CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA
Quarta-feira, 28 de Dezembro de 2005
2005 em filmes

Para a Rita, os 10 melhores filmes de 2005, à semelhança de 2004, voltam a ser... 14!


A ordem é a arbitrária, o visionamento obrigatório:


“BROKEN FLOWERS - FLORES PARTIDAS”, de Jim Jarmusch (2005)
“FERRO 3”, de Kim Ki-duk (2004)
“ELIZABETHTOWN”, de Cameron Crowe (2005)
“CACHÉ”, de Michael Haneke (2005)
“LE COUPERET”, de Costa-Gavras (2005)
“THE BROTHERS GRIMM”, de Terry Gilliam (2005)
“DE BATTRE MON COEUR S'EST ARRÊTÉ”, de Jacques Audiard (2005)
“OS EDUKADORES”, de Hans Weingartner (2004)
“THE BALLAD OF JACK AND ROSE”, de Rebecca Miller (2005)
“SIN CITY”, de Robert Rodriguez e Frank Miller (2004)
“DER UNTERGANG – A QUEDA”, de Oliver Hirschbiegel (2004)
“THE LIFE AQUATIC WITH STEVE ZISSOU”, de Wes Anderson (2004)
“GARDEN STATE”, de Zach Braff (2004)
“CLOSER”, de Mike Nichols (2004)
“MAR ADENTRO”, de Alejandro Amenábar (2004)



Um 2006 cheio de bons filmes!






realizado por Rita às 01:45
link do post | comentar | ver comentários (3)

Domingo, 25 de Dezembro de 2005
Corpse Bride ***

Realização: Tim Burton e Mike Johnson. Vozes: Johnny Depp (Victor Van Dort), Helena Bonham Carter (Corpse Bride), Emily Watson (Victoria Everglot), Tracey Ullman (Nell Van Dort/Hildegarde), Paul Whitehouse (William Van Dort/Mayhew/Paul The Head Waiter), Joanna Lumley (Maudeline Everglot), Albert Finney (Finnis Everglot), Richard E. Grant (Barkis Bittern), Christopher Lee (Pastor Galswells). Nacionalidade: Reino Unido / EUA, 2005.





“Corpse Bride” é um regresso ao imaginário gótico de “The Nightmare Before Christmas”. No entanto, ao contrário deste, o seu visual inventivo perde com uma narrativa pouco original.


Baseado numa história tradicional russa, e localizado na Inglaterra Victoriana, conta a história de Victor Van Dort (voz de Johnny Depp), um rapaz tímido a quem os pais, novos-ricos, arranjaram um casamento com a filha de um casal nobre mas arruinado, Victoria Everglot (voz de Emily Watson). Aterrorizado com a perspectiva do casamento, Victor começa, apesar de tudo, a apreciar a maneira de ser carinhosa e doce de Victoria. Por um infeliz acaso, Victor acaba por professar os seus votos a uma voluntariosa (mas morta) noiva, Emily (voz de Helena Bonham Carter). Ela leva-o para o mundo dos mortos, um sítio bem mais divertido (vivo?) que a sua taciturna cidade, mas Victor apenas quer regressar para a sua noiva original.


Transpirando Tim Burton por todos os poros, e minucioso até ao mais pequeno detalhe (um piano tem a marca “Harryhausen” em homenagem a um dos pioneiros da stop-motion Ray Harryhausen), cada personagem é uma obra de arte do grotesco, ou seja, de uma beleza atroz, movendo-se em cenários sumptuosos, onde a monocromia do mundo dos vivos contrasta com a maré de cores do mundo subterrâneo. A técnica de stop-motion, consideravelmente morosa, está tão bem feita que parecem haver mais computadores do que realmente há.


O humor negro e o visual bizarro casam da melhor maneira com a fotografia de Pete Kozachik (“James and the Giant Peach” - 1996, “The Nightmare Before Christmas” - 1993) e com a música de Danny Elfman, colaborador recorrente de Burton (“Big Fish” - 2003, “Charlie and the Chocolate Factory” - 2005, etc.), acrescentando mais uns ingredientes à salivação de todos os nossos sentidos.


O elenco de vozes faz um óptimo trabalho, com especial destaque para o (sempre) assustador Christopher Lee como o padre Galswells, e Stephen Ballantyne como a larva Emil, habitante do cadáver da noiva.


Infelizmente, a história é vaga e com pouco ritmo (mesmo com a galeria de esqueletos dançantes) e até os seus reduzidos 75 minutos parecem estender-se em soluções fáceis. O facto deste filme ter sido feito em simultâneo com “Charlie and the Chocolate Factory” poderá ter algo que ver com algum menor cuidado na história. Este grupo de interessantes personagens parece ser deixado um pouco à deriva, procurando uma razão para existir, uma história que lhes dê sentido.


Felizmente, um Burton medíocre (mas com inegável coração) consegue ser melhor que a maioria dos filmes que chegam às nossas salas.






CITAÇÕES:


“With this hand I will lift your sorrows. Your cup will never be empty, for I will be your wine. With this candle, I will light your way into darkness.”
VICTOR VAN DORT


“And with this candle... I will light your mother on fire.”
VICTOR VAN DORT


“Why go up there when people are dying to get down here?”
ELDER GUTKNECHT


“I've got a... dwarf, and I'm not afraid to use him!”
VICTOR VAN DORT


“Can a heart still break after it's stopped beating?”
BARKIS BITTERN


“If I touch a burning candle I can feel the pain
if you cut me with a knife it's still the same
and I know her heart is beating, I know that I am dead
yet the pain I feel, try and tell me it's not real
for it seems I still have a tear to shed.”
CORPSE BRIDE





realizado por Rita às 19:08
link do post | comentar | ver comentários (4)

Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2005
Natal em Cinema




O Natal é uma época em que o pensamento de paz e harmonia deve estar no coração de todos. Por isso, o cinema é sempre uma boa opção para fugir às reuniões familiares com pessoas que só vemos de ano a ano e que nada têm a ver connosco, ou para evitar as músicas e luzes de Natal que se espalham por toda(s) a(s) cidade(s) e nos põem os nervos em franja.


Aqui ficam algumas sugestões (menos politicamente correctas) de filmes para este Natal:


“TRADING PLACES” (John Landis, 1983) - com Dan Aycroyd, Eddie Murphy e Jamie Lee Curtis
“MERRY CHRISTMAS MR. LAWRENCE” (Nagisa Oshima, 1983) - com David Bowie
“SILENT NIGHT, DEADLY NIGHT” (Charles E. Sellier Jr., 1984)
“DIE HARD” (John McTiernan, 1988) - com Bruce Willis
“THE NIGHTMARE BEFORE CHRISTMAS” (Henry Selick, 1993) - da autoria de Tim Burton
“THE REF” (Ted Demme, 1994) - com Denis Leary e Kevin Spacey
“REINDEER GAMES” (John Frankenheimer, 2000) - com Ben Affleck e Charlize Theron
“THE FAMILY MAN” (The Family Man, 2000) - com Nicholas Cage
“BAD SANTA” (Terry Zwigoff, 2003) - com Billy Bob Thornton


Não esquecendo os mais sensíveis:

“SCROOGED” (Richard Donner, 1988) - com Bill Murray
“HOW THE GRINCH STOLE CHRISTMAS” (Ron Howard, 2000) - com Jim Carrey
“LOVE ACTUALLY” (Richard Curtis, 2003) - com Hugh Grant e Colin Firth
“THE POLAR EXPRESS” (Robert Zemeckis, 2004) - voz de Tom Hanks


Em cartaz:

“NOEL” (Chazz Palminteri, 2004) - com Susan Sarandon e Penélope Cruz


Brevemente:

“JOYEUX NÖEL” (Christian Carion, 2005) - com Diane Kruger, Guillaume Canet e Daniel Brühl




Foto: “Jarhead” (2005) de Sam Mendes, com estreia prevista para 12 de Janeiro (acho que não se passa no Natal, mas qualquer desculpa é boa para ter aqui uma foto do Jake Gyllenhaal - se o Pai Natal fosse assim, eu ainda acreditava nele...).





realizado por Rita às 00:11
link do post | comentar

Quinta-feira, 22 de Dezembro de 2005
KONG vs. KONG




Aproveitando o embalo dado pela ida ao cinema para ir assistir à versão de King Kong de Peter Jackson, avancei finalmente para a visão do filme original (cujo DVD se mantinha quase esquecido numa prateleira há uns bons meses, sem que eu me decidisse a pegar nele). E a verdade é que, apesar de partir de uma clara situação de desvantagem (equivalente à diferença entre a sala 4 do Monumental e a minha televisão com ecrã de 38 cm e um sistema de som comprado no Lidl), o filme de 1933 de Cooper e Schoedsack, aguenta-se muito bem. Ou melhor dizendo, ganha em toda a linha.


