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CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

Vipère au Poing ****

16.10.05, Rita

ALIGN=JUSTIFY>Realização: Philippe de Broca. Elenco: Catherine Frot, Jacques Villeret, Jules Sitruk, Cherie Lunghi, Hannah Taylor-Gordon, Richard Bremmer, Sabine Haudepin, William Touil, Wojciech Pszoniak, Pierre Stévenin, Annick Alane. Nacionalidade: França / Reino Unido, 2004.


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ALIGN=JUSTIFY>Primeiro volume de uma trilogia autobiográfica da autoria de Hervé Bazin, “Vipère au Poing” (De Víbora na Mão) conta a história da infância de Jean Rezeau no seio da sua família burguesa. Em 1922, depois da morte da sua avó paterna, Jean (Jules Sitruk), de 10 anos, e o seu irmão mais velho Freddy (William Touil), reencontram os pais, regressados da Indochina com um novo irmão, Marcel (Pierre Stévenin). Paule Rezeau (Catherine Frot), rapidamente apelidada pelos filhos de “Folcoche” (contracção de “folle” – louca – e “cochonne” – porca), é uma autêntica megera, o protótipo da rainha má dos contos infantis, fazendo uso de todas as armas ao seu dispor para tornar a vida dos filhos um autêntico inferno.

ALIGN=JUSTIFY>Autoritária, sádica, calma, calculista, de uma impressionante frieza e com um ódio natural, um papel em que Catherine Frot se excede a si mesma (depois da sua doçura em “Les Soeurs Fâchées” é um prazer vê-la fazer de má), Paule trava um autêntico combate com Jean (depois de “Monsieur Batignole”, Sitruk mostra mais uma vez as suas potencialidades).

ALIGN=JUSTIFY>Jacques Villeret está também genial no papel do marido submisso e apagado, absorvido pelo estudo das moscas, com um olhar que pode ir da triste resignação à alegria recalcada. As emoções dramáticas de “Vipère au Poing” são ainda ampliadas pela música de Brian Lock.

ALIGN=JUSTIFY>Philippe de Broca, que admite ter usado um tom menos ácido que o do livro, faz um inteligente uso da ironia para descrever o universo terrível em que se movem estas personagens. Entre o riso e o choque, entre o fascinante e o horripilante, o espírito de vingança invade cada canto daquela casa.

ALIGN=JUSTIFY>Um pequena visita à infância de Paule permite compreendê-la melhor, mas não desculpá-la. Aliás, o tom de redenção é quase inexistente. No entanto, paira no ar um certo optimismo, talvez relacionado com o facto de todo este passado ter estado na base do processo criativo de Hervé Bazin. No final, fica um certo sabor a Dickens.


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ALIGN=JUSTIFY>CITAÇÕES:

ALIGN=JUSTIFY>COLOR=#AAAAAA> “La vie est court, trés court. Surtout a la fin.”
ANNICK ALANE (Avó Rézeau)










Les Revenants **

15.10.05, Rita

ALIGN=JUSTIFY>Realização: Robin Campillo. Elenco: Géraldine Pailhas, Jonathan Zaccaï, Frédéric Pierrot, Victor Garrivier, Catherine Samie, Djemel Barek, Marie Matheron, Saady Delas. Nacionalidade: França, 2004.


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ALIGN=JUSTIFY>Pessoas que morreram durante os últimos dez anos voltam à vida numa pequena cidade francesa. O presidente da câmara e os seus delegados reúnem-se para fazer face ao súbito excesso de população. Mas a logística talvez seja o menor problema que terão de enfrentar.

ALIGN=JUSTIFY>A primeira meia hora do filme ilustra a angústia imediata de um acontecimento que vem alterar não só a vida de várias famílias, mas também a estrutura social de uma cidade que tem, de repente, de absorver no seu mercado de trabalho e no sistema de segurança social um considerável número de pessoas.

