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CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

La Science des Rêves *****

19.11.06, Rita

ALIGN=JUSTIFY>Realização: Michel Gondry. Elenco: Gael García Bernal, Charlotte Gainsbourg, Alain Chabat, Miou-Miou, Emma de Caunes, Aurélia Petit, Sacha Bourdo, Pierre Vaneck, Stéphane Metzger. Nacionalidade: França, 2006.


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ALIGN=JUSTIFY>Após a morte do pai, Stéphane Miroux (Gael García Bernal) regressa a Paris, onde vive a sua mãe, Christine (Miou-Miou), que lhe garante um trabalho como ilustrador de calendários. O plano de Stéphane é publicar o seu calendário de ‘Desastrologia’, salientando, em cada mês, um desastre de grandes proporções que ocorreu nalgum ponto do globo. Mas o seu trabalho no escritório acaba por se revelar tremendamente monótono, o que apenas serve para exacerbar a propensão natural de Stéphane para se refugiar num mundo onírico. Quando Stéphane conhece a sua nova vizinha, Stephanie (Charlotte Gainsbourg, “21 Grams”), e se apaixona, a sua tentativa de aproximar estes dois mundos e manter-se em equilíbrio toma novas proporções.

ALIGN=JUSTIFY>A dificuldade de Stéphane separar os seus sonhos da realidade prende-se com a sua incapacidade de lidar com um mundo onde as pessoas erram e se magoam, ou seja, um mundo adulto. À semelhança da personagem de Jim Carrey em “Eternal Sunshine of the Spotless Mind”, também Stéphane prefere negar a realidade. Sem aviso, Michel Gondry leva-nos para dentro da mente de Stéphane, materializada num estúdio em cartão de onde é emitida a StéphaneTV. E tal como Stéphane, também nós tentamos discernir o que é real e o que é sonho. Ou serão os sonhos uma forma de realidade?

ALIGN=JUSTIFY>Apesar de não estar feliz com o seu trabalho, aquele parece ser o lugar perfeito para Stéphane. Os colegas Guy (um fabuloso Alain Chabat, “Le Gôut des Autres”), Martine (Aurélia Petit) e Serge (Sacha Bourdo) comportam-se como autênticas crianças, e ampliam os delírios de Stéphane, como se se tratassem, eles próprios, de diferentes facetas do seu sub-consciente. O mesmo acontecendo com o brando patrão M. Pouchet (Pierre Vaneck). Um dos momentos mais deliciosos de “Science of Sleep” é quando Stéphane e os colegas, vestidos de gatos, interpretam a música ‘If You Rescue Me’, uma versão da música ‘After Hours’ dos Velvet Underground, cuja letra feita expressamente para este filme fala de um gato abandonado.

ALIGN=JUSTIFY>De uma forma extremamente imaginativa, por vezes absurda, por vezes bizarra, Michel Gondry constrói um universo de sonhos com o mínimo de recurso a efeitos especiais. O seu mundo é feito de texturas: água de celofane e nuvens de algodão. Ao som de ‘Instinct Blues’ de White Stripes, a cidade de Stéphane é reconstruída em cartão, para uma pista de ski bastou juntar tecido e fios de várias cores, e uma máquina de viajar um segundo no tempo é utilizada por Stéphane para dar dois primeiros beijos a Stephanie, um no futuro, e outro – o mesmo – no presente.

ALIGN=JUSTIFY>O campo das interpretações é dominado por um Gael García Bernal ímpar (“Diarios de Motocicleta”, “La Mala Educación”). Mesmo no registo mais disparatado é totalmente credível, porque percebemos que Stéphane tenta, verdadeiramente, superar as suas inseguranças e, entre o desastre e o charme, ele é apenas um rapaz a tentar fazer-se um homem.

ALIGN=JUSTIFY>Sem explicações ou concessões, Gondry utiliza a fantasia para falar da realidade do amor. Ele consegue representar visualmente a confusão, o delírio e a magia de estar apaixonado, de querer viver a realidade mas não conseguir dominar a imaginação. Mas apesar de se passar no inconsciente, este é um filme muito pouco sexual. Exceptuando umas quantas anedotas porcas, as referências a sexo não passam de clichés reunidos no quotidiano. Por isso a ligação entre Stéphane e Stephanie pode facilmente ser extrapolada para uma dualidade entre o feminino e o masculino, na qual a semelhança do nome joga um importante papel.

ALIGN=JUSTIFY>“Science of Sleep” é um portento de imaginação, um banquete visual, divertido e melancólico e, tal como os sonhos, cheio de símbolos, para digerir com a devida atenção. Mas os sonhos não são apenas um processo de fuga, deles pode também depender a sanidade. Os de Gondry são feitos à mão, com tesoura, cola e muito amor.


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ALIGN=JUSTIFY>CITAÇÕES:

ALIGN=JUSTIFY>COLOR=#AAAAAA>“Tonight I’ll show you how dreams are prepared, people think it’s a very simple and easy process but it’s a bit more complicated than that…As you can see a very delicate combination of complex ingredients is the key. First we put in some random thoughts, then we add a little bit of reminiscences of the day mixed with some memories from the past, it’s for two people… Love, friendships, relationships, all those ships. Together with songs you heard in the day, things you saw (...) I'm talking quietly to not wake myself up...”
GAEL GARCIA BERNAL (Stéphane)


ALIGN=JUSTIFY> “P.S.R. - Parallel Synchronized Randomness. An interesting brain rarity and our subject for today. Two people walk in opposite directions at the same time and then they make the same decision at the same time. Then they correct it, and then they correct it, and then they correct it, and then they correct it, and then they correct it. Basically, in a mathematical world these two little guys will stay looped for the end of time. The brain is the most complex thing in the universe and it's right behind the nose.”
GAEL GARCIA BERNAL (Stéphane)

ALIGN=JUSTIFY>COLOR=#AAAAAA> “Will you marry me when you are seventy and have nothing to lose?”
GAEL GARCIA BERNAL (Stéphane)


ALIGN=JUSTIFY> “Things can turn out the way you want to. If you just stop doubting that I love you.”
CHARLOTTE GAINSBOURG (Stephanie)

ALIGN=JUSTIFY>COLOR=#AAAAAA> “I like your boobs. They're simple and unpretentious. And I would like to see them someday.”
GAEL GARCIA BERNAL (Stéphane)


ALIGN=JUSTIFY> “You have a serious problem of distorting reality. You could sleep with the whole world and still feel rejected.”
CHARLOTTE GAINSBOURG (Stephanie)


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COLOR=E90909>IF YOU RESCUE ME

COLOR=#E90909 SIZE=1>interpretada por Gael Garcia Bernal, Alain Chabat, Sacha Bourdo e Aurélia Petit



SIZE=1> (falado)

So Stéphane Miroux we have a little surprise for you to do.
Now.
A song for her!