É verdade que os efeitos especiais e o trabalho de direcção artística no filme de Peter Jackson são excepcionais (este Kong de Jackson é um prodígio técnico, ainda melhor que o Gollum do "Senhor dos Anéis") mas a versão original tem o encanto de um verdadeiro série B de antigamente, que nenhum filme hoje consegue repetir. Veja-se a forma como o filme original, com uma notável economia narrativa, consegue contar quase a mesma historia do que Jackson em metade do tempo, e, ainda assim, manter uma carga de exotismo, e mesmo de magia, que a versão de hoje não consegue.


E depois há a decisão de Jackson em transformar King Kong numa história de amor (na versão original a atracção de Kong pela miúda loura funcionava acima de tudo no campo do desejo, e, o que em último caso tornava tudo ainda mais dramático, tratava-se de um desejo não correspondido). Reconheço que é esta opção que transforma o filme de Jackson em mais do que um simples upgrade tecnológico do filme original, mas há alguma coisa de primordial que o primeiro filme tinha, que se perde por este caminho.


Os defensores deste novo Kong poderão avançar com o argumento Naomi Watts para fazer pender a balança para o King Kong de Jackson, e embora eu neste ponto assine por baixo, tenho que reconhecer que os gritos de Fay Wray não lhe deixam de dar o seu encanto (e fosse este o principal factor de avaliação, e por favor não pensem que estou de forma alguma a minimizá-lo, então o vencedor teria que ser a versão já quase esquecida de 1976, de John Guillermin, com uma Jessica Lange ainda em princípio de carreira. Mas acho que começo a afastar-me um pouco da questão cinéfila da coisa).


Em último caso, a coisa resume-se ao macaco. E por incrível que pareça, entre o prodígio digital de hoje e a massa negra (aquilo será plasticina ?), animada em stop-motion, do Kong de 33, eu opto por este.


Concordo que ao nível da interpretação, o Kong digital de Jackson bate aos pontos o original, principalmente tendo em conta que este basicamente se limita a abrir a boca e a revirar os olhos (mas poder-se-á dizer em sua defesa que se trata de uma técnica de interpretação mais minimalista, um pouco na linha de um Bill Murray por exemplo) mas ao tornar Kong mais realista (se é que se pode falar de realismo quando se está a tratar de um gorila de 7 metros de altura) a tecnologia acaba por lhe retirar a carga mística que o Kong original tinha. A verdade é que o Kong de Jackson é só um gorila grande, enquanto que o Kong original era muito mais do que isso, era como que um buraco negro onde é possível corporizar todos os medos.


Em última análise, esta luta de Kongs trata-se de facto de uma batalha desigual, entre um comum blockbuster dos dias de hoje (ok, um blockbuster melhor que 90% dos outros blockbusters que para aí andam, mas mesmo assim não mais do que isso) e um filme mítico da historia do cinema, que mais de 70 anos depois da sua estreia continua a manter o mesmo carisma. E que continuará sem dúvida a ser a versão definitiva desta história. Deixem só a poeira do marketing acalmar. E daqui a 70 anos falamos outra vez sobre isto.




por Sérgio




realizado por Rita às 13:21
link do post | comentar | ver comentários (1)

Quarta-feira, 21 de Dezembro de 2005
A PRENDA DE NATAL PERFEITA *. . . PARA QUEM NÃO TEM DINHEIRO PARA UM IPOD




O que estou a falar é do pack DVD recentemente editado com as 2 longas-metragens de Lucrecia Martel, a maior revelação cinematográfica deste século (e é indiferente para esta avaliação que se considere o início do século o ano 2000 ou, se se quiser optar por uma perspectiva mais científica, o ano 2001) e a melhor coisa vinda da Argentina desde Beto Acosta.


Lucrecia Martel apesar de só contar com 2 longas no seu curriculum é já uma aposta segura do cinema de hoje, dotada já de uma identidade muito própria (não correremos o risco de a ver perdida por Hollywood, como parece acontecer com quase todos os realizadores sul americanos que se destacam), praticante de um cinema quase sensitivo, obsessivo nas suas temáticas e sem grandes concessões (em Martel não encontramos os truques do costume para agarrar o espectador, não temos personagens ou situações com que facilmente nos identifiquemos, enquadramentos e planos sofisticados, os argumentos sugerem mais do que revelam e não se encaminham para finais em que tudo se resolve) e no entanto consegue ser um cinema que não se perde fechado em si (não é um "Alice" por exemplo) e não é um cinema cru, que afasta à primeira o espectador menos predisposto (Martel não é Pedro Costa, sem desprimor para este, que considero o melhor realizador português na actualidade e o único da sua geração capaz de atingir os patamares de Oliveira ou César Monteiro). Bem pelo contrário, os filmes de Martel conseguem envolver-nos desde as primeiras cenas e, se não nos transportam para dentro deles, conseguem transpirar para as salas de cinema os ambientes que por eles trespassam. Com apenas dois filmes, Lucrecia Martel consegue já ter mais obra que a maioria dos realizadores que por aí andam. E ocupando unicamente o espaço de 2 DVDs.


Em última análise, se o ano de 2005, cinematograficamente falando, tinha começado em grande com a estreia comercial da sua segunda obra, "La Niña Santa" e a possibilidade de revisão da primeira, "La Cienaga", tem um fim à altura, com a agora possibilidade de as levar para casa, juntinhas, para revisões múltiplas e embelezamento da estante já esgotada no que a espaço para mais DVDs diz respeito.


E pela módica quantia de 15 euros, o que o torna o melhor negócio com que me deparei desde um Best of... de Velvet Underground a 500 escudos, comprado num hipermercado qualquer muitos natais atrás.

* (ainda melhor que uma biografia do Vale e Azevedo)




por Sérgio


 



realizado por Rita às 16:09
link do post | comentar

Clássicos Pendentes IV - THE GRADUATE

THE GRADUATE - A PRIMEIRA NOITE

Realização: Mike Nichols. Elenco: Anne Bancroft, Dustin Hoffman, Katharine Ross, William Daniels, Murray Hamilton, Elizabeth Wilson. Nacionalidade: EUA, 1967.





Benjamin Braddock (Dustin Hoffman) é um jovem recém-licenciado que regressa a casa sem quaisquer perspectivas de futuro. O sentimento de deslocamento agrava-se com a sua incapacidade de assumir qualquer compromisso, ou qualquer escolha. As elevadas expectativas da família e dos amigos com a sua cara educação vêem-se frustradas na atitude de Benjamin, que apenas consegue andar de volta da piscina sentindo uma enorme repugnância e superioridade relativamente ao estilo de vida dos seus pais. Mas, simultaneamente, falta-lhe a ambição e a coragem para se libertar dessa prisão.


A vida de Benjamin sofre um abalo quando ele se vê seduzido pela mulher do sócio do seu pai, Mrs.Robinson (Anne Bancroft), o paradigma da dona de casa aborrecida e predadora, controladora, amargurada, mas com momentos de quase vulnerabilidade. A relação entre os dois que começa como uma forte emoção (mais de perigo que de paixão) é abalada com a chegada da filha de Mrs.Robinson, Elaine (Katherine Ross), uma inocente mas forte universitária por quem Benjamim se sente imediatamente atraído, muito a contra-gosto da sua amante. A decadência da relação que se estabelece entre os dois vai crescendo à medida que o tédio toma conta de Benjamim e o foco de emoção se desloca para Elaine.


Nichols utiliza o humor como elemento crítico, mais do que de entertenimento, e faz uso de uma série de técnicas que câmara, já exploradas em anúncios televisivos mas à data inovadoras no cinema, incutando uma liberdade face às anteriores limitações (visto à luz de hoje, há zooms que parecem excessivos, quer no momento em que surgem quer na intensidade).


“The Graduate” assume a banda sonora como parte interveniente na história. Ainda que muitas canções não se cinjam a um momento específico, elas acompanham o estado de alma das personagens e o filme serve de montra ao trabalho de Simon And Garfunkel, que, em retribuição, imortalizaram Mrs.Robinson no célebre tema com o mesmo nome.


À laia de crítica ao estilo de vida da classe burguesa de Los Angeles, com a suas piscinas, os seus bares, o seu dinheiro, a sua solidão e a sua hipocrisia, o filme de Mike Nichols (baseado no livro de Charles Webb) pega num anti-herói e leva-o num processo evolutivo e credível que o transforma de um virgem hesitante num homem seguro de si mesmo. Curiosamente, o final do filme, que atinge um climax de esperança num amor sincero e honesto, termina com uma nota cruel que insinua que tudo será como antes, onde o passado está condenado a repetir-se.



RAZÕES PARA VER:
- Pela convincente interpretação de Hoffman (nas suas diversas facetas)
- Pela claustrofobia de um fato de mergulho.





realizado por Rita às 01:47
link do post | comentar

Terça-feira, 20 de Dezembro de 2005
Shopgirl ***

Realização: Anand Tucker. Elenco: Steve Martin, Claire Danes, Jason Schwartzman, Bridgette Wilson-Sampras, Sam Bottoms, Frances Conroy. Nacionalidade: EUA, 2005.





