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CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

Chansons d’Amour **1/2

29.10.07, Rita


 

Realização: Christophe Honoré. Elenco: Louis Garrel, Ludivine Sagnier, Clotilde Hesme, Chiara Mastroianni, Brigitte Roüan, Jean-Marie Winling, Alice Butaud, Yannick Renier, Grégoire Leprince-Ringuet. Nacionalidade: França, 2007.



 



 

Existe um problema quando, num filme musical, o ponto fraco reside exactamente na baixa qualidade das músicas e das interpretações. Somos obrigados a questionar a opção estilística para contar uma história que poderia beneficiar bastante mais da sua ausência. É esse o caso de “Chansons d’Amour”.


 

Ismaël (Louis Garrel) e a sua namorada Julie (Ludivine Sagnier) namoram há alguma tempo, mas há cerca de um mês, resolveram, de comum acordo, alargar a sua relação a uma terceira pessoa, Alice (Clotilde Hesme), uma colega de trabalho de Ismaël. Uma situação que parece, à primeira vista, satisfatória para todas as partes. Mas uma conversa de Julie com a sua mãe (Brigitte Roüan) e a irmã mais velha, Jeanne (Chiara Mastroianni), evidencia a fragilidade deste acordo. Apenas Alice, que se auto-denomina a “ponte entre os dois”, não se sente ameaçada ou insegura nesta relação, marcada sobretudo pela imaturidade de Ismaël. Neste contexto, a cama de Ismaël, demasiado pequena para os três, funciona como metáfora para o espaço emocional (in)sustentável.


 

Christophe Honoré (“Ma Mère”, “Dans Paris”) tem uma atenção particular com todas as suas personagens e com os seus actores, dando-lhes uma dimensão humana que foge à caricatura. Por isso, não se entende a necessidade de sintetizar as emoções nos parêntesis musicais a cargo de Alex Beaupain. Aliás, o potencial dramático e emocional das personagens é mais mascarado que reforçado) pelas canções. Neste campo, o crédito que dou a Honoré é o facto de tratar de igual modo técnico as cenas, sejam elas faladas ou cantadas. Um paralelismo que se estabelece com a sua imparcialidade na forma como trata, romanticamente, as diferenças preferências sexuais.


 

Honoré faz uso actores com apelidos carregados de história (como Garrel ou Mastroianni), de tal forma que o genérico inicial dispensa os nomes próprios. As interpretações são desconcertantemente naturais, sem caricaturas e interpretando as letras das músicas (para o bem e para o mal o termo ‘cantar’ não se aplica aqui) como se de diálogo se tratasse. Louis Garrel colabora com o realizador pela terceira vez, mas essa familiaridade, infelizmente, não se reflecte numa maior intensidade. O elevado e já provado potencial de Ludivine Sagnier (que já tinha cantado em “8 Femmes” de François Ozon's) embora não seja camuflado é pouco desafiado neste filme, enquanto Clotilde Hesme (amante de Garrel em “Les Amants Réguliers”) reforça o seu poder de domínio da objectiva. E pergunto-me porque razão Chiara Mastroianni não é mais “explorada” pelo cinema francês. Estes podem não ser os mesmos chapéus de chuva que os de ‘Cherbourg’ de Jacques Demy (1964) protagonizado pela sua mãe Catherine Deneuve, mas se há filha de peixes que sabe nada é esta!


 

E é exactamente entre uma mãe e uma filha que tem lugar o melhor diálogo de “Chansons d’Amour”, quando Julie conta à mãe sobre a introdução de Alice na sua relação com Ismaël e esta, curiosa por entender como funciona um trio, lhe pergunta se é complicado decidir quem faz o quê, ao que Julie responde que essa é a parte fácil. É engraçado como por diversas (muitas) vezes nos preocupamo-nos com as coisas erradas.


 

As três partes em que se divide “Chansons d’Amour” (Le Départ, L’Absense e Le Retour), cobrem alguns dos cinzentos que estão entre o amor e o desejo. O prazer feminino que está no centro do acordo inicial, transita – entre o ciúme, a perda e a dor – para o lado masculino (da mesma forma que poderia ter sido feito o percurso inverso), um caminho suave e natural, totalmente indiferente às definições biológicas e às convenções sociais. Ou seja, a universalidade do amor, como a universalidade da música.


 

Mas os nossos sentimentos não são poesia e métrica, são coisas atabalhoadas, precipitadas, repensadas, repetidas, gaguejadas, a paixão é caótica e exaltada e não pode nunca caber numa estrofe.



 




 

CITAÇÕES:


 

Se taire langue contre langue. Un dialogue de sourd.
CLOTILDE HESME (Alice)


 

Les amours qui durent font des amants exsangues et leurs baisers trop mûrs nous pourrissent la langue. Les amours passagères ont de futiles fièvres et leurs baisers trop verts nous écorchent les lèvres. Car à vouloir s'aimer pour la beauté du geste, le vers dans la pomme nous passe au travers des dents.
Aime moi, mais plus longtemps.”
LOUIS GARREL (Ismaël)




 

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