SIZE=1>(cantado)

If you rescue me
I’ll be your friend forever
Let me in your bed
I’ll keep you warm in winter

All the kittens are playing
they’re having such fun
I wish it could happen to me
But if you rescue me
I’ll never have to be alone again

All the cars drive do fast
And the people are mean
And sometimes it’s hard to find food
Let me into your world
I’ll keep you warm and amused
All the things we can do in the rain

If you rescue me
I’ll be your friend forever
Let me in your bed
I’ll keep you warm in winter
Oh someday I know
Someone will look into my eyes
And say: hello, you’re a very special kitten

So if you rescue me
I’ll never have to be alone again
I’ll never have to be alone again
I’ll never have to be alone again
























































Hallelujah

17.11.06, Rita


A banda sonora hoje é dele. Porque hoje faria 40 anos.


JEFF BUCKLEY (17 Nov 1966 - 29 Mai 1997)





HALLELUJAH
de Leonard Cohen

Now I've heard there was a secret chord
That David played, and it pleased the Lord
But you don't really care for music, do you?
It goes like this
The fourth, the fifth
The minor fall, the major lift
The baffled king composing Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah

Your faith was strong but you needed proof
You saw her bathing on the roof
Her beauty and the moonlight overthrew her
She tied you
To a kitchen chair
She broke your throne, and she cut your hair
And from your lips she drew the Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah

You say I took the name in vain
I don't even know the name
But if I did, well really, what's it to you?
There's a blaze of light
In every word
It doesn't matter which you heard
The holy or the broken Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah

I did my best, it wasn't much
I couldn't feel, so I tried to touch
I've told the truth, I didn't come to fool you
And even though
It all went wrong
I'll stand before the Lord of Song
With nothing on my tongue but Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah




Perfume: The Story of a Murderer *****

15.11.06, Rita

ALIGN=JUSTIFY>Realização: Tom Tykwer. Elenco: Ben Wisham, Dustin Hoffman, Alan Rickman, Rachel Hurd-Wood, Karoline Herfurth, Sian Thomas, Sara Forestier, John Hurt (voz). Nacionalidade: EUA, 2006.


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ALIGN=JUSTIFY>Era com imensa expectativa que aguardava a estreia deste filme. Optei por reler o livro homónimo de Patrick Sükind só depois de ver o filme. Achei que isso me permitiria ter uma experiência mas isenta, avaliando a obra de Tom Tykwer (“Lola, Rennt” - 1998, “Heaven” - 2002) apenas como uma peça de cinema e evitar uma comparação demasiado estanque. Mas ou a minha memória me atraiçoou demasiado, ou esta adaptação é, de facto, a melhor possível. E o melhor possível é bastante bom. Stanley Kubrick disse que não podia ser feito. Por muito que eu adore Kubrick, adoro também o facto de ele se ter enganado. E tenho pena de que não tenha vivido o suficiente para ver o quão cativante é este épico.

ALIGN=JUSTIFY>A Paris de 1738 está cheia de peixe putrefacto, ratazanas e esgotos abertos, um fedor nauseante. Jean-Baptiste Grenouille nasce debaixo de uma banca de peixe. Desde cedo ele percebe que o seu apuradíssimo olfacto está fora na normalidade (‘grenouille’ significa ‘rã’ em francês e Tykwer coloca uma cena onde o jovem Grenouille cheira um destes animais). Grenouille cresce num orfanato antes de ser vendido a um curtidor de peles, e vai absorvendo todos os cheiros que vai descobrindo, catalogando-os mentalmente apesar de não saber os seus nomes. Quando Grenouille (Ben Wisham) conhece o mestre perfumista Baldini (Dustin Hoffman) um novo mundo se abre diante dos seus olhos, ou melhor, do seu nariz. Acidentalmente, Grenouille é incontrolavelmente seduzido pelo cheiro de uma rapariga ruiva que vende ameixas (Karoline Herfurth). Depois de a matar acidentalmente, Grenouille fica obcecado por destilar aquele aroma e recuperar aquela beleza e criar o seu próprio perfume de 13 notas (o argumento introduz alguns elementos que se diferenciam do livro, mas que mantêm o seu espírito, este é um deles).

ALIGN=JUSTIFY>Alan Rickman é fortíssimo, Dustin Hoffman espirituoso e Ben Wisham impecável. Tendo participado em papéis secundários em “Enduring Love“ (2004) e “Layer Cake” (2004), o ano passado pudemos ver Wisham no papel de Keith Richards em “Stoned” de Stephen Woolley. Não sei porquê, quando li o livro lembro-me de ter imaginado Jean-Baptiste Grenouille mais velho do que Wisham. Mas, com efeito, na maior parte da acção, Jean-Baptiste está perto dos 30 anos. Apesar da sua beleza, Whisham consegue, através da sua interpretação cheia de maneirismos, ser “feio” de uma forma totalmente credível. Para a sua notável prestação, com reduzidos diálogos, o seu olhar, intenso, puro e sem regras, foi imprescindível. Na narração, a deliciosa voz de John Hurt incute um elemento algo místico a esta história.

ALIGN=JUSTIFY>O design de produção genial de Uli Hanisch enche cada cena de inúmeros detalhes, dando a impressão de uma quantidade enorme de odores que cercam Grenouille. A fotografia, nas mãos de Frank Griebe, colaborador de Tykwer em todos os seus filmes, é perfeita. Dadas as inevitáveis limitações do meio cinematográfico, os odores não poderiam ser mais bem transmitidos. Desde o recurso a inserções ou tornando o cheiro “visível” através de uma representação esfumada, até aos close-ups na extremidade nasal (serei a única pessoa a achar o imperfeito nariz de Ben Whisham delicioso?). Também a banda sonora, escrita por Tykwer, Reinhold Heil e Johnny Klimek, contribui para transmitir as sensações olfactivas, do mesmo modo que na edição de som (a cargo de Stefan Busch e Frank Kruse) se eliminou o ruído de fundo sempre que Grenouille perseguia um odor.

