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CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

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Indigènes - Dias de Glória ***1/2

23.05.07, Rita

Realização: Rachid Bouchareb. Elenco: Jamel Debbouze, Samy Naceri, Roschdy Zem, Sami Bouajila, Bernard Blancan, Assaad Bouab, Mathieu Simonet, Benoît Giros, Antoine Chappey. Nacionalidade: França / Marrocos / Argélia / Bélgica, 2006.





Os “indígenas” são os mais de 100.000 magrebinos provenientes das colónias francesas em África que combateram pela França durante a Segunda Guerra Mundial. O filme do argelino Rachid Bouchareb, nomeado para o Oscar de Melhor Filme de Língua Estrangeira, segue um grupo deste homens desde o seu recrutamento na Algéria em 1943, o seu magro treino em Marrocos, a sua primeira batalha em Itália, até França e à sua última batalha na Alsácia, aguardando o reforço das tropas aliadas.


O argumento de Bouchareb e Olivier Lorelle acompanha a história episódica de um grupo de árabes: Saïd (Jamel Debbouze - “Amélie”, “Angel-A”), que deixa a pobreza da sua casa para se alistar no exército, acabando por se tornar assistente pessoal do Sargento Martinez (Bernard Blancan); o inteligente Cabo Abdelkader (Sami Bouajila) que ambiciona uma carreira militar; o romântico Messaoud (Roschdy Zem), que se apaixona por uma francesa em Marselha; e os irmãos marroquinos Yassir (Samy Naceri) e Larbi (Asaad Bouab), tentando sobreviver e juntar dinheiro (mesmo pelo saque) para poder casar Larbi.


Apesar de nunca terem visto aquele país e da família de muitos deles ter sido massacrada pelo colonizador em nome da “pacificação”, estes homens consideram-se cidadãos franceses. Os oficiais exploram o seu (irónico) patriotismo, fazendo-lhes promessas ilusórias, para que morram pela “mãe-pátria”, uma mãe que os trata como filhos bastardos e que apenas espera que eles sigam cegamente as suas ordens. Mas o sentido do dever é abalado pela desconfiança, quando começam a perceber que o apregoado lema da “liberdade, igualdade e fraternidade” parece não se estender a eles. À sua luta contra o nazismo, acrescenta-se a luta contra o racismo dentro das suas próprias fileiras. Nem sequer as fardas os tornam iguais. Tratados como inferiores, e a quem é negado equipamento, promoções e até um simples tomate na sua ração. A discriminação é ainda mais gritante no caso dos negros sub-saharianos.


As cenas de batalha são de forte impacto, sobretudo porque a câmara se move como estando ao lado destes homens. Mas o elemento de maior força simbólica neste filme é a terra, nas explosões mas também como elemento de nacionalidade e de pertença (afinal de contas, nem toda ela cheira ao mesmo).


As personagens de “Indigènes” não fogem a tipificações e o filme é consideravelmente panfletário, especialmente nas suas cenas finais. Relevando esse facto, há que valorizar o elemento de chamada de atenção, recordando a França (e o mundo) do injusto tratamento a que votou estes homens. Em 1959, com a descolonização, o governo francês congelou as pensões dos ex-combatentes não-franceses. Todos os sucessivos governos se recusaram a suprir esta dívida e somente em 2006, com a saída de “Indigènes”, o Presidente Jacques Chirac rectificou esta medida.


Infelizmente, estas desigualdades não terminam na Segunda Guerra Mundial. O valor do ser humano não se mede pela utilidade que ele tem para nós em determinado momento. Até conseguirmos respeitar a dignidade inerente a cada um, como parte de uma sociedade que não se extingue no nosso pequeno bairro nem nos nossos pequenos objectivos nunca poderemos, com efeito, apregoar um conceito de “humanidade”.
















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