CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA
Quarta-feira, 25 de Outubro de 2006
Les Anges Exterminateurs *

Realização: Jean-Claude Brisseau. Elenco: Frédéric van den Driessche, Maroussia Dubreuil, Lise Bellynck, Marie Allan, Sophie Bonnet, Raphaële Godin, Margaret Zenou, Jeanne Cellard. Nacionalidade: França, 2006.





O realizador Jean-Claude Brisseau (“Choses Secrètes”, 2002) ambiciona ser a versão masculina de Catherine Breillat (“Sex is Comedy”). Mas falta-lhe o olhar cuidadoso, a subtileza, a sensibilidade e o bom gosto.


Como é que um filme com tanto sexo consegue ser tão aborrecido??? A Festa do Cinema Francês não terminou da melhor forma, mas suponho que a ter de vir, este filme tinha que ficar na última sessão, sob pena de prejudicar o restante festival.


Por onde começar? Bem, há uns anjos da morte que, acompanhadas do fantasma da avó de François (Frédéric van den Driessche) estão prestes a dar-lhe uma lição. Não se percebe a razão nem a extensão do castigo. Fica implícito que a própria morte. Antes fosse...


François é realizador, quer trazer algo de novo ao cinema e está decidido a fazer uma abordagem existencialista do sexo (e eu que pensava que “sexo logo existo” seria o suficiente). Ele quer que as actrizes se libertem dos limites (auto)impostos e se deixem levar pelas suas fantasias (claro que todas as fantasias destas mulheres passam por ter sexo com outras mulheres...!!!, vê-se logo que ele percebe disto!). Ele quer que elas ultrapassem os seus tabus eróticos (no final percebi que “seus” se referia ao próprio Brisseau). Para isso, François leva a cabo o exaustivo casting e, com as três actrizes escolhidas, ele dá largas à sua teoria sobre o prazer feminino.


Com efeito, Brisseau foi processado por algumas das actrizes que fizeram o casting e considerado culpado de assédio sexual. Na minha opinião, não lhe retiro a legitimidade para abordar este tema, de um ponto de vista artístico. Podia era tê-lo feito num filme com qualidade. A componente auto-biográfica do filme também não constituiu de per si um atestado de verosimilhança ou qualidade narrativa. No meu tribunal apenas o acuso (e condeno) de me ter feito perder tempo.


As actrizes estão todas elas desamparadas, sem um argumento onde se agarrarem e, com limitadas qualidades interpretativas, resta-lhes tirar a roupa (é para elas que vai a estrela solitária). Apenas a Lise Bellynck, no papel Julie, lhe é dada a oportunidade de algum dramatismo numa cena final. Raphaële Godin (“Trilogia Lucas Belvaux”) interpreta simultaneamente um dos anjos e Rebecca, uma anterior pupila de François, uma dualidade que obviamente fica sem explicação. A ideia parece ser criar suficiente confusão para não se notarem as falhas e o vazio. Por falar nisso, um erro básico de rapport conseguiu incomodar-me verdadeiramente logo numa das primeiras cenas de casting: filmada de frente e de costas, a actriz ter o lenço - um adereço que se revela importante - colocado de formas tão diferentes que cheguei a pensar que já era outro casting.


Como filme auto-justificativo, “Les Anges Exterminateurs” deixa também bastante a desejar. Na verdade, não nos importamos com qualquer uma das personagens. Nem com François, tentando equilibrar-se entre o pessoal e o profissional, nem quando os sentimentos começam a entrar no jogo (mais um estereótipo feminino...?). A importância da relação de confiança entre actrizes e realizador tem muito pouco a ver com a desinibição sexual, e há processos bastante mais violentos psicologicamente que os que aqui são retratados. “Les Anges Exterminateurs” é tão narcisista e masturbatório que Brisseau deveria tê-lo guardado na gaveta dos seus “home movies”.


Para finalizar, Brisseau fala do enigma do prazer feminino, como se isso fosse um mistério, um mito, tipo “yo nunca las he visto, pero que las hay, las hay”. Se ele quer explicar o prazer sexual feminino, captar o seu fascínio, a sua intensidade, a sua mística (na verdade, é uma coisa muito mais simples, nada de tão transcendental), melhor teria sido filmá-las a verem um bom filme porno. O prazer da mulher existe quando existe comunicação, em primeiro lugar com ela mesma e em segundo lugar com o(s) outro(s). Ponto final.






realizado por Rita às 02:42
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Terça-feira, 24 de Outubro de 2006
Selon Charlie ***1/2

Realização: Nicole Garcia. Elenco: Jean-Pierre Bacri, Vincent Lindon, Benoît Magimel, Benoît Poelvoorde, Patrick Pineau, Arnaud Valois, Ferdinand Martin, Minna Haapkylä, Sophie Cattani, Philippe Lefebvre, Philippe Magnan, Samir Guesmi, Jérôme Robart, Valérie Benguigui, Grégoire Leprince-Ringuet. Nacionalidade: França, 2006.





Matthieu (Patrick Pineau) é paleontólogo e regressa à sua cidade natal, na província costeira francesa, para uma conferência sobre a descoberta que a sua equipa fez de um homem pré-histórico que baptizaram de “Dirk” – “o homem da solidão”. Aí ele reencontra um antigo colega, Pierre (Benoît Magimel, “La Pianiste”) que se tornou professor, casado com Nora (Minna Haapkyla), que trabalha num centro de talassoterapia. Nora engana Pierre com Serge (Vincent Lindon, “La Moustache”), um colega de trabalho. O filho de Serge (Ferdinand Martin) é o Charlie do título, 11 anos, observador e, mais tarde, catalizador da mudança na vida de alguns destes homens. Deste filme coral fazem ainda parte um Presidente da Câmara adúltero (Jean-Pierre Bacri, “Comme une Image”), um jogador de ténis em crise vocacional (Arnaud Valois), e um pequeno criminoso em liberdade condicional e com má sorte (Benoît Poelvoorde, “Entre Ses Mains”).


O título do último filme de Nicole Garcia (“L’Adversaire”, 2002) reporta para o ponto de vista de uma criança, que, observando um mundo de adultos à distância, irresponsáveis, infiéis, frustrados, recusa ele próprio cair nos caminhos sem lógica e sem moral, tentando corrigir esse mundo ao qual ele sabe que mais tarde se irá juntar. Obrigado a mentir à sua mãe para proteger o pai, esta criança vai, pouco a pouco, descobrindo que os adultos mais depressa se refugiam em mentiras do que procuram a verdade.


Nenhum destes homens consegue perceber como chegou a uma fase da sua vida tão distanciada de quem quiseram um dia ser. Os três dias em que se desenrola a acção de “Selon Charlie” servem para pôr em questão as opções que os levaram até ali. Atormentados e em sofrimento, todos estes homens estão sós, em última instância, com as suas escolhas e com a sua consciência.


Nicole Garcia (também co-argumentista) usa uma câmara intimista, dando ao espectador pouco mais do que aquilo a que Charlie vai tendo acesso. As histórias das diversas personagens entrecruzam-se suavemente, mas são dadas poucas explicações sobre as suas opções e o seu passado, como apenas tivéssemos direito a estes dias da sua vida, esses breves instantes em que cada um de nós se cruza com outro. Não se entende se o distanciamento a que Nicole Garcia nos vota é intencional ou não, mas a sensação de irrealidade, quase frieza, é algo que fica.


E se a subtileza e os sub-entendidos podem ser reflexo de um filme inteligente, podem igualmente pôr em causa o seu entendimento. Apesar das grandes interpretações, estas personagens estão desenhadas a traços largos, e algumas delas são totalmente dispensáveis na narrativa, como é o caso do jogador de ténis. Com efeito, Charlie acaba apenas por afectar a vida do seu pai (Vincent Lindon numa deliciosa dualidade entre bom pai e mau marido) e o seu professor Pierre (Benoît Magimel num registo de fragilidade). Ao dar-lhes pouca substância real (ainda que as suas atitudes estejam impregnadas em significados implícitos), cada um dele acaba por ficar fechado num tipo e é fácil haver um sentimento de dispersão.


Mas Nicole Garcia não perde a mão no que se refere a filmar a dor e a desnudar o ser humano. Estes fragmentos masculinos são viris mas estão fragilizados pelas suas cicatrizes e pelas suas inquietações. Cada um deles procura um sentido e uma tranquilidade. A quem num momento de loucura (ou talvez sanidade...) já não lhe apeteceu fugir que atire a primeira pedra.






CITAÇÕES:


“Comment les hommes peuvent se tromper, emprunter une histoire, un rêve, un fantasme qui n’est pas le leur, et comment ils peuvent, dans cet égarement, remonter à eux-mêmes?”
NICOLE GARCIA






realizado por Rita às 00:18
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Segunda-feira, 23 de Outubro de 2006
Je Ne Suis Pas La Pour Être Aimé ****

Realização: Stéphane Brizé. Elenco: Patrick Chesnais, Anne Consigny, Georges Wilson, Lionel Abelanski, Cyril Couton, Geneviève Mnich, Hélène Alexandridis, Anne Benoît.. Nacionalidade: França, 2005.





Jean-Claude (Patrick Chesnais) é um oficial de justiça na casa dos 50, que se cansa a subir as escadas para, como um emissário de más notícias, fazer as cobranças difíceis. Intimado pelo seu médico a fazer algum desporto, Jean-Claude opta pelas aulas de tango que tem vindo a espreitar da janela do seu escritório. Aí conhece Françoise (Anne Consigny), mais jovem que ele e prestes a casar-se com Thierry (Lionel Abelanski), um escritor em plena crise criativa.


Jean-Claude não espera surpresas, a sua vida é feita de rotinas. Incluindo a visita semanal à casa de repouso onde se encontra o seu pai (Georges Wilson), um tirânico que humilha de cada vez (mesmo que seja apenas pelo teor de cacau de um chocolate), e com quem Jean-Claude se limita a jogar Monopólio à falta de uma verdadeira comunicação. Jean-Claude acaba por reproduzir um pouco desta complicada relação com o seu próprio filho (Cyril Couton), que acaba de se juntar ao negócio que tem vindo a passar de geração e geração, não satisfazendo nenhuma delas.


Jean-Claude observa as aulas de tango da sua janela da mesma forma que o seu pai o vê partir cada final de semana, com pudor, como se apenas estivesse autorizado a ver a vida de longe. A sua vida sentimental é um deserto. Françoise, uma mulher, que, cheia de dúvidas, procura um amor absoluto e que não fica indiferente à profunda melancolia deste homem.


Je Ne Suis Pas Là Pour Être Aimé” está algures entre o drama intimista, o estudo de carácter e a comédia romântica. O filme de Stéphane Brizé é subtil, de sentimentos discretos mas intensos, serenos, filmado com extrema elegância e fluidez. A narrativa toma o tempo adequado para respirar, colocando nos silêncios quotidianos todo o peso da solidão, do desencanto, da resignação, da desesperança, de duas pessoas que balançam entre a tentação de ceder ao desconhecido ou a morte lenta da linha recta, calando para mais facilmente fingir que a infelicidade não existe.


Nada neste filme é imediato ou óbvio. O tango não é sensual, é o elemento de desconforto da intimidade, aproximando almas mais do que corpos. As interpretações são intensas. A contenção extrema de Patrick Chesnais, todo gestos e olhares, contribui para que um instante de explosão colérica se transforme num momento de forte densidade. Os papéis secundários, menos subtis e mais imprevisíveis, tornam-se imprescindíveis para o equilíbrio de Je Ne Suis Pas Là Pour Être Aimé”.


