CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA
Quinta-feira, 30 de Novembro de 2006
Grbavica *****

Realização: Jasmila Žbanić. Elenco: Mirjana Karanović, Luna Mijović, Leon Lucev, Kenan Catic, Jasna Ornela Berry, Dejan Acimovic, Bogdan Diklic, Emir Hadzihafisbegovic. Nacionalidade: Áustria / Bósnia-Herzegovina / Alemanha / Croácia, 2006.





“Sarajevo, meu amor”. Este deveria ser, à semelhança de França, o título deste filme em português. O titulo também de uma canção popular.


Esma (Mirjana Karanović) é mãe solteira e vive no bairro de Grbavica, em Sarajevo. Trabalha num bar e faz vestidos por encomenda, mas nem assim consegue reunir o dinheiro necessário para pagar a excursão da escola da sua filha de 12 anos, Sara (Luna Mijović). Pela apresentação de um certificado provando que o seu pai foi um mártir da guerra (shaheed), os jovens têm um desconto na viagem, mas Esma parece disposta a manter a verdade para si própria.


As inseguranças de Sara, típicas de qualquer adolescência, exigem-lhe que marque a sua posição frente a uma mãe que, mesmo que extremosa, desempenha o papel de autoridade. Sara quer saber quem era o seu pai e que feições passaram geneticamente para ela, quando tudo o que Esma quer é esquecer. Mas o seu processo é de fuga; o grupo de apoio em que participa é para ela apenas a fonte de mais uns dinheiros mensais. O aparecimento de Pelda (Leon Lucev), segurança do dono do bar onde Esma trabalha, vem, no entanto abrir-lhe a possibilidade de um novo caminho.


De uma forma inteiramente pessoal, e com um cunho intimista (e por isso duro), a realizadora Jasmila Žbanic, vencedora do Urso de Ouro na 56ª edição do Festival de Berlim, analisa um aspecto verdadeiramente horripilante: as violações em massa de mulheres durante a guerra da Bósnia (a estimativa oficial - e, por isso, por baixo - é de 20 000 mulheres violadas por soldados sérvios entre 1992 e 1995).


Žbanic olha, de uma forma corajosa para estas vidas, símbolo de todas as vítimas, directas e indirectas, deste conflito (e de tantos outros). Apesar da guerra ter terminado, os seus efeitos são muito mais duradouros do que a maioria de nós julga (considerando quem, como eu, vive - felizmente - longe desses extremos atropelos humanos), e a sensação de injustiça persiste.


“Grbavica” conta com duas magistrais interpretações por parte de Mirjana Karanović (“Underground”, “Life is a Miracle”) e da estreante Luna Mijović, completamente entregues a um processo de reconstrução, procurando encontrar significado no meio da devastação (pessoal), eliminando os elementos que evocam um passado brutal, e, por fim, aceitando-o e libertando-se dele.


Žbanic tem uma imensa atenção ao detalhe, carregando cada cena de todo o significado possível. Não de todos os significados, entenda-se. É uma questão de intensidade, não de extensão. Žbanic faz-nos perceber todas as inquietudes, todas as dúvidas e todas as contradições das suas personagens. E sabemos que um filme é bom quando uma mão colada a um vidro diz tanta coisa.


Há um tom de tragédia em todo o filme, ampliado pela brancura e pelo frio. Não se trata de uma tragédia iminente, mas sim imanente - que persiste naquelas pessoas, que vem de dentro, em silêncio, através de olhares magoados e gestos cortados. Um filme desarmante e comovente, de uma seriedade e uma gravidade a que nenhum de nós, como ser humano, pode ficar indiferente.






P.S. - O distribuidor local do filme na Bósnia-Herzegovina, Oscar Film, decidiu não fazer sair o filme para as salas. A sua justificação é a seguinte: “We live in the Serb part of Bosnia and we don't want to provoke a revolt of the Serb population and, since there is no interest in the movie, we do not have the economic interest to show it.”

Trágico...






realizado por Rita às 01:41
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Quarta-feira, 29 de Novembro de 2006
Thank You For Smoking **1/2

Realização: Jason Reitman. Elenco: Aaron Eckhart, Maria Bello, Cameron Bright, Adam Brody, Sam Elliott, Katie Holmes, David Koechner, Rob Lowe, William H. Macy, J.K. Simmons, Robert Duvall, Kim Dickens. Nacionalidade: EUA, 2005.





Querendo ser uma sátira à sociedade, à política, à exploração mediática e à manipulação de opinião, “Thank You For Smoking”, baseado no livro de 1994 de Christopher Buckley, acaba por ser um filme que não se compromete com nenhum ponto de vista, terminando num olhar morno sobre algo que poderia ter facilmente a dimensão de um Michael Moore. A imparcialidade nem sempre tem mais força dramática.


Nick Naylor (Aaron Eckhart) é porta-voz de um lobby tabaqueiro, defendendo os direitos dos indefensáveis gigantes corporativos. Um improvável herói, cuja moral pessoal está completamente obnubilada pelo seu dever laboral, e por um talento - a argumentação - que parece conduzi-lo inevitavelmente a trabalhar do lado dos “maus” (deliciosa interpretação de J.K. Simmons como patrão de Naylor). Naylor reúne-se regularmente com os seus amigos Polly Bailey (Maria Bello) e Bobby Jay Bliss (David Koechner), os três auto-denominando-se ‘M.O.D. squad’ ( de ‘Merchants of Death’), a primeira promovendo as bebidas alcoólicas, o segundo as armas. Os três competem pelo maior número de mortes e trocam estratégias. Naylor pretende que Hollywood, na pessoa do agente Jeff Megall (Rob Lowe), recupere a imagem sexy dos cigarros no cinema, mas o seu verdadeiro desafio é um senador ambientalista, Ortolan K. Finistirre (William H. Macy), mas cuja retórica, no entanto, não constitui qualquer ameaça à excelência de Naylor.


O que é interessante em “Thank You For Smoking” é ver como um homem que consegue justificar-se perante um adolescente diagnosticado com cancro, consegue também levantar-se todos os dias e olhar-se no espelho, ou mesmo nos olhos do seu filho Joey (Cameron Bright, “Birth”), para quem ele é um herói. Como ele mesmo explica, a sua profissão requer uma flexibilidade moral que não está ao alcance de todos.


Mas “Thank You For Smoking” tem muito pouco a ver com cigarros ou com os fundamentalismos, de um lado e de outro, do actor de fumar. É um filme sobre manipulação, e sobre os valores morais estamos dispostos a vender para pagar os nossos empréstimos.


Na sua primeira realização, o filho do realizador Ivan Reitman, evita o tom de sermão, procurando deliberadamente um equilíbrio de pontos de vista. O seu grande erro é ridicularizar personagens já de si pouco densas, evitando desconstruir as suas motivações, e, em consequência, enfraquecendo qualquer opinião que elas possam ter. E apesar da capacidade de Eckhart (“Suspeck Zero”, “The Black Dalia”) ser simultaneamente charmoso e execrável eu, pessoalmente, estava bastante indiferente ao seu destino, redentor ou não.


Eu não sou fumadora, mas também não sou apologista de radicalismos (uma cidade americana já proibiu os cigarros em todos os sítios públicos ao ar livre -sim, ar livre!). E tinha a esperança que este filme viesse detractar a obsessão (não só) americana com o politicamente correcto, cujo extremo parece agora ser a imposição de um conjunto de medidas que, em vez de protegerem as liberdades de uns, se limitam a retirar liberdades a outros diferentes. O senso comum está fora de moda (ao contrário do neo-puritanismo) e o ser humano parece ter-se tornado incapaz de respeitar o próximo sem ser através de leis.


Jason Reitman é demasiado brando - direi até politicamente correcto - no retrato que faz de uma sociedade onde o peso do que se diz é bastante inferior à forma como se diz. Suponho que, estando-se a falar de cinema, uma máquina totalmente lubrificada com óleos promocionais, isso acabe por ser compreensível. Afinal de contas, o filme tem que ser vendido. É compreensível, mas não desculpável.


A liberdade de escolha é um valor essencial, mas não deve nunca ser usada como argumento para tudo - e para mim essa é a grande falha de conceito deste filme. Porque não vivemos isolados, e porque as nossas escolhas têm consequências sobre os outros e sobre o mundo.






CITAÇÕES:


“That's ludicrous - The great state of Vermont will not apologize for its cheese!”
WILLIAM H. MACY (Senador Ortolan Finistirre)


“If I prove you’re wrong, then I must be right.”
AARON ECKHART (Nick Naylor)


“Being a lobbyist requires a moral flexibility that is beyond most people.”
AARON ECKHART (Nick Naylor)


“We don’t need the government warning us about what we already know isn’t good for us”.
AARON ECKHART (Nick Naylor)


“Michael Jordan plays ball. Charles Manson kills people. I talk. Everyone has a talent.”
AARON ECKHART (Nick Naylor)




Gosto muito, muito deste poster!








realizado por Rita às 02:54
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Terça-feira, 28 de Novembro de 2006
José Saramago




Parece que o resto do mundo está também condenado a render-se ao talento do Nobel literário português.


Depois da adaptação do livro “A Jangada de Pedra” (George Sluizer, 2002), é a vez do realizador brasileiro Fernando Meirelles (“Cidade de Deus”, “The Constant Gardener”) adaptar o “Ensaio Sobre a Cegueira”.


O argumento do filme “Blindness” estará a cargo de Don McKellar, que também fará parte do elenco. As filmagens desta co-produção brasileira, canadiana, britânica e japonesa, que decorrerão entre São Paulo e Toronto, deverão ter início no Verão de 2007, com estreia programada para 2008.


Curiosamente, nesta mesma semana, em concerto no Santiago Alquimista, a cantora americana Laura Veirs confessou ter feito a adaptação de uma página do mesmo livro de Saramago para uma das novas canções do seu álbum, que sairá em Março (e para o uso da qual aguarda ainda a autorização do escritor).


Para me manter no tom, e acrescentar mais um livro aos meus promíscuos comportamentos de leitura, tirei este da estante para ir lendo no metro:





“É bem verdade que nem a juventude sabe o que pode, nem a velhice pode o que sabe.”
in “A Caverna”, de JOSÉ SARAMAGO






realizado por Rita às 21:35
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Segunda-feira, 27 de Novembro de 2006
Infamous ***

Realização: Douglas McGrath. Elenco: Toby Jones, Sandra Bullock, Daniel Craig, Jeff Daniels, Peter Bogdanovich, Hope Davis, Sigourney Weaver, Isabella Rossellini, Lee Pace, John Benjamin Hickey, Gwyneth Paltrow. Nacionalidade: EUA, 2006.





Quando o filme que deu a Philip Seymour Hoffman o Oscar de Melhor Actor começou a ser filmado, “Infamous” já se encontrava em pós-produção, e quando “Capote” saiu, “Infamous” já estava terminado. Atrasar o seu lançamento foi uma decisão ajuizada da Warner Independent Pictures. Mas a pouca distância entre ambos (apenas 9 meses em Portugal) torna inevitável uma comparação.


À semelhança de “Capote”, a acção de “Infamous” foca o período na vida de Truman Capote no qual ele escreveu a obra “A Sangue Frio”, um romance de não-ficção sobre o assassinato da família Clutter, que teve lugar no Kansas no final da década de 50.


Mas, ao contrário de “Capote”, que se centrava na personagem do escritor e na forma como o seu ego o fazia manipular tudo e todos à sua volta, “Infamous” centra-se no dilema moral com que ele se debatia, entre o seu trabalho como escritor e o seu laço emocional a um dos criminoso. Um sentimento que, em “Infamous”, parece ser uma inevitabilidade e não um acto calculista.


