CRÍTICA E OPINIÃO SOBRE CINEMA
Sexta-feira, 28 de Outubro de 2005
DOCLISBOA 2005 - 3ª Parte: O PERÍODO PAULO BENTO

A noticia era oficial. Já havia treinador.


Parti assim para a minha última sessão documental. O filme em questão era "Diário da Bósnia" de Joaquim Sapinho, obra que documenta as viagens do realizador à Bósnia no período posterior ao da guerra naquela ex-república jugoslava, e que se apresenta como uma longa reflexão do autor sobre esse conflito, sobre as suas consequências, as suas memórias.


O maior problema deste filme é precisamente esse carácter reflexivo que a obra assume. É que para se aventurar numa obra deste tipo convém ter algo de interessante para dizer. E Sapinho claramente não tem.


Nesta sua estreia no documentário, Sapinho opta por ignorar quase completamente o que as pessoas que filma lhe/nos poderiam transmitir, optando por tentar transmitir-nos, em vez, as impressões que ele retirou daquilo que viu, ou, deduz-se, daquilo que sentiu. Mas o problema é que nunca consegue fugir da pura banalidade (e não deixa de ser sintomático que as poucas frases interessantes que aparecem no documentário estão entre as poucas que não lhe pertencem).


Tem que se lhe dar o mérito de, no entanto, ter arriscado uma empresa deste género, de não ter tomado a opção mais fácil limitando-se a um simples filme-reportagem sobre a situação extrema com que se deparou. E reconhecer que não é fácil levar um empreendimento deste a bom porto.


E é preciso também dizer que, no que à apreciação da obra diz respeito, Sapinho teve algum azar com o timing da sua estreia. É que ainda está muito presente na memória o magistral "A Nossa Música" de Jean Luc Godard, e é impossível ver este documentário sem nos lembrarmos do que Godard conseguiu fazer a partir de premissas semelhantes. (E isso poderá levar a uma ainda maior injustiça na apreciação da obra de Sapinho, porque Godard é demasiado grande, e estabelecer uma comparação entre os dois, assente no simples facto de ambos serem realizadores de profissão é um pouco, sei lá, como comparar o meu futebol com o do Zidane só porque também jogo futebol uma vez por semana, com os meus colegas de trabalho).


Mas isto tudo para dizer que não se trata de um filme mau. Está de facto repleto de bons planos, tem algumas boas sequências, em momentos em que Sapinho (e desculpem a maldade) está calado e nos poupa das suas reflexões, mostrando, por exemplo, um bom domínio na montagem. No entanto, e é também preciso dizê-lo, não consegue que o filme seja mais do que um conjunto de quadros, não conseguindo nunca dar ao filme uma sensação de sequência, de unidade, não nos transportando nunca para aquela realidade que nos mostra.


Acima de tudo, deste documentário fica a sensação de que este foi um projecto demasiado ambicioso para a arte de Sapinho. Pergunto-me o que poderia ser este filme se em vez de a Sapinho, o ICAM tivesse decidido pagar as viagens à Bósnia a Pedro Costa. Mas Costa é um caso único e, de qualquer maneira, por esta altura devia andar pelo bairro da Fontainhas a fazer algumas das obras mais importantes do cinema contemporâneo português.


O Festival para mim acabou assim. Não acabou em grande, de facto, mas também não acabou em miséria. Foi um pouco como a estreia do novo treinador, no Domingo seguinte. É isso. O festival para mim acabou num empate.




por Sérgio


 



realizado por Rita às 18:15
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Quinta-feira, 27 de Outubro de 2005
DOCLISBOA 2005 - 2ª parte: O PERÍODO PÓS-PESEIRO

Entre o ir e o voltar à Culturgest falhei uns tantos filmes. Resumindo, o treinador já não o era, e o presidente, dizia-se, podia deixar de o ser.


