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CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

Wide Awake ***

22.04.07, Rita

ALIGN=JUSTIFY>Realização: Alan Berliner. Género: Documentário. Nacionalidade: EUA, 2006.


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ALIGN=JUSTIFY>Imagine-se viver toda uma vida atormentado pela insónia. O filme do realizador Alan Berliner fala da sua experiência e da sua batalha pessoal por uma boa noite de sono. Berliner está prestes a ter um filho, e essa parece ser a sua grande motivação para “tratar” o seu problema. Para o efeito, consulta uma série de peritos que tentam perceber a origem da incapacidade de “desligar” o cérebro durante a noite. Uma parte da razão reside no facto de Berliner ser um homem extraordinariamente obsessivo. Com o nascimento do seu filho, Berliner vê-se confrontado com a necessidade de fazer um reset do seu relógio biológico, por forma a coincidir os seus horários com os do seu filho. Preocupado com a possibilidade da sua “maldição” ser hereditária, Berliner volta a sua obsessão para o sono saudável do seu filho.

ALIGN=JUSTIFY>Com um humor irónico e um tom auto-depreciativo, Berliner constrói um documento bem ritmado, ilustrado com diversas cenas de filmes antigos (certamente guardadas no arquivo irrealmente extensivo que Berliner mantém), sobre os problemas emocionais e sociais que derivam da privação do sono, e os efeitos sobre aqueles que rodeiam a vítima. Numa discussão à mesa com a sua mulher, a irmã Lynn e a mãe, Berliner é mais um objecto de exasperação do que de compaixão. Porque há claramente uma parte de Berliner que não quer essa cura. Ele é um noctívago, e sente que o seu processo criativo depende desse seu desequilíbrio, e que o preço da sua arte é manter-se acordado durante a noite e exausto durante o dia. No final, é-nos difícil acreditar na sua convicção de mudança.


ALIGN=JUSTIFY>COLOR=#BBBBBB>NOTA: Felizmente, não tenho problemas desta índole, mas a ciência do sono é um assunto que me desperta um interesse particular. Ainda que a literatura sobre o assunto não abunde ou, a que existe, seja demasiado técnica para leigos como eu, há um livro que recomendo vivamente aos curiosos e que, por diversas vezes, já fui buscar à minha estante: O MUNDO ENCANTADO DO SONO, de Peretz Lavie (Climepsi Editores).



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ALIGN=JUSTIFY>CITAÇÕES:

ALIGN=JUSTIFY>COLOR=#AAAAAA>“Truth is, I’m not much of a sleeper. That doesn’t mean I don’t need sleep — we all do. It’s just that I don’t get enough of it. I don’t get tired when I’m supposed to and I don’t (make that can’t) wake up when the rest of the world says I should. Insomnia is nothing new to me; I’ve been this way ever since I can remember.”
ALAN BERLINER


ALIGN=JUSTIFY>“I don't know what the causes of my insomnia are. My grandfather was an insomniac, so that could be relevant ... or it could be just biological. I am not blaming my parents, per se, for it, but indirectly, my parents were fighting or talking and that might be a cause. Maybe the film is a cautionary idea for people: make sure your children are sleeping before you fight.”
ALAN BERLINER

ALIGN=JUSTIFY>COLOR=#AAAAAA>“Sometimes, I feel like I'm addicted to being awake.”
ALAN BERLINER















It Happened Just Before **1/2

22.04.07, Rita

T.O.: Kurz Davor Ist Es Passiert. Realização: Anja Salomonowitz. Elenco: Rainer Halbauer, Anna Sparer, Leopold Sobotka, Mag. Gertrud Tauchhammer, Otto Pikal. Nacionalidade: Áustria, 2006.





O filme da austríaca Anja Salomonowitz aborda o tema do tráfico de mulheres de leste. Histórias reais de algumas destas mulheres são contadas através de terceiros – um empregado alfandegário, um barman num bordel, uma vizinha, uma cônsul e um taxista -, pessoas que poderiam ter estado em contacto com estas mulheres nos mesmos locais onde realizam agora as suas actividades quotidianas.