ALIGN=JUSTIFY>Tykwer tem uma noção ideal do ritmo e, com a montagem irrepreensível de Alexander Berner, “Perfume” não tem um único instante supérfluo. Tykwer preteriu a computorização a favor de soluções mais tradicionais, o uso de CGI limitou-se à reprodução da rua parisiense Pont au Chance onde se localiza a perfumaria de Baldini, e um momento em que o mesmo Baldini é levado, através de um aroma, a um jardim paradisíaco. Com todo o cuidado de pormenor e de fidelidade a uma obra de referência, apenas tenho um reparo à cena final, da qual esperava um pouco mais de, digamos, arrojo.

ALIGN=JUSTIFY>Foi, sobretudo, uma delícia regressar a este “mundo”. Grenouille é a personagem que seria muito fácil detestar. Mas Tykwer, que partilha a autoria do argumento com Andrew Birkin (“The Name of the Rose”) e Bernd Eichinger (“Der Untergang - A Queda”), consegue o mesmo que Süskind, isto é, que sintamos compaixão pelo perfeito anti-herói que é Grenouille, um homem com uma mente muito particulare, sem moral e sem alma, mas cujo sonho e sentido de missão não podemos deixar de admirar.

ALIGN=JUSTIFY>“Perfume” é totalmente abjecto, revoltante e nojento. Ou seja, perfeito.



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ALIGN=JUSTIFY>COLOR=#AAAAAA>P.S. 1 – Sim, já estou a reler o livro.


ALIGN=JUSTIFY>P.S. 2 – Ok, a inveja é feia, mas eu quero ser ruiva como a Rachel Hurd-Wood!

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ALIGN=JUSTIFY>COLOR=#AAAAAA>P.S. 3 – A equipa franco-alemã de perfumistas da International Flavors & Fragrances, Christophe Laudamiel e Christoph Hornetz, fizeram uma intepretação olfactiva da obra de Süskind, criando 15 essências com nomes tão sugestivos como Baby, Ermite, Human Existence e Orgie. O Perfume Coffret, de edição limitada, tem design de Thierry Mugler, e pode ser adquirido no seu site pela módica quantia de 550 euros.













The Illusionist ***

14.11.06, Rita

ALIGN=JUSTIFY>Realização: Neil Burger. Elenco: Edward Norton, Paul Giamatti, Jessica Biel, Rufus Sewel, Wddie Marsan. Nacionalidade: República Checa / EUA, 2006.


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ALIGN=JUSTIFY>Viena. 1900. Eisenheim O Ilusionista é a grande sensação na cidade, com truques tão impressionantes que parecem tocar o reino do sobrenatural. O Inspector Chefe Uhl (Paul Giamatti) é um dos primeiros entusiastas, mas também um céptico. Desafiado pela insolência de Eisenheim, o herdeiro do trono austro-húngaro, o Príncipe Leopold (Rufus Sewell) está determinado em desmascarar as manipulações de Eisenheim. No centro deste conflito está a Duquesa Sophie von Teschen (Jessica Biel), antiga paixão de infância de Eisenheim e actual noiva do príncipe.

ALIGN=JUSTIFY>A segunda realização de Neil Burger (“Interview With The Assassin”, 2002), adaptação do conto de Steven Millhauser ‘Eisenheim the Illusionist’, consegue, através de um conjunto de boas interpretações e uma história bem contada, enlevar-nos numa mistura de romance, mistério e magia.

ALIGN=JUSTIFY>Norton, evidencia uma vez mais a sua versatilidade, movido por um imenso amor e sofrimento, mantém-se enigmático – e hipnótico – até ao fim. E talvez por isso a personagem de Eisenheim não seja a que mais nos envolve. Para mim, Uhl é o grande herói desta história e Giamatti (em contraste com o seu morno papel em “Lady in the Water”) compõe consistentemente um homem no meio de um dilema moral, entre a admiração e o dever, entre a ambição e os valores éticos. Sewell, por sua vez, é um vilão perfeitamente odioso, egocêntrico, ciumento e mesquinho. Quanto à invejavelmente bela Jessica Biel, temos a felicidade de ver num papel que exige, de facto, qualidades interpretativas.

ALIGN=JUSTIFY>Praga (que fez as vezes de Viena) é talvez uma das cidades mais telegénicas do mundo, e a lindíssima fotografia de Dick Pope (“Vera Drake”) faz jus à sua beleza natural. O guarda-roupa de Ngila Dickson, o design de produção de Ondrej Nekvasil e a banda sonora original de Philip Glass compõem a restante pintura.

ALIGN=JUSTIFY>“The Illusionist” aflora alguns importantes temas como a luta de classes e a dualidade entre ciência e espiritualidade, sem, no entanto, enveredar seriamente por qualquer um desses caminhos. Mas “The Illusionist” não está interessado nos temas mundanos. Da mesma forma que um truque de magia exige que abracemos o improvável (a chamada “suspension of disbelief”), também “The Illusionist” exige de nós alguma capacidade de imaginação e aceitação (como é o caso da mistura de vários sotaques). E a magia do cinema é também envolver-nos num mundo irreal, de ilusões, de encantamento, absorvendo a nossa parte emocional, apesar do nosso cérebro insistir que é somente uma manipulação. Mas a fantasia pode ser tão ou mais gratificante que a realidade. “The Illusionist” seduz-nos porque trata do limbo entre estes dois mundos, e prova que um filme de época não tem que ser excessivamente denso, e pode ser uma óptima peça de entretenimento.



SRC=http://movies.go.com/i/movies/769020/gallery/illusionist_1.jpg>











The Departed ****

13.11.06, Rita

Realização: Martin Scorsese. Elenco: Leonardo DiCaprio, Matt Damon Jack Nicholson, Mark Wahlberg, Martin Sheen, Ray Winstone, Vera Farmiga, Anthony Anderson, Alec Baldwin. Nacionalidade: EUA, 2006.





Devo ser das poucas pessoas que achou “Gangs of New York” um bom filme, e que “The Aviator” era um biopic bem conseguido. Ainda assim, junto-me ao coro que apregoa em voz alta o regresso de Martin Scorsese à sua boa velha forma com este “The Departed”.


Os criminosos italo-americanos de “Goodfellas” são substituídos pelos irlandeses-americanos de Boston, num argumento de William Monahan (“Kingdom of Heaven” de Ridley Scott), inspirado no filme "Infernal Affairs” (2002), dos realizadores de Hong Kong Andrew Lau e Andy Mak (que eu lamentavelmente não vi).


