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CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

Revolutionary Road ***1/2

18.02.09, Rita

Realização: Sam Mendes. Elenco: Leonardo DiCaprio, Kate Winslet, Michael Shannon, Ryan Simpkins, Ty Simpkins, Kathy Bates, Richard Easton, David Harbour, Kathryn Hahn. Nacionalidade: EUA / Reino Unido, 2008.





Estou neste momento a ler o premiado livro de 1961 de Richard Yates, o que pode deturpar a minha avaliação da adaptação cinematográfica, com argumento de Justin Haythe e realização de Sam Mendes (cujo “American Beauty” tinha já dissecado o desespero suburbano).


Ao contrário dos flashbacks extensivamente usados no livro, o filme opta por uma sequência cronológica mais linear. Assim, quando conhecemos o interessante Frank Wheeler (Leonardo DiCaprio) e a ambiciosa April (Kate Winslet) somos cúmplices das suas esperanças ingénuas de conseguirem ser, juntos, tudo aquilo que sempre sonharam: dois intelectuais urbanos (numa era pré-Beatnik) convictos de serem pessoas especiais destinadas a grandes coisas. Quando se mudam para os subúrbios em virtude de uma primeira gravidez (também ela diferentemente contextualizada no livro) vêem-no como uma aventura irónica, gozando com aquele mundo para onde se estavam a mudar de armas e bagagens. Sete anos passados, um casamento, dois filhos, uma casa e um relvado aparado depois, e Frank e April são um poço de amargura e ressentimento, atolados numa vida que nenhum dos dois desejou, mas da qual não sabem como escapar.


Todas as manhãs, Frank junta-se à marcha de homens de fato que desagua na Grand Central Station e que depois se divide em pequenos cubículos num open space, em tarefas aborrecidas e sem sentido. April fica a cargo das desesperantes tarefas domésticas e depositando toda a sua noção de valor numa peça de teatro amador. Perante a evidência do futuro vazio que os espera, April convence Frank da única maneira possível de fugirem à prisão onde se encontram: mudarem-se para Paris, onde ela arranjará um trabalho numa instituição internacional e ele poderá finalmente ter tempo para descobrir a sua verdadeira vocação.


Embriagados por esta ideia, Frank e April reaproximam-se numa felicidade que os afasta ainda mais da desesperança que eles vêm nos seus amigos Millie (Kathryn Hahn) e Shep (David Harbour), e para quem a viagem para França não passa de um impulso imaturo. Mas à medida que a data da partida se aproxima, Frank e April começam a enfrentar um duplo receio: por um lado, o medo da mudança, por outro, a convicção ainda mais aterradora de que nada, no fundo, muda.


“Revolutionary Road” tem bastante da dureza e algum do cinismo do livro e está impregnado de uma ansiedade sufocante. Na impossibilidade de entrar dentro das cabeças das personagens (uma facilidade do meio escrito), este filme depende grandemente da significância de pequenos gestos e das nuances de expressões. “Revolutionary Road” é uma história sobre aquilo que não é dito. A verdade passa-se nos silêncios, e não nas batalhas de palavras de Frank e April, perfeitamente cientes de onde espetar a farpa, tão infelizes e desiludidos consigo próprios como com o respectivo companheiro, que os deixou chegar àquele ponto.


Por isso se torna tão recompensador ter estes dois actores como protagonistas (e, por favor, não me obriguem a pensar no melodrama de “Titanic”), aliando doses generosas de subtileza e densidade. Fechado na sua frustração, a personagem de DiCaprio perdeu alguma da sua complexidade na adaptação. Kate Winslet, dirigida pelo marido, é o epítome do ennui. Num registo mais extremo, está o nomeado Michael Shannon no papel de John Givings, um professor de matemática recentemente internado num manicómio e que, sem misericórdia, coloca a verdade em frente dos olhos dos Wheelers, sem lhes dar hipótese de os fechar, e mostrando-os exactamente iguais a todos aqueles que eles desprezam.


Na América dos anos 50, a publicidade começa a tornar-me uma poderosa indústria, ditando os parâmetros da normalidade e limitando um conjunto infinito de opções a apenas um caminho “certo”. Com o dinheiro como motor das decisões, a individualidade é reduzida a uma massa cinzenta e indistinta de pessoas que acreditam não terem outras hipóteses. Todas as circunstâncias da vida (um filho, uma promoção, etc.) parecem conspirar num mesmo sentido. Mas se a vida é o resultado de todas as escolhas (e abdicações) que se fazem, os maiores culpados do seu desfecho seremos sempre nós mesmos. E é por isso que “Revolutionary Road” fala também de hoje, de sucumbirmos às expectativas de uma sociedade que condena e desconfia da diferença e negligencia a responsabilidade suprema: a de se ser feliz. O sonho americano é, afinal, um pesadelo.






CITAÇÕES:


“Hopeless emptiness. Now you've said it. Plenty of people are onto the emptiness, but it takes real guts to see the hopelessness.”
MICHAEL SHANNON (John Givings)

“You want to play house you got to have a job. You want to play nice house, very sweet house, you got to have a job you don't like.”
MICHAEL SHANNON (John Givings)

“Tell me the truth frank remember that? We used to live by it. And you know what's so good about the truth? Everyone knows what it is however long they've lived without it. No one forgets the truth frank they just get better at lying.”
KATE WINSLET (April Wheeler)

“I wanted IN. I just wanted us to live again. For years I thought we've shared this secret that we would be wonderful in the world. I don't know exactly how, but just the possibility kept me hoping. How pathetic is that? So stupid. To put all your hopes in a promise that was never made. Frank knows what he wants, he found his place, he's just fine. Married, two kids, it should be enough. It is for him. And he's right; we were never special or destined for anything at all.”
KATE WINSLET (April Wheeler)

“It takes backbone to lead the life you want, Frank.”
KATE WINSLET (April Wheeler)

























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