“Infamous” começa com a música “What Is This Thing Called Love”, cantada num clube nocturno por Peggy Lee (Gwyneth Paltrow, na sua própria voz), numa sentida interpretação que lança o tom do filme, num misto de sinceridade e dissimulação.


Truman Capote encontra-se bloqueado na obra “Answered Prayers” quando a notícia da morte de uma família no Kansas chama a sua atenção. Acompanhado pela sua amiga Nelle Harper Lee (Sandra Bullock), vencedora do Pulitzer com o livro “To Kill a Mocking Bird”, Capote desloca-se a Holcomb para fazer um artigo que, mais tarde, se transformará no livro “In Cold Blood”. Com uma louvável persistência, Capote consegue convencer o inspector responsável pelo caso, Alvin Dewey (Jeff Daniels) a dar-lhe acesso ao caso e, aquando da sua captura, também aos presos, Perry Lee (Daniel Craig) e Dick Hickock (Lee Pace).


“Infamous” conduz-nos também ao círculo social em que Truman Capote se movia, um mundo de ricos, de materialismo, de mexericos e de mentiras. A mente de Truman Capote parece estar mais dissecada neste filme do que em “Capote”, que, por sua vez, nos fornece mais informação sobre o crime e sobre o processo literário do escritor.


Douglas McGrath (“Emma”, “Nicholas Nickleby”) faz uma abordagem mais linear da narrativa, optando por soluções mais tradicionais, com bastante humor, e capitalizando nos nomes sonantes do elenco e num muito bom Toby Jones (“Finding Neverland”, “Mrs Henderson Presents”). Eu adoro Philip Seymour Hoffman e achei óptimo o seu trabalho em “Capote”, mas Toby Jones tem o grande mérito de conseguir trazer uma interpretação de Truman Capote ainda mais extrema e com um toque muito pessoal. Desta forma se prova que dois grandes actores podem oferecer duas boas interpretações de uma mesma personagem (e que ser director de casting pode ser uma tarefa ingrata).


McGrath introduz, com resultados questionáveis a nível de credibilidade, um elemento pseudo-documental, ao colocar os actores que representam algumas das pessoas do círculo de Capote num contexto de entrevista. Entre eles estão Babe Paley (Sigourney Weaver), Diana Vreeland (Juliet Stevenson), Gore Vidal (Michael Panes), Slim Keith (Hope Davis), Bennett Cerf (Peter Bogdanovich), editor da Random House, e o amante de Capote Jack Dunphy (John Benjamin Hickey).


A secundar está um Daniel Craig intenso, misterioso, magoado e volátil (continuo a pensar na pena que é fechar este senhor na personagem de Bond). Hope Davis e Sigourney Weaver são apostas seguras, enquanto Sandra Bullock tem aqui a sua melhor interpretação e talvez uma janela aberta para outras experiências.


Apesar do seu magnetismo, o Capote de “Infamous” é menos empático que o de Hoffman, é mais frágil mas menos envolvente. E face ao fogo visual do primeiro, continuo a preferir a gravidade do segundo.






CITAÇÕES:


“It’s hard to put a friend in the past tense.”
BETHLYN GERARD (Marie Dewey)


“So you think your book is worth a human life?”
ISABELLA ROSSELLINI (Marella Agnelli)</font>






realizado por Rita às 00:19
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Sexta-feira, 24 de Novembro de 2006
16 Blocks ****

Realização: Richard Donner. Elenco: Bruce Willis, Mos Def, David Morse, Jenna Stern, Casey Sander, Cylk Cozart, David Zayas, Robert Racki. Nacionalidade: Alemanha / EUA, 2006.





Jack Mosley (Bruce Willis) é um polícia em final de carreira que se refugia na bebida enquanto espera pela morte. No final de um longo dia, Jack é obrigado a acompanhar uma testemunha Eddie Bunker (Mos Def) até ao tribunal, que dista 16 quarteirões da esquadra. Mas o que Jack não sabe é que Bunker está prestes a denunciar alguns dos seus colegas, os mesmos que, liderados pelo seu companheiro Frank Nugent (David Morse), estão determinados em não os deixar chegar ao seu destino.


A acção de “16 Blocks” decorre praticamente em tempo real. O relógio vai marcando os 118 minutos que restam a este improvável par. O jogo do polícia bom e polícia mau, com um criminoso à mistura não é novo, mas Richard Donner, responsável pela tetralogia “Letal Weapon”, “Conspiracy Theory” e “Maverick”, entre outros, consegue incutir a este género uma considerável dose de originalidade que, só por si, justifica uma ida ao cinema. Em diversas ocasiões parece ser evidente o que vem a seguir (aquele “ah, já sei, aqui agora é assim”), mas o inteligente argumento de Richard Wenk produz soluções bem mais imaginativas e menos estereotipadas.


Richard Donner faz um óptimo trabalho de suspense, aumentando a tensão de cada cena, enchendo as ruas de Nova Iorque de gente e evitando o uso excessivo de feitos especiais (a la Michael Bay), o que confere realismo a toda a acção. “16 Blocks” consegue ser contido e ao mesmo tempo frenético. Para isso contribui necessariamente a personagem de Mos Def, com um sério problema de contenção verbal e de divagação, ao qual acresce uma voz nasalada verdadeiramente cansativa.


Os diálogos fogem também aos clichés habituais e estão impregnados de um humor inteligente (onde a ironia de Willis marca presença), e, subtilmente, constrói-se uma forte relação emocional, entre as personagens e com o espectador.


Bruce Willis (“Lucky Number Slevin”, “Sin City”) está completamente à vontade na sua versão de velho, cansado, gordo, careca, lívido e cheio de rugas. A sua personagem é tão bem (e sucintamente) descrita nas cenas inicias, que não temos qualquer dificuldade em entender os seus comportamentos de quem não tem nada a perder.


Mas Willis não está sozinho. Mos Def (“The Hitchhiker's Guide to the Galaxy”), que funciona como o escape cómico e a consciência de Jack, é complexo ao ponto de despertar em nós sentimentos tão contraditórios como a raiva e a ternura. Por outro lado, David Morse (“The Green Mile”, “Dancer in the Dark”) é totalmente execrável (e perfeito) como polícia corrupto.


Porque os filmes de acção não são sempre iguais. Porque vale a pena sentir o poder que o cinema tem de brincar com as nossas emoções. E porque Bruce Willis está a envelhecer da melhor forma.






CITAÇÕES:


“Days change, seasons change, people don't change.”
BRUCE WILLIS (Jack Mosley)


“You can’t be lucky all the time, but you can be smart everyday.”


“We stopped being friends around 08h25.”
BRUCE WILLIS (Jack Mosley)






realizado por Rita às 00:48
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Quinta-feira, 23 de Novembro de 2006
Unknown ****

Realização: Simon Brand. Elenco: Jim Caviezel, Greg Kinnear, Bridget Moynahan, Joe Pantoliano, Barry Pepper, Jeremy Sisto, Peter Stormare, Chris Mulkey, Clayne Crawford. Nacionalidade: EUA, 2006.





Um homem com um blusão de ganga (Jim Caviezel, “The Passion of the Christ”) acorda no meio de um armazém, fazendo um tremendo esforço para se situar. No mesmo armazém estão mais quatro homens inconscientes: um sentado e amarrado numa cadeira (Joe Pantoliano, “The Sopranos”), outro desmaiado numa passagem superior (Barry Pepper, “The Three Burials of Melquiades Estrada”), um outro algemado e sangrando de um tiro (Jeremy Sisto, “Six Feet Under”), e outro ainda jazendo no chão com o nariz partido (Greg Kinnear, “Little Miss Sunshine”). Cambaleante o homem de blusão de ganga procura uma saída. Ao passar por uma casa de banho lava a cara, olha-se ao espelho e pergunta-se: “Who the fuck are you?”.


Nenhum destes homens sabe como chegou até ali ou sequer a sua vida antes disso. Este parece ser o efeito de um gás que se terá libertado de uma botija. Após encontrarem um jornal onde a notícia de um rapto identifica dois homens, todos assumem estar envolvidos no caso. A questão é que nenhum sabe se pertence ao grupo de raptores ou raptados. Entre eles desenvolvem-se, simultaneamente, relações de suspeita, conflito e de aliança, baseadas no instinto e que visam apenas a defesa de interesses próprios. Um telefonema dos restantes raptores coloca um tempo limitado na sua possibilidade de fuga.


Paralelamente, Eliza (uma fraca Bridget Moynahan, “I, Robot”), a mulher de um dos raptados, paga um resgate. Mas a tentativa da polícia apanhar os raptores através do dinheiro falha, apenas se conseguindo a identificação de um dos criminosos (Peter Stormare, “The Brothers Grimm”).


Porque a personagem de Jim Caviezel é aquela com quem temos primeiramente contacto, há a tendência para o colocarmos quase automaticamente no papel de herói. É por ele que torcemos. Mas o realizador estreante Simon Brand (que faz também um cameo como médico das urgências), com o forte argumento de Matthew Waynee, cozinha uma receita que mistura habilmente “Reservoir Dogs”, “Cube”, “Saw”, e até “Memento”. À medida que cada um deles vai tendo flashes do seu passado, somos obrigados a reformular todas as nossas percepções. Até ao final.


“Unknown” é um filme intenso, que capitaliza num espaço exíguo para estimular a tensão psicológica e que vive de fortes diálogos (cheios de testosterona) e da poderosa contracena de Jim Caviezel e Greg Kinnear.


Mas na base das disputas entre estes homens está uma questão que cada um se vê obrigado a resolver individualmente: se são bons ou maus, e sendo maus se essa é uma índole à qual não podem fugir ou se podem mudar. E este parece ser o momento para se definirem. Como animal social, e começando do zero, será que o Homem é intrinsecamente bom?






CITAÇÕES:


“The choices we make from here on out of this shit-hole, that’s what’s gonna define us.”
BARRY PEPPER






realizado por Rita às 01:23
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Quarta-feira, 22 de Novembro de 2006
The Night Listener ***

Realização: Patrick Stettner. Elenco: Robin Williams, Toni Collette, Joe Morton, Bobby Cannavale, Rory Culkin, Sandra Oh, John Cullum. Nacionalidade: EUA, 2006.





O mais inquietante deste “The Night Listener” é o facto de se basear num livro parcialmente autobiográfico – ‘Tales of the City’ – da autoria de Armistead Maupin. Mas em vez de escritor, Gabriel Noone (Robin Williams) é animador de um programa nocturno de rádio, Noone At Night, baseado em histórias, muitas delas retiradas da sua própria vida. No meio de um tumulto da sua vida pessoal, o seu amigo e agente literário Ashe (Joe Morton) passa a Noone o manuscrito de Pete (Rory Culkin), um jovem de 14 anos, cuja infância foi marcada por abusos físicos e psicológicos. Impressionado pela escrita e pelo conteúdo da obra, Noone inicia uma relação telefónica com este jovem, que vive numa zona rural do Winsconsin, sob a tutela de Donna (Toni Collette), que zela não só pela sua saúde, mas também tentando protegê-lo de possíveis perseguições.


Tudo começa a assumir uma perspectiva particularmente tortuosa quando Jess (Bobby Cannavale), o ex-namorado de Noone, lhe chama a atenção para a parecença das vozes de Donna e Pete, insinuando que tudo possa não passar de uma brincadeira. Noone não tem efectivamente provas de Pete existe. Perante a dúvida, Noone decide procurá-lo e tirar tudo a limpo.


