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CINERAMA

CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

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CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA

A Prairie Home Companion ****

07.11.06, Rita

Realização: Robert Altman. Elenco: Woody Harrelson, Tommy Lee Jones, Garrison Keillor, Kevin Kline, Lindsay Lohan, Virginia Madsen, John C. Reilly, Maya Rudolph, Meryl Streep, Lily Tomlin, Marylouise Burke, L.Q. Jones. Nacionalidade: EUA, 2006.





A Prairie Home Companion é o nome de um programa de variedades semanal apresentado na rádio por Garrison Keillor. É ele o argumentista do mais recente “último filme” de Robert Altman (“Gosford Park”, 2001).


Keilllor constrói uma narrativa ficcional em torno de um programa de rádio local do Midwest americano que está prestes a fazer a sua última edição. O teatro onde é emitido (Teatro Fitzgerald em St. Paul, Minnesota) foi comprado por uma grande empresa Texana (representada pelo carrasco Tommy Lee Jones) que tenciona transformá-lo num parque de estacionamento.


Apesar dos mais de 30 anos de duração do programa, o seu anfitrião, G.K. (o próprio Garrison Keillor), recusa-se a encarar com fatalismo este momento. Como ele mesmo diz “every show is your last show”. Os convidados do programa são presenças regulares que regressam para a despedida. Entre eles, encontram-se as irmãs Yolanda e Rhonda Johnson (Meryl Streep e Lily Tomlin), o que resta de uma família de cantores e cuja relação não é isenta de alguma amargura, e a dupla de cowboys / cantores / humoristas Dusty e Lefty (Woody Harrelson e John C. Reilly). Em volta de todos eles, reúnem-se os secundários: uma maquilhadora (Sue Scott), um encenador neurótico (Tim Russell), uma exasperada assistente (Maya Rudolph), a senhora das sandes (Marylouise Burke) que mantém um fogoso romance com uma das estrelas do espectáculo Chuck Akers (L.Q. Jones), a filha de Yolanda, Lola (Lindsay Lohan), uma jovem poeta com fixação em suicídio, e Guy Noir (Kevin Kline), um detective privado perdido na estética dos anos 40, reduzido a fazer de segurança ao programa (uma personagem tão fora que chega a distrair-nos).


Altman integra todas estas personagens com a sua habitual mestria. A sua câmara vai passeando, imiscuindo-se no seu mundo, como se de uma mosca se tratasse. Para o espectador é como se lhe fosse dado ver pequenos pedaços de intimidade, exactamente aqueles que nos permitem perceber quem são realmente estas pessoas. A sobreposição de diálogos adiciona verosimilhança e fluidez a estas transições (num óptimo trabalho de edição de Jacob Craycroft). Mas mais do que uma história, “A Prairie Home Companion” é um conjunto de momentos, conversas e olhares, tensões e canções.


A inevitabilidade do fim - reforçada pela presença fantasmagórica de Virginia Madsen - não impede que queiramos acompanhar esta “família” até ao último instante, até que a última onda hertziana chegue até nós. E ainda que o sentimento dominante seja o de nostalgia, este não reporta aos “bons velhos tempos” (aliás o humor de “A Prairie Home Companion” reside essencialmente nas memórias dos tempos miseráveis que ficaram para trás) mas antes da estranha sensação de se perder algo que nunca sequer existiu. Mas, ainda assim, Keilllor e Altman introduzem a nota de mudança na transformação de Lola e de renascimento na gravidez de Molly.


É tremendamente gratificante ver um maravilhoso elenco entregue, em conjunto, de alma e coração a um processo criativo. A capacidade de Altman de criar um ambiente seguro para a improvisação reflecte-se na fantástica química entre Meryl Streep e Lily Tomlin e entre Woody Harrelson e John C. Reilly. Essa comunhão é especialmente visível na cena em que G.K. tem de dizer um anúncio sobre fita adesiva, mas do qual perde o guião. Para o ajudar, todos se juntam numa hilariante jam session. Por falar em música, toda ela gravada ao vivo pelo próprio elenco, há que fazer um destaque especial a Meryl Streep - que bem canta esta senhora!


“A Prairie Home Companion” relata, com um humor inteligente, um mundo de amor à beira do colapso (a vida como ela mesma, imperfeita até ao âmago!). Aos 81 anos, Altman entende a morte como uma parte inexorável do ciclo da criação. Em muitos momentos, ele parece estar a querer dizer-nos algo muito pessoal (Paul Thomas Anderson era o realizador suplente para este filme, no caso de Altman não conseguir terminá-lo, por razões de saúde). A personagem de Virginia Madsen diz em determinado momento que a morte de um homem idoso não é uma tragédia. Ninguém acredita nisso.






CITAÇÕES:


“She had a Mount Rushmore t-shirt on, and those guys never looked so good. Especially Jefferson and Lincoln. Kind of bloated but happy.”
KEVIN KLINE (Guy Noir)

“We come from people who brought us up to believe that life is a struggle, and if you should feel really happy, be patient: this will pass.”
GARRISON KEILLOR (G.K.)

“Why do you work so hard to get what you don't even want?”
JEARLYN STEELE























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