O poderoso criminoso Frank Costello (Jack Nicholson) cria Colin Sullivan desde jovem para que ele se torne polícia e trabalhe infiltrado a seu favor. O dedicado Colin (Matt Damon) é colocado na Massachusetts State Police encarregue do caso que visa capturar o próprio Costello. Ao mesmo tempo, a Special Investigation Unit contacta Billy Costigan (Leonardo DiCaprio), um recém-graduado da academia de polícia cuja família teve fortes ligações ao crime em Boston, para trabalhar como agente infiltrado junto de Frank Costello.


E assim se inicia um jogo de gato e rato (a gravata leopardo da personagem de Nicholson evidencia o seu carácter predador), com nuances de tragédia grega, onde a lealdade é um valor que se relativiza quando a sobrevivência de um status quo é posta em causa.


“The Departed” tem uma narrativa complexa, com várias linhas de acção paralelas, misturada num novelo de enganos e mentiras, por personagens multifacetadas é de uma consistência sem falhas. Sob a uma montagem ágil de Thelma Schoonmaker, no final tudo se une num sentido lógico e filosoficamente justo.


À realização detalhista de Scorsese (quem se lembraria de vestir a única mulher do filme com peças de lingerie que não condizem? - aviso aos homens: esse é o nosso estado natural), junta-se um fabuloso elenco, onde, como é normal a mulher tem um papel totalmente secundário. Neste caso, essa posição ingrata coube a Vera Farmiga no papel de uma psiquiatra que se relaciona pessoal e profissionalmente com alguns destes homens. Mas consigo perdoar a misoginia de Scorsese por tudo aquilo de bom que ele consegue retirar dos seus actores masculinos.


DiCaprio parece ter sido preparado por Scorsese para este papel, imprimindo com igual intensidade as necessárias doses de solidão e agressividade, numa personagem cuja raiva latente é controlada pelo seu sentido de honra. Damon, continua a impressionar, equilibrando-se entre a crueldade e a vulnerabilidade. Entre o controlo e culpa católica. De Nicholson, que se pode dizer desta versão de “godfather” que consegue o nosso afecto mesmo sendo completamente hedonista e execrável? De primeira. Nos secundários, à frente dos respectivos departamentos, está um arrogante Alec Baldwin e um diplomático Martin Sheen. Ray Winstone, no papel de braço direito de Costello, consegue superar Nicholson no seu modo psicótico. Mas quem é completamente cativante, apesar das suas curtas aparições, é Wahlberg. E o detalhe com que estas personagens estão desenhadas é particularmente visível na personagem deste, Dignam, auxiliar de Queenan (Martin Sheen) na Special Investigation Unit. Ele é exactamente o mesmo do princípio ao fim do filme, agressivo e insultuoso, mas a sua imagem aos nossos olhos vai-se alterando ao longo do filme, provando que as nossas percepções acerca das pessoas mudam muito mais frequentemente que elas próprias.


O crescendo de suspense não nos deixa repousar por um momento. Mas, apesar de não termos ideia de onde nos levará de seguida, o argumento não nos deixa perder. Só depois de sair da sala, ao dom de ‘Comfortably Numb’ na versão de Roger Waters, Van Morrison e The Band, é que as peças se vão encaixando com surpreendente naturalidade, como se tudo fosse assim claro desde início.


“The Departed” é um filme escrito, realizado e interpretado com notável empenho, uma partitura onde cada nota está exactamente onde devia estar. Scorsese é o exímio maestro desta sinfonia.






CITAÇÕES:


“I don’t wanna be a product of my environment, I want my environment to be a product of me.”
JACK NICHOLSON (Frank Costello)


“When I was your age they used to say you could become cops or criminals. What I'm saying to you is this... When your facing a loaded gun, what's the difference?”
JACK NICHOLSON (Frank Costello)


“If we're not gonna make it, its gotta be you that gets out, cause I'm not capable. I'm fucking Irish, I'll deal with something being wrong for the rest of my life.”
MATT DAMON (Colin Sullivan)


“One of us had to die. With me, it tends to be the other guy.”
JACK NICHOLSON (Frank Costello)


“No tickey, no laundry!”
JACK NICHOLSON (Frank Costello)


COMFORTABLY NUMB
Pink Floyd


(...)

A distant ship's smoke on the horizon.
You are only coming through in waves.
Your lips move but I can't hear what you're sayin'.
When I was a child I caught a fleeting glimpse,
Out of the corner of my eye.
I turned to look but it was gone.
I cannot put my finger on it now.
The child is grown, the dream is gone.
I have become comfortably numb.


CineEco 2006 - a digestão

12.11.06, Rita



ALIGN=JUSTIFY>Depois da ressaca chega a digestão: uma referência a alguns dos filmes que me deixaram mais marcas (positivas e negativas).



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ALIGN=JUSTIFY>COLOR=#E90909 SIZE=3>“Les Réfugiés de la Planète Bleue” / “Os Refugiados do Planeta Azul”, de Jean-Philippe Duval e Hélène Choquette (França e Canada, 2006)

ALIGN=JUSTIFY>Em todo o mundo, milhões de pessoas são obrigadas a deslocarem-se e a abandonarem as suas casas, por razões ambientais. No Canadá, nas Maldivas e no Brasil, assistimos a casos de terras contaminadas por gases tóxicos ligados à exploração petrolífera, aos efeitos na vida marinha e pesqueira em resultado do aquecimento global, ou o esgotamento das terras provocado pelas monoculturas. As pressões económicas e ambientais sobre as populações rurais forçam o abandono do seu modo de vida tradicional, transformando um grande número de indivíduos em refugiados. Sem um estatuto legal, o número destes refugiados tende a aumentar, superando inclusivamente o dos refugiados políticos.
ALIGN=JUSTIFY>Para mim, o melhor filme deste festival.