Stéphane Brizé transmite uma imensa ternura e respeito pelo ser humano, nas suas fragilidades, no desafio constante que é viver em harmonia com sentimentos e desejos, sonhos e pesadelos. Por isso não abdica nunca da possibilidade de renascimento.






realizado por Rita às 00:47
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Sábado, 21 de Outubro de 2006
CineEco 2006




Para os mais desatentos, está a decorrer o Cine’Eco – Festival Internacional de Cinema e Vídeo de Ambiente da Serra da Estrela. Este festival, que tem vindo a realizar-se desde 1995, recebeu o Prémio Nacional do Ambiente 2006, atribuído pela Confederação Portuguesa das Associações de Defesa do Ambiente. Até dia 29, o grande auditório da Casa Municipal da Cultura de Seia receberá um total de 60 filmes a concurso, provenientes de todo o mundo.


No cine-teatro estarão simultaneamente em cartaz ciclos de cinema sob diversos temas: Animação; Outras Terras, Outras Gentes; Guerra, Terrorismo & Dólares; Cinema e Ambiente; Cinema Português; e Clássicos.


Programa e pormenores em http://www.cineeco.org.






realizado por Rita às 09:07
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Sexta-feira, 20 de Outubro de 2006
doclisboa 2006




Começa hoje o 4º Festival Internacional de Cinema Documental de Lisboa. Até 29 de Outubro, a Culturgest vai apresentar uma selecção do melhor que se tem feito em cinema documental.


O festival será composto pelas seguintes secções:



COMPETIÇÃO INTERNACIONAL

Selecção de filmes (longas e curtas metragens) de todo o mundo, produzidos em 2005 ou 2006.

“A Sunday in Pripyat”, de Frédéric Cousseau, 27', França 2006
“The Fisherman and the Dancing Girl”, de Valeri Solomin, 54', Rússia 2005
“The Seeds”, de Wojciech Kasperski, 28', Polónia 2006
“Elogio ao 1/2”, de Pedro Sena Nunes, 70', Portugal 2005
“Tweety Lovely Superstar”, de Emmanuel Gras, 18', França 2005
“Tierra Negra”, de Ricardo Iscar Alvarez, 90', Espanha 2005
“Things”, de Martha Hrubá, 18', República Checa 2005
“As the Sun Begins to Set”, de Julie Moggan, 58', Reino Unido 2005
“Gagarin's Pioneers”, de Vitali Manskij, 100', Alemanha/Rússia 2005
“Impending Doom”, de Edgar Pêra, 8', Portugal 2006
“Arcana”, de Cristobal Vicente, 96', Chile 2005
“Cigaretta Mon Amour”, de Rosa Hannah Ziegler, 6', Alemanha 2006
“La Consultation”, de Héléne de Crécy, 91', França 2005
“Babooska”, de Rainer Frimmel e Tizza Covi, 100', Áustria/Itália 2005
“Strip-Tease”, de Attila V. Nagym, 7', Hungria 2005
“Our Daily Bread”, de Nikolaus Geyrhalter, 90', Áustria 2005
“The Sky Is my Ceiling”, de Keja Ho Kramer, 11', França 2006
“Kinshaza Palace”, de Zeka Laplaine, 75', Congo/França 2006
“Into the Great Silence”, de Philip Gröning, 164', Alemanha 2005
“Atman”, de Pirjo Honkasalo, 76', Finlândia/Alemanha 1996
“Un Pont sur la Drina”, de Xavier Lukomski, 18’, Bélgica 2005



COMPETIÇÃO NACIONAL

Secção competitiva com filmes de produção e/ou realização nacional, concluídos em 2005 ou 2006.

“No Fim do Mundo”, de Mariana Gaivão, 13', Portugal 2006
“Fora da Lei”, de Leonor Areal, 83', Portugal 2006
“Pintura Habitada”, de Joana Ascensão, 52', Portugal 2006
“Logo Existo”, de Graça Castanheira, 52', Portugal 2006
“Excursão”, de Leonor Noivo, 25', Portugal 2006
“Cartas da Ditadura”, de Inês Medeiros, 60', Portugal 2006
“Sombras do Passado”, de José Manuel Fernandes, 59', Portugal 2006
“A Casa Don Bosco”, de Manuel Monteiro Grilo, 47', Portugal 2006
“Pátria Incerta”, de Inês Gonçalves e Vasco Pimentel, 52', Portugal 2006
“O Casino”, de Hugo Maia, 13', Portugal 2006
“À Espera da Europa”, de Christine Reeh, 58', Portugal 2006
“Onze Burros Caem no Estômago Vazio”, de Tiago Pereira, 28', Portugal 2006
“Cantai Cantigas”, de Cláudia Tomaz, 50', Portugal 2006



INVESTIGAÇÕES

Secção competitiva com uma selecção de filmes de todo o mundo, explorando em profundidade temas da actualidade social ou política.

“EXIT - The Right to Die”, de Fernand Melgar, 76’, Suíça 2005
“Gitmo - The New Rules of War”, de Erik Gandini e Tarik Saleh, 82', Suécia 2005
“Oxalá Cresçam Pitangas”, de Kiluange Liberdade e Ondajki, 60', Portugal 2006
“China Blue”, de Micha X. Peled, 87’, E.U.A. 2005
“Kz”, de Rex Bloomstein, 98', Reino Unido 2005
“Sisters in Law”, de Kim Longinotto e Florence Ayisi, 106', Reino Unido 2005
“El Comité”, de Mateo Herrera, 93', Equador 2005
“Der Kick”, de Andres Velel, 82’, Alemanha 2006
“Ears, Open. Eyeballs, Click. ”, de Canaan Brumley, 95', E.U.A. 2005
“Gambit”, de Sabine Gisiger, 107', Suíça 2005
“Bien Mélanger”, de Nicolas Fonseca, 75’, Canadá, 2006



AMOS GITAI

O mais importante realizador israelita contemporâneo apresentará o conjunto de filmes de dois incontornáveis conjuntos de documentários (também designados por trilogia Wadi e por trilogia das Casas) sobre a história recente do seu país.

“News from Home/News from House”, 97', Israel 2005
“Wadi 1981-1991”, 97', França/Reino Unido 1991
“Bait (House)”, 51', Israel 1980
“Wadi Grand Canyon”, 90', Israel/França 1991
“Une Maison à Jerusalém”, 87', França/Itália 1998



SESSÕES ESPECIAIS

Apresentação de filmes fora de competição, todos eles inéditos em Portugal, com destaque para as mais recentes obras de três grandes nomes do documentário internacional (Eduardo Coutinho, Vincent Dieutre e Chantal Akerman). Exibição da Trilogia do Sagrado e do Demónio de Pirjo Honkasalo (a realizadora de “Three Rooms of Melancholia”) e para a apresentação de dois documentários portugueses em antestreia em que a música é tema central.

“Fragments sur la Grâce”, de Vincent Dieutre, 101', França 2006
“Mysterion”, de Pirjo Honkasalo, 90’, Finlândia 1991
“Brava Dança”, de José Pinheiro e Jorge Pires, 75', Portugal 2006
“Tanjuska and the Seven Devils”, de Pirjo Honkasalo, 80', Finlândia 1993
“Lusofonia, a (R)Evolução”, Filme colectivo com produção da Red Bull Music Academy, 60', Portugal 2006
“Neighborhood”, de Karoi Kinoshita e Allain Della Negra, 17', França 2006
“Yellow Box”, de Ting-fu Huang, 53', Taiwan 2006
“Entre Nós”, filme colectivo, 30’. Portugal 2006
“Tout Refleurit”, de Aurélien Gerbault, 80', França 2006
“Là-Bas”, de Chantal Akerman, 79’, Bélgica 2006
“O Fim e o Princípio”, de Eduardo Coutinho, 110', Brasil 2006
“Enron: the Smartest Guys in the Room”, de Alex Gibney, 110', E.U.A. 2005



MOSTRAR TRABALHO

Um programa sobre a duradoura e profícua abordagem do universo do trabalho pelo documentário, que é também uma viagem pela própria história deste género cinematográfico. Secção comissariada por Marie-Pierre Duhamel Müller, programadora e directora do festival Cinéma du Réel, de Paris.

“Les Malles”, de Samba Félix Ndiaye, 13', França 1989
“Salesman”, dos irmãos Maysles e Charlotte Zwerin, 90', E.U.A. 1968
“Makom, Avoda”, de Nurith Aviv, 81', Israel 1998
“Nosotros, los de Allá”, de Anna Klara Åhrén, Anna Weitz e Charlotta Copcutt 46', Suécia/Bolívia/Chile 2005
“Wittstock, Wittstock”, de Volker Koepp, 117', Alemanha 1997
“Surfarara”, de Vittorio De Seta, 10', Itália 1995
“Harlan County”, de Barbara Kopple, 103', E.U.A 1976
“Entuziasm: Sinfoniia Donbassa”, de Dziga Vertov, 68', URSS 1930
“Six Fois Deux - Episódio 1a Y'a Personne”, de Jean-Luc Godard e Anne-Marie Miéville, 58', França 1976
“The Cheese & The Worms”, de Kato Haruyo, 98', Japão 2005
“British Sounds”, de Jean-Luc Godard, 97', Reino Unido 1969
“Humain, Trop Humain”, de Louis Malle, 75', França 1970
“Die Bewerbung”, de Harun Farocki, 58', Alemanha 1997
“Ils ne Mouraient pas Tous mais Tous Étaient Frappés”, de Sophie Bruneau, 80', França 2005
“Industrial Britain”, de Robert Flaherty, 21', Reino Unido 1933
“Parabola d'Oro”, de Vittorio De Seta, 10', Itália 1995
“Maria (Peasant Elegy) ”, de Alexander Sokurov, 41', URSS 1978-1988
“Saffron = (Zafaran) ”, de Ebrahim Mokhtari, 40', Irão 1992



HISTÓRIAS MÍNIMAS: O DOCUMENTÁRIO JAPONÊS CONTEMPORÂNEO

Panorama histórico do documentário japonês de 1987 até ao presente. Dois dos realizadores representados nesta selecção, Makoto Sato e Naomi Kawase, estarão presentes para apresentar os seus filmes e discutir a situação do documentário no Japão.

“Magino Village - A Tale”, de Shinsuke Ogawa, 222', Japão 1986
“The Emperor's Naked Army Marches On”, de Kazuo Hara, 122', Japão 1987
“Living on the River Agano”, de Makoto Satô, 115', Japão 1992
“A2”, de Mori Tatsuya, 131', Japão 2002
“Without Memory”, de Hirokazu Koreeda, 84', Japão 1994-1996
“Embracing”, de Naomi Kawasa, 40’, Japão 1992
“Katatsumori”, de Naomi Kawasa, 40’, Japão 1994
“Memories of Agano”, de Makoto Satô, 57', Japão 2004
“Letter from a Yellow Cherry Blossom”, de Naomi Kawase, 65', Japão 2002
“Kya Ra Ka Ba A”, de Naomi Kawase, 50', Japão 2001
“Tarachime”, de Naomi Kawase, 43', França/Japão 2006



FICÇÕES DO REAL: NÚMERO ZERO - PROGRAMA SELECCIONADO POR PEDRO COSTA

Uma nova secção, vocacionada para ajudar a reflectir sobre as relações entre ficção e documentário, um diálogo tão antigo quanto a história do cinema, mas que está presente de forma particularmente evidente no mais interessante cinema contemporâneo. Nesta primeira edição, a selecção dos filmes a apresentar foi feita pelo realizador Pedro Costa, cuja obra é precisamente atravessada por algumas das questões que este programa pretende iluminar.

“Les Yeux ne Veulent pas en Tout Temps se Fermer ou Peut-être qu'un Jour Rome se Permettra de Choisir à son Tour (Othon) ”, de J. M. Straub e Danièle Huillet, 88', Alemanha/Itália 1969
“Numéro Zéro”, de Jean Eustache, 110’, França 1971
“Onde Jaz o Teu Sorriso? ”, de Pedro Costa, 104', Portugal/França 2002
“Marguerite telle qu’en Elle-Même”, de Dominique Auvray, 61', França 2002
“Los Angeles Plays Itself”, de Tom Andersen, 169’, E.U.A. 2003



Para mais detalhes sobre o programa consultar o site oficial..