ALIGN=JUSTIFY>São três as histórias que acompanhamos: Rachel (Géraldine Pailhas), Isham (Djemel Barek) e o presidente da câmara (Victor Garrivier) reencontram, respectivamente, o marido Mathieu (Jonathan Zaccaï), a mulher Martha (Catherine Samie) e o filho Sylvain (Saady Delas). No fundo, cada um dos “retornados” simboliza o regresso do que nunca desapareceu, ou seja, a culpa, o arrependimento e os erros dos vivos. Estranhamente, nenhum dos retornos se reveste de uma envolvente de alegria pelo reencontro.

ALIGN=JUSTIFY>O mérito de Robin Campillo (argumentista de “L’Emplois du Temps” (2001), de Laurent Cantet) é de romper com o estereótipo dos mortos-vivos. Estes não são violentos, apenas ecos do seu próprio passado. Presos de uma afasia generalizada, com dificuldade em se expressar, passeiam como sonâmbulos sem destino no meio da noite. Infelizmente, parece que os vivos padecem do mesmo mal, comportando-se com idêntica lentidão.

ALIGN=JUSTIFY>Os diálogos são pobres e é a falta de curiosidade dos vivos sobre os outros é inverosímil, ninguém se pergunta como nem porquê. E, num clima de profundo aborrecimento, roçando o morto-vivente, chega um final, que esperaríamos respondesse a algumas questões, mas que é completamente vazio.

ALIGN=JUSTIFY>A difícil reaproximação entre Rachel e Mathieu vive de uma interpretação perturbante de Jonathan Zaccaï (“Le Rôle de sa Vie”,“Entre ses Mains”), de quem, em todo o momento, esperamos uma explosão, e de uma irritante neutralidade de Géraldine Pailhas (“L’Adversaire”, “5x2”).

ALIGN=JUSTIFY>Temas como a reinserção, a memória, a dor da perda, que daria uma abordagem interessante a um filme deste tipo, são apenas aflorados, mas sem grande consequência. O mecanismo de “suspension of disbelief” teria que ser levado a um extremo por parte dos espectadores para poder aceitar as incongruências de um argumento que queria ser mais do que é.

ALIGN=JUSTIFY>Os estereótipos, pelo menos, funcionam.






Entre Ses Mains ***

14.10.05, Rita

ALIGN=JUSTIFY>Realização: Anne Fontaine. Elenco: Benoît Poelvoorde, Isabelle Carré, Jonathan Zaccaï, Valérie Donzelli, Bernard Bloch, Véronique Nordey. Nacionalidade: França / Bélgica, 2005.


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ALIGN=JUSTIFY>Claire (Isabelle Carré) trabalha numa companhia de seguros, onde conhece Laurent (Benoît Poelvoorde), um veterinário que veio fazer a participação de uma inundação no seu consultório. Claire tem uma vida harmoniosa com o marido Fabrice (Jonathan Zaccaï) e com a filha de ambos, mas não consegue controlar o profundo fascínio que Laurent exerce sobre ela, e rapidamente a relação entre os dois assume um carácter mais pessoal.

ALIGN=JUSTIFY>Laurent desperta em Claire o seu desejo adormecido por uma vida de hábitos, libertando-a. Mas a possibilidade de Laurent ser o serial killer do bisturi que tem aterrorizado a cidade de Lille parece não dissuadir Claire. Antes exerce sobre ela um efeito perigosamente magnético.

ALIGN=JUSTIFY>Anne Fontaine (“Natalie...”, 2003) disseca esta relação ao pormenor, mostrando-nos as mutações do comportamento de um em relação ao outro, da sua tomada de consciência dos seus próprios sentimentos. De uma forma dolorosa para ambos, assistimos a um jogo de toca e foge e de submissão.

ALIGN=JUSTIFY>A adaptação do livro “Les Kangourous” de Dominique Barbéris ganha com duas interpretações cheias de sensibilidade e intensidade. Isabelle Carré e Benoît Poelvoorde fazem um óptimo trabalho de composição nesta história de um amor proibido: ele não se permite amá-la, por não saber como fazê-lo; ela por não poder/dever.