O verdadeiro choque vem do contraste entre essa normalidade e as palavras relatadas de uma realidade que permanece escondida da maioria de nós. Por isso as verdadeiras vítimas permanecem “escondidas”. Mas apesar desta interessante abordagem, o distanciamento que existe entre a história e o actor da mesma, provoca no espectador também um certo afastamento. Porque o que não se vê ― o abuso de falsas esperanças, a exploração, a violência ― continua oculto. E fica-se com a sensação de que o poder do cinema, e do documentário em particular, é sub-aproveitado.




Destricted *

21.04.07, Miguel Marujo

O filme chega com a aura de escândalo que se recomenda para criar "hype": sete realizadores apresentam a sua visão do sexo e da pornografia, num filme cuja premissa é conter sexo explícito. A Première francesa alertava para o óbvio: este filme em episódios, sete, não é um filme, nem um conjunto de pequenos filmes, é uma longa instalação-vídeo, que denuncia a origem das artes plásticas de alguns dos realizadores. Aliás, o melhor segmento é uma frenética montagem de um minuto de imagens de filmes pornográficos («Sync», por Marco Brambilla), em que os corpos se diluem no longo solo de bateria que é a banda sonora. Para explicitar o sexo, o melhor mesmo é voltar a «Império dos Sentidos» ou os mais recentes «O Diabo no corpo», «Intimidade» e «The Brown Bunny».

Depois, há mais dois objectos interessantes nas premissas, que acabam por descambar, dos realizadores mais conhecidos associados ao projecto: Larry Clark, o de «Kids» e «Ken Park», onde já tinha explorado os limites do explícito; e Gaspar Noé, que incomodou meio mundo com a violação em tempo real de «Irreversível». Aqui filma a masturbação de dois jovens, rapaz e rapariga, em quartos diferentes, mas a verem o mesmo filme pornográfico, ela com um urso de peluche, aparentemente feliz, sã, ele com uma boneca insuflável, angustiado, doentio. A reflexão sobre o sexo solitário - «We Fuck Alone» é o título irónico do episódio, só revelado no final do segmento - acaba por submergir numa banda sonora aflitiva (o que ajuda a acentuar a angústia das cenas do rapaz, mas que não alivia nas dela) e numa filmagem intermitente que cansa (adverte-se os espectadores que sofrem de epilepsia, para o perigo de ataques com o visionamento do episódio). Larry Clark opta em «Impaled» por ensaiar uma leitura sobre o que representa o porno para a geração MTV, com a audição de actores para um filme do género. Depois, há lugar à aula prática, filmado com o despudor explícito que já nos habituou. No fundo, o ensaio agora é mais longo, e sem drogas ou reflexões sobre a geração "bully".

Há ainda um filme quase anedótico, «Balkan Erotic Epic», de Marina Abramovic, que ilustra pequenas lendas e mitos dos Balcãs relacionados com sexo; «House Call», em que Richard Prince recupera os anos dourados da indústria, antes da banalização da internet; «Death Valley», um exercício onanista (literalmente), sem nexo, da artista Sam Taylor-Wood; e «Hoist» - que abre o filme - o gratuito, grotesco, bizarro e indescritível episódio de Matthew Barney.

No fundo, sobra pouco. A única fronteira que aqui parece ser ultrapassada é a do bom gosto. O sexo fica a perder no cinema.

Somos todos uns pervertidos

20.04.07, Rita

ALIGN=JUSTIFY>A satisfação sexual só é possível na medida em que o objecto sexual é integrado nas nossas fantasias. Tal como uma relação amorosa, para sentirmos que é “certa”, deverá preencher os pressupostos românticos impostos pela nossa cultura.

ALIGN=JUSTIFY>O cinema, como veículo dessa cultura (ou como definidor dela) tem também a sua responsabilidade, até no que se refere ao sofrimento. Morremos de amor porque foi assim que aprendemos a sofrer, explorando todo o potencial dramático desse sofrimento, e como se essa fosse a única forma correcta de vivenciar as emoções.