Mirabelle (Claire Danes) é uma jovem solitária que veio do Vermont para Los Angeles em busca do seu caminho. Enquanto vai vendendo um ou outro dos seus desenhos, trabalha no departamento de luvas da Saks Fifth Avenue. Vive a sua vida quase como um fantasma, um espírito sonhador, à espera de ser despertado do seu sono, como se fosse mais um dos manequins da loja.


Numa lavandaria, Mirabelle conhece Jeremy (Jason Schwartzman), um enérgico e desajeitado desenhador de fontes e vendedor de amplificadores. Parece não haver nada em comum entre os dois, excepto a necessidade de carinho, e o encantamento de Jeremy por Mirabelle é recebido por esta com alguma frieza. É então que, na loja, surge Ray Porter (Steve Martin, autor do livro que serve de base ao filme), um charmoso e sofisticado homem de negócios, que a convida para jantar.


Mirabelle não hesita na sua escolha, e quando Jeremy decide acompanhar a digressão de uma banda de rock, o foco passa para a relação entre Mirabelle e Ray. Um dos méritos deste filme é nunca mostrar o romance entre um homem de 60 e a uma mulher de 20 e tais como algo inapropriado ou repugnante. Ray é honesto com Mirabelle quando lhe diz que necessita que a relação de ambos não seja um compromisso a longo-prazo e ela concorda. Mas o filme vai-nos mostrando como as mesmas palavras são interpretadas de formas diferentes por cada um deles. A atenção, o tempo e o dinheiro que ele despende com Mirabelle não conseguem suprir a falta do mais importante: a ligação emocional, da qual ele parece ser, inevitavelmente, incapaz.


A abordagem desta relação é feita de uma forma sombria, e o humor e a cor são deixados para Jeremy, cuja viagem, onde é impulsionado pelo líder da banda (Mark Kozelek, cantor dos Red House Painters) a “ler” livros de auto-ajuda gravados em cassete, fará parte do seu crescimento pessoal.


A personalidade de Mirabelle vai-se também tornando mais complexa ao longo do filme. Ela nunca tem uma abordagem predatória em relação a Ray, mas existe em alguns momentos uma suave manipulação. As suas lutas são pouco heróicas, como o comum mortal apenas tenta ser feliz. Mas as suas decisões acerca da vida e do amor acarretam coragem. No final, a transformação de Mirabelle acaba por ter pouco a ver com o ser amada, é o seu despertar para ela mesma, a sua transição para a maturidade. Mirabelle começa por tentar medir o amor no abraço que recebe depois do sexo, e quando recebe, finalmente, o voto de protecção ansiado, ela já tem em si a força necessária para não precisar dele.


Anand Tucker (“Hillary and Jackie”, 1998) centra a sua realização estilizada em momentos concretos, para contar uma história não exactamente imprevisível. Nunca se afastando das expectativas e percepções das personagens, a densidade e autenticidade com que nos faz entrar no seu mundo, entre erros e acertos, aproxima-nos, sobretudo, das suas fraquezas tão humanas. E, neste caso, ao contrário dos triângulos amorosos habituais, onde costuma haver uma parte que é quase desprezível, tanto Jeremy como Ray são pessoas verdadeiras e sinceras.


Ao argumento cru e observador, engraçado, emotivo, e cheio de detalhes (onde o grande senão é uma desnecessária voz off) juntam-se três fortes interpretações. De beleza simples e serena, Danes assume totalmente todas as facetas de Mirabelle - frágil, sexy, forte, inteligente - com uma expressividade e rigor físico suficientes para nos levar por todas as emoções de Mirabelle sem serem precisas palavras. Steve Martin é perfeitamente credível como o solteirão solitário e conformado com as suas limitações, acrescentando a dose correcta de melancolia que impede Ray de se tornar um “velho nojento”. O Jeremy de Schwartzman é adorável na sua ingénua mas profunda forma de ver a vida.


“Shopgirl” é um filme romântico sem o romance, uma história de amor sem corações e flores por todo o lado, um filme cheio de solidão e melancolia onde a dor é o instrumento da sabedoria. Um olhar agridoce sobre as relações amorosas, onde o que se ouve nem sempre é o que se diz, e as consequências que isso pode ter. Fala do que procuramos, das expectativas que se criam, dos medos, e daquilo com que tantas vezes nos contentamos. É também um filme sobre a comunicação entre dois idiomas distintos: o homem e a mulher.






CITAÇÕES:


“Mirabelle - Are you the kind of person that takes time to get to know, and then once to get to know them... they're fabulous?
Jeremy - Yes, absolutely. ... What?”
CLAIRE DANES (Mirabelle) e JASON SCHWARTZMAN (Jeremy)


[Retirando relógio de Mirabelle, Ray coloca os seus dedos em torno do pulso dela]
“Now I'm your watch.”
STEVE MARTIN (Ray Porter)


“So, I can hurt now, or hurt later.”
CLAIRE DANES (Mirabelle)


“As Ray Porter watches Mirabelle walk away, he feels a loss. How is it possible, he wonders, to miss a woman who he kept at a distance, so that when she was gone, he would not miss her? Only then does he realize how in wanting part of her but not all of her, he had hurt them both, and he cannot justify his actions except that, well, it was life.”





realizado por Rita às 02:33
link do post | comentar

Quinta-feira, 15 de Dezembro de 2005
a MAIOR história de amor . . .

Quero um amor cheio de pôr-do-sol, um amor apesar de todas as diferenças, um amor contra todas as expectativas. Quero um herói forte, que me proteja e que, por mim, corra os maiores perigos. Um herói que só para me ver seja capaz de dar a própria vida.


Quero um como o dela...







realizado por Rita às 02:27
link do post | comentar | ver comentários (1)

Quarta-feira, 14 de Dezembro de 2005
King Kong ***

Realização: Peter Jackson. Elenco: Naomi Watts, Jack Black, Adrien Brody, Andy Serkis, Jamie Bell, Thomas Kretschmann, Evan Parke e Colin Hanks. Nacionalidade: Nova Zelândia / EUA, 2005.





A história é conhecida até pelo cinéfilo ocasional. Um cineasta conduz a sua equipa para uma ilha tropical em busca do desconhecido. Mas os mistérios encerrados por aquele pedaço de terra ultrapassam a imaginação de todos os que embarcam na aventura: uma tribo nativa pouco simpática com estrangeiros, dinossauros, répteis gigantes e viscosos, morcegos e um colossal macaco, Kong de seu nome, rei e deus do seu mundo, mas que é apresentado à civilização como preso. King Kong, a besta, perde-se de amores pela bela actriz - que lhe é entregue pelos nativos, que acreditam assim aplacar a fúria do símio gigante - e é feito cativo e levado para Nova Iorque. A "oitava maravilha do mundo", como é apresentado na Broadway, liberta-se e parte à procura da sua loura. Acossado, refugia-se no topo do Empire State Building.


Descanse o leitor, que não se conta aqui o final. É desnecessário: a história é conhecida de todos. Afinal, este novo "King Kong" é um "remake" de um filme de 1933 - hoje aparentemente ingénuo nos seus efeitos especiais e com uma Fay Wray, que ficou para a história como a "rainha dos gritos" (o filme de 1976 reactualiza a lenda, com uma exploração petrolífera e a debutante e despida qb Jessica Lange).


Peter Jackson, o premiado realizador da trilogia de "O Senhor dos Anéis", sonhava pegar na história da bela e do monstro ainda antes de contar as aventuras de Frodo. Mas só o conseguiu concretizar agora, com Hollywood convencida do seu toque de Midas. E não esteve com meias medidas: a produção do filme está orçada em 207 milhões de dólares para as suas três horas de duração, uma das mais caras da história do cinema.


As maravilhas digitais do "King Kong" de Peter Jackson ajudam a explicar estas verbas. Cinco mil computadores ajudaram a recriar as batalhas ferozes entre Kong e vários tiranossaurus ou a cidade de Nova Iorque em 1933 (o ano da primeira versão do filme, no qual Jackson situa a acção do seu) e 132 sensores no rosto do actor Andy Serkis permitiram captar as emoções faciais do macaco gigante. Serkis já está habituado a ver o seu corpo transformado - foi ele que permitiu os efeitos especiais "criarem" Gollum, em "O Senhor dos Anéis". Ninguém duvida da capacidade de Jackson em recriar o bestiário do mundo perdido onde vive Kong ou o bulício novaiorquino dos anos pós-Depressão.


Mas é nas emoções captadas (sem sensores) que o filme do cineasta neozelandês mais se fragiliza, com personagens que não passam da caricatura. E a câmara de Jackson parece perdida de amores, como Kong, por Ann Darrow, o que não espanta sabendo que o papel da amada do gorila é Naomi Watts, um rosto que definitivamente se impõe ao estilo das actrizes do cinema clássico.