Neste thriller psicológico a informação vai sendo desvendada ao espectador ao mesmo tempo que Noone a vai descobrindo, e, como ele, vamos seguindo as pistas e tentando juntar as peças. Mas o argumento, da autoria de Maupin, do seu ex Terry Anderson e do realizador Patrick Stettner, pautado por diálogos totalmente verosímeis, não nos deixa ter certezas.


Mas mais importante do que desvendar este mistério, ou descobrir onde e se existem mentiras, são as questões filosóficas que este filme levanta. Existimos apenas como uma percepção de outros? Ao duvidar da credibilidade de uma relação que estabelecemos teremos também que duvidar de nós mesmos? da nossa capacidade de discernimento? de tudo o que nos aparece como real?


Noone é um homem resignado e desiludido, com tem tendência a embelezar os acontecimentos da sua vida, dando-lhes um cunho mais romântico ou literário, e potenciando o seu efeito dramático. No final, questionamo-nos até que ponto não foi ele que criou esta história, apenas para nos regalar. Em dado momento, alguém diz: "People are only as loved as they believe they are.”. Com efeito, Pete parece vir ocupar na vida de Noone um lugar de interesse afectivo recentemente deixado vago por Jess, dando-lhe um sentido que ele sente faltar na sua vida.


Toni Collette (“The Sixth Sense”, “Little Miss Sunshine”) é completamente arrebatadora, e Williams confirma uma vez mais a sua grande força dramática, já evidenciada em filmes como “Insomnia” (2002), “One Hour Photo” (2002) ou “The Final Cut” (2004). Nos secundários, a minha atenção voltou-se para a interpretação intensa e genuína de Bobby Cannavale (“Romance & Cigarettes”), que merecia bastante mais ecrã.


Para bem da consistência, o final deveria, no entanto, ser mais inconclusivo. Em vez disso, é-nos entregue uma solução fácil que, pessoalmente, me deixou insatisfeita. A ambiguidade teria servido para manter as questões importantes ao de cima.






CITAÇÕES:


“Real isn’t how you’re made, is the things that happen to you.”


“People are only as loved as they believe they are.”






realizado por Rita às 22:40
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Robert Altman (1925-2006)




Robert Bernard Altman nasceu a 20 de Fevereiro de 1925 em Kansas City, Missouri. A carreira de Altman passou primeiramente pela televisão, onde realizou, entre outros, vários episódios da série “Bonanza”. Mas foi no cinema que a sua obra foi mais marcante, com filmes como “Shortcuts” (1993), “Prêt-a-Porter” (1994), “Gosford Park” (2001) e o recente “A Prairie Home Companion”.


Há cerca de 10 anos, Altman foi sujeito a um transplante cardíaco e, desde então, a sua saúde debilitada colocava em cada filme seu o peso de poder ser a sua última realização, o que acabou por acontecer com “A Prairie Home Companion”. Na passada segunda-feira, dia 20, Robert Altman morreu, deixando o mundo do cinema um pouco mais pobre.


Altman tinha 81 anos e um Oscar honorário de carreira atribuído este ano pela Academy of Motion Picture Arts and Sciences. Os seus filmes “M*A*S*H” (1970) e “Nashville” (1975) serão preservados pelo National Film Registry dos Estados Unidos.


O que não deixa de ser algo irónico, tendo em conta a sua posição política algo polémica: Altman reivindicou que se mudaria para França caso Bush fosse reeleito, o que não aconteceu. Mais tarde, ele corrigiu-se, dizendo que se referia a Paris, Texas, uma vez que o estado estaria certamente melhor sem Bush lá.


Apesar do “adeus”, Altman estará sempre ao nosso dispor, numa sala de cinema ou num DVD. Porque parte do artista é a obra e parte da obra é o artista.







Filmografia completa aqui.






realizado por Rita às 00:43
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Terça-feira, 21 de Novembro de 2006
Brick ****

Realização: Rian Johnson. Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Nora Zehetner, Lukas Haas, Noah Fleiss, Matt O'Leary, Emilie de Ravin, Noah Segan, Richard Roundtree, Meagan Good, Brian White. Nacionalidade: EUA, 2005.





O poema de Gilbert and Sullivan, “The sun whose rays are all ablaze”, sobre o frágil equilíbrio de forças entre o sol e a lua, lança o tom do film noir que é “Brick”. Na primeira longa-metragem de Rian Johnson existe um herói pouco óbvio, calado e subtil, um vilão poderoso e perigoso, uma donzela em apuros e uma femme fatale tão inescrutável quanto sedutora.


A questão é que tudo se passa entre adolescentes, com o liceu como cenário e embrulhado na música original de Nathan Johnson, líder dos The Cinematic Underground. Um óptimo ritmo, os bons diálogos e as fortes interpretações afastam este filme de todos os clichés de filmes de adolescentes, não deixando, no entanto, escapar a inerente agitação, a angústia e formação de identidade características dessa fase da vida.


Brendan (Joseph Gordon-Levitt) é um adolescente solitário (ou melhor, anti-social) que investiga o desaparecimento da sua ex-namorada Emily (Emilie De Ravin, a Claire Littleton da série “Lost”), que recentemente se juntou a um grupo mais popular e também mais perigoso. Com a ajuda de Brain (Matt O’Leary), a investigação de Brendan leva-o a um grupo de traficantes liderado por The Pin (um impenetrável Lucas Haas). E aquele que, primeiramente, aparentava ser mais um marrão, acaba por se revelar um herói feroz e determinado, que aproveita as forças e fraquezas de cada um para conseguir os seus intentos.


De uma forma não-linear, “Brick” começa no meio da acção, volta atrás, regressa a essa cena inicial e continua a partir daí. Neste policial de traição e assassínio, ninguém é isento e cada um esconde diferentes motivações, que se vão revelando de uma forma simultaneamente consistente e surpreendente. Rian Johnson cria um elo de ligação entre todos estes jovens, fazendo uso de um vernáculo que faz lembrar a linguagem ‘nadsat’ de Anthony Burgess em “A Clockwork Orange”. Ao ser usado de uma forma completamente natural e convincente, somos arrastados para este universo geracional, onde o elenco de jovens actores cumpre, sem falhas, a complexidade que as personagens exigem. Uma especial referência para Joseph Gordon-Levitt (Tommy Solomon da série “3rd Rock from the Sun”) que, intenso e seguro, carrega o peso deste filme com um sentido de humor sardónico.


Existe alguma tentação em colocar este filme do lado de um “Donnie Darko”, pela forma como a temática adolescente é abordada fora dos parâmetros habituais. Não minha opinião fica ainda aquém dessa obra em termos imaginativos, mas é fácil perceber porque venceu, ao lado de “Me And You And Everyone We Know”, o prémio especial do júri na edição de 2005 do Festival de Sundance pela originalidade da sua visão.


Espero que “Brick” seja uma boa base para a futura carreira do realizador Rian Johnson. Estaremos de olhos postos em “The Brothers Bloom”, o seu próximo projecto para 2008, com Rachel Weisz à cabeça.


Voltando a “Brick” , ainda que seja inquietante pensar numa adolescência com estas atribulações, por uma história boa como esta eu seria capaz de matar mais uns quantos. Porque o noir está sempre in.






CITAÇÕES:


“I've got knives in my eyes, I'm going home sick.”
JOSEPH GORDON-LEVITT (Brendan Frye)


“Maybe I'll just sit here and bleed at you.”
JOSEPH GORDON-LEVITT (Brendan Frye)


“You better be sure you wanna know what you wanna know.”
MEAGAN GOOD (Kara)




THE SUN WHOSE RAYS ARE ALL ABLAZE
Gilbert and Sullivan


The sun, whose rays
Are all ablaze
With ever-living glory,
Does not deny
His majesty
He scorns to tell a story!
He don't exclaim,
"I blush for shame,
So kindly be indulgent."
But, fierce and bold,
In fiery gold,
He glories all effulgent!
I mean to rule the earth,
As he the sky
We really know our worth,
The sun and I!
Observe his flame,
That placid dame,
The moon's Celestial Highness;
There's not a trace
Upon her face
Of diffidence or shyness:
She borrows light
That, through the night,
Mankind may all acclaim her!
And, truth to tell,
She lights up well,
So I, for one, don't blame her!
Ah, pray make no mistake,
We are not shy;
We're very wide awake,
The moon and I!




realizado por Rita às 00:32
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Segunda-feira, 20 de Novembro de 2006
A Good Year **

Realização: Ridley Scott. Elenco: Russell Crowe, Marion Cotillard, Albert Finney, Freddie Highmore, Didier Bourdon, Isabelle Candelier, Abbie Cornish, Tom Hollander, Rafe Spall, Archie Panjabi, Richard Coyle, Valeria Bruni Tedeschi. Nacionalidade: EUA, 2006.





Como actor, Russell Crowe desperta-me muito pouco interesse, e confesso que me tenho mantido muito pouco flexível nesta minha percepção. Porque razão resolvi então ir ver “A Good Year” quando, à primeira vista, parecia pouco mais do que um daqueles típicos homem-implacável-cuja-vida-gira-em-torno-do-dinheiro-dá-se-conta-de-que-a-sua-vida-é-vazia-e-sem-amor? Bem, por causa de Ridley Scott. Tinha a secreta esperança de que o dedo deste senhor torna-se as coisas mais interessantes. Mas não.


Max Skinner (Russell Crowe) herda uma vinha na Provença após a morte do seu tio Henry (Albert Finney). A sua primeira intenção é de vender a propriedade e poder continuar o seu trabalho em Londres como corretor, onde pode manipular à vontade o mercado e as pessoas que o rodeiam. Através de flashbacks vamos vendo que Max nem sempre foi um pulha insensível. Tempos houve em que o jovem Max (Freddie Highmore) aprendia grandes lições de vida do seu tio.


O argumento de Marc Klein, baseado no livro de Peter Mayle, um amigo de Ridley Scott e seu vizinho da Provença, onde Scott tem uma quinta há cerca de 15 anos, é um conjunto de clichés onde não falta todo o tipo de estereótipos, da empregada de mesa francesa sexy e temperamental (Marion Cotillard, a uma atractiva prima americana e possível concorrente à herança (Abbie Cornish, “Candy”), passando por uma assistente irónica (Archie Punjabi, “The Constant Gardener”), um melhor amigo (Tom Hollander, “The Libertine”), os encarregados da quinta (os franceses Didier Bourdon e Isabelle Candelier), e ainda com espaço para uma Valeria Bruni Tedeschi (“5x2”) que rouba toda a atenção que poderíamos colocar em Russel Crowe.


Apesar de bem filmado, o produto delicodoce que saiu das mãos de Ridley Scott, com a dose recomendada de tiradas românticas, serve para pouco mais do que um cartão de visita da beleza bucólica da Provença, do château que serve de cenário e da beleza embriagante de Marion Cotillard (“Jeux d'Enfants”, “Sauf Le Respect Que Je Vous Dois”).


O protagonista Russell Crowe é relativamente charmoso e divertido, mas quando entra no campo dos dilemas morais, deixa muito a desejar em termos de credibilidade. A sua falta de densidade é tanto mais evidente quanto melhores os actores com quem é “forçado” a partilhar o ecrá. Felizmente, “A Good Year” dá-nos a oportunidade de ver a bela (e equilibrada) contracena de Freddie Highmore (“Finding Neverland”, “Charlie and the Chocolate Factory”) e o sempre magestoso Albert Finney (“Big Fish”).


Se tiverem outras prioridades, “A Good Year” pode bem esperar por uma tarde chuvosa em frente à televisão.