ALIGN=JUSTIFY>A grande perversão é que o cinema romântico pára no sexo, enquanto o cinema pornográfico pára nas emoções. Entre o ‘viveram felizes para sempre’ e a visita ardente do canalizador é suposto conseguirmo-nos sentir realizados, emocional e sexualmente realizados.

ALIGN=JUSTIFY>Somewhere in between lies the ultimate frustration...


ALIGN=JUSTIFY>Um bom começo neste IndieLISBOA.


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ALIGN=JUSTIFY>COLOR=#BBBBBB>“Cinema is the ultimate pervert art. It doesn't give you what you desire - it tells you how to desire.”
SLAVOJ ŽIŽEK










Iklimer - Climas ****

19.04.07, Rita

ALIGN=JUSTIFY>Realização: Nuri Bilge Ceylan. Elenco: Ebru Ceylan, Nuri Bilge Ceylan, Nazan Kesal, Mehmet Eryilmaz, Arif Asçi, Can Ozbatur, Semra Yilmaz. Nacionalidade: Turquia / França, 2006.


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ALIGN=JUSTIFY>O realizador e argumentista Nuri Bilge Ceylan estreia-se como protagonista junto da sua mulher, Ebru Ceylan, num filme que analisa com extrema crueza, e por vezes até um humor mordaz, as alterações da temperatura emocional de uma relação. O amor, o compromisso e o desejo vão do calor intenso ao frio gélido, do Verão mediterrânico ao rigoroso Inverno do leste.

ALIGN=JUSTIFY>Isa (Nuri Bilge Ceylan) é professor universitário. A sua namorada, Bahar (Ebru Ceylan), é directora de arte na televisão e consideravelmente mais nova que ele. Encontramo-los no Verão passeando pelas ruínas de Kas, na costa da Turquia, que funcionam como uma metáfora da sua relação, delapidada e em decadência, também ela em tempos magnífica. Num silencioso olhar de Bahar lê-se a gradual erosão de um amor.

ALIGN=JUSTIFY>“Climas” (vencedor do Prémio Fipresci na edição de 2006 do Festival de Cannes) é um drama íntimo, onde as faces são a paisagem e onde, à falta de palavras, os sentimentos se revelam. Enquanto ambos se estendem numa praia ao sol (sufocando no calor como na relação), ela sonha que ele a enterra na areia, e, pouco depois, ele declama-lhe um praticado discurso de ruptura, acrescentando que podem continuar amigos, a ir jantar juntos e ao cinema. Friamente, ela responde que não precisam de ficar amigos. Nesta belíssima sequência, o realizador leva-nos numa viagem “meteorológica” entre o afecto, a angústia, o pânico, a tristeza, o remorso, a repulsa e a aceitação.

ALIGN=JUSTIFY>Estes dois seres são incapazes de expressar os seus sentimentos, quer os mais felizes quer os mais dolorosos, uma capacidade de comunicação que o tempo tem esfriado. Bahar oscila entre a bipolaridade da auto-comiseração e da explosão de raiva, e, mais tarde, entre a frieza e a vulnerabilidade. Isa faz os seus jogos de poder para ter tudo o que quer. E ele quer tudo: o desejo emocionante e o amor tranquilo, o novo e o conhecido. Só tarde demais ele percebe que isso não é possível, porque nessa fome bulímica apenas consegue alimentar a solidão.

ALIGN=JUSTIFY>Mas Nuri Bilge Ceylan, como realizador, consegue fazer aquilo que as suas personagens não conseguem, criando – com uma belíssima fotografia – o ambiente que nos faz entender todas as suas angústias: a perda da confiança por uma traição, a impossibilidade de voltar a acreditar, o orgulho de ceder ao sentimento, ou até a dor de saber que o outro é capaz de viver sem nós. Em determinado momento, Bahar pergunta a Isa sobre essa traição. Ele mente. Ela sabe que ele mente (ou talvez lhe bastasse pensar que sabe). E a traição renova-se.