O melhor do filme acaba por ser a (justa) homenagem que Peter Jackson presta à época de ouro do cinema porque, também aqui, a beleza quase matava o animal.




por Miguel




realizado por Rita às 22:44
link do post | comentar

A melhor citação

 

"Frankly, my dear, I don't give a damn."
CLARK GABLE (Rhett Butler) para Scarlett O'Hara (Vivien Leigh) in GONE WITH THE WIND (1939), de Victor Fleming


Esta é, para mim, a melhor tirada final de sempre do cinema.
Pena é que, para se apreciar toda a sua dimensão, é preciso suportar a agonia do filme e a irritante Scarlett O'Hara.

 

 



realizado por Rita às 01:45
link do post | comentar

Terça-feira, 13 de Dezembro de 2005
As Crónicas de Narnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa ***

T.O.: The Chronicles of Narnia: The Lion, The Witch and the Wardrobe. Realização: Andrew Adamson. Elenco: Georgie Henley, Skandar Keynes, William Moseley, Anna Popplewell, Tilda Swinton, James McAvoy, Jim Broadbent. Vozes: Liam Neeson, Ray Winstone, Dawn French, Rupert Everett. Nacionalidade: EUA, 2005.





Da mesma forma que C.S. Lewis foi influenciado pelo seu amigo J.R.R. Tolkien, também Andrew Adamson (“Shrek”) tem de agradecer ao seu conterrâneo neo-zelandês Peter Jackson pelas possibilidades que este abriu no mundo do cinema fantástico. Mas, só para clarificar, estamos longe de um resultado comparável à genialidade do “Senhor dos Anéis”.


“The Lion, the Witch and the Wardrobe” é o primeiro dos sete volumes que compõem as crónicas de Narnia, escritos entre 1950 e 1956. Quem sabe este seja o primeiro filme de uma nova saga.


A história tem lugar em Inglaterra durante o bombardeio de Londres pelas tropas alemãs na Segunda Guerra Mundial. Quatro crianças são evacuadas para o campo, para casa de um excêntrico professor (Jim Broadbent). Peter (William Moseley), o mais velho, tenta ser o homem da família; Edmund (Skandar Keynes) é o ressentido e rebelde; Susan (Anna Popplewell), a mandona e intelectual; e Lucy (Georgie Henley), a mais nova, a inocente, curiosa e decidida.


É ela que, durante um jogo de Escondidas, descobre um guarda-roupa que é a porta de entrada para o mundo místico de Narnia, uma terra escravizada durante 100 anos pela terrível Bruxa Branca (Tilda Swinton), algo entre o Darth Vader e a Cruella De Vil. Aí, Lucy conhece Mr. Tumnus (James McAvoy), um fauno, e uma das muitas criaturas fantásticas que habitam Narnia.


Lucy tem dificuldade em convencer os irmãos da existência de Narnia, mas também eles acabarão por dar entrada nesta fantasia, e ver-se-ão como protagonistas da profecia que indica que dois filhos de Adão e duas filhas de Eva virão libertar Narnia. Nesta luta, serão liderados por Aslan, um leão justo e sábio (na calma voz de Liam Neeson), que é na verdade o verdadeiro rei de Narnia (hmmm... O Regresso do Rei?).


Esta aventura é absorvente, divertida e emocionante, beneficiando de uma heroína que não podia ser mais natural e adorável - Henley (10 anos) - e de uma vilã tão sedutora, maquiavélica e fria como Swinton.


A Disney foi buscar Adamson à Dreamworks e as criações em CGI (Common Gateway Interface) evidenciam a sua mestria no visual fantástico, desde os faunos, aos centauros, passando pelos castores e terminando na beleza do leão Aslan. Já para não falar dos cenários e das cenas de batalha. Infelizmente, as personagens reais surgem praticamente unidimensionais, apesar de o filme as ir desenvolvendo pouco a pouco.


No meio de todo o entretenimento das batalhas épicas, animais falantes, e da magia, reside uma mensagem sobre a família, a confiança, a fé, e a típica luta do bem contra o mal. Com efeito, a alegoria cristã da obra de C.S. Lewis, apesar de ser ténue nesta adaptação, é ainda evidente em aspectos como a profecia, o salvador, o traidor, o sacrifício, a redenção através da luta pela fé. Mas, tranquilizem-se os cépticos, a religião não impede de nenhum modo o divertimento.





P.S. - Para os curiosos: o autor das Crónicas de Narnia, C.S. Lewis é a personagem principal do filme “Shadowlands” (1993), realizado por Richard Attenborough e protagonizado por Anthony Hopkins.





realizado por Rita às 22:52
link do post | comentar | ver comentários (2)

Segunda-feira, 12 de Dezembro de 2005
Clássicos Pendentes III - EASY RIDER

EASY RIDER

Realização: Dennis Hopper. Elenco: Peter Fonda, Dennis Hopper, Jack Nicholson, Karen Black, Toni Basil. Nacionalidade: EUA, 1969.





Confesso que me aborreci de morte com este filme... Confesso que fiz fast-forward em quase todas as cenas de estrada... Confesso que não tomo drogas...


Wyatt (Peter Fonda) e Billy (Dennis Hopper) - os nomes não podiam ser mais apropriados para estes cavaleiros do asfalto - ganham dinheiro como traficantes de droga e fazem-se à estrada porque querem estar em New Orleans a tempo do Mardi Gras. O objectivo, como objectivo, é um bom objectivo. Mas fica-se por aqui.


“Easy Rider” é um road movie sem belas paisagens (tirando o momento em que Karen Black se despe entre lápides num cemitério... eu sei, até isso é “creepy”!) e sem conversas entre os intervenientes que impliquem grandes crescimentos pessoais (as motas não são propriamente um veículo que motive a comunicação na estrada, especialmente entre criaturas tão pouco eloquentes como Wyatt e Billy). O conceito de viagem, que cinematograficamente deve equivaler a uma evolução dos heróis, passando por desafios colocados ao longo do caminho, é completamente frustrado. Sabemos pouco sobre eles, e, no final, ficamos a saber mais ou menos o mesmo.


Parece que a droga consumida pela geração que colocou este filme nos píncaros produziu graves efeitos nos seus filhos, e isso explica a sua total incapacidade de captar a essência de “Easy Rider” (não a minha, claro, que os meus pais são pessoas sérias). Como diria Dylan: “times they are a changing.”


Apesar de alguns planos imaginativos da parte de László Kovács, a montagem deste filme (da responsabilidade de Donn Cambern) é, no mímino, de uma presunção extrema, com cortes psicadélicos do mais enjoativo. De resto, “Easy Rider” pode ser resumido como um longo video-clip da música dos anos 60. E talvez essa seja, com efeito, a sua maior virtude.



RAZÕES PARA VER:
- A banda sonora (mas, para isso, basta o CD).
- Porque Jack Nicholson é sempre um bálsamo de génio.
- Porque passar o Carnaval em New Orleans deve ser um objectivo de vida para toda a gente.






CITAÇÕES:


“I mean, it's real hard to be free when you are bought and sold in the marketplace.”


“This used to be a helluva good country. I can't understand what's gone wrong with it.”


“They'll talk to you and talk to you and talk to you about individual freedom. But they see a free individual, it's gonna scare 'em.”





realizado por Rita às 01:21
link do post | comentar | ver comentários (13)

Quinta-feira, 8 de Dezembro de 2005
Clássicos Pendentes II - BLADE RUNNER

BLADE RUNNER – PERIGO IMINENTE

Realização: Ridley Scott. Elenco: Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young, Edward James Olmos, M. Emmet Walsh, Daryl Hannah, William Sanderson, Brion James, Joe Turkel, Joanna Cassidy. Nacionalidade: EUA, 1982.





Tendo visto a versão Director’s Cut não me cabe fazer comparações com a versão que foi lançada comercialmente. Esta não tem a narração de Rick Deckard (Harrison Ford), inclui novas cenas e, pelo que me dizem, também um final diferente.


Los Angeles. 2019. As grandes empresas assumiram o controlo da sociedade. Esse é o caso da 'Tyrell Corporation', uma empresa tecnológica especializada no fabrico de “replicants”, robots em quase tudo semelhantes ao ser humano, mas com uma força sobre-humana. Após um motim, um grupo de polícias de elite, a “Unidade Blade Runner”, tem como objectivo exterminar todos os “replicants” que restam. A missão de Deckard como “Blade Runner” é apanhar 4 desses “replicants”: Roy (Rutger Hauer), Pris (Daryl Hannah), Zhora (Joanna Cassidy) e Leon (Brion James).


Para uma existência pacífica, os “replicants” são levados a crer que são humanos devido aos implantes de memória que lhes são colocados (com infância e recordações), como é o caso de Rachel (Sean Young), que, com Deckard, compõem o par romântico da história. Mas para identificar um “replicant” basta submetê-lo ao teste ocular Voight-Kampff, que diferencia as reacções humanas das dos andróides, e que se vale da incapacidade destes últimos em sentir empatia, ou seja, de se identificarem com os sofrimentos ou alegrias de outros seres.