CITAÇÕES:


“It is inevitable to lose now and then, the thing is not to make a habit of it.”
ALBERT FINNEY (Henry)


“I want a bottle of wine that tastes like you. And a glass that’s never empty.”
RUSSEL CROWE (Max Skinner)


“Je suis fou de tes lêvres.”
RUSSEL CROWE (Max Skinner)






realizado por Rita às 01:20
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Domingo, 19 de Novembro de 2006
La Science des Rêves *****

Realização: Michel Gondry. Elenco: Gael García Bernal, Charlotte Gainsbourg, Alain Chabat, Miou-Miou, Emma de Caunes, Aurélia Petit, Sacha Bourdo, Pierre Vaneck, Stéphane Metzger. Nacionalidade: França, 2006.





Após a morte do pai, Stéphane Miroux (Gael García Bernal) regressa a Paris, onde vive a sua mãe, Christine (Miou-Miou), que lhe garante um trabalho como ilustrador de calendários. O plano de Stéphane é publicar o seu calendário de ‘Desastrologia’, salientando, em cada mês, um desastre de grandes proporções que ocorreu nalgum ponto do globo. Mas o seu trabalho no escritório acaba por se revelar tremendamente monótono, o que apenas serve para exacerbar a propensão natural de Stéphane para se refugiar num mundo onírico. Quando Stéphane conhece a sua nova vizinha, Stephanie (Charlotte Gainsbourg, “21 Grams”), e se apaixona, a sua tentativa de aproximar estes dois mundos e manter-se em equilíbrio toma novas proporções.


A dificuldade de Stéphane separar os seus sonhos da realidade prende-se com a sua incapacidade de lidar com um mundo onde as pessoas erram e se magoam, ou seja, um mundo adulto. À semelhança da personagem de Jim Carrey em “Eternal Sunshine of the Spotless Mind”, também Stéphane prefere negar a realidade. Sem aviso, Michel Gondry leva-nos para dentro da mente de Stéphane, materializada num estúdio em cartão de onde é emitida a StéphaneTV. E tal como Stéphane, também nós tentamos discernir o que é real e o que é sonho. Ou serão os sonhos uma forma de realidade?


Apesar de não estar feliz com o seu trabalho, aquele parece ser o lugar perfeito para Stéphane. Os colegas Guy (um fabuloso Alain Chabat, “Le Gôut des Autres”), Martine (Aurélia Petit) e Serge (Sacha Bourdo) comportam-se como autênticas crianças, e ampliam os delírios de Stéphane, como se se tratassem, eles próprios, de diferentes facetas do seu sub-consciente. O mesmo acontecendo com o brando patrão M. Pouchet (Pierre Vaneck). Um dos momentos mais deliciosos de “Science of Sleep” é quando Stéphane e os colegas, vestidos de gatos, interpretam a música ‘If You Rescue Me’, uma versão da música ‘After Hours’ dos Velvet Underground, cuja letra feita expressamente para este filme fala de um gato abandonado.


De uma forma extremamente imaginativa, por vezes absurda, por vezes bizarra, Michel Gondry constrói um universo de sonhos com o mínimo de recurso a efeitos especiais. O seu mundo é feito de texturas: água de celofane e nuvens de algodão. Ao som de ‘Instinct Blues’ de White Stripes, a cidade de Stéphane é reconstruída em cartão, para uma pista de ski bastou juntar tecido e fios de várias cores, e uma máquina de viajar um segundo no tempo é utilizada por Stéphane para dar dois primeiros beijos a Stephanie, um no futuro, e outro – o mesmo – no presente.


O campo das interpretações é dominado por um Gael García Bernal ímpar (“Diarios de Motocicleta”, “La Mala Educación”). Mesmo no registo mais disparatado é totalmente credível, porque percebemos que Stéphane tenta, verdadeiramente, superar as suas inseguranças e, entre o desastre e o charme, ele é apenas um rapaz a tentar fazer-se um homem.


Sem explicações ou concessões, Gondry utiliza a fantasia para falar da realidade do amor. Ele consegue representar visualmente a confusão, o delírio e a magia de estar apaixonado, de querer viver a realidade mas não conseguir dominar a imaginação. Mas apesar de se passar no inconsciente, este é um filme muito pouco sexual. Exceptuando umas quantas anedotas porcas, as referências a sexo não passam de clichés reunidos no quotidiano. Por isso a ligação entre Stéphane e Stephanie pode facilmente ser extrapolada para uma dualidade entre o feminino e o masculino, na qual a semelhança do nome joga um importante papel.


“Science of Sleep” é um portento de imaginação, um banquete visual, divertido e melancólico e, tal como os sonhos, cheio de símbolos, para digerir com a devida atenção. Mas os sonhos não são apenas um processo de fuga, deles pode também depender a sanidade. Os de Gondry são feitos à mão, com tesoura, cola e muito amor.






CITAÇÕES:


“Tonight I’ll show you how dreams are prepared, people think it’s a very simple and easy process but it’s a bit more complicated than that…As you can see a very delicate combination of complex ingredients is the key. First we put in some random thoughts, then we add a little bit of reminiscences of the day mixed with some memories from the past, it’s for two people… Love, friendships, relationships, all those ships. Together with songs you heard in the day, things you saw (...) I'm talking quietly to not wake myself up...”
GAEL GARCIA BERNAL (Stéphane)


“P.S.R. - Parallel Synchronized Randomness. An interesting brain rarity and our subject for today. Two people walk in opposite directions at the same time and then they make the same decision at the same time. Then they correct it, and then they correct it, and then they correct it, and then they correct it, and then they correct it. Basically, in a mathematical world these two little guys will stay looped for the end of time. The brain is the most complex thing in the universe and it's right behind the nose.”
GAEL GARCIA BERNAL (Stéphane)


“Will you marry me when you are seventy and have nothing to lose?”
GAEL GARCIA BERNAL (Stéphane)


“Things can turn out the way you want to. If you just stop doubting that I love you.”
CHARLOTTE GAINSBOURG (Stephanie)


“I like your boobs. They're simple and unpretentious. And I would like to see them someday.”
GAEL GARCIA BERNAL (Stéphane)


“You have a serious problem of distorting reality. You could sleep with the whole world and still feel rejected.”
CHARLOTTE GAINSBOURG (Stephanie)





IF YOU RESCUE ME
interpretada por Gael Garcia Bernal, Alain Chabat, Sacha Bourdo e Aurélia Petit


(falado)
So Stéphane Miroux we have a little surprise for you to do.
Now.
A song for her!


(cantado)
If you rescue me
I’ll be your friend forever
Let me in your bed
I’ll keep you warm in winter

All the kittens are playing
they’re having such fun
I wish it could happen to me
But if you rescue me
I’ll never have to be alone again

All the cars drive do fast
And the people are mean
And sometimes it’s hard to find food
Let me into your world
I’ll keep you warm and amused
All the things we can do in the rain

If you rescue me
I’ll be your friend forever
Let me in your bed
I’ll keep you warm in winter
Oh someday I know
Someone will look into my eyes
And say: hello, you’re a very special kitten

So if you rescue me
I’ll never have to be alone again
I’ll never have to be alone again
I’ll never have to be alone again






realizado por Rita às 16:44
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Sexta-feira, 17 de Novembro de 2006
Por favor, vão ver este filme!!!








realizado por Rita às 18:42
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Hallelujah


A banda sonora hoje é dele. Porque hoje faria 40 anos.


JEFF BUCKLEY (17 Nov 1966 - 29 Mai 1997)





HALLELUJAH
de Leonard Cohen

Now I've heard there was a secret chord
That David played, and it pleased the Lord
But you don't really care for music, do you?
It goes like this
The fourth, the fifth
The minor fall, the major lift
The baffled king composing Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah

Your faith was strong but you needed proof
You saw her bathing on the roof
Her beauty and the moonlight overthrew her
She tied you
To a kitchen chair
She broke your throne, and she cut your hair
And from your lips she drew the Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah

You say I took the name in vain
I don't even know the name
But if I did, well really, what's it to you?
There's a blaze of light
In every word
It doesn't matter which you heard
The holy or the broken Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah

I did my best, it wasn't much
I couldn't feel, so I tried to touch
I've told the truth, I didn't come to fool you
And even though
It all went wrong
I'll stand before the Lord of Song
With nothing on my tongue but Hallelujah

Hallelujah, Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah






realizado por Rita às 01:54
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Quarta-feira, 15 de Novembro de 2006
Perfume: The Story of a Murderer *****

Realização: Tom Tykwer. Elenco: Ben Wisham, Dustin Hoffman, Alan Rickman, Rachel Hurd-Wood, Karoline Herfurth, Sian Thomas, Sara Forestier, John Hurt (voz). Nacionalidade: EUA, 2006.





Era com imensa expectativa que aguardava a estreia deste filme. Optei por reler o livro homónimo de Patrick Sükind só depois de ver o filme. Achei que isso me permitiria ter uma experiência mas isenta, avaliando a obra de Tom Tykwer (“Lola, Rennt” - 1998, “Heaven” - 2002) apenas como uma peça de cinema e evitar uma comparação demasiado estanque. Mas ou a minha memória me atraiçoou demasiado, ou esta adaptação é, de facto, a melhor possível. E o melhor possível é bastante bom. Stanley Kubrick disse que não podia ser feito. Por muito que eu adore Kubrick, adoro também o facto de ele se ter enganado. E tenho pena de que não tenha vivido o suficiente para ver o quão cativante é este épico.


A Paris de 1738 está cheia de peixe putrefacto, ratazanas e esgotos abertos, um fedor nauseante. Jean-Baptiste Grenouille nasce debaixo de uma banca de peixe. Desde cedo ele percebe que o seu apuradíssimo olfacto está fora na normalidade (‘grenouille’ significa ‘rã’ em francês e Tykwer coloca uma cena onde o jovem Grenouille cheira um destes animais). Grenouille cresce num orfanato antes de ser vendido a um curtidor de peles, e vai absorvendo todos os cheiros que vai descobrindo, catalogando-os mentalmente apesar de não saber os seus nomes. Quando Grenouille (Ben Wisham) conhece o mestre perfumista Baldini (Dustin Hoffman) um novo mundo se abre diante dos seus olhos, ou melhor, do seu nariz. Acidentalmente, Grenouille é incontrolavelmente seduzido pelo cheiro de uma rapariga ruiva que vende ameixas (Karoline Herfurth). Depois de a matar acidentalmente, Grenouille fica obcecado por destilar aquele aroma e recuperar aquela beleza e criar o seu próprio perfume de 13 notas (o argumento introduz alguns elementos que se diferenciam do livro, mas que mantêm o seu espírito, este é um deles).


Alan Rickman é fortíssimo, Dustin Hoffman espirituoso e Ben Wisham impecável. Tendo participado em papéis secundários em “Enduring Love“ (2004) e “Layer Cake” (2004), o ano passado pudemos ver Wisham no papel de Keith Richards em “Stoned” de Stephen Woolley. Não sei porquê, quando li o livro lembro-me de ter imaginado Jean-Baptiste Grenouille mais velho do que Wisham. Mas, com efeito, na maior parte da acção, Jean-Baptiste está perto dos 30 anos. Apesar da sua beleza, Whisham consegue, através da sua interpretação cheia de maneirismos, ser “feio” de uma forma totalmente credível. Para a sua notável prestação, com reduzidos diálogos, o seu olhar, intenso, puro e sem regras, foi imprescindível. Na narração, a deliciosa voz de John Hurt incute um elemento algo místico a esta história.


