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CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

Caché ****

17.10.05, Rita

Realização: Michael Haneke. Elenco: Juliette Binoche, Daniel Auteuil, Maurice Bénichou, Annie Girardot, Lester Makedonsky, Bernard Le Coq, Walid Afkir, Daniel Duval, Nathalie Richard. Nacionalidade: França / Áustria / Alemanha / Itália, 2005.





“Caché”, o mais recente filme de Michael Kaneke (“Le Temps du Loup”, 2003), é um thriller psicológico sobre a culpa e o esquecimento.


Georges (Daniel Auteuil), jornalista literário na televisão, e a mulher Anne (Juliette Binoche), que trabalha numa editora, vivem uma vida harmoniosa numa bela casa parisiense, com o filho Pierrot (Lester Makedonsky), que, entre a escola e a natação, se encontra em plena crise de adolescência.


A vida tranquila desta família é abalada quando começam a receber, anonimamente e sem mais explicações, cassetes de vídeo mostrando a sua casa filmada do outro lado da rua. A ideia de que os seus movimentos estejam a ser espiados começa a germinar numa pesada ameaça, que, por não ser explícita, impede o avanço da polícia. O cunho pessoal destas cassetes vai aumentando, dando a entender que quem as envia conhece pormenores da infância de Georges. Chegam também desenhos inquietantes e enigmáticos, e telefonemas sem voz. O reencontro com Majid (Maurice Bénichou), um argelino com quem Georges partilhou alguns anos da sua infância, parece lançar alguma luz sobre o enigma.


Georges não se deixa sucumbir à crise de nervos, e apesar de inquieto, continua a comportar-se conforme o seu estatuto, recusando os confrontos, quer com Majid, quer com o próprio filho. A fuga parece ser o seu escape de consciência. Mas, com o crescendo da ameaça, mais sentida que explícita, a desconfiança, gerada por segredos e mentiras, acaba por se instalar no casal, evidenciando a ilusão da sua cumplicidade. A paranóia de Georges acaba por se manifestar, alicerçada num profundo sentimento de culpa, que ele recusa insistentemente.


Mais do que contar uma história, Haneke explora a tensão das angústias, das feridas e dos venenos de um homem que é um país, uma sociedade. Haneke evoca Outubro de 1961 e a morte dos pais de Majid no massacre dos argelinos da Frente de Libertação Nacional (FLN) em Paris. O remorso de Georges é o da História ocidental, a culpa e o esquecimento são os de uma nação relativamente ao seu próprio passado. Georges toma dois comprimidos para dormir e esconde-se debaixo dos lençóis, símbolo do comportamento de uma sociedade que acalma algumas culpas com esmolas, mas que se esquece de viver os valores essenciais no seu dia-a-dia.


Os longos planos fixos, que confundem o espectador entre as filmagens de vídeo e a narrativa do filme, entre a “realidade” e a “ilusão”, traduzem a ambiguidade vivida pelas personagens. Haneke fala também do poder das imagens, nas suas diversas formas de representar a realidade, e das interpretações que fazemos e que não são mais do que um reflexo de nós mesmos.


Haneke compõem e manipula todos estes elementos com grande mestria, dissecando esta espiral de uma forma fria, opressiva, incomodativa, provocadora e perturbante. E assim se justifica o prémio de Melhor Realizador na edição deste ano em Cannes.


As respostas às perguntas colocadas por Haneke são de cada um, mas para quem seja mais distraído, que os há, aconselho a que esteja atento à cena final à saída da escola.





CITAÇÕES:


“Presque tous mes films traitent de la nature de la vérité au cinéma. Je doute qu'on puisse avoir une idée de la vérité quand on regarde un film. Je dis toujours qu'un long métrage, c'est vingt-quatre fois par seconde le mensonge, peut-être au service d'une vérité mais pas toujours. Je pense que le traitement de la vidéo ici déstabilise la confiance du spectateur envers la réalité. Dans Caché, on croit que le plan d'ouverture est la réalité alors qu'en fait c'est une image volée avec une caméra vidéo. Naturellement, je me méfie de cette prétendue réalité dans les médias.”
MICHAEL HANEKE



















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