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CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

Le Couperet ****

07.10.05, Rita

Realização: Costa-Gavras. Elenco: José Garcia, Karin Viard, Geordy Monfils, Christa Theret, Olivier Gourmet, Ulrich Tukur, Yvon Back, Thierry Hancisse, Philippe Bardy, Michel Carcan, Marc Legein, Dieudonné Kabongo Bashila. Nacionalidade: Bélgica / França / Espanha, 2005.





Bruno Davert (José Garcia) é quadro superior de uma empresa de papel. Despedido na sequência de medidas de deslocalização e redução de pessoal, decide recuperar a sua vida. E, para isso, ele está disposto a qualquer coisa, mesmo matar os seus concorrentes directos.


Cáustico e irreverente desde o primeiro minuto, esta adaptação do livro “The Ax”, de Donald E. Westlake, versa sobre um tema já abordado em filmes como “L’Emplois du Temp” de Laurent Cantet (2001) e “L’Adversaire” de Nicole Garcia (2002).


É fácil associar o crime e as medidas anti-sociais extremas às populações mais desfavorecidas e/ou com menos formação. Mas aqui, Costa-Gavras fala de um homem com formação superior que, ao contrário de alguns seus concorrentes que procuram trabalho em actividades menos qualificadas para continuar a sua vida, ele não concebe a mudança, nem de ramo nem de casa, por exemplo. Bruno exige a manutenção do seu status quo, nunca se colocando em causa, de uma forma prática, a sua subsistência.


Mas em vez de ceder ao desespero, à angústia e à raiva, Bruno transfere tudo isso para os outros. Felizmente, faltam-lhe escrúpulos. Apesar da inverosimilhança de algumas soluções, como a rapidez com que as suas vítimas confiam nele, fazemos da vingança dele a nossa. Porque Bruno é humano: impulsivo, ciumento com a mulher, preocupado com a delinquência do filho, disposto a tudo por eles, hesitante e desajeitado com a arma que usa, sempre com dificuldades em retirar do bolso a Luger que o seu pai trouxe da II Guerra Mundial. O seu plano é pouco consistente, completamente falível e, no entanto, resulta. O acaso está do lado dele. Nós também.


Ao longo do filme, Bruno passa da pistola às armas brancas, que exigem uma maior proximidade à vítima, reflexo da sua aproximação aos seus concorrentes, com quem prolonga as conversas, e hesita cada vez mais.


Em “Le Couperet” há uma persistente campanha de publicidade a roupa interior feminina que nos distrai do que está a acontecer, da mesma forma que a sociedade se distraiu com tudo que é material, superficial e imagem. A proposta é re-centrar a sociedade em torno do homem.


Costa-Gavras faz a tensão nascer de quase nada, de um olhar, de um ruído, ou uma arma escondida. O jogo entre aquilo que é ocultado aos personagens mas que o espectador sabe sustenta o suspense.


Karin Viard é a mãe e esposa modelo, insegura mas o pilar psicológico da unidade familiar. Mas o filme é José Garcia, numa interpretação que impressiona pela sobriedade, a loucura contida e a maldade natural.


Num ambiente cru e realista, cheio de humor negro, e de uma forma quase leve, são levantadas questões de carácter político e social, onde podemos reconhecer, com medo, algo da nossa realidade, mais ou menos próxima.


A grande vantagem (?) de Bruno é, como referiu Costa-Gavras na apresentação do filme, ele ser uma personagem amoral, para quem os fins justificam os meios. Um Maquiavel dos tempos modernos. Numa conversa familiar essa questão vem ao de cima: – O fim justifica todos meios? – Não. Excepto em tempo de guerra. – Mas só uns poucos têm acesso aos meios. – Mesmo em tempo de guerra.


Mas a guerra deste filme não é entre países, é entre indivíduos, muitas vezes ex-colegas, é sobrevivência do mais forte, o regresso da lei da selva. Darwin ficaria orgulhoso pelos progressos evolutivos do homem. Esta é a revolução dos rejeitados. Acautelem-se, porque para lá caminhamos!






CITAÇÕES:


“Il faudrait remettre l’humain au centre.”
























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