O design de produção genial de Uli Hanisch enche cada cena de inúmeros detalhes, dando a impressão de uma quantidade enorme de odores que cercam Grenouille. A fotografia, nas mãos de Frank Griebe, colaborador de Tykwer em todos os seus filmes, é perfeita. Dadas as inevitáveis limitações do meio cinematográfico, os odores não poderiam ser mais bem transmitidos. Desde o recurso a inserções ou tornando o cheiro “visível” através de uma representação esfumada, até aos close-ups na extremidade nasal (serei a única pessoa a achar o imperfeito nariz de Ben Whisham delicioso?). Também a banda sonora, escrita por Tykwer, Reinhold Heil e Johnny Klimek, contribui para transmitir as sensações olfactivas, do mesmo modo que na edição de som (a cargo de Stefan Busch e Frank Kruse) se eliminou o ruído de fundo sempre que Grenouille perseguia um odor.


Tykwer tem uma noção ideal do ritmo e, com a montagem irrepreensível de Alexander Berner, “Perfume” não tem um único instante supérfluo. Tykwer preteriu a computorização a favor de soluções mais tradicionais, o uso de CGI limitou-se à reprodução da rua parisiense Pont au Chance onde se localiza a perfumaria de Baldini, e um momento em que o mesmo Baldini é levado, através de um aroma, a um jardim paradisíaco. Com todo o cuidado de pormenor e de fidelidade a uma obra de referência, apenas tenho um reparo à cena final, da qual esperava um pouco mais de, digamos, arrojo.


Foi, sobretudo, uma delícia regressar a este “mundo”. Grenouille é a personagem que seria muito fácil detestar. Mas Tykwer, que partilha a autoria do argumento com Andrew Birkin (“The Name of the Rose”) e Bernd Eichinger (“Der Untergang - A Queda”), consegue o mesmo que Süskind, isto é, que sintamos compaixão pelo perfeito anti-herói que é Grenouille, um homem com uma mente muito particulare, sem moral e sem alma, mas cujo sonho e sentido de missão não podemos deixar de admirar.


“Perfume” é totalmente abjecto, revoltante e nojento. Ou seja, perfeito.







P.S. 1 – Sim, já estou a reler o livro.


P.S. 2 – Ok, a inveja é feia, mas eu quero ser ruiva como a Rachel Hurd-Wood!




P.S. 3 – A equipa franco-alemã de perfumistas da International Flavors & Fragrances, Christophe Laudamiel e Christoph Hornetz, fizeram uma intepretação olfactiva da obra de Süskind, criando 15 essências com nomes tão sugestivos como Baby, Ermite, Human Existence e Orgie. O Perfume Coffret, de edição limitada, tem design de Thierry Mugler, e pode ser adquirido no seu site pela módica quantia de 550 euros.






realizado por Rita às 01:14
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Terça-feira, 14 de Novembro de 2006
The Illusionist ***

Realização: Neil Burger. Elenco: Edward Norton, Paul Giamatti, Jessica Biel, Rufus Sewel, Wddie Marsan. Nacionalidade: República Checa / EUA, 2006.





Viena. 1900. Eisenheim O Ilusionista é a grande sensação na cidade, com truques tão impressionantes que parecem tocar o reino do sobrenatural. O Inspector Chefe Uhl (Paul Giamatti) é um dos primeiros entusiastas, mas também um céptico. Desafiado pela insolência de Eisenheim, o herdeiro do trono austro-húngaro, o Príncipe Leopold (Rufus Sewell) está determinado em desmascarar as manipulações de Eisenheim. No centro deste conflito está a Duquesa Sophie von Teschen (Jessica Biel), antiga paixão de infância de Eisenheim e actual noiva do príncipe.


A segunda realização de Neil Burger (“Interview With The Assassin”, 2002), adaptação do conto de Steven Millhauser ‘Eisenheim the Illusionist’, consegue, através de um conjunto de boas interpretações e uma história bem contada, enlevar-nos numa mistura de romance, mistério e magia.


Norton, evidencia uma vez mais a sua versatilidade, movido por um imenso amor e sofrimento, mantém-se enigmático – e hipnótico – até ao fim. E talvez por isso a personagem de Eisenheim não seja a que mais nos envolve. Para mim, Uhl é o grande herói desta história e Giamatti (em contraste com o seu morno papel em “Lady in the Water”) compõe consistentemente um homem no meio de um dilema moral, entre a admiração e o dever, entre a ambição e os valores éticos. Sewell, por sua vez, é um vilão perfeitamente odioso, egocêntrico, ciumento e mesquinho. Quanto à invejavelmente bela Jessica Biel, temos a felicidade de ver num papel que exige, de facto, qualidades interpretativas.


Praga (que fez as vezes de Viena) é talvez uma das cidades mais telegénicas do mundo, e a lindíssima fotografia de Dick Pope (“Vera Drake”) faz jus à sua beleza natural. O guarda-roupa de Ngila Dickson, o design de produção de Ondrej Nekvasil e a banda sonora original de Philip Glass compõem a restante pintura.


“The Illusionist” aflora alguns importantes temas como a luta de classes e a dualidade entre ciência e espiritualidade, sem, no entanto, enveredar seriamente por qualquer um desses caminhos. Mas “The Illusionist” não está interessado nos temas mundanos. Da mesma forma que um truque de magia exige que abracemos o improvável (a chamada “suspension of disbelief”), também “The Illusionist” exige de nós alguma capacidade de imaginação e aceitação (como é o caso da mistura de vários sotaques). E a magia do cinema é também envolver-nos num mundo irreal, de ilusões, de encantamento, absorvendo a nossa parte emocional, apesar do nosso cérebro insistir que é somente uma manipulação. Mas a fantasia pode ser tão ou mais gratificante que a realidade. “The Illusionist” seduz-nos porque trata do limbo entre estes dois mundos, e prova que um filme de época não tem que ser excessivamente denso, e pode ser uma óptima peça de entretenimento.









realizado por Rita às 21:32
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Segunda-feira, 13 de Novembro de 2006
The Departed ****

Realização: Martin Scorsese. Elenco: Leonardo DiCaprio, Matt Damon Jack Nicholson, Mark Wahlberg, Martin Sheen, Ray Winstone, Vera Farmiga, Anthony Anderson, Alec Baldwin. Nacionalidade: EUA, 2006.





Devo ser das poucas pessoas que achou “Gangs of New York” um bom filme, e que “The Aviator” era um biopic bem conseguido. Ainda assim, junto-me ao coro que apregoa em voz alta o regresso de Martin Scorsese à sua boa velha forma com este “The Departed”.


Os criminosos italo-americanos de “Goodfellas” são substituídos pelos irlandeses-americanos de Boston, num argumento de William Monahan (“Kingdom of Heaven” de Ridley Scott), inspirado no filme "Infernal Affairs” (2002), dos realizadores de Hong Kong Andrew Lau e Andy Mak (que eu lamentavelmente não vi).


O poderoso criminoso Frank Costello (Jack Nicholson) cria Colin Sullivan desde jovem para que ele se torne polícia e trabalhe infiltrado a seu favor. O dedicado Colin (Matt Damon) é colocado na Massachusetts State Police encarregue do caso que visa capturar o próprio Costello. Ao mesmo tempo, a Special Investigation Unit contacta Billy Costigan (Leonardo DiCaprio), um recém-graduado da academia de polícia cuja família teve fortes ligações ao crime em Boston, para trabalhar como agente infiltrado junto de Frank Costello.


E assim se inicia um jogo de gato e rato (a gravata leopardo da personagem de Nicholson evidencia o seu carácter predador), com nuances de tragédia grega, onde a lealdade é um valor que se relativiza quando a sobrevivência de um status quo é posta em causa.


“The Departed” tem uma narrativa complexa, com várias linhas de acção paralelas, misturada num novelo de enganos e mentiras, por personagens multifacetadas é de uma consistência sem falhas. Sob a uma montagem ágil de Thelma Schoonmaker, no final tudo se une num sentido lógico e filosoficamente justo.


À realização detalhista de Scorsese (quem se lembraria de vestir a única mulher do filme com peças de lingerie que não condizem? - aviso aos homens: esse é o nosso estado natural), junta-se um fabuloso elenco, onde, como é normal a mulher tem um papel totalmente secundário. Neste caso, essa posição ingrata coube a Vera Farmiga no papel de uma psiquiatra que se relaciona pessoal e profissionalmente com alguns destes homens. Mas consigo perdoar a misoginia de Scorsese por tudo aquilo de bom que ele consegue retirar dos seus actores masculinos.


DiCaprio parece ter sido preparado por Scorsese para este papel, imprimindo com igual intensidade as necessárias doses de solidão e agressividade, numa personagem cuja raiva latente é controlada pelo seu sentido de honra. Damon, continua a impressionar, equilibrando-se entre a crueldade e a vulnerabilidade. Entre o controlo e culpa católica. De Nicholson, que se pode dizer desta versão de “godfather” que consegue o nosso afecto mesmo sendo completamente hedonista e execrável? De primeira. Nos secundários, à frente dos respectivos departamentos, está um arrogante Alec Baldwin e um diplomático Martin Sheen. Ray Winstone, no papel de braço direito de Costello, consegue superar Nicholson no seu modo psicótico. Mas quem é completamente cativante, apesar das suas curtas aparições, é Wahlberg. E o detalhe com que estas personagens estão desenhadas é particularmente visível na personagem deste, Dignam, auxiliar de Queenan (Martin Sheen) na Special Investigation Unit. Ele é exactamente o mesmo do princípio ao fim do filme, agressivo e insultuoso, mas a sua imagem aos nossos olhos vai-se alterando ao longo do filme, provando que as nossas percepções acerca das pessoas mudam muito mais frequentemente que elas próprias.


O crescendo de suspense não nos deixa repousar por um momento. Mas, apesar de não termos ideia de onde nos levará de seguida, o argumento não nos deixa perder. Só depois de sair da sala, ao dom de ‘Comfortably Numb’ na versão de Roger Waters, Van Morrison e The Band, é que as peças se vão encaixando com surpreendente naturalidade, como se tudo fosse assim claro desde início.


“The Departed” é um filme escrito, realizado e interpretado com notável empenho, uma partitura onde cada nota está exactamente onde devia estar. Scorsese é o exímio maestro desta sinfonia.






CITAÇÕES:


“I don’t wanna be a product of my environment, I want my environment to be a product of me.”
JACK NICHOLSON (Frank Costello)


“When I was your age they used to say you could become cops or criminals. What I'm saying to you is this... When your facing a loaded gun, what's the difference?”
JACK NICHOLSON (Frank Costello)


“If we're not gonna make it, its gotta be you that gets out, cause I'm not capable. I'm fucking Irish, I'll deal with something being wrong for the rest of my life.”
MATT DAMON (Colin Sullivan)


“One of us had to die. With me, it tends to be the other guy.”
JACK NICHOLSON (Frank Costello)


“No tickey, no laundry!”
JACK NICHOLSON (Frank Costello)


COMFORTABLY NUMB
Pink Floyd


(...)

A distant ship's smoke on the horizon.
You are only coming through in waves.
Your lips move but I can't hear what you're sayin'.
When I was a child I caught a fleeting glimpse,
Out of the corner of my eye.
I turned to look but it was gone.
I cannot put my finger on it now.
The child is grown, the dream is gone.
I have become comfortably numb.




realizado por Rita às 02:39
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Domingo, 12 de Novembro de 2006
CineEco 2006 - a digestão



Depois da ressaca chega a digestão: uma referência a alguns dos filmes que me deixaram mais marcas (positivas e negativas).