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ALIGN=JUSTIFY>COLOR=#E90909 SIZE=3>“Wasser unterm Hammer” / “H2O (Água à Venda)”, de Leslie Frank (Alemanha, 2005)

ALIGN=JUSTIFY>Um importante filme sobre a privatização da água, contrastando a experiência inglesa com a verificada em algumas cidades alemãs. Será legítimo fazer uma exploração com objectivos de lucro de um recurso natural que deveria estar ao alcance de todos visto satisfazer uma necessidade básica das populações? Este filme põe em questão o falacioso argumento de que a gestão privada será sempre mais eficaz que uma gestão pública. O abuso da posição de monopólio que é gerada pela privatização de águas municipais, com despedimentos massivos e aumento exorbitante de preços, raramente parece estar a ser compensada por uma gestão mais eficiente e sustentável de um recurso escasso. Aos lençóis freáticos ingleses, contaminados durante a revolução industrial (e à canalização de Londres da época victoriana), é contraposto o exemplo de Hamburgo, onde a empresa (pública) de águas detém terras importantes em torno da cidade, cedendo-os para exploração agrícola de tipo biológico, no sentido de proteger os lençóis freáticos. Nesta mesma cidade, a opção pela gestão pública ganhou em referendo.



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ALIGN=JUSTIFY>COLOR=#E90909 SIZE=3>“Gharat”, de Pankas Rishi Kumar (Índia, 2005)

ALIGN=JUSTIFY>Nas terras de montanha dos Himalais, o sistema de gharat – moinhos que aproveitam a corrente dos cursos de água – permite estabelecer um sistemas económico descentralizado, ao utilizar a energia hidráulica para as culturas dos cereais, do arroz e do algodão, bem como para a produção de electricidade, evidenciando assim o potencial da tecnologia de pequena escala para o desenvolvimento sustentável.



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ALIGN=JUSTIFY>COLOR=#E90909 SIZE=3>“Gambit”, de Sabine Gisiger (Suiça, 2005)

ALIGN=JUSTIFY>“Gambit” versa sobre as consequências criminais e sociais de um acidente que teve lugar em Seveso, Itália, e que teve por base objectivos puramente económicos associados a um elevado grau de negligência. Em 1976, um problema mecânico num reactor provoca um derrame de uma dioxina venenosa resultante da produção de triclorofenol. Em 1983, o químico Jorg Sambeth é condenado a 5 anos de prisão, acarretando, como um bode expiatório, as culpas de uma grande organização: Givaudan- Roche, porque “he who pays the piper calls the tune”.



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ALIGN=JUSTIFY>COLOR=#E90909 SIZE=3>“White Gold – The True Cost of Cotton” / “Ouro Branco – O Verdadeiro Preço do Algodão”, de Sam Cole (Reino Unido, 2005)

ALIGN=JUSTIFY>Uma belíssima curta-metragem sobre o desaparecimento do mar Aral, no Uzbequistão, em resultado da intensiva cultura do algodão, para a qual são chamadas todas as mãos disponíveis, incluindo as crianças que deveriam estar nas escolas. A mensagem final: “buy your cotton carefully”.
ALIGN=JUSTIFY>Para ler o relatório da Environmental Justice Foundation e para ver o vídeo, clicar aqui.



SRC=http://www.fahreweb.it/Ozu/Giovanni-e-il-mito.jpg>


ALIGN=JUSTIFY>COLOR=#E90909 SIZE=3>“Giovanni e Il Mito Impossibile delle Arti Visive” / “Giovanni e o Mito Impossível das Artes Visuais”, de Gabriele Gismondi & Ruggero Di Maggio (Itália, 2005)

ALIGN=JUSTIFY>O olhar inocente de um homem de 70 anos, Giovanni, sobre a arte moderna e as suas (im)possíveis interpretações, que ocupa cada canto da sua cidade, Gibellina, Sicília. Em 1968, a Gibellina original foi completamente destruída por um terramoto. Poderá a arte responder às questões filosóficas levantadas pelos desastres natural?
ALIGN=JUSTIFY>Trailer aqui.



SRC=http://www.ecovisionfestival.com/edizione2006//images/stories/immaginefilm/kitui.jpg>


ALIGN=JUSTIFY>COLOR=#E90909 SIZE=3>“Kitui Sand Dams” / “Represas de Areia no Kitui”, de Hans Van Westerlaak e Eva Zwart (Holanda, 2006)

ALIGN=JUSTIFY>No Quénia, a empresa SASOL (Sahelian Solutions Foundations Kenya) promove a construção de represas de areia no rio Kitui. Esta actividade permite a populações com graves problemas económicos ter, por um lado, um trabalho activo, e, por outro, retirar benefícios de uma infra-estrutura que lhes permite combater os efeitos das secas. Um documento a ver, pela utilidade de uma solução pouco dispendiosa e pela extrema necessidade de envolver directamente as populações na resolução dos seus problemas.
ALIGN=JUSTIFY>Preview aqui.



SRC=http://globorural.globo.com/edic/188/rep_guarana_01.jpg>


ALIGN=JUSTIFY>COLOR=#E90909 SIZE=3>“Os Herdeiros do Guaraná”, de Rémi Denecheau (França, Brasil, 2005)

ALIGN=JUSTIFY>O guaraná é um elemento decisivo na economia local de Maués, Amazonas. Os Satéré-Mawé e outros povos indígenas lutam por preservar esta cultura, através de um processo produtivo que respeita os recursos naturais e a biodiversidade, em contraste com a pressão de grandes empresas como a Guaraná Antarctica, actualmente parte do grupo Pepsi Co..



ALIGN=JUSTIFY>COLOR=#E90909 SIZE=3>“Bartô”, de Luíz Botosso e Thiago Veiga (Brasil, 2006)

ALIGN=JUSTIFY>Uma boa metáfora, em animação, sobre o conflito entre homem e natureza, ou melhor, da acção destruidora e despótica do primeiro sobre a segunda.



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ALIGN=JUSTIFY>COLOR=#E90909 SIZE=3>“El Cerco” / “O Cerco”, de Ricardo Íscar e Nacho Martín (Espanha, 2005)

ALIGN=JUSTIFY>Na costa de Cádiz, um grupo de pescadores cerca um cardume de atuns à medida que este se aproximam do estreito de Gilbraltar (um ritual mouro denominado “La Almadraba”). Uma curta-metragem que condensa, de forma exímia, uma história de vida e morte, fazendo um bom uso da fotografia sépia e do barulho natural dos peixes para criar tensão.



ALIGN=JUSTIFY>COLOR=#E90909 SIZE=3>“Hijos de la Montanã de Plata” / “Os Filhos da Montanha”, de Juan S. Betancor (Espanha, 2005)

ALIGN=JUSTIFY> “Hijos de la Montanã” fala sobre a dura vida dos mineiros de Potosi, Bolívia, estabelecendo um perturbante paralelismo entre a exploração do recurso natural com a exploração do recurso humano.