Baseado no livro de Philip K. Dick, “Do Androids Dream of Electric Sheep?”, “Blade Runner” levanta questões metafísicas sobre o que significa ser humano. À medida que Deckard faz a sua caça, vai-se tornando cada vez mais frio e desligado, enquanto que os andróides, motivados pela sua luta pela sobrevivência (o prazo de validade dos modelos Nexus 6, por exemplo, é de 4 anos), vão revelando um lado cada vez mais humano, através de sentimentos como o medo ou o amor.


Num contexto de decadência ambiental, de homogeneização e desumanização da sociedade, cabe ao ser humano lutar pela sua sobrevivência como ser emotivo, criativo e solidário.



RAZÕES PARA VER:
- Como alternativa ao livro.
- Porque a ficção científica nem sempre é ficção.
- Por Rutger Hauer e os saltos de Daryl Hannah.






CITAÇÕES:


“- Describe in single words Only the good things that come into your mind, about your mother.
- My mother? Let me tell you something about my mother.”


“Too bad she won't live... But then again, who does?”


“If you could see what I've seen with your eyes.”


“The light that burns twice as bright burns half as long, and you have burned so very, very brightly.”


“I want more life, fucker!”





realizado por Rita às 12:23
link do post | comentar

Terça-feira, 6 de Dezembro de 2005
Broken Flowers - Flores Partidas ****

Realização: Jim Jarmusch. Elenco: Bill Murray, Jeffrey Wright, Julie Delpy, Heather Simms, Sharon Stone, Jessica Lange, Tilda Swinton, Frances Conroy, Chloë Sevigny, Brea Frazier, Alexis Dziena, Christopher McDonald. Nacionalidade: EUA / França, 2005.





O dia não pode começar bem quando a nossa companheira bate com a porta e o correio não traz notícias boas. Uma antiga namorada que se esconde no anonimato e que lhe anuncia a existência de um filho, nascido de uma noite de paixão 20 anos antes e que saiu, entretanto, de casa à procura do pai ausente.


O dia não começa bem para Don, a personagem de Bill Murray no novo filme de Jim Jarmusch, "Broken Flowers - Flores Partidas", aclamado este ano no Festival de Cannes com o prémio do Grande Júri.


Instigado por um vizinho (Jeffrey Wright), que se divide por três empregos, mas no fundo gostava de ser detective, Don Johnston (com um “t”, como explica às mais jovens que encontra na sua viagem) parte, quase sem vontade, em busca das quatro mulheres que poderão ser a mãe do filho que ele desconhecia.


É essa viagem - de reencontros que podem ser amargos e mesmo violentos - que acompanhamos ao longo do filme, que vale pelas interpretações (atenção à galeria de actrizes secundárias, que inclui, entre outras, Sharon Stone, Tilda Swinton, Julie Delpy, Jessica Lange e Chloë Sevigny) e por um argumento, que tece uma laboriosa teia de pormenores e diálogos que entrelaçam o espectador, como na anterior obra, de 2003, "Café e Cigarros", em que o mote eram conversas em torno de café e cigarros.


Don é o fio condutor das histórias que decorrem perante os nossos olhos - como as flores que dão nome ao filme, que murcham e morrem. Nada une aquelas mulheres, a não ser a personagem de Murray. Todas elas partilharam cama e sonhos com ele, mas o reencontro, 20 anos depois, é feito de silêncios ou incómodos. Não há muito a dizer. Mas Jarmusch diz muito, neste "Broken Flowers".






CITAÇÕES:


“Rita - Daddy, you're not supposed to be smoking.
Winston - Oh, no, no. This is just some assorted herbs, some cheeba.
Don Johnston - Let me see that.
[takes a drag of cigarette]
Don Johnston - Yep, it's just cannabis sativa.”
BREA FRAZIER (Rita), JEFFREY WRIGHT (Winston) e BILL MURRAY (Don)


“[after he gets punched]
Sun Green - Are you OK?
Don Johnston - It was just a minor misunderstanding.”
PELL JAMES (Sun Green) e BILL MURRAY (Don)



por Miguel









O realizador de “Night on Earth” (1991), “Dead Man” (1995), “Ghost Dog: The Way of the Samurai” (1999), e “Coffee and Cigarrettes” (2003) traz-nos com “Broken Flowers” um filme cru e introspectivo.


Acompanhado pelo CD “Don - From Winston” (disponível para audição no site oficial), pormenor que me recordou necessariamente o “Elizabethtown”, Don, um Don Juan decrépito (e o nome DON JONHston não é por acaso), inicia uma viagem dura e (porque) profunda ao seu passado. Voltar a casa de alguém com quem fomos para a cama há 20 anos, jantar com o marido dela, levar um murro do namorado de outra ou ser seduzido pela filha menor de outra ainda, pode ter graves consequência na forma como nos vemos a nós mesmos. Deve doer olharmos para trás nas nossas vidas e descobrirmos que somos uns grandes FDP.


Cada uma destas mulheres revela um aspecto diferente de quem Don foi no passado, espreitando para vidas que ele poderia ter tido se não tivesse tido tanto medo. A reacção de cada uma delas vai crescendo no grau de desagrado (o rancor sobrepõe-se visivelmente ao perdão), da mesma forma que Don se vai aproximando do mais fundo de si mesmo. E as flores (cor-de-rosa) que ele leva a cada uma estão condenadas a murchar, da mesma forma que aquelas que ele tem em casa (talvez as de Sherry) fazem já parte do passado. Apesar das suas muitas conquistas, Don ficou sem conquistar o mais importante: um sentido para a sua vida.


A interpretação de Murray faz lembrar a contenção e sobriedade de “Lost in Translation”, com ainda mais tristeza e vazio. As suas feridas internas são visíveis no seu comportamento depressivo, onde cada gesto, cada palavra perecem uma luta (daí sempre o mesmo fato de treino?). O charme que teve no passado surge apenas em pequenos instantes, para logo se desvanecer numa nuvem cinzenta.


Wright é genial como o contraponto cómico, e todas as actrizes secundárias representam papéis que dariam certamente, cada um deles, um filme. Ficamos com vontade de as ver mais, mais para trás na sua relação com Don.


Jarmusch opta pelo óbvio em algumas situações, como é o caso das piadas com referência à estrela de “Miami Vice”, Don Johnson; ou a transposição de todos os detalhes da ninfa de Nabokov em Lolita (Alexis Dziena), a filha de Laura. Mas depois enche-nos a alma com detalhes como a viagem da carta pelos interiores dos serviços da USA Mail, ou aquela impressionante mão de Chloë Sevigny apoiada numa anca que não é a sua. Jarmusch escolhe o cor-de-rosa como a cor estandarte de um filme que não é nada cor-de-rosa, mas que representa no fundo aquilo que se procura: o “felizes para sempre”. Das suas opções, o grande senão vai para os constantes e cansativos fade-out entre cenas.


Jarmusch escolheu um ritmo compassado para este filme, porque não se trata de uma epifania. As grandes revelações da nossa vida vão-se fazendo pouco a pouco, e é esse caminho que conta. O resultado da procura deixa, com efeito, de ser importante. A viagem é o crescimento. De repente, alguém que era desligado de tudo, dá-se conta de que as suas acções não são inconsequentes, e que se sente, estranhamente, atento a tudo o que o rodeia. No final, Don parece ter despertado para o presente, que ele mesmo conclui que é a única coisa que importa.






MAIS CITAÇÕES:


“I'm like your mistress, except you're not even married.”
JULIE DELPY (Sherry)


“Don - Did I give you that necklace?
Dora - No.
Don - I should have.”
BILL MURRAY (Don) e FRANCES CONROY (Dora)



por Rita




realizado por Rita às 23:39
link do post | comentar | ver comentários (2)

Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2005
Just Like Heaven ***

Realização: Mark Waters. Elenco: Reese Witherspoon, Mark Ruffalo, Donal Logue, Dina Waters, Ben Shenkman, Jon Heder, Ivana Milicevic, Rosalind Chao. Nacionalidade: EUA, 2005.





Elizabeth (Reese Witherspoon) trabalha 26 horas seguidas no hospital. Sem vida pessoal que se seja digna de tal nome, a sua irmã Lizzy (Dina Waters) arranja-lhe um encontro. Mas o encontro de Elizabeth acaba por fazer-se a grande velocidade com um camião, bem de frente. Três meses mais tarde, o apartamento de Elizabeth é sub-alugado a David (Mark Ruffalo), um homem torturado que apenas quer um sofá confortável e um frigorífico para guardar as suas muitas cervejas. Mas Elizabeth está decidida a que o apartamento onde vive (até se dar conta que esse não é exactamente o seu estado) não seja invadido por um sem-abrigo.


“Just Like Heaven” é uma versão moderna da “Bela Adormecida”, consideravelmente lamechas e inverosímil, que trivializa e atenua circunstâncias trágicas que, na vida real, estão bem longe do romance ou da comédia, mas que ainda assim, e apesar de tudo, se mantém em pé graças ao encanto, química e sentido de humor do par protagonista: Reese Witherspoon (“Legally Blonde”, de Robert Luketic - 2001; “Vanity Fair”, de Mira Nair - 2004) e Mark Ruffalo (“ Mi Vida Sin Mí”, de Isabel Coixet - 2003; “We Don’t Live Here Anymore”, de John Curran - 2004; “Eternal Sunshine of the Spotless Mind”, de Michel Gondry - 2004).