ALIGN=JUSTIFY>A dúvida pode facilmente destruir uma relação e fazer com que estar com a pessoa que se ama seja um sofrimento muito idêntico ao de estar sem ela. Muitas vezes são as nossas expectativas que “enterram” quem amamos. O calor da paixão, o frio lancinante da dor. Qualquer que seja a condição atmosférica, ela não será permanente. Para o bem e para o mal, o tempo muda.


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ALIGN=CENTER>COLOR=#AAAAAA>Esta mulher é lindíssima e age como se não o soubesse. Adoro!



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Sunshine **1/2

18.04.07, Rita

ALIGN=JUSTIFY>Realização: Danny Boyle. Elenco: Rose Byrne, Cliff Curtis, Chris Evans, Troy Garity, Cillian Murphy, Hiroyuki Sanada, Mark Strong, Benedict Wong, Michelle Yeoh. Nacionalidade: Reino Undo, 2007.


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ALIGN=JUSTIFY>O Sol está a morrer e a Terra enfrenta um Inverno glaciar. A única esperança reside numa equipa de oito astronautas e cientistas com a missão de fazer detonar uma bomba nuclear no centro do Sol para o reactivar. Sete anos antes, essa missão esteve a cargo da nave Icarus I, da qual nunca se chegou a saber o destino, apenas que não tinha conseguido o seu objectivo. Encontramos a equipa da Icarus II quando eles levam já 16 meses de viagem, com as inevitáveis tensões, que derivam de estar confinado num espaço limitado com as mesmas pessoas e com reduzidos estímulos sensoriais. No centro destas tensões está Capa (Cillian Murphy), o físico, e Mace (Chris Evans), o engenheiro. Após passarem Mercúrio, a Icarus II detecta a presença da desaparecida Icarus I. A hipótese de a inspeccionar e recolher a bomba para aumentar a capacidade da sua implicará uma mudança da sua trajectória em direcção ao Sol, decisão que o capitão Kaneda (Hiroyuki Sanada) coloca nas mãos de Capa.

ALIGN=JUSTIFY>Esta é uma missão suicida e eles sabem disso. Aliás, o próprio nome da missão/nave não parece um bom augúrio. E os devidos contratempos (alguns bastante previsíveis) virão aumentar a angústia e desespero da tripulação, onde se destacam ainda Corazon (Michelle Yeoh), a bióloga encarregue de manter o jardim de oxigénio; Cassie (Rose Byrne), o piloto; Trey (Benedict Wong), encarregue de todos os cálculos de trajectória e ajustamento dos painéis do escudo solar; e Searle (Cliff Curtis) o psicólogo, obcecado com as suas literais sessões de solário.

ALIGN=JUSTIFY>Em termos de atmosfera, “Sunshine” é irrepreensível. Danny Boyle (“Trainspotting”, “28 Days Later...”), em conjunto com uma sonoplastia sem falhas e a brilhante fotografia de Alwin H. Kuchler, consegue fazer do Sol uma verdadeira personagem. Infelizmente, a todas as outras é-lhes dado tão pouco tempo e substância que é difícil criar empatias. O argumento de Alex Garland (“The Beach”) faz-nos o favor de dispensar o clichés das relações amorosas, mas não nos poupa de outros clichés do género, ou mesmo a incongruências (como é que Capa seria o único habilitado para lançar a bomba?).

ALIGN=JUSTIFY>Visualmente, “Sunshine” é imenso e claustrofóbico, a merecer totalmente a experiência de um grande ecrã. Com grande probabilidade a memória da maioria levá-los-á até “2001: A Space Odyssey” de Kubrick: um computador com personalidade, monólitos finais (numa cena de outro modo totalmente dispensável), passando por uma forte (mas pouco explorada) vertente espiritual.

