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CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

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CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

A Onda - Die Welle ***1/2

21.01.09, Rita

Realização: Dennis Gansel. Elenco: Jürgen Vogel, Frederick Lau, Max Riemelt, Jennifer Ulrich, Christiane Paul, Jacob Matschenz, Cristina do Rego, Elyas M'Barek. Nacionalidade: Alemanha, 2008.





Rainer Wenger (Jürgen Vogel) é um daqueles professores modernos de que todos os alunos gostam, a sua informalidade tornando-o preferido face a outros professores mais tradicionais. Ele mede a sua eficácia como professor por essa admiração. No projecto semanal que ele deve desenvolver com uma turma, calha-lhe a temática da ‘Autocracia’, quando ele tinha expressado a sua preferência pela ‘Anarquia’, um assunto que ele viveu na pele na sua juventude. Dada a indiferença que as suas objecções recebem, Wenger resigna-se e decide abordar o tema da forma mais original de que se consegue lembrar. Perante a questão que se levanta num primeiro debate – poderia a Alemanha dos dias de hoje voltar a um totalitarismo? –, Wenger resolve fazer uma simulação de um sistema autocrático liderado por ele mesmo.


“A Onda - Die Welle” adapta o livro de Todd Strasser, que é, por sua vez, livremente baseado no ensaio “The Third Wave” de Ron Jones, relatando a sua experiência como professor de história no Cubberley High School em Palo Alto, California, em 1967. Na tentativa de explicar como é que os alemães permitiram que Hitler e o Partido Nazi chegassem ao poder, Jones criou, numa semana, um movimento com o mote: "Strength through discipline, strength through community, strength through action, strength through pride.".


Para espanto de Wenger, os seus alunos reagem favoravelmente à disciplina imposta. Os argumentos usados para unir a turma – os benefícios da igualdade, da justiça e da ordem –, são os mesmos que historicamente têm sido usados por sistemas políticos quer de direita quer de esquerda. O realizador Dennis Gansel faz questão de mostrar, de uma forma sintética mas eficaz, os ambientes familiares de alguns dos alunos, contextualizando dessa forma as suas reacções posteriores. Os alunos tímidos começam a sentir-se finalmente parte de um grupo, antigas rivalidades atenuam-se, e praticamente todos se deixam repousar no conforto deste totalitarismo que não os obriga a pensar por eles mesmos.


A narrativa, com uma progressão diária, acompanha o envolvimento da turma no projecto: a criação de um uniforme, um nome, um logótipo, uma página no myspace. Este fervor acaba por contagiar outros alunos fora da turma, ao mesmo tempo que repele todos os que opinião de maneira diferente. A ligação afectiva que se estabelece com todos os que decidem entrar assume uma dimensão idêntica à discriminação e violência contra todos os outros.


Desde o início, Gansel vai construindo um ambiente tenso, da música de revolta à frustrante tentativa de inclusão social que marca a adolescência. Esta é uma geração que se sente perdida, sem objectivos, e cujos valores se reduzem a um consumo desenfreado. Unificados em torno de uma razão maior, eles estabelecem relações de camaradagem e igualdade. A transposição para o cenário alemão torna a questão ainda mais forte, primeiro, porque a incredulidade perante a repetição de uma História tão recente é mais acentuada e, segundo, porque à semelhança de outras gerações pós-3º Reich, também estes jovens partilham uma culpa que não lhes pertence.


Apesar da rapidez das transformações, a mudança nos alunos e nas suas atitudes é bastante credível. Numa sociedade que os afoga em informação e individualismo, vem à tona a sua necessidade de limites contra os quais se rebelar e unir. À margem, ostracizados, estão os alunos que se recusam se seguir este movimento e que tentam alertar Wenger e parar o projecto. O próprio professor, em extrema contradição com a sua atitude inicial, deixa-se maravilhar pela adulação de que é objecto.


A moralidade da história é explosiva e sem margem para dúvidas. Talvez tenha sido uma opção pedagógica, mas, do meu ponto de vista, serve apenas um facilitismo dramático e subestima a capacidade de discernimento do espectador médio.


“A Onda - Die Welle” fala da fragilidade do Homem, da sua fraca memória, da sua credulidade. Tudo aquilo que faz com que esqueçamos os erros passados e com que a História se repita. Do ponto de vista narrativo, há uma semelhança muito próxima ao filme “Das Experiment” de Oliver Hirschbiegel, baseado na Stanford Prison Experiment em 1971; do ponto de vista conceptual não posso deixar de pensar em “Lord of the Flies” de William Golding e no fascínio que o fascismo exerce na juventude.


Vivemos num mundo onde as palavras dos políticos e a imagética publicitária conseguem convencer a população a abdicar dos seus direitos e liberdades para alimentar um policiamento e vigilância doentios, em nome de uma falsa necessidade de segurança. Os interesses económicos desta “indústria” impedem que se volte atrás mesmo quando o perigo deixa de existir. Até pelas melhores razões, o totalitarismo pode ser tentador. É esse o terror contra o qual temos de lutar, um terror que vive mesmo ao nosso lado e, muitas vezes, dentro de nós mesmos.



















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