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CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

2005 em filmes

28.12.05, Rita

Para a Rita, os 10 melhores filmes de 2005, à semelhança de 2004, voltam a ser... 14!


A ordem é a arbitrária, o visionamento obrigatório:


“BROKEN FLOWERS - FLORES PARTIDAS”, de Jim Jarmusch (2005)
“FERRO 3”, de Kim Ki-duk (2004)
“ELIZABETHTOWN”, de Cameron Crowe (2005)
“CACHÉ”, de Michael Haneke (2005)
“LE COUPERET”, de Costa-Gavras (2005)
“THE BROTHERS GRIMM”, de Terry Gilliam (2005)
“DE BATTRE MON COEUR S'EST ARRÊTÉ”, de Jacques Audiard (2005)
“OS EDUKADORES”, de Hans Weingartner (2004)
“THE BALLAD OF JACK AND ROSE”, de Rebecca Miller (2005)
“SIN CITY”, de Robert Rodriguez e Frank Miller (2004)
“DER UNTERGANG – A QUEDA”, de Oliver Hirschbiegel (2004)
“THE LIFE AQUATIC WITH STEVE ZISSOU”, de Wes Anderson (2004)
“GARDEN STATE”, de Zach Braff (2004)
“CLOSER”, de Mike Nichols (2004)
“MAR ADENTRO”, de Alejandro Amenábar (2004)



Um 2006 cheio de bons filmes!




Corpse Bride ***

25.12.05, Rita

Realização: Tim Burton e Mike Johnson. Vozes: Johnny Depp (Victor Van Dort), Helena Bonham Carter (Corpse Bride), Emily Watson (Victoria Everglot), Tracey Ullman (Nell Van Dort/Hildegarde), Paul Whitehouse (William Van Dort/Mayhew/Paul The Head Waiter), Joanna Lumley (Maudeline Everglot), Albert Finney (Finnis Everglot), Richard E. Grant (Barkis Bittern), Christopher Lee (Pastor Galswells). Nacionalidade: Reino Unido / EUA, 2005.





“Corpse Bride” é um regresso ao imaginário gótico de “The Nightmare Before Christmas”. No entanto, ao contrário deste, o seu visual inventivo perde com uma narrativa pouco original.


Baseado numa história tradicional russa, e localizado na Inglaterra Victoriana, conta a história de Victor Van Dort (voz de Johnny Depp), um rapaz tímido a quem os pais, novos-ricos, arranjaram um casamento com a filha de um casal nobre mas arruinado, Victoria Everglot (voz de Emily Watson). Aterrorizado com a perspectiva do casamento, Victor começa, apesar de tudo, a apreciar a maneira de ser carinhosa e doce de Victoria. Por um infeliz acaso, Victor acaba por professar os seus votos a uma voluntariosa (mas morta) noiva, Emily (voz de Helena Bonham Carter). Ela leva-o para o mundo dos mortos, um sítio bem mais divertido (vivo?) que a sua taciturna cidade, mas Victor apenas quer regressar para a sua noiva original.


Transpirando Tim Burton por todos os poros, e minucioso até ao mais pequeno detalhe (um piano tem a marca “Harryhausen” em homenagem a um dos pioneiros da stop-motion Ray Harryhausen), cada personagem é uma obra de arte do grotesco, ou seja, de uma beleza atroz, movendo-se em cenários sumptuosos, onde a monocromia do mundo dos vivos contrasta com a maré de cores do mundo subterrâneo. A técnica de stop-motion, consideravelmente morosa, está tão bem feita que parecem haver mais computadores do que realmente há.


O humor negro e o visual bizarro casam da melhor maneira com a fotografia de Pete Kozachik (“James and the Giant Peach” - 1996, “The Nightmare Before Christmas” - 1993) e com a música de Danny Elfman, colaborador recorrente de Burton (“Big Fish” - 2003, “Charlie and the Chocolate Factory” - 2005, etc.), acrescentando mais uns ingredientes à salivação de todos os nossos sentidos.


O elenco de vozes faz um óptimo trabalho, com especial destaque para o (sempre) assustador Christopher Lee como o padre Galswells, e Stephen Ballantyne como a larva Emil, habitante do cadáver da noiva.