Divirtam-se!






realizado por Rita às 01:52
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La Fille du Juge ****

Realização: William Karel. Género: Documentário. Nacionalidade: França, 2006.





Setembro de 2001. Clémence Boulouque tem 21 anos e está em Nova Iorque. Os atentados ao World Trade Center levam-na de regresso à sua infância, também ela profundamente marcada pelo terrorismo.


Clémence Boulouque é filha do juiz anti-terrorista Gilles Boulouque, encarregado dos inquéritos sobre os atentados de 1985-1986 em Paris, entre outros. Na sequência dessa investigação, e após os inquéritos, Boulouque liberta o suspeito Wahid Gordji, dada a ausência de provas de que Gordji fizesse parte da rede da terroristas. Boulouque é acusado por muitos dos seus pares de trair a independência da justiça e de ceder a pressões políticas, tendo usado a libertação de Gordji como moeda de troca para dois reféns franceses retidos no Líbano. Boulouque é um homem íntegro e idealista, profundamente envolvido no seu trabalho. A pressão e o abandono a que é votado acentuam a sua fragilidade e o seu sentimento de solidão, agravados pela acusação em 1988 de violação do segredo de justiça. No dia 13 de Dezembro de 1990, Gilles Boulouque suicida-se.


Na altura da sua morte, a sua filha Clémence tem 13 anos. Como ultrapassar estes acontecimentos? A morte de um pai? O desaparecimento do seu herói? Depois de uma infância constantemente rodeada de seguranças, ela vê-se sem a única pessoa com quem se sentia protegida e refugia-se no silêncio e na escola. Mais tarde acabará por escrever a sua dor e a sua solidão no livro 'Mort d’un Silence’, trazido ao cinema pela mão de William Karel.


Sem o propósito da controvérsia, Karel filma a própria Clémence Boulouque em Nova Iorque, e utiliza as suas fotografias pessoais e filmes em super 8 e para reconstituir a infância de Clémence e traçar o retrato da sua relação com o pai. As palavras de Clémence Boulouque, um texto rico perfeitamente interpretado por Elsa Zylberstein, constroem um documento comovente e transbordante de amor, uma homenagem plena de emoções, mas que nunca opta pelo sentimento fácil.


Karel insere o contexto histórico e a conjuntura em que se criou a máquina político-mdiática que levou Boulouque ao suicídio, com uma série de imagens de arquivo, onde não falta um debate entre François Miterrand e Jacques Chirac, na campanha presidencial de 1988, em que cada um deles tenta ilibar-se de qualquer responsabilidade no caso.


O elemento com menos força deste filme é a ligação aos atentados do World Trade Center que parece algo forçada, mas que, ao mesmo tempo, permite perceber que esta é uma questão muito mais antiga do que muitos de nós se dão conta. Por outro lado, o irmão de Clémence, Sylvain é referido diversas vezes, mas não aparece em todo o filme. Ainda que “La Fille du Juge” não precise da sua presença, a sua ausência é tão marcada que nos faz questionar de que lado foi tomada essa decisão.


“La Fille du Juge” é um filme lento, e que poderia ser facilmente entediante. Mas, pelo contrário, é uma obra completamente absorvente, numa brilhante montagem entre confissão privada e questões políticas, num magnífico equilíbrio entre drama íntimo e tragédia pública. Karel lida respeitosamente com os factos, aproveitando esta história pessoal para trazer para cima da mesa as ambíguas relações entre política e justiça.


Este “monólogo ilustrado” é um documento marcante. Uma vida cheia de interrogações e feridas que tenta fazer esse tortuoso caminho em direcção à serenidade.






CITAÇÕES:


“Personne ne se souvient de mon père et la vague d’attentats des années 80 à Paris se confond avec celles qui ont suivi. C’est après tout le destin des vagues de se retirer. C’était aussi le sien.”
CLÉMENCE BOULOUQUE






realizado por Rita às 01:47
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Quinta-feira, 19 de Outubro de 2006
Paris, Je T'Aime ***




Nacionalidade: Liechtenstein / Suiça / Alemanha / França, 2006.



“Paris, Je T’Aime” é baseado numa ideia de Tristan Carné, tendo as transições a cargo de Emmanuel Benbihy, e uma equipa de produção liderada por Claudie Ossard ( “Arizona Dream”, “Le Fabuleux Destin d'Amélie Poulain”). A diversos cineastas foi-lhes proposto o desafio de escreverem curtas-metragens de cinco minutos, contando cada uma delas uma história de amor tendo Paris como pano de fundo, nomeadamente, cada um dos “arrondissements”. Os realizadores estiveram sob a forte contingência de 2 dias e 2 noites de filmagens. No chão da sala de montagem acabaram por ficar dois dos “arrondissements”, que estavam a cargo de Christoffer Boe e Raphaël Nadjari. Mesmo assim, os 18 que sobraram dão para 2 horas de filme.


“Paris, Je T’Aime” mostra uma cidade polimórfica e multi-cultural, tal como o amor se assume nas suas diversas facetas. Os realizadores usam a sua própria linguagem para, como um ‘cadavre esquis’, escreverem uma carta de amor colectiva a Paris. Mas Paris vista pelos olhos de outros é sempre e apenas uma versão. O verdadeiro amor não se encontra nos locais mais turísticos, e “Paris Je T’Aime” ganha bastante quando se aventura para fora deles, pela classe trabalhadora e pelos emigrantes. Quem não conhece o trabalho de alguns destes realizadores, poderá sentir-se tentado a descobri-los, mas relativamente a outros, este filme não é de todo uma boa amostra da sua obra.


Sem que o todo seja necessariamente melhor que as partes que o constituem, “Paris Je T’Aime” é pelo menos um desafio para cada um construir a sua própria Paris, com o seu próprio amor e ao som da belíssima voz de Leslie Feist em “La Même Histoire”. Eu, por aqui, estarei atenta aos voos baratos para a cidade luz.


Um filme de retalhos é quase sempre de uma qualidade oscilante, e “Paris, Je T’Aime” não foge à regra. No entanto, a unidade narrativa é garantida pelo tema e até mesmo reforçada pelo entrecruzar de algumas das histórias no final do filme. Afinal o amor não é também uma coisa consistente, inalterada, e por isso amamos Paris, ainda que nem sempre da mesma forma.


Aqui fica uma pequena descrição de cada segmento, onde saliento as minhas preferências pessoais.



“Montmartre”, de Bruno Podalydès
com Bruno Podalydès e Florence Mueller

Um condutor (Bruno Podalydès, “Le Mystère De La Chambre Jaune”) tenta desesperadamente arranjar lugar de estacionamento no bairro de Montmatre. Quando finalmente o consegue, aproveita para reflectir sobre a sua vida e sobre a dificuldade que é arranjar uma namorada.






“Quais de Seine”, de Gurinder Chadha
com Leïla Bekhti e Cyril Descours

O discurso da realizadora Gurinder Chadha (“Bend It Like Beckham”) apela à paz e compreensão, ao abordar o tema do uso do hijab pelos jovens árabes. Um jovem (Cyril Descours) põe em questão as atitudes dos amigos, depois de conhecer uma rapariga árabe (Leïla Bekhti).






“Le Marais”, de Gus Van Sant
com Marianne Faithfull, Elias McConnell e Gaspard Ulliel

Gus Van Sant (“Elephant”) aborda não só o amor homossexual, mas também o amor transcendental onde existe o destino e alma gémea. Neste caso, a espiritualidade está toda do lado de Gaspard Ulliel “Un Long Dimanche de Fiançailles”).






“Tuileries”, de Joel e Ethan Coen
com Julie Bataille, Steve Buscemi, Axel Kiener e Frankie Pain

Os irmãos Coen, iguais a si mesmos, focam-se na agressividade sobre um turista americano na estação de metro de Tuileries. Com a quantidade de kitsch turístico que ele transporta, quase dá mesmo vontade de lhe bater. Vale por Steve Buscemi e por um detalhe do seu dicionário de bolso.






“Loin du 16ème”, de Walter Salles e Daniela Thomas
com Catalina Sandino Moreno

Walter Salles (“Diarios de Motocicleta”) e Daniela Thomas contam a história de uma mãe emigrante (Catalina Sandino Moreno), obrigada a deixar o seu filho num infantário nos subúrbios para ir tomar conta do filho de um casal rico do 16ème. Uma história forte, com as implicações sociais de um trabalho (não)remunerado. Comovente.




“Porte de Choisy”, de Christopher Doyle
com Barbet Schroeder e Li Xin

Christopher Doyle, director de fotografia de Wong Kar Wai (“2046”), mantém a onda oriental, num alucínio sem sentido a la Jackie Chan. O realizador Barbet Schroeder dá o seu contributo no papel de Monsieur Henny, um vendedor de cosméticos capilares.




“Bastille”, de Isabel Coixet
com Sergio Castellitto, Emilie Ohana, Miranda Richardson e Leonor Watling

A realizadora de “Mi Vida Sin Mí” e “La Vida Secreta de las Palabras” relata a história de um casamento em ruptura, cuja chama se reacende quando à mulher (Miranda Richardson) é diagnosticada uma leucemia terminal. O marido (Sergio Castellitto) “de tanto de comportar como um homem apaixonado, torna-se um homem apaixonado”.






“Place des Victoires”, de Nobuhiro Suwa
com Juliette Binoche, Martin Combes, Willem Dafoe e Hippolyte Girardot

História muito morna de uma mãe (Juliette Binoche) que chora pela morte do seu filho. A sua dor é acalmada por um cowboy imaginado (Willem Dafoe) que a devolve à sua família.






“Tour Eiffel”, de Sylvain Chomet
com Yolande Moreau e Paul Putner

Um rapaz conta como os seus pais (Yolande Moreau e Paul Putner) se conheceram, fazendo mímica perto da Torre Eiffel. Com imaginação e humor, o realizador de “Belleville Rendez-Vous” este é um conto de doçura e inocência.






“Parc Monceau”, de Alfonso Cuaron
com Nick Nolte, Ludivine Sagnier e Sara Martins

A curta de Alfonso Cuaron (“Y Tu Mamá También”) é um história de amor lida em palavras sombrias, como a rua por se passeiam Vincent (Nick Nolte) e Claire (Ludivine Sagnier). Inteligente.






“Quartier des Enfants Rouges”, de Olivier Assayas
com Maggie Gyllenhaal, Lionel Dray e Joana Preiss

Uma actriz americana (Maggie Gyllenhaal) tenta arranjar droga para aguentar a noite de festa e as filmagens que a esperam. Mas o encontro com o dealer (Lionel Dray) poderá significar algo mais. Frio.




“Place des Fêtes”, de Oliver Schmitz
com Seydou Boro e Aïssa Maïga Este é o encontro entre uma paramédica (Aïssa Maïga) e um músico (Seydou Boro), que acab de ser esfaqueado numa rixa. O amor nem sempre chega à hora certa.






“Pigalle”, de Richard LaGravenese
com Fanny Ardant e Bob Hoskins

Fanny Forestier (Fanny Ardant) e Bob Leander (Bob Hoskins) encontram-se num bar de strip-tease do Pigalle. Uma interessante abordagem sobre o amor numa fase de maior maturidade (dos indivíduos e da sua relação).






“Quartier de la Madeleine”, de Vincenzo Natali
com Elijah Wood, Olga Kurylenko e Wes Craven

Depois de já se ter servido do primeiro prato (o realizador Wes Craven), uma vampira (Olga Kurylenko) ataca um turista (Elijah Wood). Apesar do interessante visual Sin City, não se percebe exactamente a razão de ser de Paris nesta visão lúgubre de Vicenzo Natali (“Cube”, “Cypher”).