“Les Réfugiés de la Planète Bleue” / “Os Refugiados do Planeta Azul”, de Jean-Philippe Duval e Hélène Choquette (França e Canada, 2006)

Em todo o mundo, milhões de pessoas são obrigadas a deslocarem-se e a abandonarem as suas casas, por razões ambientais. No Canadá, nas Maldivas e no Brasil, assistimos a casos de terras contaminadas por gases tóxicos ligados à exploração petrolífera, aos efeitos na vida marinha e pesqueira em resultado do aquecimento global, ou o esgotamento das terras provocado pelas monoculturas. As pressões económicas e ambientais sobre as populações rurais forçam o abandono do seu modo de vida tradicional, transformando um grande número de indivíduos em refugiados. Sem um estatuto legal, o número destes refugiados tende a aumentar, superando inclusivamente o dos refugiados políticos.

Para mim, o melhor filme deste festival.






“Wasser unterm Hammer” / “H2O (Água à Venda)”, de Leslie Frank (Alemanha, 2005)

Um importante filme sobre a privatização da água, contrastando a experiência inglesa com a verificada em algumas cidades alemãs. Será legítimo fazer uma exploração com objectivos de lucro de um recurso natural que deveria estar ao alcance de todos visto satisfazer uma necessidade básica das populações? Este filme põe em questão o falacioso argumento de que a gestão privada será sempre mais eficaz que uma gestão pública. O abuso da posição de monopólio que é gerada pela privatização de águas municipais, com despedimentos massivos e aumento exorbitante de preços, raramente parece estar a ser compensada por uma gestão mais eficiente e sustentável de um recurso escasso. Aos lençóis freáticos ingleses, contaminados durante a revolução industrial (e à canalização de Londres da época victoriana), é contraposto o exemplo de Hamburgo, onde a empresa (pública) de águas detém terras importantes em torno da cidade, cedendo-os para exploração agrícola de tipo biológico, no sentido de proteger os lençóis freáticos. Nesta mesma cidade, a opção pela gestão pública ganhou em referendo.






“Gharat”, de Pankas Rishi Kumar (Índia, 2005)

Nas terras de montanha dos Himalais, o sistema de gharat – moinhos que aproveitam a corrente dos cursos de água – permite estabelecer um sistemas económico descentralizado, ao utilizar a energia hidráulica para as culturas dos cereais, do arroz e do algodão, bem como para a produção de electricidade, evidenciando assim o potencial da tecnologia de pequena escala para o desenvolvimento sustentável.






“Gambit”, de Sabine Gisiger (Suiça, 2005)

“Gambit” versa sobre as consequências criminais e sociais de um acidente que teve lugar em Seveso, Itália, e que teve por base objectivos puramente económicos associados a um elevado grau de negligência. Em 1976, um problema mecânico num reactor provoca um derrame de uma dioxina venenosa resultante da produção de triclorofenol. Em 1983, o químico Jorg Sambeth é condenado a 5 anos de prisão, acarretando, como um bode expiatório, as culpas de uma grande organização: Givaudan- Roche, porque “he who pays the piper calls the tune”.






“White Gold – The True Cost of Cotton” / “Ouro Branco – O Verdadeiro Preço do Algodão”, de Sam Cole (Reino Unido, 2005)

Uma belíssima curta-metragem sobre o desaparecimento do mar Aral, no Uzbequistão, em resultado da intensiva cultura do algodão, para a qual são chamadas todas as mãos disponíveis, incluindo as crianças que deveriam estar nas escolas. A mensagem final: “buy your cotton carefully”.

Para ler o relatório da Environmental Justice Foundation e para ver o vídeo, clicar aqui.






“Giovanni e Il Mito Impossibile delle Arti Visive” / “Giovanni e o Mito Impossível das Artes Visuais”, de Gabriele Gismondi & Ruggero Di Maggio (Itália, 2005)

O olhar inocente de um homem de 70 anos, Giovanni, sobre a arte moderna e as suas (im)possíveis interpretações, que ocupa cada canto da sua cidade, Gibellina, Sicília. Em 1968, a Gibellina original foi completamente destruída por um terramoto. Poderá a arte responder às questões filosóficas levantadas pelos desastres natural?

Trailer aqui.






“Kitui Sand Dams” / “Represas de Areia no Kitui”, de Hans Van Westerlaak e Eva Zwart (Holanda, 2006)

No Quénia, a empresa SASOL (Sahelian Solutions Foundations Kenya) promove a construção de represas de areia no rio Kitui. Esta actividade permite a populações com graves problemas económicos ter, por um lado, um trabalho activo, e, por outro, retirar benefícios de uma infra-estrutura que lhes permite combater os efeitos das secas. Um documento a ver, pela utilidade de uma solução pouco dispendiosa e pela extrema necessidade de envolver directamente as populações na resolução dos seus problemas.

Preview aqui.






“Os Herdeiros do Guaraná”, de Rémi Denecheau (França, Brasil, 2005)

O guaraná é um elemento decisivo na economia local de Maués, Amazonas. Os Satéré-Mawé e outros povos indígenas lutam por preservar esta cultura, através de um processo produtivo que respeita os recursos naturais e a biodiversidade, em contraste com a pressão de grandes empresas como a Guaraná Antarctica, actualmente parte do grupo Pepsi Co..




“Bartô”, de Luíz Botosso e Thiago Veiga (Brasil, 2006)

Uma boa metáfora, em animação, sobre o conflito entre homem e natureza, ou melhor, da acção destruidora e despótica do primeiro sobre a segunda.






“El Cerco” / “O Cerco”, de Ricardo Íscar e Nacho Martín (Espanha, 2005)

Na costa de Cádiz, um grupo de pescadores cerca um cardume de atuns à medida que este se aproximam do estreito de Gilbraltar (um ritual mouro denominado “La Almadraba”). Uma curta-metragem que condensa, de forma exímia, uma história de vida e morte, fazendo um bom uso da fotografia sépia e do barulho natural dos peixes para criar tensão.




“Hijos de la Montanã de Plata” / “Os Filhos da Montanha”, de Juan S. Betancor (Espanha, 2005)

“Hijos de la Montanã” fala sobre a dura vida dos mineiros de Potosi, Bolívia, estabelecendo um perturbante paralelismo entre a exploração do recurso natural com a exploração do recurso humano.






“O Pontal de Paranapanema”, de Francisco Guariba (Brasil, 2005)

A zona de Paranapanema serve de exemplo aos conflitos gerados pela posse da terra, desde os tempos da “grilagem” (método pelo qual os documentos que legalizavam a posse de terras eram colocados numa gaveta com grilos para que adquirissem um aspecto envelhecido) até à luta dos movimentos dos sem-terra e a reforma agrária.






“Conflict Tiger” / “O Ataque do Tigre”, de Sasha Snow (Rússia, 2005)

No leste da Rússia as florestas têm vindo a sofrer com a acção do homem. Como resultado da perturbação deste habitat, a sua vida animal tem necessidade de procurar alimento e refúgio fora dos seus novos (reduzidos) limites. Nesta dramatização ficcional, um homem persegue um tigre que já fez mais de uma vítima mortal. Ainda que os mecanismos de tensão pudessem ser mais eficientes, este é importante filme sobre como o homem só se preocupa com os efeitos da sua acção sobre o meio ambiente quando os seus nefastos resultados lhe rugem à porta e de unhas afiadas.






“Ainda Há Pastores?”, de Jorge Pelicano (Portugal, 2006)

Este filme tem a mais valia de uma grande “personagem”, Hermínio, um pastor de de 28 anos de Casais de Folgosinho, Serra da Estrela. Infelizmente, Jorge Pelicano parece apenas se ter dado conta desse facto na sala de montagem, e o filme sofre de uma grande falta de consistência, alternando entre os fortes momentos de um homem cujo maior sonho era ver actuar Quim Barreiros (fica-se na dúvida se, no filme, terá havido ou não manipulação com fins dramáticos para forçar o encontro entre Hermínio e Quim Barreiros, por isso darei o benefício da dúvida) e outras pequenas histórias paralelas, sem ligação à anterior a não ser pelo facto de, também elas tratarem de realidades serranas.

A grande fraqueza deste filme reside, sem sombra de dúvida em tudo o que se relaciona com a narração em off. Começando pelo texto, um conjunto de clichés que rasa o ridículo e o tom excessivamente poético para uma realidade tão nua. Adicionalmente, a voz do radialista Fernando Alves é de tal maneira interpretativa e condescendente que retira a força documental da obra.

O mérito de Pelicano reside no respeito extremo por estas pessoas genuínas. Prova disso foi também a presença de Hermínio no dia de apresentação desta obra no festival. Esta atitude é essencial para fazer bons documentários. A técnica aprende-se e treina-se. Mais informações no blog http://aindahapastores.blogspot.com.






“Doutor Estranho Amor, ou como aprendi a amar o preservativo e deixei de me preocupar”, de Leonor Areal (Portugal, 2004)

É chocante ver o nome de um dos meus filmes preferidos vilipendiado para um documentário com esta falta de bom-gosto e de qualidade. “Doutor Estranho Amor...” começa com um cenário de evento social filmado em tons vermelhos, a péssima captação de som acompanha a tentativa de discernir no escuro uma ou outra pessoa conhecida. Passa-se depois para o acompanhamento de uma Brigada Universitária de Intervenção, ou seja, um grupo de estudantes de medicina que se desloca a escolas secundárias no sentido de divulgar informação sobre comportamentos sexuais saudáveis.

Ignorando completamente o conceito de montagem, esta obra é, no mínimo, alarmista. O seu carácter didáctico é tanto mais assustador quando vemos as (más) técnicas e metodologias pedagógicas usadas por esta equipa para transmitir a sua mensagem. Apelar a jovens desmotivados e com problemas de ordem social e escolar é um desafio imenso e, nesse sentido, há bastante valor neste iniciativa. No entanto, é preciso ter claro que este tipo de soluções não visa acalmar consciências nem fazer simplesmente uso dos orçamentos designados para o efeito. Concentrar esforços e direccioná-los para objectivos concretos pode ser um bom começo. Em “Doutor Estranho Amor...” os assuntos são, na sua maioria, totalmente paralelos, e o tema do preservativo é, no total, abordado apenas um par de vezes.




“Rua 15 - S.João”, de António Barreira Saraiva (Portugal, 2006)

Pegue-se no vosso pior vídeo caseiro, junte-se um assunto apenas relevante para as pessoas que nele entram, exclua-se toda a hipótese de montagem, estenda-se a sua duração com uma infindável cena de dois miúdos a dançar ku-duro, umas outras de pessoas a decorarem as fachadas das suas casas para a noite de S.João e mais umas senhoras desafinadas a cantarem canções típicas. Ah, repita-se estas só para dar um tom mais pitoresco. No final, projecte-se tudo isto na parede de uma das casas para toda a gente que foi filmada se poder ver, e para parecer mesmo que nos importamos com o objecto do documentário. É o suficiente para se ter o pior filme do festival.






realizado por Rita às 16:18
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Sexta-feira, 10 de Novembro de 2006
Nature Boy


Esta música, da autoria de Eden Ahbez, já fez parte de muitos filmes: “The Boy With The Green Hair” de Joseph Losey (1948), “Untamed Heart” de Tony Bill (1993) e, mais recentemente “Moulin Rouge” de Baz Lurhmann (2001).


Ainda que a versão que mais ressoa nos meus ouvidos seja a de David Bowie, ontem a voz de Jamie Cullum encheu o Coliseu dos Recreios. Sem microfone e acompanhado pelo fabuloso contrabaixo de Geoff Gascoyne, a luz no centro da arena concentrou os olhares. E os corações.


