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CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

Don't Come Knocking ***

08.12.07, Rita

Realização: Wim Wenders. Elenco: Sam Shepard, Jessica Lange, Tim Roth, Gabriel Mann, Sarah Polley, Fairuza Balk, Eva Marie Saint. Nacionalidade: França / Alemanha / EUA, 2005.





A primeira imagem de “Don't Come Knocking” faz lembrar uma máscara de papel, com dois buracos no lugar dos olhos e o céu como fundo. Mas trata-se, com efeito, de uma formação rochosa, certamente resultante de muitos anos de erosão.


Um cowboy cavalga em direcção ao horizonte, na árida e dura paisagem do deserto do Utah. Ele é Howard Spence (Sam Shepard), um actor em decadência, que decide abandonar o local de filmagens sem avisar ninguém. Na sua caravana fica pendurado um cartaz em que está escrito "Don't come knocking if the trailer's rocking". Howard quer ser deixado em paz, mas paz é exactamente aquilo que lhe falta e é em busca dela que Howard regressa ao Nevada, a casa da mãe (Eva Maria Saint) que não vê há 30 anos. Ela guarda um álbum de recortes que acompanha o percurso de escândalos de drogas, bebida e mulheres que foi a vida de Howard. Ele vê aquilo como se se tratasse de um estranho. Nesse encontro, Howard fica a saber pela sua mãe que tem um filho. Decidido a encontrá-lo, ele volta a Butte, Montana, lugar onde, muitos anos atrás, ele tinha feito um dos seus filmes mais famosos, e onde se tinha envolvido com Doreen (Jessica Lange), uma empregada de mesa. Aí ele encontra Sky (Sarah Polley), uma jovem que se faz acompanhar da urna da sua recentemente falecida mãe. Na peugada de Howard está também Sutter (Tim Roth), um funcionário da seguradora responsável pelo cumprimento do contrato cinematográfico de Howard e encarregue de o fazer voltar ao Utah.


Numa cidade quase fantasma, o silêncio e o espaço apelam à meditação como caminho para alcançar a paz interior. Exemplo disso é a noite passada por Howard ao relento em frente à casa de Earl (Gabriel Mann), o filho de Doreen. Numa narrativa circular, é estabelecida a ponte entre um passado perdido e um futuro que se apresenta caótico. Mas enquanto a mãe de Howard não lhe guarda qualquer ressentimento, o mesmo não sucede com Earl. É sobre esse presente que Howard se vê obrigado a agir. Com autenticidade e ternura, Shepard faz de Howard um ser complexo e envolvente, ainda que imaturo no seu envelhecimento e pouco convincente no seu arrependimento.


Wim Wenders (“Land of Plenty”) recupera a ambiência de “Paris, Texas” (1984), também com argumento de Sam Shepard e com uma personagem obrigada a enfrentar o seus demónios interiores. Mas é melhor terminar por aí com as comparações, porque se Howard consegue remediar parte dos seus erros, o regresso de Wenders ao seu passado pouco ou nada acrescenta à pérola que anteriormente nos tinha sido dada. O que não quer dizer que o filme seja um desperdício, nunca o seria com este elenco, onde se destaca a impressionante química do casal Shepard e Lange (juntos desde 1982) e a sensibilidade de Poley, nem com esta estética, onde Wenders, com a fotografia de Franz Lustig, volta a evocar o universo romântico e nostálgico do pintor Edward na força dos verdes, vermelhos e amarelos.






CITAÇÕES:


“Nothing that happened back then happened.”
SAM SHEPARD (Howard Spence)


















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