Infelizmente, a história é vaga e com pouco ritmo (mesmo com a galeria de esqueletos dançantes) e até os seus reduzidos 75 minutos parecem estender-se em soluções fáceis. O facto deste filme ter sido feito em simultâneo com “Charlie and the Chocolate Factory” poderá ter algo que ver com algum menor cuidado na história. Este grupo de interessantes personagens parece ser deixado um pouco à deriva, procurando uma razão para existir, uma história que lhes dê sentido.


Felizmente, um Burton medíocre (mas com inegável coração) consegue ser melhor que a maioria dos filmes que chegam às nossas salas.






CITAÇÕES:


“With this hand I will lift your sorrows. Your cup will never be empty, for I will be your wine. With this candle, I will light your way into darkness.”
VICTOR VAN DORT


“And with this candle... I will light your mother on fire.”
VICTOR VAN DORT


“Why go up there when people are dying to get down here?”
ELDER GUTKNECHT


“I've got a... dwarf, and I'm not afraid to use him!”
VICTOR VAN DORT


“Can a heart still break after it's stopped beating?”
BARKIS BITTERN


“If I touch a burning candle I can feel the pain
if you cut me with a knife it's still the same
and I know her heart is beating, I know that I am dead
yet the pain I feel, try and tell me it's not real
for it seems I still have a tear to shed.”
CORPSE BRIDE



Natal em Cinema

23.12.05, Rita




O Natal é uma época em que o pensamento de paz e harmonia deve estar no coração de todos. Por isso, o cinema é sempre uma boa opção para fugir às reuniões familiares com pessoas que só vemos de ano a ano e que nada têm a ver connosco, ou para evitar as músicas e luzes de Natal que se espalham por toda(s) a(s) cidade(s) e nos põem os nervos em franja.


Aqui ficam algumas sugestões (menos politicamente correctas) de filmes para este Natal:


“TRADING PLACES” (John Landis, 1983) - com Dan Aycroyd, Eddie Murphy e Jamie Lee Curtis
“MERRY CHRISTMAS MR. LAWRENCE” (Nagisa Oshima, 1983) - com David Bowie
“SILENT NIGHT, DEADLY NIGHT” (Charles E. Sellier Jr., 1984)
“DIE HARD” (John McTiernan, 1988) - com Bruce Willis
“THE NIGHTMARE BEFORE CHRISTMAS” (Henry Selick, 1993) - da autoria de Tim Burton
“THE REF” (Ted Demme, 1994) - com Denis Leary e Kevin Spacey
“REINDEER GAMES” (John Frankenheimer, 2000) - com Ben Affleck e Charlize Theron
“THE FAMILY MAN” (The Family Man, 2000) - com Nicholas Cage
“BAD SANTA” (Terry Zwigoff, 2003) - com Billy Bob Thornton


Não esquecendo os mais sensíveis:

“SCROOGED” (Richard Donner, 1988) - com Bill Murray
“HOW THE GRINCH STOLE CHRISTMAS” (Ron Howard, 2000) - com Jim Carrey
“LOVE ACTUALLY” (Richard Curtis, 2003) - com Hugh Grant e Colin Firth
“THE POLAR EXPRESS” (Robert Zemeckis, 2004) - voz de Tom Hanks


Em cartaz:

“NOEL” (Chazz Palminteri, 2004) - com Susan Sarandon e Penélope Cruz


Brevemente:

“JOYEUX NÖEL” (Christian Carion, 2005) - com Diane Kruger, Guillaume Canet e Daniel Brühl




Foto: “Jarhead” (2005) de Sam Mendes, com estreia prevista para 12 de Janeiro (acho que não se passa no Natal, mas qualquer desculpa é boa para ter aqui uma foto do Jake Gyllenhaal - se o Pai Natal fosse assim, eu ainda acreditava nele...).