Quanto aos documentários, voltei para uma saga de quase 3 horas sobre a emigração magrebina para França, "Memoires d'Immigrés" de Yamina Benguigui. Usando como elemento base de análise o núcleo familiar imigrante, na verdade não se tratava bem de um documentário mas de três, cada um concentrando-se num elemento diferente desse núcleo, o homem, a mulher/mãe e os filhos, fazendo-se cada um corresponder a uma fase diferente do processo histórico da imigração magrebina para França (e dos processos de imigração em geral, afinal): a primeira vaga de imigração, o reagrupamento familiar e o surgimento das segundas geração de imigrantes (por muito discutível que seja este termo) nascidas nos países de acolhimento.


Funcionando como um todo, é uma obra de fundo que compõem um quadro bastante completo do fenómeno em causa, permitindo um enquadramento histórico bastante completo, dedicando-se a aspectos da emigração que muitas vezes ficam esquecidos, (o papel da mulher na emigração, por exemplo, raramente é alvo da atenção devida), acabando no entanto por denotar um pouco os anos que já passaram desde a sua conclusão (trata-se de uma obra de 1999) no último episódio dedicado às segundas gerações, embora seja refrescante ver o tema analisado sem o ruído do 11 de Setembro por detrás (hoje em dia é impossível, por muito injusto que seja, deparar-se com um documento sobre as segundas gerações muçulmanas na Europa sem que a questão do fundamentalismo islâmico venha à baila) e acabe por funcionar como um interessante retrato de grupo de um tempo que (apesar de recente) já não existe.


Ainda assim um documentário, no seu todo, importante e actual, tendo em conta os dias que vivemos.


Depois veio "Before the Flood" de Yan Yu e Li Yifan. Épico é a primeira palavra que vem à cabeça para falar deste documentário, que acompanha o processo de desalojamento da cidade chinesa de Fengjie, uma das cidades submersas pela monumental barragem das Três Gargantas (monumental é outra definição que também fica bem a este filme). Utilizando um registo próximo do usual na 6ª Geração chinesa (perante este filme é impossível não nos vir à memória "Tiexi District" de Wang Bing, mas também não será descabido falar, por exemplo, de um Jia Zhang-Ke) utilização de câmara digital, planos longos que deixam a acção correr, completa ausência de voz off, este documentário consegue transportar-nos literalmente para aquela espaço. E permite-nos, acima de tudo, acompanhar (viver?) um processo de uma dimensão absolutamente esmagadora para a nossa realidade, fora de quaisquer parâmetros que possam ser por nós estabelecidos ou mesmo conceptualizados (basta recordar o processo de realojamento da Aldeia da Luz, que foi de facto um empreendimento grande, e comparar com o que nos é mostrado neste documentário para chegar à conclusão... que não é sequer comparável).


Majestoso (e com esta vão três definições, qualquer uma delas perfeitamente adaptável ao documentário em causa).


Entretanto, e porque o mundo não ficou parado, as novidades continuavam a chegar. O presidente lá acabou por sair, mas deixou um substituto no seu lugar (resultado talvez das suas origens nobres, por estes lados prefere-se a sucessão mais ou menos dinástica à eleição popular, e tendo em conta a escolhas feitas das últimas vezes que foram dadas opções de escolha, não me parece um processo nada mau, bem pelo contrário), do treinador novo é que não havia notícia (bem, haviam capas de jornais mas essas eram tão más que o melhor era nem sequer olhar).


Mas voltando de novo ao documental, foi a vez de uma sessão dupla, que agrupou duas obras de estreia. "Urgences, les Nuits des Villes" de Pierre Maillis-Laval e "Documento Boxe" de Miguel Vasconcelos, o primeiro acompanhando equipas de emergência médica nas noites de uma cidade francesa, o segundo debruçando-se sobre o mundo do boxe profissional português.


São primeiras obras, e isso nota-se num ou noutro pormenor, mas qualquer um deles aguenta-se bastante bem. Talvez porque seja uma realidade que já vimos tantas vezes ficcionada, a acção das urgências hospitalares retratada em "Urgences..." fica a saber a pouco e acaba por cansar a partir de uma certa altura. Quanto a "Documento Boxe" tem como base um conjunto de personagens que o sustenta bem e lhe permite manter um ritmo contínuo do princípio ao fim.


Poder-se-á dizer que, neste caso, o documentarismo português bateu por pontos (mas não por KO) o francês.