“Père-Lachaise”, de Wes Craven
com Emily Mortimer, Rufus Sewell e Alexander Payne

Num cemitério de Père-Lachaise, Frances (Emily Mortimer, “Match Point”) põe em questão o seu casamento pela falta de humor do seu noivo William (Rufus Sewell). O realizador Alexander Payne dá uma ajuda no papel do falecido Oscar Wilde. Wes Craven (“Red Eye”) é bem melhor quando tem tempo para criar tensão.






“Faubourg Saint-Denis”, de Tom Tykwer
com Natalie Portman e Melchior Beslon

Francine (Natalie Portman), uma actriz em início de carreira tenta terminar a sua relação com Thomas (Melchior Beslon), um jovem cego. Uma boa surpresa, que se estraga com a lamechas e dispensável imagem final.






“Quartier Latin”, de Gérard Depardieu e Frédéric Auburtin
com Gena Rowlands, Ben Gazzara e Gérard Depardieu

Gena (Gena Rowlands) e Ben (Ben Gazzara) encontram-se para combinar a assinatura dos seus papéis de divórcio. O vinho é servido por Gérard Depardieu, mas a temperatura não é a melhor.






“14ème arrondissement”, de Alexander Payne
com Margo Martindale

Carol (Margo Martindale) é uma turista americana que chega sozinha a Paris decidida a praticar o francês que aprendeu. Escutando em off a composição que ela escreveu sobre a sua viagem percebemos que não foi muito. Além disso, toda a gente lhe respondia em inglês. Alexander Payne (“Sideways”) finaliza o filme com uma nota melancólica, tocante, mas também divertida (“...la tombe de Jean-Paul Sartre et Simon Bolivar...”).






LA MÊME HISTOIRE
Feist

Quel est donc
Ce lien entre nous
Cette chose indéfinissable
Où vont ces destins qui se nouent
Pour nous rendre inséparables

Life’s a dance
We all have to do
What does the music require
People all moving together
Close as the flames in a fire
Feel the beat
Music and rhyme
While there is time

We all go round and round
Partners are lost and found
Looking for one more chance
All I know is
We’re all in the dance

Quel est donc
Ce qui nous sépare
Qui par hasard nous réunit
Pourquoi tant d’allers, de départs
Dans cette ronde infinie
On avance
Au fil du temps
Au gré du vent
Ainsi

On vit au jour le jour
Nos envies, nos amours
On s’en va sans savoir
On est toujours
Dans la même histoire

We all go round and round
Partners are lost and found
Looking for one more chance
All I know is
We’re all in the dance

Dans la même histoire
La même histoire






realizado por Rita às 01:13
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Quarta-feira, 18 de Outubro de 2006
Palais Royal! **

Realização: Valérie Lemercier. Elenco: Valérie Lemercier, Lambert Wilson, Catherine Deneuve, Michel Aumont, Mathilde Seigner, Denis Podalydès, Michel Vuillermoz, Gisèle Casadesus, Gilbert Melki.. Nacionalidade: França, 2005.





Armelle (Valérie Lemercier), terapeuta da fala e mãe de duas filhas, vê-se obrigada a cumprir as funções de primeira dama de um país fictício cujo rei, pai do seu marido Arnaud (Lambert Wilson), morre acidentalmente. O Príncipe Arnaud é um bon-vivant que assume a sua nova função com a mesma leveza com que se deita com a mulher do seu melhor amigo. mas para Armelle, desajeitada por natureza, o ridículo e a humilhação tornam-se uma constante em todo e qualquer acto oficial. Quando Armelle descobre que o seu marido a engana, não hesita em se vingar dele e de todos os que a obrigam a ser quem não é, nomeadamente da sua sogra (Catherine Deneuve).


“Palais Royal!” é uma comédia de situação bastante banal e sem consequências. Pegando numa série de clichés associados à realeza europeia, nomeadamente a inglesa, e à sua conturbada relação com os media, faz uma sátira que tem o mérito de arrancar um ou outro sorriso, mas nada mais.


Evidenciando as trivialidades idênticas às de qualquer outra família, com um ou outro segredo para dar mais cor, esta sátira à monarquia acaba por ter tonalidades um pouco mórbidas, ao fazer uma clara alusão à trágica morte de Diana.


“Palais Royal!”, cuja exibição na Festa do Cinema Francês contou com a presença da realizadora e protagonista Valérie Lemercier, é um filme que se vê sem sofrimento, com um bom ritmo e uma boa fotografia de James Welland, além de ganhar com um naipe de actores totalmente à vontade no registo cómico. Um intervalo fresco entre sessões, mas que a memória derrete rapidamente.






CITAÇÕES:


“Maman, tu te souviens quand tu était gentille?”






realizado por Rita às 00:22
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Terça-feira, 17 de Outubro de 2006
Vers Le Sud **

Realização: Laurent Cantet. Elenco: Charlotte Rampling, Karen Young, Louise Portal, Ménothy Cesar, Lys Ambroise, Jackenson Pierre Olmo Diaz, Wilfried Paul. Nacionalidade: França, 2005.





Haiti, princípio dos anos 80. No aeroporto, enquanto Albert (Lys Ambroise), maître d’hôtel, aguarda por uma nova hóspede, é abordado por uma mulher, cujo marido foi capturado pelas autoridades, e que lhe pede que ele fique com a sua filha, uma jovem pobre e bonita, temendo pelo seu futuro – demasiado previsível para todas as jovens pobres e bonitas. Perante a recusa de Albert, ela faz-lhe um aviso: “As boas máscaras estão misturadas com as más, mas todos usam uma.”


Três mulheres de meia-idade, Brenda (Karen Young, “The Sopranos”), Ellen (Charlotte Rampling, “Swimming Pool”) e Sue (Louise Portal) são visitas regulares nos Verões de Port-au-Prince. O paraíso: o sol, a praia, e os homens que quiserem. Aqui elas são rainhas, porque pagam para isso. Com este mecanismo de fuga tentam preencher e dar sentido a uma vida vazia. Brenda e Ellen partilham a atenção e o desejo por Legba (Ménothy Cesar), um jovem de 18 anos. Sob uma camuflagem de amizade, elas serão rivais, possessivas e ao mesmo tempo vulneráveis.


As norte-americanas estão famintas por sexo, os haitianos estão famintos. Mas o convívio entre a riqueza e pobreza apenas aumenta o contraste em vez de o atenuar. Entre elas e eles estabelece-se uma relação de dependência mútua, que poderia ser extrapolada para uma relação entre nações (com petróleo ou diamantes à mistura), com o dinheiro a ser a verdadeira fonte do mal (como Albert de facto refere).


A acção de “Vers Le Sud” decorre no contexto de pobreza resultado do feroz governo de François ‘Papa Doc’ Duvalier (não que hoje a sua situação política seja mais estável, com efeito, as gravações no resort foram efectuadas na vizinha República Dominicana). O turismo sexual é aqui apresentado sob o ponto de vista feminino, com claros reflexos da definição de forças colonial. Estas mulheres tiram uns meses das suas vidas para fingirem que têm uma outra vida, mas este pedaço não poderá nunca encaixar-se na sua realidade (“Não importa, tudo aqui é diferente.”). A sua visão, pseudo-liberal, acaba por se revelar estereotipada e mesmo hipócrita, pois sem sequer se misturarem com a realidade onde se encontram (“Aos turistas nunca acontece nada.”), nem se dão conta dos conflitos sociais que se adensam. Numa caridade muito pouco generosa, elas oferecem a Legba um passaporte, mas ele recusa a oportunidade de sair do seu país. Não é isso que ele quer. Este indício insinua que ele tem outros planos para mudar de vida sem sair do Haiti. Infelizmente, Cantet recusa-se a dizer-nos muita coisa.


Em compensação, soterra-nos em informação redundante e desnecessária em quatro monólogos feitos directamente para as câmaras, por parte das três mulheres e também por Albert (para isso, seria bem mais interessante ter o lado de Legba). Para o pouco que retiramos desses momentos bastaria filmar um ou outro ponto de vista.


Em “Ressource Humaines” e “L’Emplois du Temps”, Laurent Cantet debruçou-se sobre o conflito entre a identidade pessoal e profissional, aqui parece querer fazer um retrato pós-colonial individualizado onde a identidade de colonizador e colonizado simulam uma integração, mas acaba por se perder numa disputa entre gatas com o cio.


“Vers Le Sud” é um filme presunçoso e extremamente aborrecido. E as interpretações – incluindo a de Charlotte Rampling – estão impregnadas dessa mesma transpiração. O que me apetecia mesmo era estar numa praia das Caraíbas.






CITAÇÕES:


“Se calhar não o amava, mas amava a forma como ele olhava para mim.”
KAREN YOUNG (Brenda)






realizado por Rita às 03:28
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Segunda-feira, 16 de Outubro de 2006
Combien Tu M’Aimes? **

Realização: Bertrand Blier. Elenco: Monica Bellucci, Bernard Campan, Gérard Depardieu, Jean-Pierre Darroussin, Edouard Baer, Farida Rahouadj, Sara Forestier. Nacionalidade: Itália / França, 2005.





Daniela (Monica Bellucci) é a estrela de um bar do Pigalle, uma prostituta de origem italiana que faz apaixonar os homens à sua passagem. François (Bernard Campan) acabou de ganhar um prémio de milhões de euros, e propõe a Daniela que se instale em sua casa e partilhe a sua vida mediante um salário. Ela aceita, mas o mundo da noite não tardará a apanhá-los neste sonho. Caberá a François, com a sua desarmante candura e sinceridade, tocar o coração desta mulher endurecida pela vida.


Combien Tu M’Aimes?” é uma comédia romântica onde se mistura dinheiro, sexo, ternura e posse, num triângulo delimitado por uma prostituta com dilemas existenciais, um tímido solitário e um gangster perigoso (Gérard Depardieu).


Monica Bellucci adapta-se na perfeição a este registo. Faustosa, ela é um banquete para os olhos. Daniela diz, na voz de Bellucci: “Todos os homens me amam.” Eu acrescento, “e muitas mulheres também”. E esse parece ter sido o grande problema do realizador Bertrand Blier – a ofuscação. Só isso pode explicar as dúbias opções de iluminação, uma história sem sentido onde todas as personagens são irreais, com atitudes incoerentes e onde o inverosímil é anota dominante. A excessiva artificialidade afasta-nos das personagens ao ponto de esperarmos que tudo se trate de uma fantasia, para resolver as inconsistências.


Apesar disso, Combien Tu M’Aimes?” tem uns quantos momentos bastante cómicos, marcados por um absurdo burlesco que valem apenas como sketches (um destaque para a personagem da vizinha interpretada por Farida Rahouadj), e também um forte momento melodramático por parte de Jean-Pierre Darroussin (“Un Long Dimanche de Fiançailles”) no papel de André, o médico amigo de François. Como contraponto à facilidade de amar o belo, o saudável, o equilíbrio, ele representa o amor do feio, do doente, na ausência e na memória.


Mas, no global, Combien Tu M’Aimes?” está longe de comover. Ou convencer.



P.S. - Ainda assim é uma boa desculpa para colocar aqui umas fotas da Bellucci sem parecer exageradamente voyeur.










CITAÇÕES:


“Tous hommes m’aime.”
MONICA BELLUCCI (Daniela)


“Mulheres que gemem assim, estão a fingir.”
FARIDA RAHOUADJ (a vizinha)


“Temos muita ternura em atraso.”
BERNARD CAMPAN (François)






realizado por Rita às 02:23
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Domingo, 15 de Outubro de 2006
Dans Paris ***

Realização: Christophe Honoré. Elenco: Romain Duris, Louis Garrel, Joana Preiss, Guy Marchand, Marie-France Pisier, Alice Butaud. Nacionalidade: França, 2006.





