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CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

Babel *****

09.01.07, Rita

Realização: Alejandro González Iñárritu. Elenco: Brad Pitt, Cate Blanchett, Gael García Bernal, Adriana Barraza, Kôji Yakusho, Rinko Kikuchi, Elle Fanning, Nathan Gamble, Mohamed Akhzam, Boubker Ait El Caid, Said Tarchani, Mustapha Rachidi, Michael Pena, Clifton Collins Jr.. Nacionalidade: EUA / México, 2006.





Um casal americano com problemas conjugais, Richard (Brad Pitt) e Susan (Cate Blanchett), vê as suas férias em Marrocos serem abaladas quando Susan é alvejada no autocarro onde viajam. Yussef (Boubker Ait El Caid) e Ahmed (Said Tarchani), filhos de um pobre pastor marroquino, brincam com a espingarda que o pai acabou de comprar para matar chacais. Amelia (Adriana Barraza), a ama de Mike (Nathan Gamble) e Debbie (Elle Fanning), filhos de Richard e Susan, não consegue arranjar ninguém que tome conta deles, e decide levá-los consigo e com o seu sobrinho Santiago (Gael García Bernal) ao casamento do seu filho no México. Tudo corre bem até que, no regresso, são inspeccionados pela zelosa polícia fronteiriça. Chieko (Rinko Kikuchi) é uma adolescente japonesa surda em pleno despertar sexual que direcciona a sua raiva contra o pai, Yasujiro (Kôji Yakusho), de quem se sente afastada desde a morte da sua mãe.


À semelhança dos seus anteriores filmes da equipa Guillermo Arriaga e Alejandro González Iñárritu, argumentista e realizador respectivamente, “Amores Perros” (2000) e “21 Grams” (2003), também “Babel” é tecido com várias narrativas que se interligam. Cada uma delas contém em si mesma um tremendo peso e profundidade, o que torna o resultado global emocionalmente avassalador. O novelo é tecido com mestria, a tensão é acumulada e libertada nos momentos adequados e, apesar dos saltos temporais e espaciais, “Babel” nunca se torna confuso, ao contrário do que se poderia esperar de um filme com este título.


“Babel” faz um retrato duro e incisivo sobre a comunicação no mundo actual, ou melhor, a falta dela. Mas Guillermo Arriaga e Alejandro González Iñárritu não se limitam a evidenciar diferenças culturais. Os “idiomas” que “Babel” põe em causa vão desde o político (a Embaixada Americana mostra-se mais interessada em acusar terroristas e publicitar o incidente nos noticiários do que a enviar uma ambulância para socorrer Susan); até ao pessoal, quando dois indivíduos que falam a mesma língua e partilham uma vida em comum se comportam como estranhos. Pelo caminho passa-se por todo um conjunto de malentendidos e preconceitos, Iñárritu coloca-nos, sem misericórdia, perante uma revoltante realidade.


Mas mostra-nos também a possibilidade de luz, na força que a empatia tem de derrubar barreiras que parecem intransponíveis. Os momentos mais tocantes de “Babel” são os instantes em que, de facto, os seres humanos atravessam essa ponte que os separa do outro: quando Amelia fala com Mike e Debbie em espanhol e eles, entendendo-a, lhe respondem em inglês; quando, a um nível humanamente básico de entendimento, uma idosa acalma a dor de Susan; quando Chieko transmite toda a sua vulnerabilidade a um estranho; ou quando Richard e Susan se reencontram no limite da fragilidade. Infelizmente, parece que o sofrimento é a única forma de fazer com que o ser humano se veja reflectido no outro.


“Babel” está cheio de boas interpretações, habilmente doseadas em termos de celebridade e equilibradas em termos de tempo de ecrã. Brad Pitt tem uma das suas melhores interpretações, como um homem que fugiu à tragédia no seu passado, mas que desta vez está firmemente decidido a ficar e lutar. Adriana Barraza é fabulosa e desconcertante, e Rinko Kikuchi, limitada à expressão facial e corporal, é especialmente impressionante.


“Babel” é um filme trágico e belo, que exige ao espectador, de uma forma quase contínua, a digestão de dramas humanos que, exactamente por serem de outros, nos pertencem a todos. Mas conseguir ler neste filme a esperança (a generosidade de que o Homem é capaz para com o seu semelhante) é a tarefa mais complicada. Quem o consiga, terá aqui uma experiência cinematográfica verdadeiramente gratificante.


Temos todas as capacidades de chegarmos uns aos outros, e teimamos em fechar-nos no nosso mundo, falsamente controlado e falsamente limitado. Não é Deus que castiga o Homem. É ele que se inflige a si próprio este castigo, insistindo num comportamento altamente destrutivo, recusando-se a escutar, a entender, a tolerar o outro, que é, no fundo, ele próprio.








Génesis 11

A torre de Babel


1 - Naquele tempo toda a humanidade falava uma só língua.

2 - Ora, deslocando-se e espalhando-se em direcção do oriente, os homens descobriram uma planície na terra de Babilónia e depressa a povoaram.

3 - E começaram a falar em construir uma grande cidade, para o que fizeram tijolos de terra bem cozida para servir de pedra de construção e usaram alcatrão em vez de argamassa.

4 - E nessa cidade projectaram levantar um templo com a forma de uma torre altíssima que chegasse até aos céus, qualquer coisa que se tornasse um monumento a si próprios. Isto, disseram, impedirá que nos espalhemos ao acaso pela terra toda.

5 - O Senhor desceu para ver a cidade e a torre que estavam a levantar:

6 - Vejamos: se isto é o que eles já são capazes de fazer, sendo um só povo com uma só língua, não haverá limites para tudo o que ousarem fazer.

7 - Vamos descer e que a língua deles comece a diferenciar-se noutras línguas, de forma que uns não entendam os outros.

8 - E foi dessa forma que o Senhor os espalhou sobre toda a face da terra, tendo cessado a construção daquela cidade.

9 - Por isso ficou a chamar-se Babel , porque foi ali que o Senhor diferenciou a língua dos homens, e espalhou-os por toda a terra.








































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