KONG vs. KONG

22.12.05, Rita




Aproveitando o embalo dado pela ida ao cinema para ir assistir à versão de King Kong de Peter Jackson, avancei finalmente para a visão do filme original (cujo DVD se mantinha quase esquecido numa prateleira há uns bons meses, sem que eu me decidisse a pegar nele). E a verdade é que, apesar de partir de uma clara situação de desvantagem (equivalente à diferença entre a sala 4 do Monumental e a minha televisão com ecrã de 38 cm e um sistema de som comprado no Lidl), o filme de 1933 de Cooper e Schoedsack, aguenta-se muito bem. Ou melhor dizendo, ganha em toda a linha.


É verdade que os efeitos especiais e o trabalho de direcção artística no filme de Peter Jackson são excepcionais (este Kong de Jackson é um prodígio técnico, ainda melhor que o Gollum do "Senhor dos Anéis") mas a versão original tem o encanto de um verdadeiro série B de antigamente, que nenhum filme hoje consegue repetir. Veja-se a forma como o filme original, com uma notável economia narrativa, consegue contar quase a mesma historia do que Jackson em metade do tempo, e, ainda assim, manter uma carga de exotismo, e mesmo de magia, que a versão de hoje não consegue.


E depois há a decisão de Jackson em transformar King Kong numa história de amor (na versão original a atracção de Kong pela miúda loura funcionava acima de tudo no campo do desejo, e, o que em último caso tornava tudo ainda mais dramático, tratava-se de um desejo não correspondido). Reconheço que é esta opção que transforma o filme de Jackson em mais do que um simples upgrade tecnológico do filme original, mas há alguma coisa de primordial que o primeiro filme tinha, que se perde por este caminho.


Os defensores deste novo Kong poderão avançar com o argumento Naomi Watts para fazer pender a balança para o King Kong de Jackson, e embora eu neste ponto assine por baixo, tenho que reconhecer que os gritos de Fay Wray não lhe deixam de dar o seu encanto (e fosse este o principal factor de avaliação, e por favor não pensem que estou de forma alguma a minimizá-lo, então o vencedor teria que ser a versão já quase esquecida de 1976, de John Guillermin, com uma Jessica Lange ainda em princípio de carreira. Mas acho que começo a afastar-me um pouco da questão cinéfila da coisa).


Em último caso, a coisa resume-se ao macaco. E por incrível que pareça, entre o prodígio digital de hoje e a massa negra (aquilo será plasticina ?), animada em stop-motion, do Kong de 33, eu opto por este.


Concordo que ao nível da interpretação, o Kong digital de Jackson bate aos pontos o original, principalmente tendo em conta que este basicamente se limita a abrir a boca e a revirar os olhos (mas poder-se-á dizer em sua defesa que se trata de uma técnica de interpretação mais minimalista, um pouco na linha de um Bill Murray por exemplo) mas ao tornar Kong mais realista (se é que se pode falar de realismo quando se está a tratar de um gorila de 7 metros de altura) a tecnologia acaba por lhe retirar a carga mística que o Kong original tinha. A verdade é que o Kong de Jackson é só um gorila grande, enquanto que o Kong original era muito mais do que isso, era como que um buraco negro onde é possível corporizar todos os medos.


Em última análise, esta luta de Kongs trata-se de facto de uma batalha desigual, entre um comum blockbuster dos dias de hoje (ok, um blockbuster melhor que 90% dos outros blockbusters que para aí andam, mas mesmo assim não mais do que isso) e um filme mítico da historia do cinema, que mais de 70 anos depois da sua estreia continua a manter o mesmo carisma. E que continuará sem dúvida a ser a versão definitiva desta história. Deixem só a poeira do marketing acalmar. E daqui a 70 anos falamos outra vez sobre isto.




por Sérgio


A PRENDA DE NATAL PERFEITA *. . . PARA QUEM NÃO TEM DINHEIRO PARA UM IPOD

21.12.05, Rita




O que estou a falar é do pack DVD recentemente editado com as 2 longas-metragens de Lucrecia Martel, a maior revelação cinematográfica deste século (e é indiferente para esta avaliação que se considere o início do século o ano 2000 ou, se se quiser optar por uma perspectiva mais científica, o ano 2001) e a melhor coisa vinda da Argentina desde Beto Acosta.


