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CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

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CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

My Blueberry Nights **

06.05.08, Rita

Realização: Wong Kar Wai. Elenco: Norah Jones, Jude Law, Natalie Portman, Rachel Weisz, David Strathairn, Chan Marshall. Nacionalidade: Reino Unido / EUA, 2007.





Elizabeth (Norah Jones) vagueia pelas ruas de Nova Iorque, depois de um desgosto amoroso. No café de Jeremy (Jude Law) ela é tentada a provar a tarde de mirtilo, aquela que todos os dias é deixada intacta. Ao sair, Elizabeth esquece-se das chaves e volta para trás para encontrar, atrás do balcão do café, uma jarra cheia de chaves perdidas ou esquecidas. Elizabeth desabafa com Jeremy e a relação entre os dois começa a aprofundar-se em encontros regulares. Uma noite, Elizabeth adormece em cima do balcão e adivinha-se que Jeremy lhe roubou esse beijo. No dia seguinte Elizabeth sai da cidade. Na sua viagem, ela passa por Memphis, onde arranja trabalho como empregada de mesa e conhece Arnie Copeland (David Strathairn), um polícia alcoólico abandonado pela mulher Sue Lynne (Rachel Weisz), e por Las Vegas, onde empresta dinheiro a Leslie (Natalie Portman), uma jogadora inveterada que lhe dá o seu carro como garantia.


Wong Kar Wai tem um domínio estético irrepreensível, mas o que ele tinha conseguido em termos narrativos em obras como “In the Mood for Love” ou “2046”, também elas sobre o amor, a perda e a memória de um e outra, não funciona com este “My Blueberry Nights”. Nesta troca do “contemplativo” pelo “comercial” todos saímos a perder.


O argumento, co-escrito com Lawrence Block, propõe-se ser uma viagem de descoberta pessoal de uma rapariga normal através de outras pessoas que passam na sua vida, mas não conduz a lado nenhum. Elizabeth, a personagem de Norah Jones, não erra nem aprende, não cai nem se levanta, ou seja, não evolui. Sai da sua cidade mas nunca sai de si mesma, nunca se liga aos outros, nunca se envolve.


Para cúmulo, a escolha de Norah Jones (que parece ter sido feita através de um casting meramente auditivo) é desgraçadamente falhada. Se a sua música não passa de um morno sussurro, a sua interpretação é de uma insipidez sem limites. Sem emoção, sem sentimentos, sem capacidade para nos arrastar até si. Em contrapartida, as secundárias Natalie Portman como Leslie ou Rachel Weisz como Sue Lynne poderiam cada uma delas dar um filme, não só porque as suas personagens são muito mais interessantes mas sobretudo porque são Actrizes. O mesmo se passa com David Strathairn, com a sua efervescência camuflada. A opção de Chan Marshall (aka Cat Power) como a russa Katya é, no mínimo, dúbia. Além de que o uso demasiado recorrente da sua música ‘The Greatest’ consegue rasar o ridículo.


Wong Kar Wai costuma ser parco no que se refere a diálogos, o que, ao contrário de prejudicar as suas obras, reforça o seu impacto dramático, potenciado pela expressividade dos seus actores e pela sensibilidade do argumento. O mesmo não acontece neste caso, onde os mais abundantes diálogos se perdem em banalidades e numa desconsolada artificialidade. Talvez o facto de desta vez estar a trabalhar em inglês possa servir de justificação, mas não de desculpa.


O espaço americano, nas suas paisagens grandes e despojadas ou dos restaurantes pequenos e familiares, poderia ter servido a Wong Kar Wai como metáfora para o crescimento e desprendimento de Elizabeth, mas também esta gestão parece deixada ao acaso.


O elemento estético é, de facto, o único aspecto onde “My Blueberry Nights” marca pontos. Wong Kar Wai trocou o seu colaborador habitual Christopher Doyle por Darius Khondji mas manteve a sua assinatura, câmara-lenta, cores vibrantes e belos enquadramentos. E aqueles close-ups de gelado a derreter... Mnhamm! Ainda assim, algumas das opções, que começam por ser interessantes são levadas à exaustão, como é o caso dos planos através dos vidros do café de Jeremy.


Em suma, sim, “My Blueberry Nights” correspondeu às minhas expectativas. Infelizmente. Quem comece com este Wong Kar Wai terá na mão um mau cartão de visita.






CITAÇÕES:


“Elizabeth – So what's wrong with the Blueberry Pie?
Jeremy – There's nothing wrong with the Blueberry Pie, just people make other choices. You can't blame the Blueberry Pie, it's just... no one wants it.”
NORAH JONES (Elizabeth) e JUDE LAW (Jeremy)


“Katya – Sometimes, even if you have the keys those doors still can't be opened. Can they?
Jeremy – Even if the door is open, the person you're looking for may not be there, Katya.”
CHAN MARSHALL (Katya) e JUDE LAW (Jeremy)


“It took me nearly a year to get here. It wasn't so hard to cross that street after all, it all depends on who's waiting for you on the other side.”
NORAH JONES (Elizabeth)




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