É Inverno e Paul (Roman Duris, “Les Poupées Russes”, “De Tanto Bater o Meu Coração Parou”) está deprimido, em resultado da sua ruptura amorosa com Joanna (Joana Preiss). Regressando a casa do pai em Paris, desaloja o irmão mais novo, Jonathan (Louis Garrel, “Les Amants Réguliers”), para o sofá da sala, onde este é constantemente importunado pelo pai (Guy Marchand).


Jonathan dirige-se insolentemente à câmara para nos informar que não é o herói desta história, mas o narrador. E lança a pergunta: o que leva uma pessoa a atirar-se de uma ponte por amor?


O retrato de um dia na vida desta família, cujo lema é “Esforça-te por ignorar a tristeza dos teus”, é feito entre os dois irmãos, como dois diferentes pólos. Paul, sombrio e depressivo, Jonathan refrescante e luminoso, um profundo outro (aparentemente) superficial, mas unidos por um profundo afecto, como um género de Dom Quixote e Sancho Pança. Enquanto Paul (Duris numa interpretação profunda) acumula tristeza Jonathan acumula conquistas sexuais entre o Trocadero e as vitrinas do Bon Marché, como se se estivesse a divertir no lugar de Paul, para o manter à tona.


Mas apesar da sua tortuosa forma de individualismo, de uma mãe ausente (Marie-France Pisier), um pai excessivamente presente e a sua relação misto de conflito e ternura, esta família mantém-se unida, contra todas as previsões.


Sendo esta a verdadeira história de “Dans Paris” fica por entender por que razão Christophe Honoré (“Ma Mère”) gasta tanto tempo da primeira parte do filme a contextualizar (de uma forma propositadamente confusa) a relação amorosa de Paul e Joanna, um “je t’aime moi non plus” de pequenas torturas, desejos contraditórios, e dessincronias. O importante é estar em Paris no quarto com Paul e Jonathan a assistir a uma conversa que nunca se fez e que talvez nunca se fará.


Não se entende exactamente onde Honoré pretende chegar com tantos momentos supérfluos. Mas também, contra todas as previsões, este filme cria uma estranha sensação de encantamento. É poético, divertido, com diálogos impregnados de ironia e cinismo, um belo trio de actores e momentos verdadeiramente mágicos, como aquele em que Paul põe a tocar o single ‘Cambodia’ de Kim Wilde, procurando injectar no presente uma emoção do seu passado. Mas a cena mais bela deste filme é, sem dúvida, o diálogo cantado ao telefone por Paul e Joana de uma música de Alex Beaupain: “Avant la haine, avant les coups, de sifflets ou de fouets, avant la peine et le dégoût, brisons là, dis-tu.”


E se, como diz Joanna, “ser o grande amor de alguém, não quer dizer que tudo vai correr bem”, ainda assim é preciso atirarmo-nos mesmo sabendo que nos vamos molhar. Foi o que Christophe Honoré fez.






CITAÇÕES:


“Ser o grande amor de alguém, não quer dizer que tudo vai correr bem.”
JOANA PREISS (Joanna)


“Prends la peine d'ignorer la tristesse des tiens.”
LOUIS GARREL (Jonathan)


“Avant la haine, avant les coups, de sifflets ou de fouets, avant la peine et le dégoût, brisons là, dis-tu.”
ALEX BEAUPAIN, canção ‘Avant la Haine’






realizado por Rita às 12:19
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Sábado, 14 de Outubro de 2006
Ils Ne Mouraient Pas Tous Mais Tous Étaient Frappés ***

Realização: Sophie Bruneau e Marc-Antoine Roudil. Género: Documentário. Nacionalidade: Bélgica / França, 2005.





À semelhança de “Sauf Le Respect Que Je Vous Dois”, “Ils Ne Mouraient Pas Tous Mais Tous Étaient Frappés” * aborda também o tema do sofrimento no trabalho, desta feita sob a forma documental. Sob a forma de entrevistas, em consultas com clínicos especializados em patologias profissionais, uma operadora de uma linha de montagem, um director de uma agência bancária, uma auxiliar de uma casa de repouso, e uma gerente de loja dão o testemunho das suas traumáticas experiências laborais, todas com reflexos na sua saúde psicológica e/ou física.


Em 2004, a antropóloga Sophie Bruneau e o cineasta Marc-Antoine Roudil filmaram 37 casos em hospitais públicos da região parisiense, dos quais seleccionaram estes quatro, ao mesmo tempo específicos e semelhantes. Todos afirmam a sua entrega ao trabalho, aceitando as exigências de produtividade e disciplina até ao limite do sustentável. Da pressão e humilhação para a depressão nervosa vai um passo. A ruptura com o seu caminho profissional faz-se com um sentimento de traição, como uma peça que já não funciona são desprezados e trocados. E procuram, desesperadamente mas em vão, as razões objectivas que os tranquilizem.


Os planos são longos e fixos, e, apesar dos testemunhos serem totalmente pertinentes, do ponto de vista visual, “Ils Ne Mouraient...” torna-se muito pouco cativante.


“Ils Ne Mouraient...” assume, sem timidez, o ponto de vista parcial das vítimas. A segunda parte do filme, um debate entre o sociólogo Christophe Dijours e os terapeutas (cujo trabalho é auxiliado por uma rede de advogados e juristas) lançam alguns temas de discussão que mereciam uma reflexão mais atenta e global. Por um lado, temos novas formas de organização do trabalho e de avaliação de desempenho. Por outro, um crescente sofrimento individual originado pelo trabalho. Claro que tanto política como economicamente convém ignorar uma ligação entre os dois.


Os indivíduos têm vindo a perder os mecanismos de defesa colectiva que até aqui os protegiam. Isolados, sofrem mais facilmente, mas também são mais fáceis de controlar. Em suma, a solidariedade está em decadência.


Há ainda uma profunda questão ética associada a estas situações. Muitas destas pessoas compactuaram - pelo silêncio, por medo - com casos idênticos que aconteciam ao seu lado, e por isso sabem que estão sozinhas na sua luta e na sua dor. A sua voz é apenas um murmúrio que se quer fazer ouvir num mundo sufocado pelo barulho das máquinas registadoras.






* O título tem origem na fábula de La Fontaine - LES ANIMAUX MALADES DE LA PESTE.



OS ANIMAIS ISCADOS DE PESTE
La Fontaine (tradução de Machado de Assis )


Mal que se espalha o terror e que a ira celeste
Inventou para castigar
Os pecados do mundo, a peste, em suma, a peste,
Capaz de abastecer o Aqueronte num dia,
Veio entre os animais lavrar;
E, se nem tudo sucumbia,
Certo é que tudo adoecia.
Já nenhum, por dar mate ao moribundo alento,
Catava mais nenhum sustento.
Não havia manjar que o apetite abrisse,
Raposa ou lobo que saísse
Contra a presa inocente e mansa,
Rola que à rola não fugisse,
E onde amor falta, adeus, folgança.
O leão convocou uma assembléia e disse:
"Sócios meus, certamente este infortúnio veio
A castigar-nos de pecados.
Que, o mais culpado entre os culpados
Morra por aplacar a cólera divina.
Para a comum saúde esse é, talvez, o meio.
Em casos tais é de uso haver sacrificados;
Assim a história no-lo ensina.
Sem nenhuma ilusão, sem nenhuma indulgência,
Pesquisemos a consciência.
Quanto a mim, por dar mate ao ímpeto glutão,
Devorei muita carneirada.
Em que é que me ofendera? em nada.
E tive mesmo ocasião
De comer igualmente o guarda da manada.
Portanto, se é mister sacrificar-me, pronto.
Mas, assim como me acusei,
Bom é que cada um se acuse, de tal sorte
Que (devemos querê-lo, e é de todo ponto
Justo) caiba ao maior dos culpados a morte".
"Meu senhor, acudiu a raposa, é ser rei
Bom demais; é provar melindre exagerado.
Pois então devorar carneiros,
Raça lorpa e vilã, pode lá ser pecado?
Não. Vós fizestes-lhes, senhor,
Em os comer, muito favor.
E no que toca aos pegureiros,
Toda a calamidade era bem merecida,
Pois são daquelas gentes tais
Que imaginaram ter posição mais subida
Que a de nós outros animais".
Disse a raposa, e a corte aplaudiu-lhe o discurso.
Ninguém do tigre nem do urso,
Ninguém de outras iguais senhorias do mato,
Inda entre os atos mais daninhos,
Ousava esmerilhar um ato;
E até os últimos rafeiros,
Todos os bichos rezingueiros,
Não eram, no entender geral, mais que uns santinhos.
Eis chega o burro: "Tenho idéia que no prado
De um convento, indo eu a passar, e picado
Da ocasião, da fome e do capim viçoso,
E pode ser que do tinhoso,
Um bocadinho lambisquei
Da plantação. Foi um abuso, isso é verdade".
Mal o ouviu, a assembléia exclama: "Aqui del-rei!"
Um lobo, algo letrado, arenga e persuade
Que era força imolar esse bicho nefando,
Empesteado autor de tal calamidade;
E o pecadilho foi julgado
Um atentado.
Pois comer erva alheia! ó crime abominando!
Era visto que só a morte
Poderia purgar um pecado tão duro.
E o burro foi ao reino escuro.
Segundo sejas tu miserável ou forte
Áulicos te farão detestável ou puro.





realizado por Rita às 02:08
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Sexta-feira, 13 de Outubro de 2006
Sauf Le Respect Que Je Vous Dois ****

Realização: Fabienne Godet. Elenco: Olivier Gourmet, Dominique Blanc, Julie Depardieu, Marion Cotillard, Jeffrey Barbeau, Jean-Michel Portal, Jean-Marie Winling, Pascal Elso. Nacionalidade: França, 2005.





“Sauf Le Respect Que Je Vous Dois” começa com uma perseguição nocturna numa estrada deserta. Este é o resultado, mais ou menos lógico mas certamente desesperado, de uma sequência de eventos cruéis, que nos vão sendo desvendados pouco a pouco.


Na sua primeira longa-metragem, Fabienne Godet debruça-se sobre o desumanizado (e desumanizante) o mundo empresarial, um monstro voraz capaz de devorar quem lhe dá de comer. Numa sociedade submetida à ditadura do lucro, o humano é deixado para segundo plano. Mas para Fabienne Godet é exactamente o humano a sua grande preocupação. Ela concretiza essa grande massa anónima na personagem de François (Olivier Gourmet), um homem conciliador, que se submete silenciosamente à autoridade, abdicando do aniversário do filho e das férias com a família para satisfazer as exigências laborais. François tem medo, do patrão, da mulher, do conflito, das consequências de quebrar as regras, do desemprego, preferindo fechar os olhos para os efeitos erosivos que o trabalho tem na sua vida e na daqueles que o rodeiam.


Até ao momento em que um evento trágico e brutal o obriga a abri-los e a enfrentar a verdade. (Não condeno quem feche os olhos neste cena, uma das mais violentas que vi em cinema. Infelizmente, creio que será por ela que a maioria se irá recordar deste filme, quando todo o seu restante significado é muito mais relevante.) Esta tomada de consciência é dura e repentina e François, descontrolado por uma cólera vingativa, irá deparar-se com uma inesperada indiferença ao procurar explicações para o irrecuperável.


No seu caminho, François irá cruzar-se com duas mulheres: Flora (Julie Depardieu), jornalista e fiel depositária da sua palavra; e Lisa (Marion Cotillard, “Jeux d’Enfants”), uma jovem habituada a combater o sistema, facto que lhe confere a liberdade que falta a François.


Olivier Gourmet, actor querido dos irmãos Dardenne (“Le Fils”, “L’Enfant”), está enorme e extraordinário. O leque de mulheres, ao qual se deve acrescentar Dominique Blanc (Triologia Lucas Belvaux) no papel de esposa de François, e dos restantes secundários conferem a necessária autenticidade ao filme.