ALIGN=JUSTIFY>Mas o fascínio da bela pelo monstro criará em Claire a ilusão de poder salvá-lo, tornando-o “belo”. E é por isso que ela que se coloca nas mãos dele. A secular competição feminina, na eterna tentativa da mulher provar que é diferente de todas as outras.


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ALIGN=JUSTIFY>CITAÇÕES:

ALIGN=JUSTIFY>COLOR=#AAAAAA> “On connait jamais personne.”
BENOÎT POELVOORDE (Laurent Kessler)










Je Préfère Qu'on Reste Amis ***

13.10.05, Rita

ALIGN=JUSTIFY>Realização: Eric Toledano e Olivier Nakache. Elenco: Jean-Paul Rouve, Gérard Depardieu, Annie Girardot, Lionel Abelanski, Isabelle Renauld, Yves Jacques, Élisabeth Vitali, Xavier De Guillebon, Mar Sodupe, Caroline Frank, Cassandra Harrouche, Tilly Mandelbrot. Nacionalidade: França, 2005.


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ALIGN=JUSTIFY> “Prefiro que continuemos amigos” é uma frase dolorosa. A menos que venha de um amigo.

ALIGN=JUSTIFY>Claude (Jean-Paul Rouve, o carteiro de “Un Long Dimanche de Fiançailles”) é um informático nos seus 30, celibatário, tímido, hipocondríaco, que não sabe dizer não, que ficou esteticamente bloqueado no tempo, que limita o seu lazer a uns jogos de Gin Rummy com colegas de trabalho e que é constantemente confundido com um empregado do supermercado. Serge (Gérard Depardieu) anda nos 50, é divorciado e pai de duas filhas, obcecado por estatísticas e determinado em romper com os tradicionais métodos de conhecer mulheres (entre os casamentos de desconhecidos, as agências matrimoniais e o “speed dating” – em que se tem 7 minutos para saber informações sobre o outro).

ALIGN=JUSTIFY>O encontro casual destas duas personagens, que apenas têm em comum ambos andarem à procura da alma gémea, dá início a uma história cheia de situações de um humor irresistível, numa sátira às angústias da meia-idade.

ALIGN=JUSTIFY>Os realizadores Eric Toledano e Olivier Nakache, amigos de longa data, basearam o conflito no choque dos opostos, à volta do qual construíram uma comédia romântica, onde, sem nunca entrar no equívoco sexual, o amor é substituído pela amizade (onde se traça o limite?). Um casal de amigos acaba por funcionar, não estranhamente, de uma forma muito próxima a um casal de amantes, entre os quais pode também existir ciúme e cumplicidade. Felizmente, os realizadores não caíram no cliché de meter uma mulher entre os dois.

ALIGN=JUSTIFY>Depardieu e Rouve (César para Melhor Esperança Masculina em 2003, por “Monsieur Batignole”) criam duas personagens tocantes e plenas de nuances, através das quais percebemos a diferença entre o que dizem e o que pensam, e com uma evolução credível, por via desta amizade. Um destaque também para Annie Girardot, no papel da mãe de Claude sofrendo de Alzheimer.

ALIGN=JUSTIFY>Este é um filme leve e sem pretensões, mas característico de uma era que se assume como sendo da comunicação, e onde comunicar, no verdadeiro sentido da palavra, é que menos se faz.

ALIGN=JUSTIFY>Aos amigos!






La Moustache ****

12.10.05, Rita

ALIGN=JUSTIFY>Realização: Emmanuel Carrère. Elenco: Vincent Lindon, Emmanuelle Devos, Mathieu Amalric, Hippolyte Girardot, Cylia Malki, Macha Polikarpova, Fantine Camus. Nacionalidade: França, 2005.


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ALIGN=JUSTIFY>Seguindo uma sugestão da mulher, Agnès (Emmanuelle Devos), Marc (Vincent Lindon) tira o bigode que usa há mais de dez anos. Mas, inacreditavelmente, ninguém repara, nem a mulher, nem os amigos. Marc aceita a brincadeira durante os primeiros momentos, mas depois começa a achar este um fingimento de mau gosto. A sua preocupação toma contornos mais graves quando várias pessoas em quem ele confia, entre as quais Agnès, lhe asseguram que ele nunca usou bigode.