SRC=http://ecofalante.terra.com.br/images/images_noticias/convite-copy.jpg>


ALIGN=JUSTIFY>COLOR=#E90909 SIZE=3>“O Pontal de Paranapanema”, de Francisco Guariba (Brasil, 2005)

ALIGN=JUSTIFY>A zona de Paranapanema serve de exemplo aos conflitos gerados pela posse da terra, desde os tempos da “grilagem” (método pelo qual os documentos que legalizavam a posse de terras eram colocados numa gaveta com grilos para que adquirissem um aspecto envelhecido) até à luta dos movimentos dos sem-terra e a reforma agrária.



SRC=http://www.banffcentre.ca/mountainculture/festivals/2006/film/awards/images/conflict_tiger1_300.jpg>


ALIGN=JUSTIFY>COLOR=#E90909 SIZE=3>“Conflict Tiger” / “O Ataque do Tigre”, de Sasha Snow (Rússia, 2005)

ALIGN=JUSTIFY>No leste da Rússia as florestas têm vindo a sofrer com a acção do homem. Como resultado da perturbação deste habitat, a sua vida animal tem necessidade de procurar alimento e refúgio fora dos seus novos (reduzidos) limites. Nesta dramatização ficcional, um homem persegue um tigre que já fez mais de uma vítima mortal. Ainda que os mecanismos de tensão pudessem ser mais eficientes, este é importante filme sobre como o homem só se preocupa com os efeitos da sua acção sobre o meio ambiente quando os seus nefastos resultados lhe rugem à porta e de unhas afiadas.



SRC=http://www.cm-seia.pt/fotos/agenda/ag_273.JPG>


ALIGN=JUSTIFY>COLOR=#E90909 SIZE=3>“Ainda Há Pastores?”, de Jorge Pelicano (Portugal, 2006)

ALIGN=JUSTIFY>Este filme tem a mais valia de uma grande “personagem”, Hermínio, um pastor de de 28 anos de Casais de Folgosinho, Serra da Estrela. Infelizmente, Jorge Pelicano parece apenas se ter dado conta desse facto na sala de montagem, e o filme sofre de uma grande falta de consistência, alternando entre os fortes momentos de um homem cujo maior sonho era ver actuar Quim Barreiros (fica-se na dúvida se, no filme, terá havido ou não manipulação com fins dramáticos para forçar o encontro entre Hermínio e Quim Barreiros, por isso darei o benefício da dúvida) e outras pequenas histórias paralelas, sem ligação à anterior a não ser pelo facto de, também elas tratarem de realidades serranas.
ALIGN=JUSTIFY>A grande fraqueza deste filme reside, sem sombra de dúvida em tudo o que se relaciona com a narração em off. Começando pelo texto, um conjunto de clichés que rasa o ridículo e o tom excessivamente poético para uma realidade tão nua. Adicionalmente, a voz do radialista Fernando Alves é de tal maneira interpretativa e condescendente que retira a força documental da obra.
ALIGN=JUSTIFY>O mérito de Pelicano reside no respeito extremo por estas pessoas genuínas. Prova disso foi também a presença de Hermínio no dia de apresentação desta obra no festival. Esta atitude é essencial para fazer bons documentários. A técnica aprende-se e treina-se. Mais informações no blog http://aindahapastores.blogspot.com.



SRC=http://videamus.planetaclix.pt/images/doutor2.jpg BORDER=10>SRC=http://videamus.planetaclix.pt/images/doutor3.jpg BORDER=10>


ALIGN=JUSTIFY>COLOR=#E90909 SIZE=3>“Doutor Estranho Amor, ou como aprendi a amar o preservativo e deixei de me preocupar”, de Leonor Areal (Portugal, 2004)

ALIGN=JUSTIFY>É chocante ver o nome de um dos meus filmes preferidos vilipendiado para um documentário com esta falta de bom-gosto e de qualidade. “Doutor Estranho Amor...” começa com um cenário de evento social filmado em tons vermelhos, a péssima captação de som acompanha a tentativa de discernir no escuro uma ou outra pessoa conhecida. Passa-se depois para o acompanhamento de uma Brigada Universitária de Intervenção, ou seja, um grupo de estudantes de medicina que se desloca a escolas secundárias no sentido de divulgar informação sobre comportamentos sexuais saudáveis.
ALIGN=JUSTIFY>Ignorando completamente o conceito de montagem, esta obra é, no mínimo, alarmista. O seu carácter didáctico é tanto mais assustador quando vemos as (más) técnicas e metodologias pedagógicas usadas por esta equipa para transmitir a sua mensagem. Apelar a jovens desmotivados e com problemas de ordem social e escolar é um desafio imenso e, nesse sentido, há bastante valor neste iniciativa. No entanto, é preciso ter claro que este tipo de soluções não visa acalmar consciências nem fazer simplesmente uso dos orçamentos designados para o efeito. Concentrar esforços e direccioná-los para objectivos concretos pode ser um bom começo. Em “Doutor Estranho Amor...” os assuntos são, na sua maioria, totalmente paralelos, e o tema do preservativo é, no total, abordado apenas um par de vezes.



ALIGN=JUSTIFY>COLOR=#E90909 SIZE=3>“Rua 15 - S.João”, de António Barreira Saraiva (Portugal, 2006)

ALIGN=JUSTIFY>Pegue-se no vosso pior vídeo caseiro, junte-se um assunto apenas relevante para as pessoas que nele entram, exclua-se toda a hipótese de montagem, estenda-se a sua duração com uma infindável cena de dois miúdos a dançar ku-duro, umas outras de pessoas a decorarem as fachadas das suas casas para a noite de S.João e mais umas senhoras desafinadas a cantarem canções típicas. Ah, repita-se estas só para dar um tom mais pitoresco. No final, projecte-se tudo isto na parede de uma das casas para toda a gente que foi filmada se poder ver, e para parecer mesmo que nos importamos com o objecto do documentário. É o suficiente para se ter o pior filme do festival.


























Nature Boy

10.11.06, Rita


ALIGN=JUSTIFY>Esta música, da autoria de Eden Ahbez, já fez parte de muitos filmes: “The Boy With The Green Hair” de Joseph Losey (1948), “Untamed Heart” de Tony Bill (1993) e, mais recentemente “Moulin Rouge” de Baz Lurhmann (2001).