Lucrecia Martel apesar de só contar com 2 longas no seu curriculum é já uma aposta segura do cinema de hoje, dotada já de uma identidade muito própria (não correremos o risco de a ver perdida por Hollywood, como parece acontecer com quase todos os realizadores sul americanos que se destacam), praticante de um cinema quase sensitivo, obsessivo nas suas temáticas e sem grandes concessões (em Martel não encontramos os truques do costume para agarrar o espectador, não temos personagens ou situações com que facilmente nos identifiquemos, enquadramentos e planos sofisticados, os argumentos sugerem mais do que revelam e não se encaminham para finais em que tudo se resolve) e no entanto consegue ser um cinema que não se perde fechado em si (não é um "Alice" por exemplo) e não é um cinema cru, que afasta à primeira o espectador menos predisposto (Martel não é Pedro Costa, sem desprimor para este, que considero o melhor realizador português na actualidade e o único da sua geração capaz de atingir os patamares de Oliveira ou César Monteiro). Bem pelo contrário, os filmes de Martel conseguem envolver-nos desde as primeiras cenas e, se não nos transportam para dentro deles, conseguem transpirar para as salas de cinema os ambientes que por eles trespassam. Com apenas dois filmes, Lucrecia Martel consegue já ter mais obra que a maioria dos realizadores que por aí andam. E ocupando unicamente o espaço de 2 DVDs.


Em última análise, se o ano de 2005, cinematograficamente falando, tinha começado em grande com a estreia comercial da sua segunda obra, "La Niña Santa" e a possibilidade de revisão da primeira, "La Cienaga", tem um fim à altura, com a agora possibilidade de as levar para casa, juntinhas, para revisões múltiplas e embelezamento da estante já esgotada no que a espaço para mais DVDs diz respeito.


E pela módica quantia de 15 euros, o que o torna o melhor negócio com que me deparei desde um Best of... de Velvet Underground a 500 escudos, comprado num hipermercado qualquer muitos natais atrás.

* (ainda melhor que uma biografia do Vale e Azevedo)




por Sérgio


 

Clássicos Pendentes IV - THE GRADUATE

21.12.05, Rita

ALIGN=JUSTIFY>COLOR=#E90909>THE GRADUATE - A PRIMEIRA NOITE


Realização: Mike Nichols. Elenco: Anne Bancroft, Dustin Hoffman, Katharine Ross, William Daniels, Murray Hamilton, Elizabeth Wilson. Nacionalidade: EUA, 1967.


SRC=http://imagecache2.allposters.com/images/pic/MG/192926~The-Graduate-Posters.jpg>


ALIGN=JUSTIFY>Benjamin Braddock (Dustin Hoffman) é um jovem recém-licenciado que regressa a casa sem quaisquer perspectivas de futuro. O sentimento de deslocamento agrava-se com a sua incapacidade de assumir qualquer compromisso, ou qualquer escolha. As elevadas expectativas da família e dos amigos com a sua cara educação vêem-se frustradas na atitude de Benjamin, que apenas consegue andar de volta da piscina sentindo uma enorme repugnância e superioridade relativamente ao estilo de vida dos seus pais. Mas, simultaneamente, falta-lhe a ambição e a coragem para se libertar dessa prisão.

ALIGN=JUSTIFY>A vida de Benjamin sofre um abalo quando ele se vê seduzido pela mulher do sócio do seu pai, Mrs.Robinson (Anne Bancroft), o paradigma da dona de casa aborrecida e predadora, controladora, amargurada, mas com momentos de quase vulnerabilidade. A relação entre os dois que começa como uma forte emoção (mais de perigo que de paixão) é abalada com a chegada da filha de Mrs.Robinson, Elaine (Katherine Ross), uma inocente mas forte universitária por quem Benjamim se sente imediatamente atraído, muito a contra-gosto da sua amante. A decadência da relação que se estabelece entre os dois vai crescendo à medida que o tédio toma conta de Benjamim e o foco de emoção se desloca para Elaine.

