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CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

Louise-Michel ****1/2

30.04.09, Rita


 

Realização: Gustave de Kervern e Benoît Delépine. Elenco: Yolande Moreau, Bouli Lanners, Benoît Poelvoorde, Albert Dupontel, Mathieu Kassovitz, Francis Kuntz. Nacionalidade: França, 2008.



 



 

Com “Louise-Michel”, os realizadores do irreverente “Aaltra”, Gustave de Kervern e Benoît Delépine, regressam ao registo politicamente incorrecto mas genialmente hilariante.


 

Esticando o absurdo até ao limite do bom gosto, o filme aproveita o nome da anarquista francesa Louise Michel (1830-1905) para, denominando também os protagonistas, lançar o mote de caos e loucura anárquica desta comédia negra sobre a injustiça de um mundo laboral dominado pelos interesses (meramente financeiros) das grandes corporações. O tom ultrajante (e humilhante) do humor destes realizadores-argumentistas é dado pela cena inicial num crematório, apesar de desligada do restante contexto do filme.


 

Na região da Picardia, em França, um grupo de trabalhadoras de uma fábrica, após um despedimento sem qualquer aviso, decidem juntar as magras indemnizações num total de 20.000 euros para um projecto em comum, onde terão maiores probabilidades de sucesso. Numa sessão de brainstorming, onde é descartada a ideia de abrir uma pizzaria ou fazer um calendário de nus, a analfabeta e associal Louise (Yolande Moreau) sugere que se contrate um assassino a soldo para matar o patrão. Sem hesitação, todas concordam com a ideia.


 

Por obra do acaso, Louise repara em Michel (Bouli Lanners), quando este, sem se aperceber, deixa cair no chão uma arma artesanal elaborada pelo seu vizinho. Michel é um totalmente inapto perito (?) em segurança, encarregue da vigilância de um parque de caravanas. Aceitando a missão sem hesitações à simples menção do montante, a grande dificuldade de Michel será apertar o gatilho, chegando a pedir o favor a uma prima que está numa fase terminal de cancro.


 

Quanto mais defeitos Kervern e Delépine colocam nas suas personagens, mais gostamos delas. Louise é horrenda e nojenta, caça pombos para jantar porque metade do seu ordenado vai para a comissão do chefe que lhe fez o favor de arranjar trabalho (e se aproveita dela para uma das situações mais kinky que já vi no cinema), e não hesita em matar o agente bancário que lhe vem falar das suas dívidas e insiste para que ela leia o contrato.


 

À medida que as circunstâncias se complicam, é impossível não torcermos por estes seres irreais (tão irreais que nenhum deles é o que parece). Às suas limitações intelectuais corresponde um ilimitado leque de complicadas emoções. Às suas acções histriónicas corresponde uma tristeza calada e uma solidão profunda. Só dois actores com a dimensão interpretativa de Yolande Moreau e Bouli Lanners poderiam conferir credibilidade às mais dúbias situações.


 

E depois temos ainda direitos aos mimos de Benoît Poelvoorde no papel do vizinho engenheiro metalúrgico com paranóias de conspiração e de Mathieu Kassovitz,(também produtor) como dono de um Bed & Breakfast ecológico com uma mulher adormecida.


 

Numa sociedade que obriga as pessoas a negarem as suas próprias identidades ou que, em sentido inverso, as obriga a mudar para que possam encaixar dentro de estreitos limites, o carácter único destas personagens e o imediatismo básico das suas necessidades, mesmo que louco e improvável, é de uma inegável e divertida frescura.




 

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