ALIGN=JUSTIFY>Ainda que a versão que mais ressoa nos meus ouvidos seja a de David Bowie, ontem a voz de Jamie Cullum encheu o Coliseu dos Recreios. Sem microfone e acompanhado pelo fabuloso contrabaixo de Geoff Gascoyne, a luz no centro da arena concentrou os olhares. E os corações.

ALIGN=JUSTIFY>Porque há noites assim especiais.


ALIGN=CENTER>COLOR=#E90909>NATURE BOY

There was a boy
A very strange enchanted boy
They say he wandered very far, very far
Over land and sea
A little shy and sad of eye
But very wise was he

And then one day
A magic day he passed my way
And while we spoke of many things
Fools and kings
This he said to me
"The greatest thing you'll ever learn
Is just to love and be loved in return"

"The greatest thing you'll ever learn
Is just to love and be loved in return"




SRC=https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Nd90715b2/10296082_jz62k.jpeg>



ALIGN=JUSTIFY>P.S. - Com a habitual percussão no piano, Jamie fez um medley pop onde incluiu as Pussycat Dolls. Com o típico humor dos cinzentos céus de Londres, Jamie pergunta “Don’t you wish your boyfriend was short like me?”. Com toda essa energia e essa entrega só posso dizer: “Yes, Jamie, I do.”





























Lady In The Water **

10.11.06, Rita

ALIGN=JUSTIFY>Realização: M. Night Shyamalan. Elenco: Paul Giamatti, Bryce Dallas Howard, Jeffrey Wright, Bob Balaban, Sarita Choudhuryk, Cindy Cheung, M. Night Shyamalan, Freddy Rodríguez, Bill Irwin, Mary Beth Hurt, Noah Gray-Cabey. Nacionalidade: EUA, 2006.


SRC=http://us.movies1.yimg.com/movies.yahoo.com/images/hv/photo/movie_pix/warner_brothers/lady_in_the_water/_group_photos/paul_giamatti2.jpg>


ALIGN=JUSTIFY>O erro de M. Night Shyamalan foi ter começado a sua carreira com dois grandes filmes. Com “Lady in the Water” vem acrescentar mais um ponto à minha escala de desilusão, onde entrou desde “The Village”.

ALIGN=JUSTIFY>Por muito que me custe, e por muito que eu goste de Brice Dallas Howard e adore Paul Giamatti (“American Splendor”, “Sideways”), por muito bons secundários (um destaque para Jeffrey Wright) e por muito bela que seja a fotografia de Christopher Doyle, tenho que admitir que este filme é pouco mais que um entretenimento de sábado à tarde (e um daqueles sábados em que temos mesmo de ficar em casa por causa da chuva e nos outros canais só estão a dar novelas).

ALIGN=JUSTIFY>Cleveland Heep (Paul Giamatti) é o responsável pela gestão diária condomínio The Cove, arranjando canalizações e fazendo todo o tipo de pequenos trabalhos. Numa noite, Cleveland descobre na piscina do prédio uma jovem de seu nome Story (Brice Dallas Howard), que mais tarde vem a saber tratar-se de uma “narf”, uma ninfa marinha cuja missão é entrar em contacto com o ser humano para o salvar e regressar ao seu “Mundo Azul”. O que a Cleveland parece um delírio é, com efeito, uma velha história para adormecer. Através de uma senhora coreana, Cleveland irá tentar desvendar o mistério que envolve Story.

ALIGN=JUSTIFY>Shyamalan coloca Cleveland numa interminável busca por detalhes acerca da história, junto de uma relutante emissora (afinal de contas tinha que ser uma longa-metragem), na tentativa de evitar o pior desfecho. A alguns habitantes do condomínio irá competir-lhes desempenhar as funções necessárias para que Story consiga salvar-se e ser recebida por uma “águia”. As personagens são tratadas com superficialidade e descartadas com indiferença. E é esse sentimento de indiferença que fica, e ao qual se junta o tédio provocado por um filme basicamente dispensável.

ALIGN=JUSTIFY>“Lady in the Water” aflora o mundo místico das histórias que povoam o folclore de muitas culturas, mas cai num registo de susto fácil com personagens pouco trabalhadas e das quais muito cedo perdemos o interesse. Em termos de tensão fica muito aquém de, por exemplo, um “Le Pacte des Loups” (2001) de Christophe Gans (2001), em termos de lamechice confesso na minha mente ressoava gritantemente “Cocoon” (1985) de Ron Howard (o pai de Brice Dallas Howard) e não me consegui abstrair desta imagem até ao final do filme.

ALIGN=JUSTIFY>O melhor de “Lady in the Water” é tudo aquilo que nada tem a ver com a “Lady” nem com a “Water”. Retirando a fantasia de trazer por casa, aquele condomínio tem potencial. Desde o grupo de ociosos que passa os dias a fumar erva e a filosofar, passando por um cínico crítico de cinema (esta personagem parece tudo menos aleatória) e diversas famílias mono-parentais com as suas peculiaridades. Mas Shyamalan deixou-as abandonadas, desperdiçou actores como Giamatti numa caricatura cuja única característica distintiva é a gaguez, ou Brice Dallas Howard reduzida a uma etérea transparência. Ao invés, impôs a sua própria presença física na personagem de Vick Ran, o mensageiro que entregará a mensagem de Story ao mundo, torna-se pesada e, muitas vezes, sem sentido.

ALIGN=JUSTIFY>Shyamalan preferiu ignorar uma mão cheia de boas pequenas histórias e optou por uma “ego-trip”. Uma pena.








Little Miss Sunshine ****

09.11.06, Rita

ALIGN=JUSTIFY>Realização: Jonathan Dayton e Valerie Faris. Elenco: Abigail Breslin, Greg Kinnear, Paul Dano, Alan Arkin, Toni Collette, Steve Carell. Nacionalidade: EUA, 2006.


SRC=https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/N2e07dff7/10290063_CUTdt.jpeg>


ALIGN=JUSTIFY>Richard (Greg Kinnear) faz palestras sobre motivação, e espera que o seu programa de 9 passos se torne um sucesso. Dwayne (Paulo Dano, (“The Ballad of Jack and Rose” de Rebecca Miller, 2005); “L.I.E.” de Michal Cuesta, 2001), o seu filho de 15 anos quer ser piloto de caças e fez um voto de silêncio como prova da sua determinação. O pai de Richard (Alan Arkin) é um viciado em heroína que vive em casa do filho depois de ter sido expulso da casa de repouso. Sheryl (Toni Collette), a mulher de Richard, acaba de ir buscar o irmão Frank (Steve Carell) ao hospital depois de este se ter tentado suicidar por um desgosto de amor. Quando Olive (Abigail Breslin, “Signs” de M. Night Shyamalan, 2002), a filha mais nova do casal, é convidada a participar no concurso de beleza infantil Little Miss Sunshine, esta família disfuncional mete-se a caminho da Califórnia numa carrinha Volkswagen amarela, o sétimo protagonista da pequena pérola que é este filme independente.