ALIGN=JUSTIFY>Marc começa aqui uma espiral de verdadeira paranóia que irá abalar por completo a sua bem estruturada vida em termos amorosos, profissionais e mentais. Marc vai-se quebrando pouco a pouco, à medida que outros pormenores da sua vida se vão desfazendo quando confrontados com uma nova realidade. Marc começa a questionar-se sobre tudo, desconfia dos outros, depois da lucidez do seu próprio olhar, ao ponto de já não acreditar em nada do que vê, e confessando que só através dos olhos de Agnès é que consegue ter certezas.

ALIGN=JUSTIFY>Em redor deste incidente levantam-se questões sobre a indiferença que pode surgir numa vida de rotina entre um casal, ou da falta de confiança. Em nenhum momento Agnès considera deixar Marc, mesmo não acreditando nele. Mas qual deles é que ela ama? Será Marc o mesmo homem com e sem bigode?

ALIGN=JUSTIFY>Num momento de desespero Marc foge para Hong Kong, onde, anónimo e independente dos olhares de outros, repete incansavelmente percursos e gestos, através dos quais tenta materializar uma realidade. Neste ponto, a linearidade temporal da narrativa é interrompida: esta viagem é um sonho? anterior à crise? existiu sequer?

ALIGN=JUSTIFY>A percepção do espectador identifica-se com a de Marc, numa impressionante e comovente interpretação de Vincent Lindon, partilhando também da sua vertigem, da sua dolorosa solidão, da angústia de, de repente, toda uma realidade ser posta em causa. Emmanuelle Devos, que partilha com Lindon uma forte cumplicidade, é perturbante, vacilando numa preocupação sincera que pode, a qualquer momento, transformar-se numa manipulação maquiavélica.

ALIGN=JUSTIFY>O realizador Emmanuel Carrère, autor do livro homónimo que serve de base a este filme e argumentista de “L’Adversaire” (Nicole Garcia, 2002), desloca-se com habilidade sobre a ténue linha que divide realismo e fantástico, realidade e imaginário, numa constante atmosfera de ruptura.

ALIGN=JUSTIFY>O bigode transforma-se aqui num símbolo de fraqueza, de incompreensão entre um casal, o elemento frágil que separa a vida quotidiana da loucura. O final é inquietante, de digestão e divagação longas.






Le Rôle de sa Vie ***

11.10.05, Rita

ALIGN=JUSTIFY>Realização: François Favrat. Elenco: Agnès Jaoui, Karin Viard, Jonathan Zaccaï, Marcial Di Fonzo Bo, Claude Crétient, Laurent Lafitte, Denis Sebbah. Nacionalidade: França, 2004.


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ALIGN=JUSTIFY>Numa sala de cinema, Claire Rocher (Karin Viard, “Le Couperet”) comove-se com a prestação da sua actriz preferida, Elisabeth Becker (Agnes Jaoui, “Les Goût des Autres”, “Comme Une Image”). Claire trabalha numa revista, onde conhece Elisabteh um pouco por acaso. A relação entre as duas inicia-se com uma fascínio mútuo: de Claire pelo sucesso e a aura de Elisabeth; de Elisabeth pela humildade e eficiência de Claire. Elisabeth convida Claire para ser sua assistente pessoal e Claire não hesita em aceitar.

ALIGN=JUSTIFY>Claire tem uma paixão escondida pelo jardineiro paisagista que trabalha na sua empresa, Mathias (Jonathan Zaccaï) e, sem saber, recomendando-o a Elisabeth, dá início ao romance entre eles os dois.

