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CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

Ferro 3 ****

28.11.05, Rita

T.O.: Bin-jip. Realização: Kim Ki-duk. Elenco: Jae Hee, Lee Seung-yeon, Kwon Hyuk-ho. Nacionalidade: Coreia do Sul / Japão, 2004.





Bolas de golfe atiradas contra uma rede. Em pano de fundo uma estátua feminina. Assim começa o último filme de Kim Ki-duk, realizador do perturbante “O Bordel do Lago” (2000) e do belíssimo “Primavera, Verão, Outono, Inverno e... Primavera” (2003), e que, com “Ferro 3” obteve o prémio de melhor realizador na 61ª Mostra de Cinema de Veneza.


Tae-suk (Jae Hee) cola folhetos de restaurantes nas portas das casas. Mas esse não é o seu trabalho. Tae-suk volta mais tarde para ver se alguma delas tem ainda o papel na porta, se tiver, estará vazia, e ele terá onde passar a noite. Tae-suk arromba portas, mas não é um ladrão. Paga a generosidade ignorante dos seus hóspedes concertando aparelhos estragados e regando as plantas. Aproveita também para comer qualquer coisa, lavar roupa e ver um pouco de televisão.


Movendo-se como um fantasma, Tae-suk regista a sua existência através das fotografias que tira junto dos retratos dos donos em cada uma das casas. No meio da sua solidão descobriu uma forma diferente de se ligar ao mundo, protegendo-se das pessoas reais, tão diferentes das suas imagens.


Um dia, uma das casas não está vazia e Tae-suk cruza-se com Sun-hwa (Lee Seung-yeon), uma mulher agredida pelo marido (Kwon Hyuk-ho), um homem de negócios temperamental e com gosto pelo golfe. A Tae-suk não lhe restava mais que salvar Sun-hwa, por isso leva-a consigo por diversas casas de Seul e os dois juntos formam um barreira para o mundo exterior. A ligação instantânea e inexplicável entre ambos justifica a opção de Kim-duk pelo silêncio. Sem pretensões artísticas, ao excluir a troca de palavras entre os protagonistas, o filme enche-se de uma leveza que se preenche através dos corpos e das emoções. Agarrados a cada gesto e a cada olhar, entramos nas personagens e na sua relação de uma forma compulsiva.


Mas o destino tem outras coisas programadas para o casal, e quando Sun-hwa reproduz a cena inicial do filme, colocando-se, como a estátua do jardim, diante da bola de golfe de Tae-suk, tem início o fim do seu idílio. Do romance passa-se à tragédia, da vingança à redenção, do quotidiano à fantasia, do thriller ao misticismo.


Através do símbolo do taco de golfe do título, que se torna, por mais de uma vez, uma arma de prazer e de retaliação, mas também pela confrontação com a sensibilidade dos marginais, Ki-duk critica a hipocrisia da classe burguesa, ainda que a sua recusa em condenar o marido abusador venha testar a capacidade do espectador para o perdão.


Misturando imagens violentas com outras de perturbante beleza, “Ferro 3” está cheio de solidão, de medo, de desespero, de amor e de esperança. Ainda que pareça um sonho.





















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