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CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

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CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

Che: Guerrilla ***

20.04.09, Rita


 

Realização: Steven Soderbergh. Elenco: Benicio Del Toro, Demián Bichir, Marc-André Grondin, Óscar Jaenada, Cristian Mercado, Jordi Mollà, Antonio Peredo, Jorge Perugorría, Franka Potente, Othello Rensoli, Armando Riesco, Catalina Sandino Moreno, Rodrigo Santoro, Mark Umbers, Yul Vazquez, Joaquim de Almeida, Lou Diamond Phillips, Matt Damon. Nacionalidade: Espanha / França / EUA, 2008.



 



 

Já depois de ter experimentado a realidade de Cuba, onde a recorrente imagem de Che, a par da de outros heróis de revolução e da independência, é a única “publicidade” em outdoors que se vê na auto-estrada(?) e em todos os caminhos entre as pequenas aldeias, “Che: Guerrilla” sabe a menos que “Che: El Argentino”.


 

Talvez porque neste segundo filme o desfecho não é a vitória, ou talvez porque o argumento de Peter Buchman e Benjamin A. van der Veen com base no livro “Diário de Bolívia” do próprio Ernesto 'Che' Guevara permita apenas acompanhar uma faceta do revolucionário, friamente visto pelos seus próprios olhos numa luta condenada à partida.


 

Ao contrário de Cuba, na Bolívia, a revolução contra o governo de Ballesteros (um Joaquim de Almeida com um deplorável sotaque português no seu espanhol), não encontrou o mesmo apoio popular que era esperado e que, na ilha do Caribe, foi essencial e determinante para a vitória em 1959.


 

Sete anos passados, Che está na Bolívia. Pelo meio ficam os tempos de implantação do regime, exactamente os mais polémicos para a definição entre herói e assassino. Soderberg poupa-se a esses trabalhos, que obrigariam a uma conflituosa conjugação de versões (e que poderiam facilmente ter posto em causa todo o projecto). Desta forma, apenas a palavra de Che é usada, e, contra ela, não existem argumentos. Mas, ao contrário de “El Argentino”, aqui Che está ausente do mundo mediático, por isso não existem outras imagens suas para mostrar, enquanto ele se adentra pela selva boliviana.


 

“Che: Guerrilla” não tem o humor do filme anterior, aqui há tristeza e angústia. Todos os gestos e passos são apenas tentativas. Aqui Che surge mais frágil, menos imponente e incansável. Um homem que, a cada momento, parece questionar-se: Que sentido faz lutar pela mudança de um país quando esse país parece ele mesmo não querer essa mudança? Na Bolívia, o seu idealismo tem de ser explicado, quando em Cuba era entendido quase sem palavras. Agora as acções parecem limitar-se a negociações mesquinhas com os agricultores, ou entre os seus soldados.


 

Mas, mais do que em “El Argentino”, a personagem de Benicio del Toro domina a acção. Os secundários perdem a importância, reduzidos a pequenos auxílios, como é o caso de Franka Potente (Tania), Lou Diamond Phillips (o presidente do Partido Comunista Boliviano Mario Monje) ou Matt Damon (no papel de Padre Schwartz).


 

Soderbergh faz questão de evidenciar o aborrecimento de guerra, o tempo perdido em esperas e a frustração dos apenas ínfimos passos. Enquanto estes poucos homens se abrigam de um clima agreste, os americanos treinam as tropas bolivianas para a captura do revolucionário argentino. É também este ritmo mais lento que prejudica “Che: Guerrilla” como filme individual. Ao passo que “Che: El Argentino” pode bem dispensar uma segunda parte, “Che: Guerrilla” dificilmente será apreciado por quem não tenha antes contextualizado a luta de Ernesto 'Che' Guevara por aquilo que ele entendia ser “o novo homem”.


 

Soderbergh conseguiu o feito de ilustrar uma vida sem a julgar. E se 'Che' Guevara adoptou Cuba como a sua missão, Cuba adoptou-o totalmente como seu. E é também assim que o país deve ser experimentado: sem julgamentos, sem hipérboles e sem condescendências. Um país onde a selecção de basebol é recebida em casa como se tivesse acabado de lutar numa contra o imperialismo, onde a rádio é marcada por radionovelas sobre a independência espanhola, onde todos os homens e mulheres são “remediados”. Cuba foi, no final dos anos 50, o lugar certo para o germinar e o crescer de uma revolução, e se alguma vez a palavra “revolucionário” definiu completamente alguém, esse alguém foi 'Che' Guevara.



 




 

CITAÇÕES:


 

“−Tal vez acá nunca lo han querido.
− Sí, tal vez... o tal vez nuestro fracaso los despierte.”




 

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