ALIGN=JUSTIFY>O casal Jonathan Dayton e Valerie Faris, realizadores de vídeos para bandas como R.E.M., The Smashing Pumpkins ou Red Hot Chili Peppers, estreiam-se nas longas-metragens com um argumento do também estreante Michael Arndt.

ALIGN=JUSTIFY>Neste road movie, o exíguo espaço de uma carrinha (que me fez lembrar de uma Toyota Hiace que partilhei este ano com mais 12 pessoas durante largos e lentos quilómetros!) exige o confronto de uma família, expondo os seus problemas e inseguranças, mas também o entendimento e aproximação que se geram em torno do inocente sonho de Olive, que cresceu a ver concursos de misses (a pressão da imagem mediática é extremamente forte na cena do restaurante em que Richard incute um pesado sentimento de culpa em Olive por ela querer comer um gelado).

ALIGN=JUSTIFY>Curiosamente, apesar de quase caricaturais, é impossível não acreditar na genuinidade destas estranhas personagens, que acabam por se entranhar. A culpa é, sobretudo, do talento de todo o elenco, especialmente de Alan Arkin, que rouba todas as cenas, e de Abigail Breslin, sem as típicas afectações de pequena estrela. Para Toni Collette sobra o papel mais sério, mas imprescindível na coesão deste grupo.

ALIGN=JUSTIFY>“Little Miss Sunshine” é um filme que fala da importância de vencer numa sociedade que exige, por vezes, o impossível e onde se esquece que ser mais não é o mesmo que ser melhor. A fome de êxito esconde, muitas vezes, faltas muito mais essenciais. Entre risos e tristezas, a história de “Little Miss Sunshine” vai-se adensando em camadas, ao longo da estrada. Com a acção, as personagens crescem, com elas o filme, com o filme nós próprios.

ALIGN=JUSTIFY>Mas para um filme que envolve drogas, morte e várias referências a Nietzsche e Proust, “Little Miss Sunshine” tem a estranha capacidade de nos deixar tremendamente bem dispostos. Com sarcasmo e absurdo, “Little Miss Sunshine” condena a abusiva cultura dos resultados, a par da obscenidade dos concursos de beleza infantis. E apesar da constante alternância de tom, este filme mantém a sua solidez e consistência, nunca deixando que a seriedade se perca na comédia.

ALIGN=JUSTIFY>Usando e despertando fortes emoções, “Little Miss Sunshine” é um filme delicioso sobre as coisas que fazemos pelas pessoas que amamos, mesmo quando essas pessoas dão connosco em doidos.


ALIGN=JUSTIFY>COLOR=#AAAAAA>P.S. - Uma nota final para a banda sonora, à base de Mychael Danna e DeVotchKa, mas de onde destaco o abaixo citado Sufjan Stevens (por favor, alguém traga este senhor a Portugal!!!).



WIDTH=70% COLOR=#E90909 SIZE=1>


ALIGN=JUSTIFY>CITAÇÕES:

ALIGN=JUSTIFY>COLOR=#AAAAAA>“There's no sense in entering a contest if you don't think you can win.”


ALIGN=JUSTIFY>“Olive: Grandpa, am I pretty?
Grandpa - You are the most beautiful girl in the world.
Olive - You're just saying that.
Grandpa - No! I'm madly in love with you and it's not because of your brains or your personality.”
ABIGAIL BRESLIN (Olive) e ALAN ARKIN (Edwin Hoover)

ALIGN=JUSTIFY>COLOR=#AAAAAA>“Losers are people who are so afraid of not winning, they don't even try.”
ALAN ARKIN (Edwin Hoover)


ALIGN=JUSTIFY>“You know what? Fuck beauty contests. Life is one fucking beauty contest after another. School, then college, then work... Fuck that. And fuck the Air Force Academy. If I want to fly, I'll find a way to fly. You do what you love, and fuck the rest!”
PAUL DANO (Dwayne)

ALIGN=JUSTIFY>COLOR=#AAAAAA>“Dwayne - I wish I could just sleep until I was eighteen and skip all of this, high school, everything.
Frank - [explica que Proust acreditava que o sofrimento faz de nós quem nós somos] So if you go to sleep until you're 18...? Think of all the suffering you're gonna miss! High school's your prime suffering years! You don't get better suffering than that!”
PAUL DANO (Dwayne) e STEVE CARELL (Frank)




SRC=http://www.asthmatickitty.com/images/artist_banner_sufjan.jpg>


ALIGN=CENTER>COLOR=#E90909>CHICAGO
SIZE=1>Sufjan Stevens




SIZE=1>I fell in love again
all things go, all things go
drove to Chicago
all things know, all things know
we sold our clothes to the state
I don't mind, I don't mind
I made a lot of mistakes
in my mind, in my mind

you came to take us
all things go, all things go
to recreate us
all things grow, all things grow
we had our mindset
all things know, all things know
you had to find it
all things go, all things go

I drove to New York
in the van, with my friend
we slept in parking lots
I don't mind, I don't mind
I was in love with the place
in my mind, in my mind
I made a lot of mistakes
in my mind, in my mind

you came to take us
all things go, all things go
to recreate us
all things grow, all things grow
we had our mindset
all things know, all things know
you had to find it
all things go, all things go

if I was crying
in the van, with my friend
it was for freedom
from myself and from the land
I made a lot of mistakes
I made a lot of mistakes
I made a lot of mistakes
I made a lot of mistakes

you came to take us
all things go, all things go
to recreate us
all things grow, all things grow
we had our mindset
all things know, all things know
you had to find it
all things go, all things go

you came to take us
all things go, all things go
to recreate us
all things grow, all things grow
we had our mindset
(I made a lot of mistakes)
all things know, all things know
(I made a lot of mistakes)
you had to find it
(I made a lot of mistakes)
all things go, all things go
(I made a lot of mistakes)