ALIGN=JUSTIFY>Ao longo do filme vamos entrando em contacto com o mundo de ambas, com as suas forças e as suas fraquezas. Claire procura afirmar-se, enquanto Elisabeth tenta apreciar os prazeres mais básicos da vida, mas com o tempo tornou-se vítima do seu meio. Arrogante e caprichosa na sua pose de diva, Elisabeth começa a representar assim que sai de casa, porque a sua vida é uma papel. Em dado momento, a mãe de Elisabeth chama-lhe Isabel, revelando que até o seu nome faz parte dessa personagem.

ALIGN=JUSTIFY>Claire, no seu carácter tímido, servil, apologético, sempre preocupada com os outros, acede a ser a presa da personalidade vampiresca de Elisabeth. Mas, a dinâmica entre as duas irá desenvolver-se de uma forma subtil e peculiar, numa gestão periclitante do equilíbrio entre o dar e o receber.

ALIGN=JUSTIFY>Os três actores principais entram confortavelmente nos seus papéis, com as nuances necessárias para desmontar os estereótipos. No entanto, François Favrat deveria ter arriscado mais na exploração da solidão e a frustração destas duas mulheres.

ALIGN=JUSTIFY>Nas relações de dependência existem sempre dois culpados, que mantém o círculo vicioso. A definição de sucesso deve vir de dentro de nós, não do exterior. E a serenidade, essa, é bem mais difícil de atingir.






Travaux, On Sait Quand Ça Commence... ***

10.10.05, Rita

ALIGN=JUSTIFY>Realização: Brigitte Roüan. Elenco: Carole Bouquet, Jean-Pierre Castaldi, Didier Flamand, Françoise Brion, Aldo Maccione, Marcial Di Fonzo Bo, Alvaro Llanos, Carlos Gasca, Alejandro Piñeros, Lassina Touré, Geovanny Tituaña, Shafik Ahmad, Giulia Dussolier. Nacionalidade: França / Reino Unido, 2004.


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ALIGN=JUSTIFY>Chantal (Carole Bouquet) entrega-se á sua profissão de advogada de imigrantes ilegais com tal paixão que consegue convencer o mais reticente juiz (a eloquência da oratória é aqui originalmente substituída por números artísticos). Na sua vida afectiva, no entanto, não partilha do mesmo tipo de emoções. Uma noite, cede aos avanços de um cliente, Frankie (Jean-Pierre Castaldi), para de seguida o ver transformar-se num apaixonado que a persegue por todo o lado. Para o afastar, Chantal decide fazer obras em casa, contratando, para isso, alguns trabalhadores clandestinos colombianos. É aí que o seu inferno começa.

ALIGN=JUSTIFY>O título do filme deriva da frase: “Sabemos quando uma obra começa... mas não quando termina.” E é isso que acontece. A vida de Chantal e dos seus dois filhos adolescentes altera-se com o número crescente de empregados que vai aparecendo, simpáticos, cheios de boa vontade, mas consideravelmente incompetentes, e liderados por um arquitecto (Marcial Di Fonzo Bo) cheio de boas intenções e ideias ambiciosas. O caos instala-se, e Chantal vê a sua vida desmoronar-se, tal como as suas paredes. Mas esta coabitação e intimidade forçadas, trará o conhecimento mútuo, o afecto e o respeito. No final, fica a nostalgia.

ALIGN=JUSTIFY>Brigitte Roüan força Chantal a confrontar-se com as teorias que defende na sala de audiências. Fazendo uso de algum burlesco e de personagens quase caricaturais, Roüan transmite as suas convicções, com humor e sem sermões. A sua consciência social é a coluna dorsal da narrativa. Através de uma aventura surrealista, e com a ajuda da grande veia cómica de Carole Bouquet, esta é a construção de uma nova modernidade, onde a multi-culturalidade tem um lugar importante, nos resultados e nos corações.

ALIGN=JUSTIFY>Em “Travaux...” levantam-se as paredes da generosidade como valor humano e da preocupação com os outros como regra de conduta. Numa sociedade cada vez mais individualista, não é algo que se possa desprezar.

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ALIGN=JUSTIFY>CITAÇÕES:

ALIGN=JUSTIFY>COLOR=#AAAAAA> “Un immigré, c’est sacré!”