ALIGN=JUSTIFY>Nichols utiliza o humor como elemento crítico, mais do que de entertenimento, e faz uso de uma série de técnicas que câmara, já exploradas em anúncios televisivos mas à data inovadoras no cinema, incutando uma liberdade face às anteriores limitações (visto à luz de hoje, há zooms que parecem excessivos, quer no momento em que surgem quer na intensidade).

ALIGN=JUSTIFY> “The Graduate” assume a banda sonora como parte interveniente na história. Ainda que muitas canções não se cinjam a um momento específico, elas acompanham o estado de alma das personagens e o filme serve de montra ao trabalho de Simon And Garfunkel, que, em retribuição, imortalizaram Mrs.Robinson no célebre tema com o mesmo nome.

ALIGN=JUSTIFY>À laia de crítica ao estilo de vida da classe burguesa de Los Angeles, com a suas piscinas, os seus bares, o seu dinheiro, a sua solidão e a sua hipocrisia, o filme de Mike Nichols (baseado no livro de Charles Webb) pega num anti-herói e leva-o num processo evolutivo e credível que o transforma de um virgem hesitante num homem seguro de si mesmo. Curiosamente, o final do filme, que atinge um climax de esperança num amor sincero e honesto, termina com uma nota cruel que insinua que tudo será como antes, onde o passado está condenado a repetir-se.


ALIGN=JUSTIFY>COLOR=#AAAAAA>RAZÕES PARA VER:

- Pela convincente interpretação de Hoffman (nas suas diversas facetas)
- Pela claustrofobia de um fato de mergulho.









Shopgirl ***

20.12.05, Rita

ALIGN=JUSTIFY>Realização: Anand Tucker. Elenco: Steve Martin, Claire Danes, Jason Schwartzman, Bridgette Wilson-Sampras, Sam Bottoms, Frances Conroy. Nacionalidade: EUA, 2005.


SRC=http://images.rottentomatoes.com/images/movie/gallery/1152188/photo_03.jpg>


ALIGN=JUSTIFY>Mirabelle (Claire Danes) é uma jovem solitária que veio do Vermont para Los Angeles em busca do seu caminho. Enquanto vai vendendo um ou outro dos seus desenhos, trabalha no departamento de luvas da Saks Fifth Avenue. Vive a sua vida quase como um fantasma, um espírito sonhador, à espera de ser despertado do seu sono, como se fosse mais um dos manequins da loja.

ALIGN=JUSTIFY>Numa lavandaria, Mirabelle conhece Jeremy (Jason Schwartzman), um enérgico e desajeitado desenhador de fontes e vendedor de amplificadores. Parece não haver nada em comum entre os dois, excepto a necessidade de carinho, e o encantamento de Jeremy por Mirabelle é recebido por esta com alguma frieza. É então que, na loja, surge Ray Porter (Steve Martin, autor do livro que serve de base ao filme), um charmoso e sofisticado homem de negócios, que a convida para jantar.

ALIGN=JUSTIFY>Mirabelle não hesita na sua escolha, e quando Jeremy decide acompanhar a digressão de uma banda de rock, o foco passa para a relação entre Mirabelle e Ray. Um dos méritos deste filme é nunca mostrar o romance entre um homem de 60 e a uma mulher de 20 e tais como algo inapropriado ou repugnante. Ray é honesto com Mirabelle quando lhe diz que necessita que a relação de ambos não seja um compromisso a longo-prazo e ela concorda. Mas o filme vai-nos mostrando como as mesmas palavras são interpretadas de formas diferentes por cada um deles. A atenção, o tempo e o dinheiro que ele despende com Mirabelle não conseguem suprir a falta do mais importante: a ligação emocional, da qual ele parece ser, inevitavelmente, incapaz.

ALIGN=JUSTIFY>A abordagem desta relação é feita de uma forma sombria, e o humor e a cor são deixados para Jeremy, cuja viagem, onde é impulsionado pelo líder da banda (Mark Kozelek, cantor dos Red House Painters) a “ler” livros de auto-ajuda gravados em cassete, fará parte do seu crescimento pessoal.

