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CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

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CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

Hunger ****1/2

11.12.08, Rita

Realização: Steve McQueen. Elenco: Michael Fassbender, Stuart Graham, Liam Cunningham, Brian Milligan, Liam McMahon. Nacionalidade: Reino Unido / Irlanda, 2008.





A estreia na realização do artista plástico britânico Steve McQueen (nenhuma relação com o actor americano) é feita com um duro “murro no estômago”. Vencedor já de inúmero prémios, entre os quais o Caméra d'or em Cannes e Melhor Realizador Estreante nos British Independent Film Awards, “Hunger” é uma experiência visceral, graficamente violento, de uma beleza visual tão desarmante quanto o conteúdo traumático que retrata, um olhar claustrofóbico e arrojado, sem concessões.


O foco de “Hunger” é o relato (mais emocional que factual) dos últimos tempos de vida de Bobby Sands, um activista do IRA que foi preso aos 27 anos por posse de arma e condenado a 14 anos de prisão. Em 1981, iniciou uma greve de fome com o objectivo de melhorar as condições para os prisioneiros do IRA, entre as quais recuperar o estatuto de presos políticos, poderem livremente agrupar-se com outros prisioneiros, terem direito a visitas semanais e envio/recepção de correio e não serem forçados a usar a farda de reclusos. Ao final de 66 dias, a greve de fome reclamou-lhe a vida.


Apesar de ser este o centro e sentido do filme, Sands só surge como protagonista a meio da história. Antes disso, acompanhamos alguns detalhes do quotidiano de um guarda prisional (Stuart Graham), um homem cuja decência parece ficar fechada do lado de fora do estabelecimento prisional Maze em Belfast. Aí acaba de dar entrada um novo recluso, Davey (Brian Milligan), colocado numa cela mínima onde já se encontra Gerry (Liam McMahon), que veste na pele o empenhado no protesto de sujidade ("Blanket and No-Wash Protest") que teve início em 1976.


McQueen faz-nos sentir os odores fétidos dos dejectos, faz-nos escutar o rufar ensurdecedor dos bastões da polícia de intervenção nos escudos, para logo nos fazer sentir na carne as pancadas sobre os presos, quando os arranca brutalmente das celas para os lavar e revistar, violando-os sem misericórdia. McQueen move-se no limite do suportável, ao mesmo tempo que a câmara de Sean Bobbitt capta o abjecto e o belo, confundindo-os numa mesma “tela”. E, de repente, dou por mim a pensar em Guantanamo... O ser humano contra si mesmo. No meio destes guardas, McQueen tem a cuidado de observar um com atenção, acompanhando o seu choro escondido, numa explosão de humanidade. E com uma simples imagem, consegue captar a complexidade do conflito entre a responsabilidade individual e a responsabilidade colectiva.


É então que suavemente e sem alarido, o que quer dizer com violência e sangue, somos apresentados a um Bobby Sands (Michael Fassbender) de límpido e resoluto. O filme, que até aí tinha sido parco em diálogos, privilegiando o aspecto visual, é “interrompido” por um take único de 20 minutos de uma densa conversa entre Sands e um padre (Liam Cunningham). Depois da montagem ritmada que o antecedeu, este é o tempo de respiro e contextualização, do que passou e do que está para vir. Sands está disposto a usar o corpo como a última fortaleza, comprometendo-se com a sua causa como mártir, mas não como vítima. Este diálogo parece continuar muitos outros anteriores, e os dois discutem religião, família e nacionalismo. Apesar do entendimento e respeito mútuo, a recusa do padre em aceitar a greve da fome como uma arma, reduzindo-a a um simples suicídio, abre entre eles um fosso inultrapassável. Este tempo e este espaço, filmado a contra luz, é absorvente e esgotante, ao mesmo tempo.


A terceira parte de “Hunger” centra-se na degradação física de Sands, cujo impacto é tão forte como a resistência do seu espírito é inabalável. E McQueen não pestaneja um único segundo, mostrando-nos tudo sem pudor (temo em pensar naquilo que fica por ver).


McQueen não está interessado nos crimes que Sands terá cometido em nome da causa republicana. Aliás, num outro pequeno detalhe o IRA (Irish Republican Army) é posto num contraponto de equilíbrio com o seu equivalente unionista, o UDA (Ulster Defence Association). Apesar dos apontamentos em voice over de discursos de Margareth Thatcher, “Hunger” não é um filme político, o que interessa a McQueen é a motivação de Sands, a determinação de acreditar em algo até às últimas consequências.


Michael Fassbender entrega-se a este papel da mesma forma que Sands: com um compromisso total. A sua interpretação vai muito além da perda de peso, é sobretudo o seu olhar lúcido e crente que nos ataca e nos comove. Também Liam Cunningham e Stuart Graham estão particularmente fortes, este último misturando iguais doses de inquietude e resignação. É dele o gesto mais pesadamente simbólico deste filme.


A cuidada a encenação deste filme não está desligada da colaboração do dramaturgo irlandês Enda Walsh na escrita do argumento. E se “Hunger” não é de todo um documento histórico, é sem dúvida um documento emocional vestido de imagens poéticas e belíssimas composições. Insuportavelmente bonito.



















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