A crítica social de “Sauf Le Respect Que Je Vous Dois” centra-se num emprego que se arroga toda a relevância de uma vida, reduzindo as relações humanas a um insustentável vazio. Mas a rebelião poderá exigir um preço demasiado elevado. Como tolerar aquilo que é moralmente inaceitável? Como acatar ordens de quem nem sequer respeitamos? Como encontrar o respeito por nós mesmos e dizer “basta”?






P.S. - O ano passado atribuí o título de Rainha da Festa do Cinema Francês a Catherine Frot, este ano a justiça exige que o mesmo vá para Julie Depardieu, presente em três dos filmes apresentados. Uma senhora que se tem fartado de trabalhar. E bem, ainda por cima.






realizado por Rita às 01:46
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Quinta-feira, 12 de Outubro de 2006
Qui M'Aime Me Suive ****

Realização: Benoît Cohen. Elenco: Mathieu Demy, Eleonore Pourriat, Julie Depardieu, Romane Bohringer, Mathias Mlekuz, Fabio Zenoni, Warren Zavatta, Rufus, Thomas Chabrol, Elisabeth Margoni. Nacionalidade: França, 2005.





Max (Mathieu Demy) tem 35 anos e é um médico respeitado, o orgulho dos seus pais e da sua esposa, Anne (Romane Bohringer), advogada, e fiel portador da sua herança burguesa. A guitarra que tocava na sua adolescência é uma memória distante. A vida de Max é confortável e segura e desloca-se a uma velocidade de cruzeiro. Mas o seu sonho não é este. Num bar, Max escuta a música de Chine (Eléonore Pourriat, também co-argumentista do filme) e a sua paixão – a música – reaviva-se. Max decide então abandonar a sua profissão e dedicar-se à sua paixão – a música –, contactando os seus amigos de juventude e convencido de que quem o ama o apoiará no seu projecto. Mas o entusiasmo da sua amiga Praline (Julie Depardieu) parece não ser geral. Com efeito, o furacão que Max inicia com a sua decisão irá arrastar consigo todos aqueles que o rodeiam, mudando as suas vidas para sempre.


Estas personagens debatem-se em intensas contradições, das quais a personagem de Romane Bohringer é o paradigma. Numa interpretação feroz e, simultaneamente, sensível, ela debate-se entre o amor que sente por Max e a sua incapacidade de fazer com que esse amor signifique aceitação.


“Qui M'Aime Me Suive” é uma comédia agri-doce sobre uma geração de trintões desencantados que recalcaram os seus sonhos por uma noção ilusória de êxito, onde os objectivos materiais deixam por preencher uma parte demasiado grande da sua alma. A felicidade é o primeiro argumento de venda e o primeiro vazio da sociedade actual. Mas terá de ser fora das definições publicitárias que cada um terá de a construir, sabendo que o êxito não é ser-se famoso, é lutar pelo que queremos, avançar apesar do medo, ou até exactamente por causa dele.


A mensagem de “Qui M'Aime Me Suive” não é “vamos todos seguir o nosso sonho de infância”. Grande parte de nós não descobre esse caminho tão cedo. A opção de Max não é um combate à rotina ou o capricho de uma crise existencial. É sobre encontrar um sentido para a nossa vida, mesmo que isso implique dar uns passos atrás. Não se trata de fugir às responsabilidades, mas de assumir um novo conjunto delas e todas as consequências da mudança, e todas as mudanças consequentes. Escolher implica sempre deixar de lado um conjunto enorme de alternativas. Não escolher implica exactamente o mesmo. E só há um momento em que é demasiado tarde para mudar: exactamente aquele momento em que tudo muda.


Com frescura, sinceridade e entrega, Benoît Cohen transforma um conjunto de clichés num manifesto sobre a felicidade. Em torno de si, Cohen reúne um elenco com o qual já tinha filmado anteriormente em “Les Acteurs Anonymes” (2001) e “Nos Enfants Chéris” (2003) e o seu trabalho conjunto é reflexo dessa cumplicidade.


As músicas de Léonard Vindry estão feitas à medida desta história. Quando Chine canta “je suis faite pour le bonheur et bien faite” o que ela faz é reivindicar um direito.


Quanto ao título “Qui M'Aime Me Suive”, frase histórica proferida por Philippe VI (1293 - 1350), há duas considerações a fazer: (1) seguir não é ir atrás de, é acompanhar; (2) amar muito não é amar bem (e pode até ser extenuante). E se os mais cépticos insistirem em questionar o apoio incondicional de Praline, a resposta é dada num refrão: “je t’aime et voilá!”.






realizado por Rita às 01:31
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Quarta-feira, 11 de Outubro de 2006
Gentille ***

Realização: Sophie Fillières. Elenco: Emmanuelle Devos, Lambert Wilson, Bruno Todeschini, Michael Lonsdale, Bulle Ogier, Julie-Anne Roth, Nicolas Briançon. Nacionalidade: França, 2005.





Fontaine Leglou (Emmanuelle Devos) aborda um homem na rua, acusando-o de a estar a seguir e dizendo-lhe que nem sequer tem tempo para tomar um café. Perante a veemente negação dele, Fontaine admite o seu engano e acaba por convidá-lo para um café no dia seguinte. Mas Fontaine tem também um namorado de longa data, Michel (Bruno Todeschini), que está a umas horas de a pedir em casamento. Sem saber como reagir à proposta, a estratégia de Fontaine é a fuga. À sua dúvida acrescenta-se o interesse amoroso manifestado por Philippe (Lambert Wilson), um dos seus pacientes do hospital psiquiátrico onde Fontaine é anestesista.


Perante uma decisão que inevitavelmente mudará o curso da sua vida, a incerteza é perfeitamente compreensível. Mas Fontaine tem, no mínimo, um comportamento original. O padrão de comportamento de Fontaine é marcado desde início por uma extrema gentileza e boa educação. O confronto não é para ela. Infelizmente, “Gentille” começa muito melhor do que acaba.


“Gentille” tem momentos verdadeiramente hilariantes, quando o seu humor desconcertante nos apanha de surpresa, mas não consegue atingir um equilíbrio, acabando por, muitas vezes, cair no ridículo. A encantadora dose de loucura de Fontaine torna-se totalmente inverosímil com o avançar da história, apesar da sempre luminosa Emmanuelle Devos (“Rois et Reine”, “La Moustache”).


Ainda assim, “Gentille” revela um olhar curioso e imaginativo sobre a pseudo-normalidade do quotidiano, sobre as pequenas (grandes) excentricidades do comportamento humano, sobre a insegurança das relações e sobre o eterno enigma dos sentimentos.






realizado por Rita às 01:34
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Terça-feira, 10 de Outubro de 2006
La Raison du Plus Faible ****

Realização: Lucas Belvaux. Elenco: Eric Caravaca, Lucas Belvaux, Claude Semal, Patrick Descamps, Natacha Régnier, Elie Belvaux, Gilbert Melki. Nacionalidade: França, 2006.





Depois da trilogia “Un Couple Épatant” / “Cavale” / “Après la Vie”, o actor-realizador Lucas Belvaux regressa à sua Bélgica natal com um drama social que inevitavelmente faz lembrar a preocupação de Laurent Cantet (“Ressources Humaines”, “L’Emplois du Temps”).


Patrick (Eric Caravaca) é um jovem pai de família, sobre-qualificado e desempregado, que divide os seus dias entre a lida da casa e o filho, a sua pequena horta, e os jogos de cartas com os amigos Robert (Claude Semal) e Jean-Pierre (Patrick Descamps) ambos ex-trabalhadores da fundição que ainda serve de paisagem ao seu dia-a-dia. Carole (Natacha Régnier), a mulher de Patrick, confia na sua valha mota para a levar cada manhã ao seu trabalho numa lavandaria, caso contrário teria de levantar-se de madrugada. Quando a mota deixa de funcionar, o pai de Carole insiste em lhe comprar uma Vespa, mas o orgulho de Patrick não o permite aceitar, sentindo o acto como uma afronta à sua dignidade. Perante esta questão, Robert e Jean-Pierre decidem organizar um assalto aos donos da fundição, que tratam de transformar as sobras de metal em dinheiro vivo. Para recuperar o que sentem como seu de direito irão contar com a ajuda de Marc (Lucas Belvaux), cujo passado-recente na prisão insiste em não o deixar seguir em frente.


Improdutivos e inválidos, com pena de si próprios, como se fossem cidadãos de segunda numa sociedade os exclui, estes homens sentem-se usados e abusados, com vidas vazias, sem trabalho, sem esperança, sem futuro, e também sem nada a perder. Eles querem acreditar que, apesar de tudo, ainda é possível conseguirem alguma coisa, e através deste crime eles voltam a experimentar uma sensação de vontade, de capacidade de agir sobre o seu mundo. Mas este ingénuo acto Robinhoodesco tem tanto de desejo de dignidade como de vingança.


O título não engana, Belvaux está do lado dos fracos. O seu trabalho com as personagens é detalhado, e é com minúcia que ele nos mostra as suas condições de vida. É o seu amor por elas que cria a espantosa empatia com este grupo de homens sofridos e frustrados. Na atmosfera de desencanto desta Liége industrial o verde contrasta com a paisagem industrial, como se nesse pequeno espaço se reduzisse toda a esperança de escapar a um destino inexorável.


A sua razão? Belvaux não a dá nem a tira. Mas para mim, a amizade e a solidariedade podem ser justificações para muita coisa. Até para actos estúpidos.






realizado por Rita às 07:25
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Segunda-feira, 9 de Outubro de 2006
13 (Tzameti) ****

Realização: Géla Babluani. Elenco: George Babluani, Pascal Bongard, Aurélien Recoing, Fred Ulysse, Nicolas Pignon, Vania Vilers, Olga Legrand, Christophe Van de Velde, Augustin Legrand, Philippe Passon. Nacionalidade: França / Geórgia, 2005.





“13” ( “Tzameti” em georgiano) conta a história de Sébastien (George Babluani), um emigrante de 22 anos da Geórgia que vive miseravelmente com a sua família na França rural, fazendo biscates para sobreviver e sem perspectivas de melhorar as suas condições de vida. Sébastien dá-se por contente quando consegue um trabalho a arranjar o telhado de Jean-François Godon (Philippe Passon). Não demora muito até que Sébastien perceba que o seu patrão é viciado em morfina e quando este morre de uma overdose, Sébastien fica sem forma de receber o seu pagamento. Por algumas conversas que escutou, Sébastien entende que Godon estava à espera de uma boa entrada de dinheiro, ainda que por meios perigosos. Apesar disso, Sébastien decide ficar com um misterioso envelope que chegou para Godon e seguir as instruções que lhe eram destinadas. Sébastien dá consigo a caminho de Paris, terminando no meio de um jogo onde a aposta mais baixa é a sua vida.


Este é um thriller existencialista, filmado a preto e branco, à boa maneira do film noir. A belíssima fotografia de Tariel Meliava e um genial trabalho de iluminação ajudam à atmosfera de mistério e à tensão que se vai adensando sobre o suave começo.


Géla Babluani apenas nos dá o que precisamos saber (e eu também não quero desvendar demasiado). Mas o que nos dá é o suficiente para percebemos a motivação de Sébastien em assumir o lugar do outro. “13 (Tzameti)” é um “coming of age” brutal, onde Sébastien se vê obrigado a sacrificar os seus valores morais, um caminho do qual não há regresso possível, e onde a inocência perdida se torna irrecuperável.


“13 (Tzameti)” é também uma metáfora para a Europa moderna, com uma burguesia que, escondida atrás de máscaras de respeito, civismo e cumplicidade, joga com a vida dos desafortunados com revoltante desumanidade. Este só não é o lado mais negro da natureza humana, porque a natureza (a outra, pelo menos) não é assim tão cruel.


