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CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

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CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

Zodiac ****

21.05.07, Rita

Realização: David Fincher. Elenco: Jake Gyllenhaal, Mark Ruffalo, Robert Downey Jr., Anthony Edwards, Brian Cox, Elias Koteas, Donal Logue, John Carroll Lynch, Chloë Sevigny. Nacionalidade: EUA, 2007.





Do final dos anos 60 até ao início da década de 70, um serial killer auto-denominado Zodiac reclamou 37 assassinatos na zona de São Francisco. O número pode ter sido exagerado por uma fome de fama, mas pelo menos cinco desses crimes são garantidamente de sua autoria.


David Fincher (“Seven”, “Fight Club”) que cresceu nessa zona, revisita o tempo de terror e tensão vividos pela população e os esforços das equipas de investigação - polícia e imprensa. O filme “Zodiac” baseia-se no livro homónimo de Robert Graysmith, um cartoonista que trabalhava no jornal San Francisco Chronicle e que é aqui interpretado por Jake Gyllenhaal. À semelhança de outras publicações o The Chronicle recebeu cartas e cifras de Zodiac com ameaças e troçando do trabalho policial. O caso estava nas mãos de Paul Avery (Robert Downey, Jr.), um jornalista rebelde que tentava cobrir todos os ângulos de uma investigação que abrangia várias jurisdições. Mas o fascínio de Graysmith por puzzles fê-lo acompanhar de perto os desenvolvimentos, coleccionando toda a informação existente. Do lado da polícia, os crimes perpetrados pelo Zodiac estavam a cargo dos detectives David Toschi (Mark Ruffalo) e William Armstrong (Anthony Edwards), da polícia de São Francisco, do Sargento Jack Mulanax (Elias Koteas) em Vallejo, e do detective Ken Narlow (Donal Logue) no condado de Napa Valley.


O filme de Fincher centra-se em Graysmith, Avery e Toschi e sobre a sua incapacidade, a título individual, de deixarem este mistério sem solução, da sua obsessão pela verdade e das consequências da mesma na vida pessoal de cada um deles. Mas “Zodiac”, mais do que preocupar-se pela personagem que lhe dá o nome (ou pelas cogitações sobre a sua psicologia), foca o terror da ameaça velada que a sua simples existência implica na comunidade (a cidade de São Francisco esteve inclusive sob recolher obrigatório). “Zodiac” alude igualmente, de uma forma nada ostensiva, à fome dos media pela história de Zodiac. Um apetite que é recíproco, desde a fixação de Zodiac no filme “The Most Dangerous Game” (Irving Pichel e Ernest B. Schoedsack, 1932) à preocupação por quem o interpretará quando a sua história for adaptada ao cinema.


O grande desafio de Fincher é manter o nosso interesse numa história sem desfecho, ou melhor, uma história baseada num crime que oficialmente está ainda por resolver. Abdicando desde logo dessa ilusão, Fincher coloca-nos dentro da obsessão das suas três personagens centrais. Entre pistas, suspeitos, ficheiros perdidos, informação não partilhada e frustrantes becos sem saída, acompanhamos com prazer o trabalho de dedução dos jornalistas e da polícia (numa versão bem mais real do que estamos habituados) na tentativa de juntar os pedaços de informação num todo coerente. Saltando de pergunta em pergunta somos conduzidos às mesmas respostas (ou dúvidas) que os investigadores.


A realização de Fincher e o argumento de James Vanderbilt constroem uma história de detalhe, suspense muitas vezes hitchockiano, planos belíssimos e crimes habilmente filmados. Do design de produção de Donald Graham Burtcom vai um destaque para a sala da redacção, totalmente seventies. No campo dos efeitos especiais, o belíssimo recurso de passagem temporal com a construção acelerada da Transamerica Pyramid.


É exactamente no tema tempo que poderão haver algumas críticas a “Zodiac” e ao seu ritmo. Críticas com as quais discordo, porque me parece essencial, por um lado, captar os detalhes envolvidos num processo deste tipo, e, por outro, apercebermo-nos da extensão temporal deste dramático episódio, numa investigação que se arrastou durante diversos anos de uma forma errática.


Sou uma fã praticamente incondicional de Fincher (apenas um minor disappointment com “Panic Room”) e “Zodiac” faz total jus ao seu talento. E uma peça essencial desse êxito é a matéria prima interpretativa: um trio de poderosos actores apoiados por uma série de secundários de elevada categoria (persiste ainda a perturbante imagem de Jake Gyllenhaal, numa das cenas finais, quando olha nos olhos aquele que ele acredita ser o responsável pelos crimes).


Em “Seven” Fincher deu-nos a ficção do serial killer, em “Zodiac” dá-nos a realidade. Ao contrário da primeira, onde é possível uma resolução (seja ela optimista ou pessimista), na vida nem sempre as culpas encontram a sua origem.



























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