ALIGN=JUSTIFY> “Si lui dort ici, pourquoi pas moi?!”







Les Soeurs Fâchées ***

09.10.05, Rita

ALIGN=JUSTIFY>Realização: Alexandra Leclère. Elenco: Isabelle Huppert, Catherine Frot, François Berléand, Brigitte Catillon, Michel Vuillermoz, Christiane Millet, Rose Thiéry, Bruno Chiche, Jean-Philippe Puymartin. Nacionalidade: França, 2004.


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ALIGN=JUSTIFY>Louise (Catherine Frot) vive em Mans, onde é esteticista. Acaba de chegar a Paris, onde tem uma reunião marcada para segunda-feira com um possível editor para o livro que acabou de escrever. Louise aproveita para passar o fim-de-semana com a sua irmã mais velha, Martine (Isabelle Huppert), com quem tem quase nada em comum. Louise é provinciana, deslumbrada com tudo o que vê na grande cidade, é efusiva, natural, extrovertida, apaixonada, gentil e ingénua. Martine é fria, cruel, execrável e má, na sua vida de burguesa entre o cabeleireiro e um café com a sua única amiga. Louise está a lutar pelo seu sonho, ao passo que Martine nem sequer sabe qual é o seu. Mas estes três dias não a deixarão indiferente.

ALIGN=JUSTIFY>Nesta primeira realização, Alexandra Leclère escolhe personagens extremas (e diametralmente opostas), mas não se deixa cair na caricatura. Os bons diálogos e uma narrativa consistente vão revelando a verdade das personagens, escondida atrás da imagem que elas dão de si mesmas. Pouco a pouco, a sua personalidade vai-se desenvolvendo, tornando-se mais densa e com novas camadas, mais rica e ambígua.

ALIGN=JUSTIFY>Com um humor mordaz, especialmente na expressões de exasperação de Martine com a constante felicidade de Louise, “Les Soeurs Fâchées” fala das hipocrisias que servem tantas vezes de base a existências de falsa tranquilidade, vidas baseadas em conformismo. No caso de Martine, a sua maldade não é mais do que uma fuga à fragilidade e uma reacção ao confronto, pela presença da irmã, com um passado doloroso ainda não cicatrizado e o presente vazio em que se tornou a sua vida.

ALIGN=JUSTIFY>As interpretações de ambas as protagonistas estão perfeitas: Catherine Frot (Trilogia de Lucas Belvaux, 2002) é a generosidade e a bondade sem limites, e Isabelle Huppert (“Le Temps du Loup” – 2003, “I Heart Huckabees” – 2004) está mais uma vez irrepreensível na sua crueldade (a sua expressão habitual de estátua torna um sorriso completamente contra-natura). E, no entanto, a compaixão não nos deixa nunca recorrer à indiferença.

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ALIGN=JUSTIFY>CITAÇÕES:

ALIGN=JUSTIFY>COLOR=#AAAAAA> ““– Vous arrivez de province.
– Pourquoi, ça se voit tant que ça?”


ALIGN=JUSTIFY> “Hereuse? Il y a d’autres choses dans la vie.”
ISABELLE HUPPERT (Martine)









C'est Pas Tout à Fait la Vie Dont J'avais Rêvé **

08.10.05, Rita

ALIGN=JUSTIFY>Realização: Michel Piccoli. Elenco: Roger Jendly, Michèle Gleizer, Elizabeth Margoni, Monique Eberle, Nicolas Barbot. Nacionalidade: França, 2005.


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ALIGN=JUSTIFY>Apresentado como uma farsa e como uma fábula, “C'est Pas Tout à Fait la Vie Dont J'avais Rêvé” conta a história de um marido (Roger Jendly) que trai a mulher (Michèle Gleizer) com a amante (Elizabeth Margoni), e com a conivência da governanta (Monique Eberle).

