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CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

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CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

Dreams on Spec ***

10.01.09, Rita

Realização: Daniel Snyder. Género: Documentário. Nacionalidade: EUA, 2007.





“Spec [de ‘speculative’] script” é definido pelo Variety Slanguage Dictionary como “a script shopped or sold on the open market, as opposed to one commissioned by a studio or production company”. Das dezenas de milhares de argumentos escritos por ano, apenas umas centenas são realizados. Desses, a grande maioria pertence a escritores já estabelecidos no mercado, o que deixa uma margem diminuta para os “spec scripts”. Estes guiões são escritos sem certezas, na esperança que um produtor, realizador ou actor goste deles e os transforme num filme. A sensação com que se fica é que é mais ou menos como fazer um filho, tê-lo nove meses em gestação e esperar depois que outra pessoa o dê à luz.


“Dreams on Spec” acompanha três aspirantes argumentistas: David J. Stieve, assistente de um agente de talentos, cujo guião “Behind the Mask” despertou a atenção de um realizador que o quer produzir; Joe Aaron, corrector de bolsa que, apesar dos custos para a sua vida familiar, trabalha há três anos no guião de “Rattled”; Deborah Goodwin, que aproveita a sua situação de desemprego para tentar arranjar financiamento para a produção independente da comédia romântica “When You're Not There”, e quer que seja protagonizada por Adrien Brody.


A escolha que o argumentista/realizador Daniel Snyder (autor também do documentário “Brilliant But Cancelled”) fez dos seus “objectos de estudo” é perfeita, porque cada um deles está num momento decisivo da sua vida como argumentista. Stieve enfrenta a perspectiva de sucesso com enorme angústia, perante as concessões artísticas que se vê obrigado a fazer. Aaron aperfeiçoa o argumento até à exaustão, levando-o a consultores especializados e fazendo sessões de leitura, mas qual o custo pessoal da sua insistência? Goodwin está empenhada em levar o seu texto para a próxima fase, assumindo a responsabilidade da realização, mas a pressão para pagar as contas da água e luz pode obrigá-la a abdicar do seu sonho.


Além desta três narrativas, “Dreams on Spec” conta também com o testemunho de profissionais confirmados como Nora Ephron, Carrie Fisher ou James L. Brooks. Mas, neste mundo altamente competitivo, as suas inquietações não são muito diferentes das dos amadores: a ansiedade do ecrã branco, meses de trabalho que podem acabar no lixo, ou quase pior, a possibilidade de êxito e ver o seu guião ser rescrito por marketeers.


“Dreams on Spec” relata um processo criativo, onde a inspiração vive lado a lado com a solidão. Apesar de todo o apoio e conselhos de amigos, a superação dos imensos obstáculos exige que a força motriz (por vezes sobre-humana) venha essencialmente da teimosia do argumentista. O desespero, a frustração, a desistência (nem que seja cogitada) estão garantidos.


Snyder nunca nos revela o conteúdo dos argumentos que os seus três protagonistas têm em mãos, ainda que fiquemos a saber que o filme de Stieve foi de facto realizado. Esse é, sem dúvida, o grande senão de “Dreams on Spec”, e aquilo que nos poderia ter conduzido a uma maior empatia por cada um deles.


Apesar do guião ser o primeiro e o mais importante passo do processo de produção de um filme, no absurdo mundo do cinema é visto como apenas um pormenor e os argumentistas serão, muito provavelmente, os profissionais mais desrespeitados do meio (no campo da produção televisiva a situação que tem mudado radicalmente, com o poder cada vez mais na mão de quem escreve).


É angustiante pensar na quantidade de guiões que ficam fechados em gavetas por não serem vistos pelas pessoas certas (ou com a visão certa), especialmente vendo a global falta de qualidade de tantos filmes que vêem a luz do dia. “Dreams on Spec” é essencial para quem pensa seguir este (árduo) caminho, seja para o convencer totalmente seja para o dissuadir de vez. Falhar será sempre nem sequer tentar.


















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