Porque há noites assim especiais.



NATURE BOY

There was a boy
A very strange enchanted boy
They say he wandered very far, very far
Over land and sea
A little shy and sad of eye
But very wise was he

And then one day
A magic day he passed my way
And while we spoke of many things
Fools and kings
This he said to me
"The greatest thing you'll ever learn
Is just to love and be loved in return"

"The greatest thing you'll ever learn
Is just to love and be loved in return"







P.S. - Com a habitual percussão no piano, Jamie fez um medley pop onde incluiu as Pussycat Dolls. Com o típico humor dos cinzentos céus de Londres, Jamie pergunta “Don’t you wish your boyfriend was short like me?”. Com toda essa energia e essa entrega só posso dizer: “Yes, Jamie, I do.”






realizado por Rita às 11:18
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Lady In The Water **

Realização: M. Night Shyamalan. Elenco: Paul Giamatti, Bryce Dallas Howard, Jeffrey Wright, Bob Balaban, Sarita Choudhuryk, Cindy Cheung, M. Night Shyamalan, Freddy Rodríguez, Bill Irwin, Mary Beth Hurt, Noah Gray-Cabey. Nacionalidade: EUA, 2006.





O erro de M. Night Shyamalan foi ter começado a sua carreira com dois grandes filmes. Com “Lady in the Water” vem acrescentar mais um ponto à minha escala de desilusão, onde entrou desde “The Village”.


Por muito que me custe, e por muito que eu goste de Brice Dallas Howard e adore Paul Giamatti (“American Splendor”, “Sideways”), por muito bons secundários (um destaque para Jeffrey Wright) e por muito bela que seja a fotografia de Christopher Doyle, tenho que admitir que este filme é pouco mais que um entretenimento de sábado à tarde (e um daqueles sábados em que temos mesmo de ficar em casa por causa da chuva e nos outros canais só estão a dar novelas).


Cleveland Heep (Paul Giamatti) é o responsável pela gestão diária condomínio The Cove, arranjando canalizações e fazendo todo o tipo de pequenos trabalhos. Numa noite, Cleveland descobre na piscina do prédio uma jovem de seu nome Story (Brice Dallas Howard), que mais tarde vem a saber tratar-se de uma “narf”, uma ninfa marinha cuja missão é entrar em contacto com o ser humano para o salvar e regressar ao seu “Mundo Azul”. O que a Cleveland parece um delírio é, com efeito, uma velha história para adormecer. Através de uma senhora coreana, Cleveland irá tentar desvendar o mistério que envolve Story.


Shyamalan coloca Cleveland numa interminável busca por detalhes acerca da história, junto de uma relutante emissora (afinal de contas tinha que ser uma longa-metragem), na tentativa de evitar o pior desfecho. A alguns habitantes do condomínio irá competir-lhes desempenhar as funções necessárias para que Story consiga salvar-se e ser recebida por uma “águia”. As personagens são tratadas com superficialidade e descartadas com indiferença. E é esse sentimento de indiferença que fica, e ao qual se junta o tédio provocado por um filme basicamente dispensável.


“Lady in the Water” aflora o mundo místico das histórias que povoam o folclore de muitas culturas, mas cai num registo de susto fácil com personagens pouco trabalhadas e das quais muito cedo perdemos o interesse. Em termos de tensão fica muito aquém de, por exemplo, um “Le Pacte des Loups” (2001) de Christophe Gans (2001), em termos de lamechice confesso na minha mente ressoava gritantemente “Cocoon” (1985) de Ron Howard (o pai de Brice Dallas Howard) e não me consegui abstrair desta imagem até ao final do filme.


O melhor de “Lady in the Water” é tudo aquilo que nada tem a ver com a “Lady” nem com a “Water”. Retirando a fantasia de trazer por casa, aquele condomínio tem potencial. Desde o grupo de ociosos que passa os dias a fumar erva e a filosofar, passando por um cínico crítico de cinema (esta personagem parece tudo menos aleatória) e diversas famílias mono-parentais com as suas peculiaridades. Mas Shyamalan deixou-as abandonadas, desperdiçou actores como Giamatti numa caricatura cuja única característica distintiva é a gaguez, ou Brice Dallas Howard reduzida a uma etérea transparência. Ao invés, impôs a sua própria presença física na personagem de Vick Ran, o mensageiro que entregará a mensagem de Story ao mundo, torna-se pesada e, muitas vezes, sem sentido.


Shyamalan preferiu ignorar uma mão cheia de boas pequenas histórias e optou por uma “ego-trip”. Uma pena.






realizado por Rita às 02:09
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Quinta-feira, 9 de Novembro de 2006
Little Miss Sunshine ****

Realização: Jonathan Dayton e Valerie Faris. Elenco: Abigail Breslin, Greg Kinnear, Paul Dano, Alan Arkin, Toni Collette, Steve Carell. Nacionalidade: EUA, 2006.





Richard (Greg Kinnear) faz palestras sobre motivação, e espera que o seu programa de 9 passos se torne um sucesso. Dwayne (Paulo Dano, (“The Ballad of Jack and Rose” de Rebecca Miller, 2005); “L.I.E.” de Michal Cuesta, 2001), o seu filho de 15 anos quer ser piloto de caças e fez um voto de silêncio como prova da sua determinação. O pai de Richard (Alan Arkin) é um viciado em heroína que vive em casa do filho depois de ter sido expulso da casa de repouso. Sheryl (Toni Collette), a mulher de Richard, acaba de ir buscar o irmão Frank (Steve Carell) ao hospital depois de este se ter tentado suicidar por um desgosto de amor. Quando Olive (Abigail Breslin, “Signs” de M. Night Shyamalan, 2002), a filha mais nova do casal, é convidada a participar no concurso de beleza infantil Little Miss Sunshine, esta família disfuncional mete-se a caminho da Califórnia numa carrinha Volkswagen amarela, o sétimo protagonista da pequena pérola que é este filme independente.


O casal Jonathan Dayton e Valerie Faris, realizadores de vídeos para bandas como R.E.M., The Smashing Pumpkins ou Red Hot Chili Peppers, estreiam-se nas longas-metragens com um argumento do também estreante Michael Arndt.


Neste road movie, o exíguo espaço de uma carrinha (que me fez lembrar de uma Toyota Hiace que partilhei este ano com mais 12 pessoas durante largos e lentos quilómetros!) exige o confronto de uma família, expondo os seus problemas e inseguranças, mas também o entendimento e aproximação que se geram em torno do inocente sonho de Olive, que cresceu a ver concursos de misses (a pressão da imagem mediática é extremamente forte na cena do restaurante em que Richard incute um pesado sentimento de culpa em Olive por ela querer comer um gelado).


Curiosamente, apesar de quase caricaturais, é impossível não acreditar na genuinidade destas estranhas personagens, que acabam por se entranhar. A culpa é, sobretudo, do talento de todo o elenco, especialmente de Alan Arkin, que rouba todas as cenas, e de Abigail Breslin, sem as típicas afectações de pequena estrela. Para Toni Collette sobra o papel mais sério, mas imprescindível na coesão deste grupo.


“Little Miss Sunshine” é um filme que fala da importância de vencer numa sociedade que exige, por vezes, o impossível e onde se esquece que ser mais não é o mesmo que ser melhor. A fome de êxito esconde, muitas vezes, faltas muito mais essenciais. Entre risos e tristezas, a história de “Little Miss Sunshine” vai-se adensando em camadas, ao longo da estrada. Com a acção, as personagens crescem, com elas o filme, com o filme nós próprios.


Mas para um filme que envolve drogas, morte e várias referências a Nietzsche e Proust, “Little Miss Sunshine” tem a estranha capacidade de nos deixar tremendamente bem dispostos. Com sarcasmo e absurdo, “Little Miss Sunshine” condena a abusiva cultura dos resultados, a par da obscenidade dos concursos de beleza infantis. E apesar da constante alternância de tom, este filme mantém a sua solidez e consistência, nunca deixando que a seriedade se perca na comédia.


Usando e despertando fortes emoções, “Little Miss Sunshine” é um filme delicioso sobre as coisas que fazemos pelas pessoas que amamos, mesmo quando essas pessoas dão connosco em doidos.



P.S. - Uma nota final para a banda sonora, à base de Mychael Danna e DeVotchKa, mas de onde destaco o abaixo citado Sufjan Stevens (por favor, alguém traga este senhor a Portugal!!!).






CITAÇÕES:


“There's no sense in entering a contest if you don't think you can win.”


“Olive: Grandpa, am I pretty?
Grandpa - You are the most beautiful girl in the world.
Olive - You're just saying that.
Grandpa - No! I'm madly in love with you and it's not because of your brains or your personality.”
ABIGAIL BRESLIN (Olive) e ALAN ARKIN (Edwin Hoover)


“Losers are people who are so afraid of not winning, they don't even try.”
ALAN ARKIN (Edwin Hoover)


“You know what? Fuck beauty contests. Life is one fucking beauty contest after another. School, then college, then work... Fuck that. And fuck the Air Force Academy. If I want to fly, I'll find a way to fly. You do what you love, and fuck the rest!”
PAUL DANO (Dwayne)


“Dwayne - I wish I could just sleep until I was eighteen and skip all of this, high school, everything.
Frank - [explica que Proust acreditava que o sofrimento faz de nós quem nós somos] So if you go to sleep until you're 18...? Think of all the suffering you're gonna miss! High school's your prime suffering years! You don't get better suffering than that!”
PAUL DANO (Dwayne) e STEVE CARELL (Frank)






CHICAGO
Sufjan Stevens



I fell in love again
all things go, all things go
drove to Chicago
all things know, all things know
we sold our clothes to the state
I don't mind, I don't mind
I made a lot of mistakes
in my mind, in my mind

you came to take us
all things go, all things go
to recreate us
all things grow, all things grow
we had our mindset
all things know, all things know
you had to find it
all things go, all things go

I drove to New York
in the van, with my friend
we slept in parking lots
I don't mind, I don't mind
I was in love with the place
in my mind, in my mind
I made a lot of mistakes
in my mind, in my mind

you came to take us
all things go, all things go
to recreate us
all things grow, all things grow
we had our mindset
all things know, all things know
you had to find it
all things go, all things go

if I was crying
in the van, with my friend
it was for freedom
from myself and from the land
I made a lot of mistakes
I made a lot of mistakes
I made a lot of mistakes
I made a lot of mistakes

you came to take us
all things go, all things go
to recreate us
all things grow, all things grow
we had our mindset
all things know, all things know
you had to find it
all things go, all things go

you came to take us
all things go, all things go
to recreate us
all things grow, all things grow
we had our mindset
(I made a lot of mistakes)
all things know, all things know
(I made a lot of mistakes)
you had to find it
(I made a lot of mistakes)
all things go, all things go
(I made a lot of mistakes)





realizado por Rita às 01:05
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Cinefools
RITA, MIGUEL, SÉRGIO, NUNO,
VASCO, LUÍS,
efeitos visuais por S.
Citação

“When morals decline and good men do nothing evil flourishes.”
LEONARDO DICAPRIO (J. Edgar Hoover) in J. EDGAR, de Clitn Eastwood
Banda sonora

