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CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

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CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

Tropa de Elite ****

11.07.08, Rita

Realização: José Padilha. Elenco: Wagner Moura, Caio Junqueira, André Ramiro, Maria Ribeiro, Fernanda Machado, Fernanda de Freitas, Paulo Vilela, Milhem Cortaz, Marcelo Valle, Fábio Lago. Nacionalidade: Brasil, 2007.





1997. O Rio de Janeiro é uma cidade vibrante mas é também uma das mais perigosas do mundo, debatendo-se todos os dias à beira do caos. Mal paga, mal treinada e sem equipamento, a polícia torna-se uma presa fácil para a corrupção dos traficantes que pululam pelas favelas. Quando as coisas se tornam demasiado perigosas até para a polícia, entra em acção o BOPE - Batalhão de Operações Policiais Especiais.


Nascimento (Wagner Moura) é um capitão do BOPE habituado a que todos (até a polícia) se afaste quando ele e o seu grupo chegam. Mas Nascimento está prestes a ser pai e começa a considerar a hipótese de abandonar este emprego onde todos os dias joga a sua vida. Para isso, terá primeiro de encontrar um substituto e treiná-lo, ao mesmo tempo que prepara as favelas para a iminente visita do Papa. Os mais sérios candidatos são dois cadetes idealistas recrutados da polícia militar: Neto (Caio Junqueira) e Matias (André Ramiro).


Nascimento enfrenta dois dilemas, ambos entre a razão e o coração. O primeiro, na sua vida pessoal, enquanto a razão pende para a sua saída do BOPE, Nascimento não se consegue imaginar a fazer outra coisa tão devotamente. O segundo, na sua vida profissional: tanto em Matias como em Neto, Nascimento vê as qualidades que procura, mas divididas entre os dois. Matias é o inteligente, o racional, o estóico, que esconde o seu trabalho como polícia dos colegas de faculdade; Neto é o emotivo, o motivado, o volátil, desejoso de pôr em prática todo a sua preparação militar. O treino no BOPE (e na realidade) irá moldá-los, talvez à custa da sua própria humanidade.


“Tropa de Elite” é baseado no livro homónimo de André Batista, Luiz Eduardo Soares e Rodrigo Pimentel, um ex-comandante do BOPE com 12 anos de experiência que participa também na escrita do argumento, em conjunto com o realizador José Padilha e Bráulio Mantovani, argumentista de “Cidade de Deus” (não sem razão referido como o outro lado da moeda em cuja coroa está “Tropa de Elite”).


“Tropa de Elite” criou polémica no seio da sociedade sobre a qual se debruça. O governo condena a visão de que o BOPE possa operar à margem da lei, recorrendo a brutais interrogatórios e mesmo assassinatos como rotinas de investigação. Os cidadãos afirmam tratar-se da dolorosa verdade. Há mesmo quem o considere um filme de recrutamento para uma força paramilitar fascista. Ainda que a realidade se situe algures a meio caminho, “Tropa de Elite” é um filme duro de ver, mesmo com o ocasional humor negro.


A tensão baseia-se no fascínio do terror. A câmara de Lula Carvalho é enérgica, impregnando “Tropa de Elite” de urgência e intensidade, conduzindo o espectador para o labirinto claustrofóbico da acção. Apesar da estrutura é episódica, o fio condutor é mantido através da narração de Nascimento. As interpretações respondem à exigência de complexidade moral das suas personagens, com especial relevância para Wagner Moura e André Ramiro. Em suma, “Tropa de Elite” condensa, de forma exímia, o comentário social e o filme de acção.


Apesar do fantasma dos esquadrões da morte, José Padilha não demoniza o BOPE pelas suas tácticas. Num estilo pseudo-documental, ele aponta o dedo à má formação profissional dada no passado à força policial, expondo, no processo, a apatia de uns e a hipocrisia de uma classe alta que simultaneamente consome a droga vinda da favela e se insurge contra as injustiças sociais.


Gostava de acreditar que o Brasil não está preso a este círculo de combate da violência com uma violência ainda maior. As consequências só podem ser devastadoras. Para todos.




[ACTUALIZAÇÃO - 13.07.2008]

Este fim-de-semana vi o “Ônibus 174”, o documentário realizado em 2002 por José Padilha e Felipe Lacerda sobre o sequestro de um autocarro ocorrido a 12 de Janeiro de 2000 no Rio de Janeiro.

Um inquietante olhar sobre a ineficácia policial e sobre o poder inibidor dos media.























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