ALIGN=JUSTIFY>Em “Sunshine” questionam-se os sacrifícios feitos em nome de uma missão maior, assiste-se ao simbólico colapso da frágil e vingativa natureza perante a loucura do Homem, o Sol mistura-se com o conceito do divino, e, da mesma forma, o seu poder supremo é fonte de fascínio e obsessões. “Sunshine” balança entre a ciência e a fé. E é uma pena não pender mais para esta última.

ALIGN=JUSTIFY>NOTA: Teria gostado de ouvir o ‘Staring at the Sun’ dos U2 na banda sonora.


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ALIGN=JUSTIFY>CITAÇÕES:

ALIGN=JUSTIFY>COLOR=#AAAAAA>“So if you wake up one morning and it's a particularly beautiful day, you'll know we made it.”
CILLIAN MURPHY (Capa)












Shortbus ***

17.04.07, Rita

ALIGN=JUSTIFY>Realização: John Cameron Mitchell. Elenco: Sook-Yin Lee, Paul Dawson, Lindsay Beamish, Adam Hardman, PJ DeBoy, Raphael Barker, Jay Brannan, Peter Stickles. Nacionalidade: EUA, 2006.


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ALIGN=JUSTIFY>John Cameron Mitchell (protagonista, argumentista e realizador de “Hedwig - A Origem do Amor”) pega no clássico autocarro amarelo da escola, o longo, destinado às crianças “normais”, e encurta-o para “crianças com necessidades especiais”.

ALIGN=JUSTIFY>Sofia (Sook-Yin Lee) é uma frígida sexóloga e conselheira de casais, casada com Rob (Raphael Barker). Dois dos seus pacientes são o casal Jamie (PJ DeBoy) e James (Paul Dawson), que pretende introduzir terceiras pessoas na relação. Depois há Severin (Lindsay Beamish), uma dominatrix obcecada com Polaroids, e Ceth (Jay Brannan), um ex-modelo que se envolve conjuntamente com James e Jamie, numa curiosa tentativa de uma relação “monógama” a três, e ainda Caleb (Peter Stickles), um stalker que, do outro lado da rua vigia obsessivamente James e Jamie. Homens e mulheres, hetero e homossexuais, todos convergem em “Shortbus”, uma espécie de clube underground onde tudo é permitido. Gerido pela drag queen Justin Bond (representando-se a si mesmo), que o descreve como "just like the 60s, only with less hope", o clube é um refúgio onde cada um tem espaço para resolver as suas neuroses, ali ver é também participar e a par do sexo, em grupo ou nem tanto, existem discussões sobre música, literatura e arte.

ALIGN=JUSTIFY>Em “Shortbus” não só se despem corpos como almas. Ambos são inteiramente explícitos. E o sexo, mais do que uma fuga à realidade deste conjunto de pessoas, é um caminho necessário para se descobrirem a si mesmas, o que, em última instância, significa descobrirem o amor, que tem a sua metáfora numa falha de electricidade que afecta toda a cidade de Nova Iorque (um modelo à escala permite criativas transições entre cenas).

ALIGN=JUSTIFY>Sem o objectivo de chocar, o sexo mostra-se em diversas formas e fases, misturando-se com um humor que provém do quotidiano de uma forma tão natural – e tão indiferente a quem está a ver – que não chega a ser pornográfico. Na base desta eficácia, está certamente o método escolhido por Cameron Mitchell para a direcção de actores. Ao casting aberto online, 500 candidatos responderam enviando as suas gravações. Os sete protagonistas seleccionados fizeram posteriormente um workshop com Cameron Mitchell. Um método que permitiu que os actores (todos eles estreando-se em longas-metragens) se sentissem confortáveis na intimidade a que o filme os obriga, e contribuíssem para o desenvolvimento das suas personagens e do storyline.

ALIGN=JUSTIFY>Mas “Shortbus” perde considerável força à medida que o filme avança, recorrendo a uma série de clichés e frustrando na força emocional que ele próprio reivindica. Acaba por se reduzir o papel do sexo (que, em toda a legitimidade, é um fonte privilegiada de prazer) a um veículo para as emoções, quando ele deve antes ser uma das suas linguagens.