ALIGN=JUSTIFY>A efusão com que bajula a amante contrasta com o silêncio das partidas de Scrabble que joga com a mulher, a quem rouba a pratas da família e garrafas da adega para seduzir a amante. A sustentabilidade desta situação só é possível graças à preciosa ajuda da governanta, que num minuto serve o jantar à amante e no minuto seguinte já serve o chá à mulher.

ALIGN=JUSTIFY>A rotina da vida familiar, que terá sido possivelmente uma das causas da amante, acaba, ironicamente, por se reproduzir na vida com esta última, com quem os jogos amorosos se tornam também repetitivos. A novidade não resiste ao passar do tempo e acabará por também ela perder o seu sentido.

ALIGN=JUSTIFY>Apenas a mulher rompe com este ciclo de comportamentos automatizados, ao descobrir a traição e seguindo o marido para confirmar as suas suspeitas. Mas estão todos de tal maneira metidos nos seus papéis que ninguém se dará conta desta sua descoberta.

ALIGN=JUSTIFY>O melhor deste filme é o início, extremamente bem construído. Michel Piccoli junta com extremo cuidado as peças que compõem o puzzle deste triângulo amoroso, sem nos dizer logo tudo, mas familiarizando-nos com a sua realidade. Misturando as duas casas, os dois espaços, as duas situações, da mesma forma que eles se interligam entre si e se reproduzem.

ALIGN=JUSTIFY>Mas Piccoli peca por um ritmo demasiado lento. Mesmo que a sua intenção tenha sido transmitir-nos a rotina do dia-a-dia e os hábitos mecanizados das personagens, não teria sido necessário fazer-nos passar pelo mesmo.

ALIGN=JUSTIFY>Parte da história é espelhada num espectáculo de fantoches a que o marido acompanha o neto. Este poderia ter sido um recurso útil para nos aproximar das personagens, contando-nos o seu passado e, sobretudo, as suas expectativas, que deveriam ser confrontadas com o presente de uma forma mais crassa. Mas ao invés, como o resto do filme, é uma reprodução daquilo que já sabemos, sem acrescentar nada à narrativa.

ALIGN=JUSTIFY>A música de Arno, “La Vie C’Est Une Partouze” (A Vida é Uma Orgia), faz mais pelo filme do que metade da sua duração. “C'est Pas Tout à Fait la Vie Dont J'avais Rêvé” teria dado uma bela curta metragem.


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ALIGN=JUSTIFY>CITAÇÕES:

ALIGN=JUSTIFY>COLOR=#AAAAAA> “Quand j’entends ce que j’entends, et je vois ce que je vois, j’ai raison de penser ce que je pense.”
ROGER JENDLY (O marido)



ALIGN=JUSTIFY>COLOR=#E90909> LA VIE C’EST UNE PARTOUZE
(Arno)


Il est tard ce soir
Ma tête dans l’brouillard
Mon goût salé, je sens la bière
Elle, la fraise
Le diable s’occupe de lui
Les anges sont en grève
Allongée, elle s’ennuie
Mais le pire de tout,
Elle est jolie
La vie c’est une partouze
La vie c’est une partouze

J’suis bien, bien avec rien
Mais mieux avec deux
Tout le monde a le droit
Le droit d’être con
J’suis le roi du monde
Je bois, je bois quand je veux
Je paye quand je peux
J’accepte l’hiver, j’aime bien l’été
J’suis le roi du monde
La vie c’est une partouze
La vie c’est une partouze
































Le Couperet ****

07.10.05, Rita

ALIGN=JUSTIFY>Realização: Costa-Gavras. Elenco: José Garcia, Karin Viard, Geordy Monfils, Christa Theret, Olivier Gourmet, Ulrich Tukur, Yvon Back, Thierry Hancisse, Philippe Bardy, Michel Carcan, Marc Legein, Dieudonné Kabongo Bashila. Nacionalidade: Bélgica / França / Espanha, 2005.


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ALIGN=JUSTIFY>Bruno Davert (José Garcia) é quadro superior de uma empresa de papel. Despedido na sequência de medidas de deslocalização e redução de pessoal, decide recuperar a sua vida. E, para isso, ele está disposto a qualquer coisa, mesmo matar os seus concorrentes directos.

