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CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

Entre Les Murs ****1/2

17.11.08, Rita

Realização: Laurent Cantet. Elenco: François Bégaudeau, Nassim Amrabt, Franck Keita, Rachel Regulier, Esmeralda Ouertani, Wei Huang, Laura Baquela, Juliette Demaille, Rachedi Cherif Bounaïdja, Dalla Doucouré, Arthur Fogel, Damien Gomes, Louise Grinberg. Nacionalidade: França, 2008.





“Entre Les Murs”, vencedor da Palma de Ouro em Cannes este ano, é um olhar cru e angustiante sobre os parâmetros de educação e disciplina, sobre a pedagogia e a desresponsabilização, a dificuldade de revestir a figura do professor das doses adequadas de autoridade e companheirismo que lhe permitam, por um lado, educar e impor limites, e, por outro, compreender e inspirar jovens em formação. Se se ficcionasse uma sequela para “Être et Avoir” talvez fosse esta.


Em conjunto com o realizador Laurent Cantet e Robin Campillo, responsável pela montagem, François Bégaudeau adaptou para o cinema o seu livro auto-biográfico. Assumindo a intimidade com este projecto colocou-se também em frente à câmara interpretando uma versão de si próprio. “Entre Les Murs” acompanha um professor de francês do 8º ano e os seus alunos durante um ano escolar num liceu em Paris, onde a multiculturalidade, apesar de quotidiana, consegue ainda criar alguns incómodos.


A câmara (ou melhor, as diversas câmaras) exclui deliberadamente a vida fora da escola, ainda que possamos vislumbrar, através das reuniões com os pais, por exemplo, alguma dessa outra realidade que molda e condiciona os alunos. São poucas as vezes que saímos da sala, e, quando o fazemos, é numa visão panorâmica do recreio e que se assemelha assustadoramente aos pátios de uma prisão, onde os detidos são autorizados a umas horas de passeio ou um jogo de futebol por dia.


A sala é um microcosmos de interacções humanas, um ecossistema onde a presa e os predadores está claramente identificados. Os limites são estados até ao ponto de ruptura. O professor tenta combater o aborrecimento e o desinteresse de alguns alunos estimulando as aptidões que eles nem sequer sabem que têm. Mas longe de ser um poço de virtudes, e apesar de algumas acções pedagógicas arrojadas (a par da interrogação socrática), este professor também comete equívocos, aos quais os alunos prontamente lhe chamam a atenção.


A adolescência é uma tempestade que quer levar tudo à frente. Na definição da identidade, formam-se grupos aos quais se quer pertencer ou dos quais se quer afastar. A saída da infância é marcada pela oposição ao adulto, anteriormente um aliado e agora um inimigo. A escola é a grande incubadora dessa definição, porque é a ela que se reduz o mundo do adolescente. E aquilo que para uns são desafios e oportunidades para outros são regras e obrigações sem sentido.


O elenco de “Entre Les Murs”, cujo casting se baseou em workshops em escolas, é de uma naturalidade surpreendente. Dos bem comportados, como o emigrante asiático Wei (Wei Huang) aos problemáticos, como a respondona Esmeralda (Esmeralda Ouertani), a temperamental Khoumba (Rachel Regulier), e o rebelde Souleymane (Franck Keita), indiferente às tentativas para melhorar o seu comportamento ou hábitos de estudo, são notórias as diferenças que, quer a nível intelectual quer a nível de objectivos, têm de ser geridas numa mesma sala de aula. Cada um deles usa as suas origens culturais como escudo social, mas a sua multidimensionalidade evita qualquer caricatura.


A colocação das câmaras permite uma captação quase documental dos rápidos diálogos, que são de uma credibilidade assombrosa. As conversas cruzam-se e sobrepõe-se, com a vivacidade e o ruído característicos do ambiente escolar. No cenário limitado da sala, existe uma encenação cuidada e um acumular de emoções, que quase sem notarmos, nos conduzem ao clímax final.


Quanto a Bégaudeau, é impossível não criarmos empatia por ele, com a sua figura de autoridade cheia de falhas, a sua confiança, mas também a sua sensibilidade e o seu empenho. Nesta dramatização de situações que ele eventualmente terá experienciado, Bégaudeau é irrepreensível na sua “interpretação”. Das duas uma: ou está de facto a reviver todas as situações/emoções originais ou então não fica atrás de qualquer outro actor profissional.


A semelhança dos anteriores filmes de Laurent Cantet (“Ressources Humaines”, “L’Emploi du Temps”, “Vers Le Sud”), este explora também as relações que se baseiam no poder e vive dos confrontos a si inerentes. Das entediantes reuniões com os pais à tensão de uma acção disciplinar. Numa dança de imposição e desafio à autoridade através insultos e recusas, do humor irónico à exasperação, este é um filme de pequenos trunfos e inumeráveis frustrações.























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