ALIGN=JUSTIFY>A personalidade de Mirabelle vai-se também tornando mais complexa ao longo do filme. Ela nunca tem uma abordagem predatória em relação a Ray, mas existe em alguns momentos uma suave manipulação. As suas lutas são pouco heróicas, como o comum mortal apenas tenta ser feliz. Mas as suas decisões acerca da vida e do amor acarretam coragem. No final, a transformação de Mirabelle acaba por ter pouco a ver com o ser amada, é o seu despertar para ela mesma, a sua transição para a maturidade. Mirabelle começa por tentar medir o amor no abraço que recebe depois do sexo, e quando recebe, finalmente, o voto de protecção ansiado, ela já tem em si a força necessária para não precisar dele.

ALIGN=JUSTIFY>Anand Tucker (“Hillary and Jackie”, 1998) centra a sua realização estilizada em momentos concretos, para contar uma história não exactamente imprevisível. Nunca se afastando das expectativas e percepções das personagens, a densidade e autenticidade com que nos faz entrar no seu mundo, entre erros e acertos, aproxima-nos, sobretudo, das suas fraquezas tão humanas. E, neste caso, ao contrário dos triângulos amorosos habituais, onde costuma haver uma parte que é quase desprezível, tanto Jeremy como Ray são pessoas verdadeiras e sinceras.

ALIGN=JUSTIFY>Ao argumento cru e observador, engraçado, emotivo, e cheio de detalhes (onde o grande senão é uma desnecessária voz off) juntam-se três fortes interpretações. De beleza simples e serena, Danes assume totalmente todas as facetas de Mirabelle - frágil, sexy, forte, inteligente - com uma expressividade e rigor físico suficientes para nos levar por todas as emoções de Mirabelle sem serem precisas palavras. Steve Martin é perfeitamente credível como o solteirão solitário e conformado com as suas limitações, acrescentando a dose correcta de melancolia que impede Ray de se tornar um “velho nojento”. O Jeremy de Schwartzman é adorável na sua ingénua mas profunda forma de ver a vida.

ALIGN=JUSTIFY>“Shopgirl” é um filme romântico sem o romance, uma história de amor sem corações e flores por todo o lado, um filme cheio de solidão e melancolia onde a dor é o instrumento da sabedoria. Um olhar agridoce sobre as relações amorosas, onde o que se ouve nem sempre é o que se diz, e as consequências que isso pode ter. Fala do que procuramos, das expectativas que se criam, dos medos, e daquilo com que tantas vezes nos contentamos. É também um filme sobre a comunicação entre dois idiomas distintos: o homem e a mulher.


WIDTH=70% COLOR=#E90909 SIZE=1>


ALIGN=JUSTIFY>CITAÇÕES:

ALIGN=JUSTIFY>COLOR=#AAAAAA> “Mirabelle - Are you the kind of person that takes time to get to know, and then once to get to know them... they're fabulous?
Jeremy - Yes, absolutely. ... What?”
CLAIRE DANES (Mirabelle) e JASON SCHWARTZMAN (Jeremy)


ALIGN=JUSTIFY> [Retirando relógio de Mirabelle, Ray coloca os seus dedos em torno do pulso dela]
“Now I'm your watch.”
STEVE MARTIN (Ray Porter)

ALIGN=JUSTIFY>COLOR=#AAAAAA> “So, I can hurt now, or hurt later.”
CLAIRE DANES (Mirabelle)


ALIGN=JUSTIFY>“As Ray Porter watches Mirabelle walk away, he feels a loss. How is it possible, he wonders, to miss a woman who he kept at a distance, so that when she was gone, he would not miss her? Only then does he realize how in wanting part of her but not all of her, he had hurt them both, and he cannot justify his actions except that, well, it was life.”












a MAIOR história de amor . . .

15.12.05, Rita

ALIGN=JUSTIFY>Quero um amor cheio de pôr-do-sol, um amor apesar de todas as diferenças, um amor contra todas as expectativas. Quero um herói forte, que me proteja e que, por mim, corra os maiores perigos. Um herói que só para me ver seja capaz de dar a própria vida.

ALIGN=JUSTIFY>Quero um como o dela...