ALIGN=JUSTIFY>Para uma geração emocionalmente perdida, mas cheia de expectativas, o corpo transformou-se no veículo único para conseguirem lidar com os seus sentimentos. Tal como em “Hedwig”, “Shortbus” reflecte a visão que Mitchell tem do sexo e da identidade (e, por isso mesmo, da sexualidade) como conceitos dinâmicos e mutáveis. “Shortbus” é sobre o intenso desejo de estabelecer ligações, sejam elas através do sexo, do amor ou da arte, e a profunda necessidade de comunicação, questionando o “casamento” (entenda-se “compromisso”) como plataforma de entendimento.

ALIGN=JUSTIFY>No meio de uma banda sonora original a cargo dos Yo La Tengo, a voz final vai para Scott Matthew com [We All Get It] "In the End". Afinal sempre há alguma esperança...

ALIGN=JUSTIFY>Para descobrir no 4º IndieLISBOA.


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ALIGN=JUSTIFY>POSTERS:


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Nós

16.04.07, Rita

ALIGN=CENTER>Neste fim-de-semana fez-se um nó na minha cabeça. A culpa foi deles:


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SIZE=1>LA BOîTE NOIRE, de Richard Berry (2005)



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SIZE=1>PRIMER, de Shane Carruth (2004)



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SIZE=1>STAY, de Marc Forster (2005)












The Number 23 **

16.04.07, Rita

Realização: Joel Schumacher. Elenco: Jim Carrey, Virginia Madsen, Logan Lerman, Danny Huston, Lynn Collins. Nacionalidade: EUA, 2007.





Walter Sparrow (Jim Carrey) trabalha para uma empresa de controlo animal. No dia em que completa 32 anos, a sua mulher Agatha (Virginia Madsen) oferece-lhe um livro intitulado “The Number 23”. À medida que Walter vai lendo o livro começa a notar as grandes semelhanças com a sua própria vida e começa a rever-se na personagem principal do livro, Fingerling, um detective privado (interpretado pelo mesmo Carrey num ambiente noir) com um estranho caso em mãos que envolve uma profunda obsessão pelo número 23, que, de uma forma controladora e sinistra, parece estar subjacente a tudo.


À semelhança do livro que lhe dá o nome, “The Number 23” é um filme sobre uma obsessão, e a forma como esta pode consumir uma pessoa até a transformar num estranho. Mas ao contrário do fabuloso “Phone Booth” (2002), aqui Joel Schumacher trabalha mal a tensão. Primeiro, a mudança em Walter entre a lucidez e a paranóia é demasiado rápida, segundo, a quase naturalidade com que a família de Walter aceita a sua fixação, em especial o seu filho adolescente (Logan Lerman) que quase o imita no seu comportamento, e a reduzida preocupação de Agatha perante os perturbantes sinais de desequilíbrio do seu marido, testam à exaustão a nossa credulidade.


Schumacher enche este filme de “23”, alguns deles detectados pelas personagens outros não, e chega a ser um maior desafio o jogo de os descobrir do que o de discernir o mistério, que, durante uma semana de Fevereiro, assalta um homem em torno de um livro.


As exageradas coincidências, como, aliás, a manipulada lógica do 23 (número sobrenatural sobre o qual o belo genérico inicial faz algumas alusões) apelam para a nossa ingenuidade. Sejamos ingénuos, então. Se essa for a única forma de desfrutar desta viagem interpretativa de um actor, para mim grandemente subaproveitado, como Jim Carrey, aqui numa versão bem mais sensual que o habitual.








CITAÇÕES:


“She had a face that was meant to smile.”
JIM CARREY (Walter Sparrow)


“There's no such thing as destiny. There are only different choices. Some choices are easy, some aren't. Those are the really important ones, the ones that define us as people.”
JIM CARREY (Walter Sparrow)


“Of course time is just a killing system... numbers with meanings attached to them.”
JIM CARREY (Walter Sparrow)


“Be sure your sin will find you out.”