O realizador Mark Waters (“Mean Girls”, 2004) impele um ritmo dinâmico a “Just Like Heaven”, o que felizmente nos impede de fazer demasiadas perguntas ou de nos afundarmos nos buracos do argumento de Peter Tolan (“Analyze This”, 1999) e Leslie Dixon (“Pay It Forward”,2000). Que isto de um fantasma conseguir passar através das paredes e não conseguir tocar em objectos, mas conseguir andar no chão, sentar-se num sofá ou deitar-se numa cama é, no mínimo, intrigante...


A participação de Jon Heder como Darryl, o consultor esotérico, renova o apetite para o ainda não estreado entre nós “Napoleon Dynamite”, de Jared Hess (2004).


Nos ouvidos fica a soar a versão de “Just Like Heaven” na voz de Katie Melua.






CITAÇÕES:


“God made alcohol as a social lubricant. To make men brave, and to make women loose.”
DONAL LOGUE (Jack Houriskey)


“I saved my life too... for later.”
REESE WITHERSPOON (Elizabeth Masterson)



JUST LIKE HEAVEN
The Cure


Show me how you do that trick
The one that makes me scream she said
The one that makes me laugh she said
And threw her arms around my neck
Show me how you do it
And I promise you I promise that
I’ll run away with you
I’ll run away with you
Spinning on that dizzy edge
I kissed her face and kissed her head
And dreamed of all the different ways I had
To make her glow
Why are you so far away? she said
Why won’t you ever know that I’m in love with you
That I’m in love with you

You
Soft and only
You
Lost and lonely
You
Strange as angels
Dancing in the deepest oceans
Twisting in the water
You’re just like a dream

Daylight licked me into shape
I must have been asleep for days
And moving lips to breathe her name
I opened up my eyes
And found myself alone alone
Alone above a raging sea
That stole the only girl I loved
And drowned her deep inside of me

You
Soft and only
You
Lost and lonely
You
Just like heaven





realizado por Rita às 01:17
link do post | comentar

Domingo, 4 de Dezembro de 2005
Oliver Twist ***

Realização: Roman Polanski. Elenco: Ben Kingsley, Barney Clark, Leanne Rowe, Mark Strong, Jamie Foreman, Harry Eden, Edward Hardwicke, Ian McNeice, Jeremy Swift, Frances Cuka, Michael Heath, Gillian Hanna, Alun Armstrong. Nacionalidade: Reino Unido / República Checa / França / Itália, 2005.





O novo filme de Polanski acrescenta muito pouco à célebre história de “Oliver Twist” de Charles Dickens, publicada inicialmente em capítulos mensais entre 1837 e 1839. Mas, tendo em conta a magistralidade de Dickens, esta é uma história que apenas pede para ser contada. E, nesses termos, Polanski faz aqui não só uma homenagem ao autor, mas permite também aos espectadores uma viagem no tempo cheia de detalhes.


Oliver (Barney Clark) é um jovem de 10 anos, criado num orfanato da Inglaterra rural que arranja maneira de chegar a Londres, onde lhe é dado abrigo por um grupo de pequenos delinquentes dirigido pelo avarento Fagin (Ben Kingsley). Na sua primeira saída, Oliver cruza-se com Mr. Brownlow (Edward Hardwicke), que não consegue resistir à aura de bondade e honestidade de Oliver.


Polanski faz uma narrativa convencional, onde o grande destaque vai, sem dúvida, para Londres, também ela uma personagem, se não a mais forte, de toda a história. O impacto e beleza visuais deste filme devem-se ao exímio trabalho de design de produção de Allan Starski (“The Pianist”), conseguindo aliar realismo e criatividade; de guarda-roupa perfeito, a cargo de Anna Sheppard (“Schindler’s List” e “The Pianist”); e da fotografia de Pawel Edelman, capaz de transformar ruas lamacentas e casas decrépitas em verdadeiros poemas, enchendo o céu de nuvens e chuva quando Oliver está com Fagin e de sol quando está com o bondoso Mr. Brownlow.


As interpretações de Ben Kinglsey como Fagin e de Jamie Foreman como Bill Sykes acrescentam a força necessária para cativar a nossa atenção. Mas “Oliver Twist” funciona igualmente como show-case para os jovens actores deste elenco, como é o caso do melancólico Barney Clark (Oliver) e a tocante Leanne Rowe como Nancy Sykes, a protectora de Oliver dentro do grupo de pequenos ladrões.


Sem sentimentalismos, e socialmente consciente, Polanski cria um mundo frio e cruel, onde se funde também a história da sua própria infância na Polónia da Segunda Guerra Mundial.


Estando longe do melhor de Polanski, “Oliver Twist” capta, no entanto, a essência do melhor de Dickens.





realizado por Rita às 20:34
link do post | comentar

Quinta-feira, 1 de Dezembro de 2005
Clássicos Pendentes I - RESERVOIR DOGS

RESERVOIR DOGS – CÃES DANADOS

Realização: Quentin Tarantino. Elenco: Harvey Keitel, Tim Roth, Michael Madsen, Steve Buscemi, Chris Penn, Lawrence Tierney, Randy Brooks, Kirk Baltz, Quentin Tarantino, Edward Bunker, Steven Wright (voz). Nacionalidade: EUA, 1992.





Tendo em conta o meu apreço pelo trabalho de Quentin Tarantino, concordo que demorei muito tempo até ver “Reservoir Dogs” (“Cães Danados”), a sua primeira longa metragem, paga com os rendimentos da venda dos argumentos de “True Romance” (Tony Scott, 1993) e “Natural Born Killers” (Oliver Stone, 1994).


Talvez por isso, neste momento parece-me um rascunho (mas um bom rascunho) de “Pulp Fiction” (1994). A estrutura não linear da história, os diálogos inteligentes e cheios de humor, o gosto pelas armas e pelo sangue, e a fantástica banda sonora.


Um roubo de diamantes corre mal, e os sobreviventes do gang refugiam-se num armazém que foi escolhido como ponto de encontro, enquanto esperam pelo chefe. O anonimato entre os diversos membros do grupo é mantido por nomes de código que vão desde o Rosa ao Azul. À medida que cada um deles vai chegando ao armazém começa a ficar claro que foram denunciados por um elemento infiltrado. A tensão cresce à medida que, com recurso ao flashback, as suspeitas vão recaindo alternadamente sobre cada um dos intervenientes.



RAZÕES PARA VER:
- O argumento consistente e inteligente.
- As interpretações memoráveis de Harvey Keitel, Michael Madsen e Tim Roth.
- Ah, e a poça de sangue!



P.S. - Talvez o epíteto de “clássico” aqui seja um pouco forte, mas faz parte deste processo de mea culpa.






CITAÇÕES:


“- You kill anybody?
- A few cops.
- No real people?
- Just cops.”


“You don't need proof when you have instinct.”


“Somebody's shoved a red-hot poker up our ass, and I want to know whose name is on the handle!”


“You shoot me in a dream, you'd better wake up and apologize.”





realizado por Rita às 18:09
link do post | comentar

Cinefools
RITA, MIGUEL, SÉRGIO, NUNO,
VASCO, LUÍS,
efeitos visuais por S.
Citação

“When morals decline and good men do nothing evil flourishes.”
LEONARDO DICAPRIO (J. Edgar Hoover) in J. EDGAR, de Clitn Eastwood
Banda sonora

PILEDRIVER WALTZ – Alex Turner
in “Submarine” de Richard Ayoade (2010)
Artigos recentes

Dos vícios antigos se faz...

Dos vícios antigos se faz...

Reavivar com música XIV

Reavivar com música XIII

Reavivar com música XII

Dos vícios antigos se faz...

Porque a cultura nunca fe...

E dia 30, no Porto, tudo ...

