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CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

Très Bien, Merci ****

16.08.07, Rita

Realização: Emmanuelle Cuau. Elenco: Gilbert Melki, Sandrine Kiberlain, Olivier Cruveiller, Emmanuel Salinger, Frédéric Pierrot, Emilie Chesnais, Christophe Odent, René Remblier, Grégory Gadebois. Nacionalidade: França, 2007.





Alex Maupain (Gilbert Melki) é contabilista numa grande empresa e casado com Béatrice (Sandrine Kiberlain), taxista. A sua aparentemente tranquila existência está impregnada de um mau-estar que nem uma cerveja ao final do dia parece atenuar. Alex está prestes a providenciar informações ao seu patrão que poderão causar o despedimento do seu melhor amigo, Landier (Olivier Cruveiller).


Uma noite, Alex assiste a um controlo de identidade efectuado pela polícia. Em vez de continuar o seu caminho, como o aconselham os agentes, Alex decide ficar a ver o que acontece. No momento seguinte, Alex encontra-se a passar a noite numa fria cela de prisão. Na tentativa de defender os seus direitos, Alex termina internado num hospital psiquiátrico, sem que a sua mulher se tenha dado conta de ter assinado um HDT, i.e., uma hospitalização a pedido de um terceiro. Em virtude desse internamento e do processo burocrático a ele inerente, Alex perde o seu emprego. Agastado pelo peso da inadaptação, nem o apoio dado por Béatrice parece ser suficiente. Na espiral de absurdos que se origina, Alex assiste à perda de controlo sobre a sua vida, até ao momento em que decide jogar com as regras que lhe são impostas.


Da prisão ao internamento, do despedimento à procura de emprego, Alex insurge-se contra as decisões arbitrárias que parecem conspirar contra si. A sua opção é de revolta contra a obediência passiva numa sociedade cada vez mais vigilante e repressiva e esmagada por uma burocracia kafkiana, mais preocupada em internar ou punir do que em compreender ou educar.


Fazendo uso de um humor por vezes desesperado, a realizadora Emmanuelle Cuau constrói uma sátira sobre a paranóia do controlo na sociedade actual, onde se é culpado até prova em contrário, sobre o frio olhar das instituições sobre as pessoas que as compõem, e das consequências das leis no quotidiano dos indivíduos. Gilbert Melki (“Les Temps Qui Changent”) e Sandrine Kiberlain (“Après Vous...”) entregam-se de forma sóbria às suas personagens fazendo suas as palavras dos diálogos escritos por Cuau e Agnès Caffin.


Marcado por uma fina ironia, “Très Bien, Merci” mostra como a alienação social pode fazer com que um indivíduo duvide da sua própria saúde mental, chegando ao ponto de apenas se sentir cómodo no local onde, paradoxalmente, a loucura é também ela livre.


É inquietante pensar que, hoje em dia, raramente se pergunta “porquê?”. Quando alguém se atreve a fazê-lo é demasiado fácil e tentador colocar rótulos. É assustador ver como a aceitação sem reservas, sem questionar, é a única forma de garantir uma existência pacífica, ainda que ilusória. É esta a loucura da nossa normalidade.
















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