A primeira longa-metragem de Géla Babluani, premiada na edição de 2005 de La Biennale di Venezia para Melhor Primeira Obra e com o Grande Prémio do Júri no Festival de Cinema de Sundance 2006, está muito bem filmada, com um ritmo irrepreensível e uma crueza perturbante, como se de um pesadelo se tratasse. Beneficia ainda de uma forte interpretação do estreante George Babluani, irmão do realizador (ambos filhos do realizador georgiano Temur Babluani), que consegue transmitir o terror, o desespero e a sua vontade de sobreviver sem usar uma palavra. Uma referência também para o intenso mestre-de-cerimónias (Pascal Bongard).


No limite, todos nós podemos ver-nos obrigados a esgravatar no nosso lado mais negro para sobreviver, mesmo que pensemos – ilusoriamente – em nós mesmos como boas pessoas que não fariam nada que pudesse magoar outros. Na verdade, fazemos isso todos os dias, só que em doses medicinais.






realizado por Rita às 02:17
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Domingo, 8 de Outubro de 2006
Frankie **

Realização: Fabienne Berthaud. Elenco: Diane Kruger, Jeannick Gravelines, Brigitte Catillon, Christian Wiggert, Jean-Louis Place, Gérald Marie. Nacionalidade: França, 2005.





A primeira longa-metragem da actriz Fabienne Berthaud, que levou 3 anos a filmar, conta a história da derrocada psicológica de uma modelo, Frankie (Diane Kruger). Descobrimos Frankie internada num hospital psiquiátrico, num estado quase catatónico, em resultado de um esgotamento nervoso. As cenas etéreas banhadas de luz do sanatório vão sendo intercaladas com flashbacks ao seu passado e ao seu dia-a-dia do mundo da moda.


Aos 26 anos, Frankie é já uma veterana na profissão, mas continua a fazer o seu dia correndo entre sessões fotográficas. O que deveria ser um emprego glamoroso, acaba por revelar-se uma mistura de acção desenfreada com tédio e solidão, cheio de gente superficial que trata os modelos como simples cabides esvaziando-os da sua humanidade. Exceptuando o motorista da agência, Tom (Jeannick Gravelines), Frankie não tem amigos e faz a sua vida em Paris completamente sozinha. A relação com a mãe, que continua a viver na Alemanha, é problemática, e o sentimento de vazio de Frankie só consegue encontrar algum refúgio na bebida.


O contraste entre os dois mundos é claro: a maquilhagem e a ausência dela, as cores e o branco, o isolamento e o excesso de pessoas. Fabienne Berthaud vai desenhando um caminho de progressivo esgotamento. Os nervos de Frankie começam a romper num exigente trabalho com o despótico fotógrafo Christian (Christian Wiggert) e o ponto de ruptura surge com um agressivo casting.


No hospital Frankie reflecte (sem verbalizar) sobre a sua vida e o seu futuro. Filmado como um documentário, o filme adquire algum realismo, mas os reduzidos diálogos e os takes longos e estáticos parecem apenas destinar-se ao efeito artístico, uma vez que raramente servem para fazer avançar a história sobre uma personagem que, por surgir tão afastada (os seus problemas com a mãe nuca são esclarecidos), já de si não inspira grandes afectos.


“Frankie” foi efectivamente filmado num hospital psiquiátrico, e os companheiros de internamento da personagem de Kruger são realmente doentes mentais. Kruger, que era ainda relativamente desconhecida quando começou este projecto, já tinha trabalhado anteriormente como modelo, e essa experiência terá certamente sido útil para a sua interpretação. Desde a forte pressão para ser tão magra quanto as suas “concorrentes” à sensação de se ser manipulado como um pedaço de mercadoria.


O argumento deste filme é como as modelos sobre as quais fala, um cabide com muito pouca carne. Para Kruger sobra a sua expressividade para transmitir o desgaste e o afastamento do mundo que a rodeia. Nem a visita do seu manager (Gerald Marie) parece revelar mais do que uma preocupação com os negócios. Por mais estranho que possa parecer, o lado negro da indústria da moda é o humano.






CITAÇÕES:


“I’m a coat hanger that about to be retired.”
DIANE KRUGER (Frankie)






realizado por Rita às 11:45
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Sábado, 7 de Outubro de 2006
Camping Sauvage *

Realização: Christophe Ali e Nicolas Bonilauri. Elenco: Denis Lavant, Isild Le Besco, Pascal Bongard, Yann Trégouët, Emmanuelle Bercot, Raphaëlle Misrahi, Martine Demaret, Jean-Michel Guerin, Marcel Fix. Nacionalidade: França, 2005.





Eu gosto de acampar, mas sou do tipo de ficar uma ou duas noites em cada parque, movendo-me pela Europa mediterrânica. Nunca fiz vida de campista, género rouloutte estacionada o Verão todo e jogo da malha ao final da tarde, apesar de ter passado uns longos dias (e noites) num parque na Costa da Caparica durante a minha adolescência. E sim, aquilo é como uma aldeia. Todos se conhecem, todos se controlam. O mesmo controlo que mantém a ordem - o tácito código de campista que permite deixar os nossos vulneráveis pertences à vista e acesso de todos - é aquele que olha com suspeita para tudo o que seja diferente, e, por isso, destabilizador.


“Camping Sauvage” deveria ter explorado mais esse lado cruel das pequenas comunidades a la “Dogville”, porque é a única coisa que se aproveita deste filme.


Camille (Isild le Besco, “À Tout de Suite”) tem 17 anos. Sente-se abafada pelos pais e insegura com o namorado. Passeia-se entediada pelo parque de campismo, escutando música, usando o seu corpo como o seu pequeno poder e desprezando os outros como corolário. Camille é revoltada e caprichosa por não poder fazer aquilo que lhe apetece. É neste estado anímico que ela conhece Blaise (Denis Lavant), o novo instrutor de vela. Ele está nos quarenta, é casado e tem um filho e este emprego é um último recurso vindo da mão do seu cunhado, Fred (Yann Trégouët), o gerente do parque. Meio perdido naquele ambiente, bem como na vida, Camille simpatiza com ele.


Os encontros inocentes entre ambos são rapidamente transformados em rumores sobre um caso. Os dois são incitados a evitarem encontrar-se, Blaise pelo cunhado e Camille pelo pai e pelo namorado. Blaise acede ao pedido, mas Camille, indignada pela invasão na sua esfera privada, insiste naquela amizade. Sempre é algo de diferente para colorir as férias.


Desde o princípio, “Camping Sauvage” caminha para a fatalidade, e quase desde o início desejamos que isso aconteça. Camille procura Blaise de uma forma caprichosa, uma adolescente manipulando na perfeição a fantasia do homem com crise de meia-idade. Quer um cúmplice na sua sensação de isolamento, iludida de que ele a entende (ao contrário dos outros, ele apenas não se dá a esse trabalho). Temos assim, imagens de Isild le Besco a correr sem soutien pelo parque atrás de Blaise, e quase apetece avisá-lo que ela vem aí e dar-lhe tempo para ele fugir, porque cedo percebemos que ela está à procura de problemas.


A realização (ou o argumento, os culpados são os mesmos) é completamente ineficaz em fazer-nos entender que atracção move os dois protagonistas, pois apenas parece que eles são empurrados pela vontade de terceiros. Blaise é um homem dominado que não transmite qualquer magnetismo, e Camille é pura e simplesmente irritante. À semelhança de “À Tout de Suite” há um claro abuso do lado mais sensual (?) de Isild le Besco, e que está a começar a criar em mim uma particular aversão (a Ludivine Saigner, isso sim é que é uma Lolita francesa!). E não é simplesmente com grandes planos a torto e a direito que se transmitem as motivações das personagens.


Não só não há instinto nas emoções de Camille e Blaise, que deviam ser cruas, como a química entre eles é totalmente forçada. De selvagem, nada. Para culminar, todo o desespero para salvarem aquele “amor” é incoerente e incompreensível, porque não se apoia em coisa nenhuma. Parece que não era só a Isild le Besco que faltava o soutien *.


* ‘apoio’ em francês






realizado por Rita às 12:42
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Sexta-feira, 6 de Outubro de 2006
Le Passager ***

Realização: Eric Caravaca. Elenco: Eric Caravaca, Julie Depardieu, Vincent Rottiers, Maurice Bénichou, Maurice Garrel, Nathalie Richard, Rémi Martin. Nacionalidade: França, 2005.





A estreia na realização do actor Eric Caravaca esta claramente influenciada, quer em termos temáticos quer em termos visuais, pelo trabalho “Son Frère” de Patrice Chéreau, do qual ele próprio foi protagonista.


Depois de fazer o reconhecimento do corpo do seu irmão Richard, Thomas (Eric Caravaca) regressa à sua terra natal para dar seguimento aos preparativos para o enterro. Na sua antiga casa, Thomas descobre uma fotografia do irmão com uma mulher, Jeanne (Julie Depardieu), e decide alojar-se no hotel dela, sem revelar a sua identidade. Jeanne gere o hotel juntamente com o seu tio Joseph (Maurice Bénichou) e o seu afilhado Lucas (Vincent Rottiers). Thomas descobre que Richard partiu sem qualquer explicação e, através deles, tenta aproximar-se da pessoa que ele tinha sido. Thomas não falava com o irmão havia muitos anos, tornando-se óbvio que algo os tinha feito afastarem-se antes do suicídio de Richard.


Thomas deixou em Paris a sua mulher e o seu filho de 18 meses. O seu regresso à família não parece ser possível enquanto este assunto do seu passado não for resolvido. Para isso, talvez Thomas tenha de ir mais fundo do que estaria disposto.


A oportunidade de uma falsa identidade é utilizada por Thomas - de forma consciente - como um meio. Mas o seu desejo inconsciente de apagar-se a si mesmo, ou pelo menos parte de si, torna esta oportunidade muito mais sedutora. E por isso é perturbante ver o seu distanciamento em relação à sua própria família.


O ritmo de “Le Passager” é lento para a história que contém. O argumento poderia ter sido mais ambicioso em termos de narrativa, colocando o final um pouco mais à frente. Apesar de todo esse tempo, e do conjunto de boas interpretações, fica-se apenas à superfície da dor daquelas personagens, que buscam um sentimento de equilíbrio e de pertença.