Reavivar com música XI

Reavivar com música X


NOTÍCIAS

OPINIÕES

Filmes
#
$9.99
(500) Days of Summer
12:08 A Este de Bucareste
127 Hours
13 (Tzameti)
1408
16 Blocks
2 Days in Paris
2046
21
21 Grams
25 Watts
3... Extremos
300
4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias
4ème Morceau de la Femme Coupée en Trois, Le
50/50
5x2
9 Songs

A
À l’Origine
À Tout de Suite
Aaltra
Abrazos Rotos, Los
Adam
Adeus, Dragon Inn
Ae Fond Kiss
Affaire Farewell, L’
Afterschool
Agents Secrets
Agony and the Ecstasy of Phil Spector, The
Ágora
After.Life
Alatriste
Albert Nobbs
Alex
Alexander
Alfie
Alice In Wonderland
All The Invisible Children
Amants Réguliers, Les
American, The
American Gangster
American Splendor
Amor Idiota
Amours Imaginaires, Les
An Education
An Obsession
Ana Y Los Otros
Anche Libero Va Bene
Angel-A
Anges Exterminateurs, Les
Answer Man, The
Anthony Zimmer
Antichrist
Apocalypto
Approaching Union Square
Après Vous...
Arnacoeur, L’
Arsène Lupin
Artist, The
Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford, The
Assassination of Richard Nixon, The
Astronaut Farmer, The
Asylum
Atonement
Ausentes
Aventures Extraordinaires d'Adèle Blanc-Sec, Les
Aviator, The
Away We Go
Azuloscurocasinegro

B
Baader-Meinhof Komplex, Der
Babel
Babies
Backstage
Ballad of Jack and Rose, The
Banquet, The
Barney’s Version
Basic Instinct 2
Batman Begins
Battle in Seattle
Be Kind Rewind
Bee Movie
Before Sunset
Before the Devil Knows You’re Dead
Beginners
Being Julia
Belle Bête, La
Belleville Rendez-Vous
Big Bang Love, Juvenile A
Big Fish
Birth - O Mistério
Black Swan
Blade Runner
Blindness
Blood Diamond
Blue Valentine
Boat That Rocked, The
Bobby
Body of Lies
Bocca del Lupo, Las
Borat
Born Into Brothels
Bourne Ultimatum, The
Box, The
Boxing Day
Boy in the Striped Pyjamas, The
Boys are Back, The
Brave One, The
Breach
Breakfast on Pluto
Breaking and Entering
Brick
Brokeback Mountain
Broken Flowers
Brothers Bloom, The
Brothers Grimm, The
Brüna Surfistinha
Brüno
Burn After Reading
Butterfly Effect

C
Caché
Caimano, Il
Camping Sauvage
Candy
Canino - Kynodontas
Capitalism: A Love Story
Capote
Caramel
Carandiru
Carlos
Carnage
Carne Fresca, Procura-se
Cartouches Gauloises
Casanova
Casino Jack
Casino Royale
Caos Calmo
Castro
C’est Pas Tout à Fait la Vie Dont J’avais Rêvé
Chamada Perdida, Uma
Changeling
Chansons d’Amour
Chaos
Chaos Theory
Charlie and the Chocolate Factory
Charlie Wilson's War
Che: El Argentino
Che: Guerrilla
Chefe Disto Tudo, O - Direktøren for det Hele
Chico & Rita
Children of Men
Chloe
Choke
City of Life and Death
Client 9: The Rise and Fall of Eliot Spitzer
Climas - Iklimer
Closer - Perto Demais
Cloudy With A Chance Of Meatballs
Coco Avant Chanel
Cœurs
Coffee and Cigarettes
Coisa Ruim
Cold Souls
Collateral
Collector, The
Combien Tu M’Aimes?
Comme une Image
Concert, Le
Condemned, The
Constant Gardener, The
Control
Copying Beethoven
Corpse Bride
Couperet, Le
Couples Retreat
Crash
Crazy, Stupid, Love.
Crimen Ferpecto
Crimson Gold
Crónicas
Crónicas de Narnia, As
Curious Case of Benjamin Button, The
Curse of the Golden Flower

D
Da Vinci Code, The
Dangerous Method, A
Dans Paris
Darjeeling Limited, The
Dark Knight, The
De Tanto Bater o Meu Coração Parou
Dead Girl, The
Dear Wendy
Death of Mr. Lazarescu, The
Death Proof (S), Death Proof (R)
Debt, The
Deixa-me Entrar
Déjà Vu
Delirious
Departed, The
Descendants, The
Despicable Me
Derailed
Destricted
Dialogue Avec Mon Jardinier
Diarios de Motocicleta
Die Hard 4.0
Disturbia
Do Outro Lado
Don’t Come Knocking
Dorian Gray
Doublure, La
Drama/Mex
Drawing Restraint 9
Dreamgirls
Dreams on Spec
Drive

E
Eamon
Eastern Promises
Easy Rider
Edge of Love, The
Educación de las Hadas, La
Edukadores, Os
Elegy
Elizabeth: The Golden Age
Elizabethtown
En la Cama
Enfant, L’
Ensemble, C’est Tout
Enter The Void
Entre Les Murs
Entre os Dedos
Entre Ses Mains
Eternal Sunshine of the Spotless Mind
Être et Avoir
Eu Servi o Rei de Inglaterra
Evening
Everything is Illuminated
Exit Through the Gift Shop
Extremely Loud & Incredibly Close

F
Factory Girl
Fahrenheit 9-11
Family Stone, The
Fantastic Mr. Fox
Fast Food Nation
Faute à Fidel, La
Ferro 3
Fighter, The
Fille Coupée en Deux, La
Fille du Juge, La
Fils de L’Épicier, Le
Final Cut, The
Find Me Guilty
Finding Neverland
Fish Tank
Five Minutes of Heaven
Flags Of Our Fathers
Flores de Otro Mundo
Flushed Away
Fountain, The
Forgotten, The
Fracture
Frágeis
Frank Zappa - A Pioneer of the Future of Music Part I & II
Frankie
Freedomland
Fresh Air
Frost/Nixon
Frozen Land

G
Gabrielle
Gainsbourg (Vie Héroïque)
Garden State
Géminis
Genesis
Gentille
George Harrison: Living in the Material World
Get Smart
Gigantic
Ghost Dog - O Método do Samurai
Ghost Town
Ghost Writer, The
Girl From Monday, The
Girl With a Pearl Earring
Girlfriend Experience, The
Go Go Tales
Gomorra
Gone Baby Gone
Good German, The
Good Night, And Good Luck
Good Shepherd, The
Good Year, A
Graduate, The
Graine et le Mulet, La
Gran Torino
Grande Silêncio, O
Gravehopping
Green Lantern
Grbavica

H
Habana Blues
Habemus Papam
Habitación de Fermat, La
Half Nelson
Hallam Foe
Hanna
Happening, The
Happy Endings
Happy-Go-Lucky
Hard Candy
Harsh Times
He Was a Quiet Man
Hedwig - A Origem do Amor
Héctor
Hellboy
Hellboy II: The Golden Army
Help, The
Herbes Folles, Les
Hereafter
History of Violence, A
Hoax, The
Holiday, The
Home at the End of the World, A
Host, The
Hostel
Hotel Rwanda
Hottest State, The
House of the Flying Daggers
How To Lose Friends & Alienate People
Howl
Humpday
Hunger
Hurt Locker, The
Hustle & Flow
I
I Am Legend
I Could Never Be Your Woman
I Don’t Want To Sleep Alone
I Heart Huckabees
I Love You Phillip Morris
I’m Not There
I’m Still Here
Ice Age - The Meltdown
Ice Harvest, The
Ides of March, The
If a Tree Falls: A Story of the Earth Liberation Front
Illusionist, The
Illusioniste, L’
Ils Ne Mouraient Pas Tous Mais Tous Étaient Frappés
Imaginarium of Doctor Parnassus, The
Immortel (ad vitam)
In a Better World - Hævnen
In Bruges
In Good Company
In Her Shoes
In The Loop
In the Valley of Elah
In Time
Inception
Inconvenient Truth, An
Incredible Hulk, The
Incredibles, The
Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull
Indigènes - Dias de Glória
Infamous
Informant!, The
Informers, The
Inglourious Basterds
Inland Empire
Inner Life of Martin Frost, The
Inside Man
Intermission
Interpreter, The
Interview
Into the Wild
Introspective
Io Sono L’Amore
Iron Lady, The
Iron Man
Island, The
It Happened Just Before
It Might Get Loud
Ivresse du Pouvoir, L’

J
J. Edgar
Jacket, The
Japanese Story
Jarhead
Je Ne Suis Pas La Pour Être Aimé
Je Préfère Qu’on Reste Amis
Jeux d’Enfants
Jindabyne
Julie & Julia
Juno
Just Like Heaven
Juventude em Marcha

K
Kids Are All Right, The
Kill List
King Kong
King’s Speech, The
Kiss Kiss Bang Bang
Klimt
Knight and DayKovak Box, The

L
Laberinto del Fauno, El
Lady in the Water
Lake House, The
Land of Plenty
Lars and the Real Girl
Last King of Scotland, The
Last Kiss, The
Last Night
Last Station, The
Leatherheads
Letters From Iwo Jima
Levity
Libertine, The
Lie With Me
Life Aquatic with Steve Zissou, The
Life During Wartime
Life is a Miracle
Lions For Lambs
LIP, L’Imagination au Pouvoir, Les
Lisboetas
Little Children
Little Miss Sunshine
Livro Negro - Zwartboek
Left Ear
Lonely Hearts
Long Dimanche de Fiançailles, Un
Lost in Translation
Lou Reed's Berlin
Louise-Michel
Love Conquers All
Love and Other Drugs
Love in the Time of Cholera
Love Song for Bobby Long, A
Lovebirds, The
Lovely Bones, The
Lucky Number Slevin
Luna de Avellaneda
Lust, Caution

