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CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

O Sabor da Melancia **

08.10.07, Rita

T.O.: Tian bian yi duo yun. Realização: Tsai Ming-liang. Elenco: Lee Kang-sheng, Chen Shiang-chyi, Lu Yi-Ching, Kuei-Mei Yang, Sumomo Yozakura. Nacionalidade: França / Taiwan, 2005.





Uma mulher vestida de enfermeira está deitada numa cama de pernas abertas. Presa entre elas está uma melancia, objecto da atenção da língua de um homem, que passa do paladar ao tacto introduzindo dois dedos na polpa vermelha da melancia, enquanto a mulher geme de prazer. Uma cena simultaneamente erótica e ridícula, que marca o tom de desaprovação moral que caracteriza “O Sabor da Melancia”.


Taipé está sob uma onda de seca e, à falta de água, a população recorre ao sumo de melancia para suprir as suas necessidades. (Ao longo do filme, torna-se inevitável ler, analogamente, a falta de amor como razão do recurso à pornografia.) Shiang-chyi (Chen Shiang-chyi) regressa a Taipé no contexto de uma forte seca que assola a zona. Aí, ela reencontra Hsiao-kang (Lee Kang-sheng) e ambos têm oportunidade de viver o seu amor. O que ela não sabe é que Hsiao-kang é agora um actor porno que se encontra a fazer um filme no mesmo prédio onde Shiang-chyi vive.

À semelhança de “Adeus, Dragon Inn” e “I Don't Want To Sleep Alone”, Tsai Ming-liang volta a abordar a temática da solidão, do desejo e da busca do amor. Mantendo-se fiel aos seus actores de sempre, e com o seu modus operandi de poucos diálogos e takes estáticos e longos, Ming-liang opta pela abordagem esteticamente forte da pornografia e do musical (os números artísticos, na minha humilde opinião totalmente despropositados, incluem, por exemplo, bailarinas acariciando uma estátua de Chiang Kai-Shek).


Entre estes dois amantes transpirados, pegajosos e sujos não há sexo. Como se a descoberta de sentimentos tivesse de ser isenta desse contacto, e como se o corpo apenas possa ser usado quando liberto de emoções e por isso objectificado. A falta de esperança (ou de água), a solidão e a angústia impedem que a experiência sexual seja íntima e emocional. E é neste contexto que Tsai Ming-liang concebe a pornografia.


Acho esta visão demasiado redutora e talvez seja isso que me manteve longe da experiência emocional que Tsai Ming-liang pretendia. Mas louvo aquele momento intenso – e erótico –quando ambos descansam debaixo da mesa após o jantar e Shiang-Chyi prende um cigarro entre os dedos do pé e dá-o a fumar a Hsiao Kang.


Não gosto de melancia. Nem sem bem se pelo sabor se pela consistência. Obviamente que não é pela estética, porque poucos frutos serão tão atraentes. Com “O Sabor da Melancia” passa-se um pouco a mesma coisa.
















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