ALIGN=JUSTIFY>Cáustico e irreverente desde o primeiro minuto, esta adaptação do livro “The Ax”, de Donald E. Westlake, versa sobre um tema já abordado em filmes como “L’Emplois du Temp” de Laurent Cantet (2001) e “L’Adversaire” de Nicole Garcia (2002).

ALIGN=JUSTIFY>É fácil associar o crime e as medidas anti-sociais extremas às populações mais desfavorecidas e/ou com menos formação. Mas aqui, Costa-Gavras fala de um homem com formação superior que, ao contrário de alguns seus concorrentes que procuram trabalho em actividades menos qualificadas para continuar a sua vida, ele não concebe a mudança, nem de ramo nem de casa, por exemplo. Bruno exige a manutenção do seu status quo, nunca se colocando em causa, de uma forma prática, a sua subsistência.

ALIGN=JUSTIFY>Mas em vez de ceder ao desespero, à angústia e à raiva, Bruno transfere tudo isso para os outros. Felizmente, faltam-lhe escrúpulos. Apesar da inverosimilhança de algumas soluções, como a rapidez com que as suas vítimas confiam nele, fazemos da vingança dele a nossa. Porque Bruno é humano: impulsivo, ciumento com a mulher, preocupado com a delinquência do filho, disposto a tudo por eles, hesitante e desajeitado com a arma que usa, sempre com dificuldades em retirar do bolso a Luger que o seu pai trouxe da II Guerra Mundial. O seu plano é pouco consistente, completamente falível e, no entanto, resulta. O acaso está do lado dele. Nós também.

ALIGN=JUSTIFY>Ao longo do filme, Bruno passa da pistola às armas brancas, que exigem uma maior proximidade à vítima, reflexo da sua aproximação aos seus concorrentes, com quem prolonga as conversas, e hesita cada vez mais.

ALIGN=JUSTIFY> Em “Le Couperet” há uma persistente campanha de publicidade a roupa interior feminina que nos distrai do que está a acontecer, da mesma forma que a sociedade se distraiu com tudo que é material, superficial e imagem. A proposta é re-centrar a sociedade em torno do homem.

ALIGN=JUSTIFY>Costa-Gavras faz a tensão nascer de quase nada, de um olhar, de um ruído, ou uma arma escondida. O jogo entre aquilo que é ocultado aos personagens mas que o espectador sabe sustenta o suspense.

ALIGN=JUSTIFY>Karin Viard é a mãe e esposa modelo, insegura mas o pilar psicológico da unidade familiar. Mas o filme é José Garcia, numa interpretação que impressiona pela sobriedade, a loucura contida e a maldade natural.

ALIGN=JUSTIFY>Num ambiente cru e realista, cheio de humor negro, e de uma forma quase leve, são levantadas questões de carácter político e social, onde podemos reconhecer, com medo, algo da nossa realidade, mais ou menos próxima.

ALIGN=JUSTIFY>A grande vantagem (?) de Bruno é, como referiu Costa-Gavras na apresentação do filme, ele ser uma personagem amoral, para quem os fins justificam os meios. Um Maquiavel dos tempos modernos. Numa conversa familiar essa questão vem ao de cima: – O fim justifica todos meios? – Não. Excepto em tempo de guerra. – Mas só uns poucos têm acesso aos meios. – Mesmo em tempo de guerra.

ALIGN=JUSTIFY>Mas a guerra deste filme não é entre países, é entre indivíduos, muitas vezes ex-colegas, é sobrevivência do mais forte, o regresso da lei da selva. Darwin ficaria orgulhoso pelos progressos evolutivos do homem. Esta é a revolução dos rejeitados. Acautelem-se, porque para lá caminhamos!


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ALIGN=JUSTIFY>CITAÇÕES:

ALIGN=JUSTIFY>COLOR=#AAAAAA> “Il faudrait remettre l’humain au centre.”