O passado é muitas vezes uma âncora que nos impede de avançar para outros mares. Se nos fechamos nas suas tragédias, ou nas suas alegrias, corremos o grave risco de anularmos o resto da nossa existência. Há que arrumar a gaveta, deitar fora o lixo, ordenar os papéis que sobram, e fechá-la sem raiva, remorso ou nostalgia.






realizado por Rita às 23:58
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Cinefools
RITA, MIGUEL, SÉRGIO, NUNO,
VASCO, LUÍS,
efeitos visuais por S.
Citação

“When morals decline and good men do nothing evil flourishes.”
LEONARDO DICAPRIO (J. Edgar Hoover) in J. EDGAR, de Clitn Eastwood
Banda sonora

PILEDRIVER WALTZ – Alex Turner
in “Submarine” de Richard Ayoade (2010)
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Filmes
#
$9.99
(500) Days of Summer
12:08 A Este de Bucareste
127 Hours
13 (Tzameti)
1408
16 Blocks
2 Days in Paris
2046
21
21 Grams
25 Watts
3... Extremos
300
4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias
4ème Morceau de la Femme Coupée en Trois, Le
50/50
5x2
9 Songs

A
À l’Origine
À Tout de Suite
Aaltra
Abrazos Rotos, Los
Adam
Adeus, Dragon Inn
Ae Fond Kiss
Affaire Farewell, L’
Afterschool
Agents Secrets
Agony and the Ecstasy of Phil Spector, The
Ágora
After.Life
Alatriste
Albert Nobbs
Alex
Alexander
Alfie
Alice In Wonderland
All The Invisible Children
Amants Réguliers, Les
American, The
American Gangster
American Splendor
Amor Idiota
Amours Imaginaires, Les
An Education
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Ana Y Los Otros
Anche Libero Va Bene
Angel-A
Anges Exterminateurs, Les
Answer Man, The
Anthony Zimmer
Antichrist
Apocalypto
Approaching Union Square
Après Vous...
Arnacoeur, L’
Arsène Lupin
Artist, The
Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford, The
Assassination of Richard Nixon, The
Astronaut Farmer, The
Asylum
Atonement
Ausentes
Aventures Extraordinaires d'Adèle Blanc-Sec, Les
Aviator, The
Away We Go
Azuloscurocasinegro

B
Baader-Meinhof Komplex, Der
Babel
Babies
Backstage
Ballad of Jack and Rose, The
Banquet, The
Barney’s Version
Basic Instinct 2
Batman Begins
Battle in Seattle
Be Kind Rewind
Bee Movie
Before Sunset
Before the Devil Knows You’re Dead
Beginners
Being Julia
Belle Bête, La
Belleville Rendez-Vous
Big Bang Love, Juvenile A
Big Fish
Birth - O Mistério
Black Swan
Blade Runner
Blindness
Blood Diamond
Blue Valentine
Boat That Rocked, The
Bobby
Body of Lies
Bocca del Lupo, Las
Borat
Born Into Brothels
Bourne Ultimatum, The
Box, The
Boxing Day
Boy in the Striped Pyjamas, The
Boys are Back, The
Brave One, The
Breach
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Brick
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Broken Flowers
Brothers Bloom, The
Brothers Grimm, The
Brüna Surfistinha
Brüno
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C
Caché
Caimano, Il
Camping Sauvage
Candy
Canino - Kynodontas
Capitalism: A Love Story
Capote
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Carandiru
Carlos
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Carne Fresca, Procura-se
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Chaos Theory
Charlie and the Chocolate Factory
Charlie Wilson's War
Che: El Argentino
Che: Guerrilla
Chefe Disto Tudo, O - Direktøren for det Hele
Chico & Rita
Children of Men
Chloe
Choke
City of Life and Death
Client 9: The Rise and Fall of Eliot Spitzer
Climas - Iklimer
Closer - Perto Demais
Cloudy With A Chance Of Meatballs
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Cœurs
Coffee and Cigarettes
Coisa Ruim
Cold Souls
Collateral
Collector, The
Combien Tu M’Aimes?
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Concert, Le
Condemned, The
Constant Gardener, The
Control
Copying Beethoven
Corpse Bride
Couperet, Le
Couples Retreat
Crash
Crazy, Stupid, Love.
Crimen Ferpecto
Crimson Gold
Crónicas
Crónicas de Narnia, As
Curious Case of Benjamin Button, The
Curse of the Golden Flower

D
Da Vinci Code, The
Dangerous Method, A
Dans Paris
Darjeeling Limited, The
Dark Knight, The
De Tanto Bater o Meu Coração Parou
Dead Girl, The
Dear Wendy
Death of Mr. Lazarescu, The
Death Proof (S), Death Proof (R)
Debt, The
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Descendants, The
Despicable Me
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Destricted
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Disturbia
Do Outro Lado
Don’t Come Knocking
Dorian Gray
Doublure, La
Drama/Mex
Drawing Restraint 9
Dreamgirls
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Drive

E
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Educación de las Hadas, La
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Elizabethtown
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Ensemble, C’est Tout
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Entre os Dedos
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Eu Servi o Rei de Inglaterra
Evening
Everything is Illuminated
Exit Through the Gift Shop
Extremely Loud & Incredibly Close

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Fahrenheit 9-11
Family Stone, The
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Faute à Fidel, La
Ferro 3
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Fille Coupée en Deux, La
Fille du Juge, La
Fils de L’Épicier, Le
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Ghost Town
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Girl From Monday, The
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Good Night, And Good Luck
Good Shepherd, The
Good Year, A
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Gran Torino
Grande Silêncio, O
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H
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Hedwig - A Origem do Amor
Héctor
Hellboy
Hellboy II: The Golden Army
Help, The
Herbes Folles, Les
Hereafter
History of Violence, A
Hoax, The
Holiday, The
Home at the End of the World, A
Host, The
Hostel
Hotel Rwanda
Hottest State, The
House of the Flying Daggers
How To Lose Friends & Alienate People
Howl
Humpday
Hunger
Hurt Locker, The
Hustle & Flow
I
I Am Legend
I Could Never Be Your Woman
I Don’t Want To Sleep Alone
I Heart Huckabees
I Love You Phillip Morris
I’m Not There
I’m Still Here
Ice Age - The Meltdown
Ice Harvest, The
Ides of March, The
If a Tree Falls: A Story of the Earth Liberation Front
Illusionist, The
Illusioniste, L’
Ils Ne Mouraient Pas Tous Mais Tous Étaient Frappés
Imaginarium of Doctor Parnassus, The
Immortel (ad vitam)
In a Better World - Hævnen
In Bruges
In Good Company
In Her Shoes
In The Loop
In the Valley of Elah
In Time
Inception
Inconvenient Truth, An
Incredible Hulk, The
Incredibles, The
Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull
Indigènes - Dias de Glória
Infamous
Informant!, The
Informers, The
Inglourious Basterds
Inland Empire
Inner Life of Martin Frost, The
Inside Man
Intermission
Interpreter, The
Interview
Into the Wild
Introspective
Io Sono L’Amore
Iron Lady, The
Iron Man
Island, The
It Happened Just Before
It Might Get Loud
Ivresse du Pouvoir, L’

J
J. Edgar
Jacket, The
Japanese Story
Jarhead
Je Ne Suis Pas La Pour Être Aimé
Je Préfère Qu’on Reste Amis
Jeux d’Enfants
Jindabyne
Julie & Julia
Juno
Just Like Heaven
Juventude em Marcha

K
Kids Are All Right, The
Kill List
King Kong
King’s Speech, The
Kiss Kiss Bang Bang
Klimt
Knight and DayKovak Box, The

L
Laberinto del Fauno, El
Lady in the Water
Lake House, The
Land of Plenty
Lars and the Real Girl
Last King of Scotland, The
Last Kiss, The
Last Night
Last Station, The
Leatherheads
Letters From Iwo Jima
Levity
Libertine, The
Lie With Me
Life Aquatic with Steve Zissou, The
Life During Wartime
Life is a Miracle
Lions For Lambs
LIP, L’Imagination au Pouvoir, Les
Lisboetas
Little Children
Little Miss Sunshine
Livro Negro - Zwartboek
Left Ear
Lonely Hearts
Long Dimanche de Fiançailles, Un
Lost in Translation
Lou Reed's Berlin
Louise-Michel
Love Conquers All
Love and Other Drugs
Love in the Time of Cholera
Love Song for Bobby Long, A
Lovebirds, The
Lovely Bones, The
Lucky Number Slevin
Luna de Avellaneda
Lust, Caution

M
Machete
Madagascar
Made in Dagenham
Mala Educación, La
Malas Temporadas
Mammuth
Man About Town
Man On Wire
Management
Manuale d’Amore
Maquinista, O
Mar Adentro
Margin Call
Margot at the Wedding
Maria Cheia de Graça
Marie Antoinette
Martha Marcy May Marlene
Mary
Match Point
Me And You And Everyone We Know
Meek's Cutoff
Melancholia
Melinda and Melinda
Memórias de uma Geisha
Men Who Stare at Goats, The
Método, El
Mi Vida Sin Mí
Michael Clayton
Micmacs à Tire Larigot
Midnight in Paris
Milk
Million Dollar Baby
Mio Fratello è Figlio Unico
Moine, Le
Momma’a Man
Moneyball
Monster
Moon
Morning Glory
Mother (Madeo)
Mother, The
Moustache, La
Mozart and the Whale
Mrs Henderson Presents
Mujer Sin Cabeza, La
Munique
Music & Lyrics
My Blueberry Nights
My Week With Marilyn
My Son, My Son, What Have Ye Done
Mysterious Skin

N
Nana, La
Nathalie
Ne Le Dis À Personne
Ne Te Retourne Pas
NEDS
New World, The
Ni pour, ni contre (bien au contraire)
Niña Santa, La
Night Listener, The
Night on Earth
Nightmare Before Christmas, The
Ninguém Sabe
No Country For Old Men
No Reservations
No Sos Vos, Soy Yo
Nombres de Alicia, Los
North Country
Notes on a Scandal
Number 23, The

O
Ocean’s Thirteen
Odore del Sangue L’
Offside
Old Joy
Oldboy
Oliver Twist
Once
Onda, A - Die Welle
Ondine
Orgulho e Preconceito
Orly

P
Pa Negre (Pan Negro)
Painted Veil, The
Palais Royal!
Para Que No Me Olvides
Paradise Now
Paranoid Park
Parapalos
Paris
Paris, Je T’Aime
Passager, Le
Passenger, The (Professione: Reporter)
Patti Smith - Dream of Life
Perder Es Cuestión de Método
Perfume: The Story of a Murderer
Persépolis
Personal Velocity
Petite Lili, La
Piel Que Habito, La
Pink
Pirates of the Caribbean: Dead Man’s Chest
Planet Terror
Playtime
Please Give
Post Mortem
Poupées Russes, Les
Prairie Home Companion, A
Precious: Based on the Novel ‘Push’ by Sapphire
Prestige, The
Presunto Culpable
Pretty In The Face
Prophète, Un
Promeneur du Champ de Mars, Le
Promotion, The
Proof
Proposition, The
Prud'Hommes
Public Enemies

Q
Quantum of Solace
Quatro Noites Com Anna
Queen, The
Quelques Jours en Septembre
Qui M’Aime Me Suive

R
Rabia
Rachel Getting Married
Raison du Plus Faible, La
Ratatouille
Re-cycle
Reader, The
Red Eye
Red Road
Redacted
Refuge, Le
Religulous
Reservation Road
Reservoir Dogs
Resident, The
Restless
Revenants, Les
Revolutionary Road
Ring Two, The
Road, The
Road To Guantanamo, The
Rois et Reine
Rôle de sa Vie, Le
Romance & Cigarettes
Rubber
Rum Diary, The
S
Sabor da Melancia, O
Safety of Objects, The
Salt
Salvador (Puig Antich)
Samaria
Sauf Le Respect Que Je Vous Dois
Savages, The
Saw
Saw II
Saw III
Scaphandre et le Papillon, Le
Scanner Darkly, A
Science des Rêves, La
Sconosciuta, La
Scoop
Scott Pilgrim vs. The World
Secret Window
Secreto de Sus Ojos, El
Selon Charlie
Sem Ela...
Semana Solos, Una
Señora Beba
Sentinel, The
Separação, Uma - Jodaeiye Nader az Simin
Séptimo Día, El
Séraphine
Seres Queridos
Serious Man, A
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Sexualidades - En Soap
S&Man
Shady Grove
Shame
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She Hate Me
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Simpsons Movie, The
Sin City
Single Man, A
Sky Captain and the World of Tomorrow
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Social Network, The
Soeurs Fâchées, Les
Soledad, La
Solitudine dei Numeri Primi, La
Somewhere
Son of Rambow
Sonny
Snow
Snow Cake
Spanglish
Spread
Squid and the Whale, The
Star Trek
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Te Doy Mis Ojos
Temps du Loup, Le
Temps Qui Changent, Les
Temps Qui Reste, Le
Temporada de Patos
Teta Asustada, La
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Three Burials of Melquiades Estrada, The
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Tigre e la Neve, La
Time Traveler's Wife, The
Tinker, Tailor, Soldier, Spy
To Take A Wife
Todos os Outros – Alle Anderen
Tonite Let's All Make Love in London
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