M
Machete
Madagascar
Made in Dagenham
Mala Educación, La
Malas Temporadas
Mammuth
Man About Town
Man On Wire
Management
Manuale d’Amore
Maquinista, O
Mar Adentro
Margin Call
Margot at the Wedding
Maria Cheia de Graça
Marie Antoinette
Martha Marcy May Marlene
Mary
Match Point
Me And You And Everyone We Know
Meek's Cutoff
Melancholia
Melinda and Melinda
Memórias de uma Geisha
Men Who Stare at Goats, The
Método, El
Mi Vida Sin Mí
Michael Clayton
Micmacs à Tire Larigot
Midnight in Paris
Milk
Million Dollar Baby
Mio Fratello è Figlio Unico
Moine, Le
Momma’a Man
Moneyball
Monster
Moon
Morning Glory
Mother (Madeo)
Mother, The
Moustache, La
Mozart and the Whale
Mrs Henderson Presents
Mujer Sin Cabeza, La
Munique
Music & Lyrics
My Blueberry Nights
My Week With Marilyn
My Son, My Son, What Have Ye Done
Mysterious Skin

N
Nana, La
Nathalie
Ne Le Dis À Personne
Ne Te Retourne Pas
NEDS
New World, The
Ni pour, ni contre (bien au contraire)
Niña Santa, La
Night Listener, The
Night on Earth
Nightmare Before Christmas, The
Ninguém Sabe
No Country For Old Men
No Reservations
No Sos Vos, Soy Yo
Nombres de Alicia, Los
North Country
Notes on a Scandal
Number 23, The

O
Ocean’s Thirteen
Odore del Sangue L’
Offside
Old Joy
Oldboy
Oliver Twist
Once
Onda, A - Die Welle
Ondine
Orgulho e Preconceito
Orly

P
Pa Negre (Pan Negro)
Painted Veil, The
Palais Royal!
Para Que No Me Olvides
Paradise Now
Paranoid Park
Parapalos
Paris
Paris, Je T’Aime
Passager, Le
Passenger, The (Professione: Reporter)
Patti Smith - Dream of Life
Perder Es Cuestión de Método
Perfume: The Story of a Murderer
Persépolis
Personal Velocity
Petite Lili, La
Piel Que Habito, La
Pink
Pirates of the Caribbean: Dead Man’s Chest
Planet Terror
Playtime
Please Give
Post Mortem
Poupées Russes, Les
Prairie Home Companion, A
Precious: Based on the Novel ‘Push’ by Sapphire
Prestige, The
Presunto Culpable
Pretty In The Face
Prophète, Un
Promeneur du Champ de Mars, Le
Promotion, The
Proof
Proposition, The
Prud'Hommes
Public Enemies

Q
Quantum of Solace
Quatro Noites Com Anna
Queen, The
Quelques Jours en Septembre
Qui M’Aime Me Suive

R
Rabia
Rachel Getting Married
Raison du Plus Faible, La
Ratatouille
Re-cycle
Reader, The
Red Eye
Red Road
Redacted
Refuge, Le
Religulous
Reservation Road
Reservoir Dogs
Resident, The
Restless
Revenants, Les
Revolutionary Road
Ring Two, The
Road, The
Road To Guantanamo, The
Rois et Reine
Rôle de sa Vie, Le
Romance & Cigarettes
Rubber
Rum Diary, The
S
Sabor da Melancia, O
Safety of Objects, The
Salt
Salvador (Puig Antich)
Samaria
Sauf Le Respect Que Je Vous Dois
Savages, The
Saw
Saw II
Saw III
Scaphandre et le Papillon, Le
Scanner Darkly, A
Science des Rêves, La
Sconosciuta, La
Scoop
Scott Pilgrim vs. The World
Secret Window
Secreto de Sus Ojos, El
Selon Charlie
Sem Ela...
Semana Solos, Una
Señora Beba
Sentinel, The
Separação, Uma - Jodaeiye Nader az Simin
Séptimo Día, El
Séraphine
Seres Queridos
Serious Man, A
Sex is Comedy
Sexualidades - En Soap
S&Man
Shady Grove
Shame
Shattered Glass - Verdade ou Mentira
She Hate Me
Shooting Dogs
Shopgirl
Shortbus
Shrek 2
Shrek The Third
Shrink
Shutter Island
Sicko
Sideways
Silence de Lorna, Le
Silk
Simpsons Movie, The
Sin City
Single Man, A
Sky Captain and the World of Tomorrow
Slumdog Millionaire
Smart People
Social Network, The
Soeurs Fâchées, Les
Soledad, La
Solitudine dei Numeri Primi, La
Somewhere
Son of Rambow
Sonny
Snow
Snow Cake
Spanglish
Spread
Squid and the Whale, The
Star Trek
Still Life
Stop Making Sense
Stranger Than Fiction
Strings
Submarine
Sunshine
Super 8
Sweeney Todd
Syriana

T
Tabloid
Tarnation
Tartarugas Também Voam, As
Taxidermia
Te Doy Mis Ojos
Temps du Loup, Le
Temps Qui Changent, Les
Temps Qui Reste, Le
Temporada de Patos
Teta Asustada, La
Thank You For Smoking
There Will Be Blood
This Is England
This Movie Is Broken
This Must Be The Place
Thirst
Thor
Three Burials of Melquiades Estrada, The
Thumbsucker
Tideland
Tigre e la Neve, La
Time Traveler's Wife, The
Tinker, Tailor, Soldier, Spy
To Take A Wife
Todos os Outros – Alle Anderen
Tonite Let's All Make Love in London
Tournée
Toy Story 3
Transamerica
Transsiberian
Travaux, On Sait Quand Ça Commence
Tree of Life, The
Très Bien, Merci
Três Macacos, Os
Trilogia Lucas Belvaux
Triple Agent
Tristram Shandy: A Cock and Bull Story
Tropa de Elite
Tropa de Elite 2
Tropic Thunder
Tropical Malady
Trust the Man
Tsotsi
Tueur, Le

U
United States of Leland
Unknown
Untergang, Der - A Queda
Up
Up In The Air

V
V For Vendetta
Vacancy
Valkyrie
Valsa com Bashir
Vanity Fair
Vantage Point
Vera Drake
Vers Le Sud
Vicky Cristina Barcelona
Vida Secreta de las Palabras, La
Vidas dos Outros, As (Das Leben der Anderen)
Vie en Rose, La
Village, The
Vipère au Poing
Visitor, The
Viva
Volver

W
Walk Hard: The Dewey Cox Story
Walk the Line
WALL-E
War, Inc.
War of the Worlds
Wassup Rockers
Waste Land - Lixo Extraordinário
Watchmen
What a Wonderful Place
What the #$*! Do We (K)now!?
Whatever Works
When in Rome
Where the Truth Lies
Where The Wild Things Are
Whip It
Whisky
We don’t care about music anyway…
We Dont’t Live Here Anymore
Weisse Band, Das – O Laço Branco
Wide Awake
Wilbur Wants to Kill Himself
Wind That Shakes The Barley, The
Winter’s Bone
Woman Under The Influence, A
Woodsman, The
World, The
World Trade Center
Wrestler, The

X
X-Files: I Want To Believe, The
X-Men: First Class
X-Men Origins: Wolverine

Y
Yo Soy La Juani
Young Adult
Youth in Revolt
Youth Without Youth

Z
Zack And Miri Make A Porno

Zodiac
Arquivo

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Outubro 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Festivais e Prémios
- FANTASPORTO
- FESTROIA
- INDIE LISBOA
- FESTIVAL DE CINEMA GAY E LÉSBICO DE LISBOA
- FESTIVAL INTERNACIONAL DE CURTAS METRAGENS DE VILA DO CONDE
- DOCLISBOA
- CINANIMA
- CineECO
- FamaFEST
- FICA
- FESTIVAL DE CINEMA LUSO-BRASILEIRO DE SANTA MARIA DA FEIRA
- fest | FESTIVAL DE CINEMA E VÍDEO JOVEM DE ESPINHO
- CAMINHOS DO CINEMA PORTUGUÊS
- FESTIVAL DE CANNES
- LES CÉSAR DU CINEMA
- PREMIOS GOYA
- FESTIVAL INTERNACIONAL DE CINE DONOSTIA - SAN SEBASTIAN
- LA BIENNALE DI VENEZIA
- FESTIVAL INTERNAZIONALE DEL FILM - LOCARNO
- INTERNATIONALE FILMSPIELE BERLIN<
- BAFTA
- LONDON FILM FESTIVAL
- EDINBURGH INTERNATIONAL FILM FESTIVAL
- OSCAR
- SUNDANCE FILM FESTIVAL
- GOLDEN GLOBES
- NEW YORK FILM FESTIVAL
- SAN FRANCISCO FILM FESTIVAL
- TORONTO INTERNATIONAL FILM FESTIVAL
- MONTRÉAL WORLD FILM FESTIVAL
- ROTTERDAM INTERNATIONAL FILM FESTIVAL