hoje, mas, porque diferente, permitindo uma visão global mais “verdadeira” do conflito), quer na forma humana (em oposição a abstracta) como é retratado o Mal absoluto, quer na forma como mostra a relação do povo alemão com esse Mal, dando-nos a conhecer uma resistência (atrevo-me a dizer nunca antes mostrada) que existiu em alguns quadrantes da sociedade alemã em relação ao regime nazi.


Para essa visão renovada do conflito contribuiu também a programação dos diferentes canais portugueses para celebrar a efeméride, “visão nova” essa vinda inclusive do lado vencedor, contribuindo em muito para isso a verdadeira barragem de documentários de origem britânica produzidos este ano (quase se poderia dizer que o Reino Unido decidiu utilizar a sua melhor arma, a BBC, para combater Hollywood no tal processo de revisão histórica inexistente).


Mas ainda assim, a visão continua a ser bastante parcial, sendo de destacar, porque como escrevi no princípio a história é escrita pelos vencedores, a falta da apresentação da perspectiva do outro grande vencedor, a União Soviética. As razões para tal serão muitas, certamente a produção não atingiu níveis comparáveis com os americanos (e mesmo com os britânicos), sem dúvida alguma a capacidade de distribuição da cinematografia soviética no nosso pais foi mínima. A verdade é que poucas terão sido as exibições de filmes soviéticos sobre a segunda guerra mundial, no nosso país.


De forma a permitir minorar um pouco esse défice, aconselha-se o acompanhamento do ciclo de cinema soviético (infelizmente começado há já 2 semanas) intitulado “A Segunda Grande Guerra em Filmes”. Um ciclo que permite uma visão abrangente da forma como a guerra foi retratada pelo cinema soviético (e tendo em conta o período temporal, e diferentes realidades políticas, que este ciclo abrange, com fitas que vão desde 1959 até 1985 contando ainda com uma produção de 2002, permite também descortinar a forma como evoluiu a sua visão do conflito ao longo dos tempos) e que possibilita também aprofundar o conhecimento de uma cinematografia tão importante mas não tão divulgada entre nós (e embora não tenha visto nenhum dos filmes, um ciclo que inclui um filme de Tarkovski é sempre de valor).


A decorrer na Fundação Mário Soares. Rua de São Bento, nº 160, à frente da Assembleia da República. As sessões são às terças-feiras, sempre às 18h00, com entrada gratuita e todos os filmes legendados em português. Aqui segue o programa.



14 de Junho -
Balada de um soldado de Grigori Tchukhray, 1959

21 de Junho -
Infância de Ivan de Andrey Tarkovskiy, 1962

28 de Junho -
Alvoradas tranquilas de S. Rostotskiy, 1972

5 de Julho -
Destino de um homem de S. Bondartchuk, 1975

12 de Julho -
Torpedeiros de Simeon Aranovitch, 1983

19 de Julho -
Quando passam as cegonhas de M. Kalatozov, 1985

26 de Julho -
A estrela de Nikolai Lebedev, 2002 (legendado em inglês)


por Sérgio


 

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