SRC=https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Nde07b1dc/10290272_oOZHh.jpeg>





King Kong ***

14.12.05, Rita

ALIGN=JUSTIFY>Realização: Peter Jackson. Elenco: Naomi Watts, Jack Black, Adrien Brody, Andy Serkis, Jamie Bell, Thomas Kretschmann, Evan Parke e Colin Hanks. Nacionalidade: Nova Zelândia / EUA, 2005.


SRC=http://www.cinemovies.fr/images/data/photos/G24612059896640jpeg>


ALIGN=JUSTIFY>A história é conhecida até pelo cinéfilo ocasional. Um cineasta conduz a sua equipa para uma ilha tropical em busca do desconhecido. Mas os mistérios encerrados por aquele pedaço de terra ultrapassam a imaginação de todos os que embarcam na aventura: uma tribo nativa pouco simpática com estrangeiros, dinossauros, répteis gigantes e viscosos, morcegos e um colossal macaco, Kong de seu nome, rei e deus do seu mundo, mas que é apresentado à civilização como preso. King Kong, a besta, perde-se de amores pela bela actriz - que lhe é entregue pelos nativos, que acreditam assim aplacar a fúria do símio gigante - e é feito cativo e levado para Nova Iorque. A "oitava maravilha do mundo", como é apresentado na Broadway, liberta-se e parte à procura da sua loura. Acossado, refugia-se no topo do Empire State Building.

ALIGN=JUSTIFY>Descanse o leitor, que não se conta aqui o final. É desnecessário: a história é conhecida de todos. Afinal, este novo "King Kong" é um "remake" de um filme de 1933 - hoje aparentemente ingénuo nos seus efeitos especiais e com uma Fay Wray, que ficou para a história como a "rainha dos gritos" (o filme de 1976 reactualiza a lenda, com uma exploração petrolífera e a debutante e despida qb Jessica Lange).

ALIGN=JUSTIFY>Peter Jackson, o premiado realizador da trilogia de "O Senhor dos Anéis", sonhava pegar na história da bela e do monstro ainda antes de contar as aventuras de Frodo. Mas só o conseguiu concretizar agora, com Hollywood convencida do seu toque de Midas. E não esteve com meias medidas: a produção do filme está orçada em 207 milhões de dólares para as suas três horas de duração, uma das mais caras da história do cinema.

ALIGN=JUSTIFY>As maravilhas digitais do "King Kong" de Peter Jackson ajudam a explicar estas verbas. Cinco mil computadores ajudaram a recriar as batalhas ferozes entre Kong e vários tiranossaurus ou a cidade de Nova Iorque em 1933 (o ano da primeira versão do filme, no qual Jackson situa a acção do seu) e 132 sensores no rosto do actor Andy Serkis permitiram captar as emoções faciais do macaco gigante. Serkis já está habituado a ver o seu corpo transformado - foi ele que permitiu os efeitos especiais "criarem" Gollum, em "O Senhor dos Anéis". Ninguém duvida da capacidade de Jackson em recriar o bestiário do mundo perdido onde vive Kong ou o bulício novaiorquino dos anos pós-Depressão.

ALIGN=JUSTIFY>Mas é nas emoções captadas (sem sensores) que o filme do cineasta neozelandês mais se fragiliza, com personagens que não passam da caricatura. E a câmara de Jackson parece perdida de amores, como Kong, por Ann Darrow, o que não espanta sabendo que o papel da amada do gorila é Naomi Watts, um rosto que definitivamente se impõe ao estilo das actrizes do cinema clássico.

ALIGN=JUSTIFY>O melhor do filme acaba por ser a (justa) homenagem que Peter Jackson presta à época de ouro do cinema porque, também aqui, a beleza quase matava o animal.



COLOR=#AAAAAA>por Miguel










A melhor citação

14.12.05, Rita

 

"Frankly, my dear, I don't give a damn."
CLARK GABLE (Rhett Butler) para Scarlett O'Hara (Vivien Leigh) in GONE WITH THE WIND (1939), de Victor Fleming


Esta é, para mim, a melhor tirada final de sempre do cinema.
Pena é que, para se apreciar toda a sua dimensão, é preciso suportar a agonia do filme e a irritante Scarlett O'Hara.

 

 

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