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CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

Do Outro Lado ****

28.10.08, Rita


T.O.: Auf der anderen Seite. Realização: Fatih Akin. Elenco: Baki Davrak, Nursel Köse, Hanna Schygulla, Tuncel Kurtiz, Nurgül Yesilçay, Patrycia Ziolkowska. Nacionalidade: Alemanha / Turquia / Itália, 2008.


 



Nejat (Baki Davrak) dá aulas de literatura alemã na universidade de Bremen. Ali (Tuncel Kurtiz), o seu pai, viúvo, ocupa o seu tempo entre as apostas e as ocasionais visitas a um bairro de prostituição. Aí conhece Yeter (Nursel Köse), uma mulher turca que paga os estudos da sua filha Ayten (Nurgül Yescilay) fingindo trabalhar numa sapataria. Para combater a sua solidão, Ali propõe a Yeter que ela vá viver com ele, em troca de um pagamento equivalente ao que ela faz mensalmente e sua exclusividade como cliente. Em resultado da ameaça que Yeter recebe de uns conterrâneos, ela aceita. Mas a vida com Ali está longe de ser fácil. Existe ainda Lotte (Patrycia Ziolkowska), uma jovem alemão que se apaixona por Ayten a contragosto da sua mãe Susanne (Hanna Schygulla).


Contar mais estragará a experiência de ver “Do Outro Lado”, cujas pequenas surpresas, indiciadas por pequenos detalhes, valem o esforço de sair de casa numa destas noites já frias. “Do Outro Lado” é um filme circular, feito de equilíbrios e desequilíbrios, alguns deles irónicos. Mãe e filha, pai e filho, mãe e filha, na especificidade destas histórias Fatih Akin (“Gegen die Wand” / “A Esposa Turca”) procura o universal. À semelhança da sua personagem Nejat, também Akin cresceu na Alemanha filho de pais turcos. Mas em “Do Outro Lado” esta dualidade nunca é expressada como sendo Oriente versus Ocidente, ou a sociedade cristã em contraposição à muçulmana. Aqui o que se marca são as diferenças, para fazer sobressair as semelhanças.

 

A história divide-se em três partes, e nas duas primeiras Akin deliberadamente limita a nossa expectativa através dos títulos. E esse limite da realidade parece percorrer todo o filme. Como quando Susanne insiste com Ayten que tudo será melhor quando a Turquia entrar na União Europeia. Como a cenoura para o burro, a solução é adiada para um futuro que ninguém sabe quando ou se chegará um dia. E o abismo que se abre entre as duas mulheres é feito de impotência.

 

Ainda que o argumento de Akin seja pleno de coincidências e estas possam ser discutidas ao nível da verosimilhança, elas são-nos apresentadas de forma tão pura, tão sem artificialidades, tudo tão bem pensado e melhor filmado, que só nos podemos render ao propósito superior que move este filme. Estejamos ou não cientes disso, estamos ligados a tudo: pela família, pela amizade, pelo amor, por um lugar, por uma preocupação, por um sonho. Se Akin nos mostra um mar, mostra-nos também as pontes.

 

A escrita de Akin é particularmente boa no que se refere às personagens. Sem ser preciso grandes explicações nós compreendemos, de um ponto de vista moral, todas as suas acções. E se as suas intenções são boas, os seus erros são enormes. Mas aqui ninguém é poupado à sua pena. As interpretações densas, cheias de nuances e camadas, contam com a liderança da musa de Fassbinder Hanna Schygulla, uma mulher que veste a sua idade na perfeição (e, caramba!, que bonitas são estas turcas!!!).

 

Akin dá ao espectador um olhar quase divino sobre a história, conhecemos mais do que as personagens que vemos. Sob teste fica a nossa capacidade para controlar a angústia que é saber sem poder agir. Deixar as coisas acontecer pode ser muito mais difícil do que parece.


 




 

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