PILEDRIVER WALTZ – Alex Turner
in “Submarine” de Richard Ayoade (2010)
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Assassination of Richard Nixon, The
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B
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Babel
Babies
Backstage
Ballad of Jack and Rose, The
Banquet, The
Barney’s Version
Basic Instinct 2
Batman Begins
Battle in Seattle
Be Kind Rewind
Bee Movie
Before Sunset
Before the Devil Knows You’re Dead
Beginners
Being Julia
Belle Bête, La
Belleville Rendez-Vous
Big Bang Love, Juvenile A
Big Fish
Birth - O Mistério
Black Swan
Blade Runner
Blindness
Blood Diamond
Blue Valentine
Boat That Rocked, The
Bobby
Body of Lies
Bocca del Lupo, Las
Borat
Born Into Brothels
Bourne Ultimatum, The
Box, The
Boxing Day
Boy in the Striped Pyjamas, The
Boys are Back, The
Brave One, The
Breach
Breakfast on Pluto
Breaking and Entering
Brick
Brokeback Mountain
Broken Flowers
Brothers Bloom, The
Brothers Grimm, The
Brüna Surfistinha
Brüno
Burn After Reading
Butterfly Effect

C
Caché
Caimano, Il
Camping Sauvage
Candy
Canino - Kynodontas
Capitalism: A Love Story
Capote
Caramel
Carandiru
Carlos
Carnage
Carne Fresca, Procura-se
Cartouches Gauloises
Casanova
Casino Jack
Casino Royale
Caos Calmo
Castro
C’est Pas Tout à Fait la Vie Dont J’avais Rêvé
Chamada Perdida, Uma
Changeling
Chansons d’Amour
Chaos
Chaos Theory
Charlie and the Chocolate Factory
Charlie Wilson's War
Che: El Argentino
Che: Guerrilla
Chefe Disto Tudo, O - Direktøren for det Hele
Chico & Rita
Children of Men
Chloe
Choke
City of Life and Death
Client 9: The Rise and Fall of Eliot Spitzer
Climas - Iklimer
Closer - Perto Demais
Cloudy With A Chance Of Meatballs
Coco Avant Chanel
Cœurs
Coffee and Cigarettes
Coisa Ruim
Cold Souls
Collateral
Collector, The
Combien Tu M’Aimes?
Comme une Image
Concert, Le
Condemned, The
Constant Gardener, The
Control
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Crimson Gold
Crónicas
Crónicas de Narnia, As
Curious Case of Benjamin Button, The
Curse of the Golden Flower

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Dangerous Method, A
Dans Paris
Darjeeling Limited, The
Dark Knight, The
De Tanto Bater o Meu Coração Parou
Dead Girl, The
Dear Wendy
Death of Mr. Lazarescu, The
Death Proof (S), Death Proof (R)
Debt, The
Deixa-me Entrar
Déjà Vu
Delirious
Departed, The
Descendants, The
Despicable Me
Derailed
Destricted
Dialogue Avec Mon Jardinier
Diarios de Motocicleta
Die Hard 4.0
Disturbia
Do Outro Lado
Don’t Come Knocking
Dorian Gray
Doublure, La
Drama/Mex
Drawing Restraint 9
Dreamgirls
Dreams on Spec
Drive

E
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Eastern Promises
Easy Rider
Edge of Love, The
Educación de las Hadas, La
Edukadores, Os
Elegy
Elizabeth: The Golden Age
Elizabethtown
En la Cama
Enfant, L’
Ensemble, C’est Tout
Enter The Void
Entre Les Murs
Entre os Dedos
Entre Ses Mains
Eternal Sunshine of the Spotless Mind
Être et Avoir
Eu Servi o Rei de Inglaterra
Evening
Everything is Illuminated
Exit Through the Gift Shop
Extremely Loud & Incredibly Close

F
Factory Girl
Fahrenheit 9-11
Family Stone, The
Fantastic Mr. Fox
Fast Food Nation
Faute à Fidel, La
Ferro 3
Fighter, The
Fille Coupée en Deux, La
Fille du Juge, La
Fils de L’Épicier, Le
Final Cut, The
Find Me Guilty
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Fish Tank
Five Minutes of Heaven
Flags Of Our Fathers
Flores de Otro Mundo
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Forgotten, The
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Frank Zappa - A Pioneer of the Future of Music Part I & II
Frankie
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Fresh Air
Frost/Nixon
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George Harrison: Living in the Material World
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Gigantic
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Ghost Town
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Girl From Monday, The
Girl With a Pearl Earring
Girlfriend Experience, The
Go Go Tales
Gomorra
Gone Baby Gone
Good German, The
Good Night, And Good Luck
Good Shepherd, The
Good Year, A
Graduate, The
Graine et le Mulet, La
Gran Torino
Grande Silêncio, O
Gravehopping
Green Lantern
Grbavica

H
Habana Blues
Habemus Papam
Habitación de Fermat, La
Half Nelson
Hallam Foe
Hanna
Happening, The
Happy Endings
Happy-Go-Lucky
Hard Candy
Harsh Times
He Was a Quiet Man
Hedwig - A Origem do Amor
Héctor
Hellboy
Hellboy II: The Golden Army
Help, The
Herbes Folles, Les
Hereafter
History of Violence, A
Hoax, The
Holiday, The
Home at the End of the World, A
Host, The
Hostel
Hotel Rwanda
Hottest State, The
House of the Flying Daggers
How To Lose Friends & Alienate People
Howl
Humpday
Hunger
Hurt Locker, The
Hustle & Flow
I
I Am Legend
I Could Never Be Your Woman
I Don’t Want To Sleep Alone
I Heart Huckabees
I Love You Phillip Morris
I’m Not There
I’m Still Here
Ice Age - The Meltdown
Ice Harvest, The
Ides of March, The
If a Tree Falls: A Story of the Earth Liberation Front
Illusionist, The
Illusioniste, L’
Ils Ne Mouraient Pas Tous Mais Tous Étaient Frappés
Imaginarium of Doctor Parnassus, The
Immortel (ad vitam)
In a Better World - Hævnen
In Bruges
In Good Company
In Her Shoes
In The Loop
In the Valley of Elah
In Time
Inception
Inconvenient Truth, An
Incredible Hulk, The
Incredibles, The
Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull
Indigènes - Dias de Glória
Infamous
Informant!, The
Informers, The
Inglourious Basterds
Inland Empire
Inner Life of Martin Frost, The
Inside Man
Intermission
Interpreter, The
Interview
Into the Wild
Introspective
Io Sono L’Amore
Iron Lady, The
Iron Man
Island, The
It Happened Just Before
It Might Get Loud
Ivresse du Pouvoir, L’

J
J. Edgar
Jacket, The
Japanese Story
Jarhead
Je Ne Suis Pas La Pour Être Aimé
Je Préfère Qu’on Reste Amis
Jeux d’Enfants
Jindabyne
Julie & Julia
Juno
Just Like Heaven
Juventude em Marcha

K
Kids Are All Right, The
Kill List
King Kong
King’s Speech, The
Kiss Kiss Bang Bang
Klimt
Knight and DayKovak Box, The

L
Laberinto del Fauno, El
Lady in the Water
Lake House, The
Land of Plenty
Lars and the Real Girl
Last King of Scotland, The
Last Kiss, The
Last Night
Last Station, The
Leatherheads
Letters From Iwo Jima
Levity
Libertine, The
Lie With Me
Life Aquatic with Steve Zissou, The
Life During Wartime
Life is a Miracle
Lions For Lambs
LIP, L’Imagination au Pouvoir, Les
Lisboetas
Little Children
Little Miss Sunshine
Livro Negro - Zwartboek
Left Ear
Lonely Hearts
Long Dimanche de Fiançailles, Un
Lost in Translation
Lou Reed's Berlin
Louise-Michel
Love Conquers All
Love and Other Drugs
Love in the Time of Cholera
Love Song for Bobby Long, A
Lovebirds, The
Lovely Bones, The
Lucky Number Slevin
Luna de Avellaneda
Lust, Caution

M
Machete
Madagascar
Made in Dagenham
Mala Educación, La
Malas Temporadas
Mammuth
Man About Town
Man On Wire
Management
Manuale d’Amore
Maquinista, O
Mar Adentro
Margin Call
Margot at the Wedding
Maria Cheia de Graça
Marie Antoinette
Martha Marcy May Marlene
Mary
Match Point
Me And You And Everyone We Know
Meek's Cutoff
Melancholia
Melinda and Melinda
Memórias de uma Geisha
Men Who Stare at Goats, The
Método, El
Mi Vida Sin Mí
Michael Clayton
Micmacs à Tire Larigot
Midnight in Paris
Milk
Million Dollar Baby
Mio Fratello è Figlio Unico
Moine, Le
Momma’a Man
Moneyball
Monster
Moon
Morning Glory
Mother (Madeo)
Mother, The
Moustache, La
Mozart and the Whale
Mrs Henderson Presents
Mujer Sin Cabeza, La
Munique
Music & Lyrics
My Blueberry Nights
My Week With Marilyn
My Son, My Son, What Have Ye Done
Mysterious Skin

N
Nana, La
Nathalie
Ne Le Dis À Personne
Ne Te Retourne Pas
NEDS
New World, The
Ni pour, ni contre (bien au contraire)
Niña Santa, La
Night Listener, The
Night on Earth
Nightmare Before Christmas, The
Ninguém Sabe
No Country For Old Men
No Reservations
No Sos Vos, Soy Yo
Nombres de Alicia, Los
North Country
Notes on a Scandal
Number 23, The

O
Ocean’s Thirteen
Odore del Sangue L’
Offside
Old Joy
Oldboy
Oliver Twist
Once
Onda, A - Die Welle
Ondine
Orgulho e Preconceito
Orly

P
Pa Negre (Pan Negro)
Painted Veil, The
Palais Royal!
Para Que No Me Olvides
Paradise Now
Paranoid Park
Parapalos
Paris
Paris, Je T’Aime
Passager, Le
Passenger, The (Professione: Reporter)
Patti Smith - Dream of Life
Perder Es Cuestión de Método
Perfume: The Story of a Murderer
Persépolis
Personal Velocity
Petite Lili, La
Piel Que Habito, La
Pink
Pirates of the Caribbean: Dead Man’s Chest
Planet Terror
Playtime
Please Give
Post Mortem
Poupées Russes, Les
Prairie Home Companion, A
Precious: Based on the Novel ‘Push’ by Sapphire
Prestige, The
Presunto Culpable
Pretty In The Face
Prophète, Un
Promeneur du Champ de Mars, Le
Promotion, The
Proof
Proposition, The
Prud'Hommes
Public Enemies

Q
Quantum of Solace
Quatro Noites Com Anna
Queen, The
Quelques Jours en Septembre
Qui M’Aime Me Suive

R
Rabia
Rachel Getting Married
Raison du Plus Faible, La
Ratatouille
Re-cycle
Reader, The
Red Eye
Red Road
Redacted
Refuge, Le
Religulous
Reservation Road
Reservoir Dogs
Resident, The
Restless
Revenants, Les
Revolutionary Road
Ring Two, The
Road, The
Road To Guantanamo, The
Rois et Reine
Rôle de sa Vie, Le
Romance & Cigarettes
Rubber
Rum Diary, The
S
Sabor da Melancia, O
Safety of Objects, The
Salt
Salvador (Puig Antich)
Samaria
Sauf Le Respect Que Je Vous Dois
Savages, The
Saw
Saw II
Saw III
Scaphandre et le Papillon, Le
Scanner Darkly, A
Science des Rêves, La
Sconosciuta, La
Scoop
Scott Pilgrim vs. The World
Secret Window
Secreto de Sus Ojos, El
Selon Charlie
Sem Ela...
Semana Solos, Una
Señora Beba
Sentinel, The
Separação, Uma - Jodaeiye Nader az Simin
Séptimo Día, El
Séraphine
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