Seguiu-se outro momento alto do Doc. "Avenge But One of My Eyes" de Avi Mograbi.


Documentário israelita, centrado no conflito israelo-palestiniano, apresenta-o numa perspectiva extremamente original, contrapondo alguns dos mitos da luta judaica pela liberdade com a resistência palestiniana de hoje. Abertamente parcial (Mograbi é claramente contra a ocupação dos territórios palestinianos por Israel), Mograbi joga, através de um habilidoso jogo de montagem, com os discursos israelitas de glorificação desses mitos do judaísmo, cruzando-os com momentos do dia-a-dia da ocupação israelita, e consegue criar nos espectadores (quase apetece falar numa manipulação semiótica desse discurso, mas não sei até ponto isto não será um termo inventado por mim neste preciso momento, confesso que os meus conhecimentos na matéria são pouco mais que nulos) uma segunda leitura desse discurso (é impossível estar a ouvir os alunos israelitas, numa sala de aula e sob aprovação da sua professora, a glorificar o martírio de Sansão, que sacrificou a sua vida para matar os inimigos do seu povo, e não o associar automaticamente à acção dos bombistas-suicidas palestinianos).


O cinema documental pode abrir horizontes, mostrar-nos algo que nunca vimos, outros lugares, outras culturas, outras realidades. Mas também pode dar origem a novas visões sobre aquilo que já conhecemos. E este documentário consegue fazer isso.


Novos horizontes era também o que se pedia fora da Culturgest, mas a verdade é que insistiam em não surgir. Continuava a espera, então.




por Sérgio


 



realizado por Rita às 11:08
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Quarta-feira, 26 de Outubro de 2005
El Séptimo Día ****

Realização: Carlos Saura. Elenco: Juan Diego, José Luis Gómez, José Garcia, Victoria Abril, Yohana Cobo, Eulalia Ramón, Ramon Fontserè, Carlos Hipólito, Oriol Vila, Ana Wagener, Juan Sanz, Elia Galera, Carlos Caniowski, Antonio de la Torre, Joaquín Notario. Nacionalidade: Espanha, 2004.





Numa pequena aldeia do interior de Espanha, duas famílias, os Jiménez e os Fuentes, arrastam uma história violenta, de disputa por terras, ciúmes, inveja, e sangue, muito sangue. O que começou nos anos 60 como uma história de amor, entre Amadeo Jiménez y Luciana Fuentes (Victoria Abril), transformou-se, até aos anos 90, num escalar de rancores e vingança.


Amadeo largou Luciana, quando esta tinha já o enxoval preparado para o casamento. O coração partido e o orgulho conduziram à morte de Amadeo às mãos de Jerónimo Fuentes (Ramon Fontserè). Em resposta, a casa dos Fuentes foi incendiada, supostamente, mas sem provas, pelo irmão de Amadeo, José Jiménez (José Garcia, “Le Couperet”). Com Jerónimo preso, a família Fuentes foi obrigada a afastar-se da aldeia, indo viver para fora dos seus limites. Mas a promessa de regressar foi selada.


Esta história é narrada por Isabel Jiménez (Yohana Cobo), filha de José, que, aos 15 anos, decidida a descobrir a semente do ódio que quase a tornou órfã, começa a desenterrar a rivalidade e o rancor que ameaça o futuro da sua família.


Apesar de relacionado com um mundo consideravelmente diferente daquele em que a maioria de nós julga viver, esta lógica de honra familiar não é assim tão estranha. Veja-se o exemplo das máfias e da cultura de gangs que proliferam nas urbes desenvolvidas. Numa aldeia pequena, onde toda a gente sabe a vida de todos, e onde os segredos raramente conseguem ser guardados durante muito tempo, qualquer vergonha rapidamente se torna pública, afectando toda uma vida e toda uma família, geração após geração.


Ray Loriga constrói um argumento sóbrio, que evolui num crescendo de tensão, e onde cada momento feliz é já impregnado da tragédia iminente. As personagens são elaboradas com grande detalhe, sem que a história se fixe necessariamente nelas, mas sobretudo através da forma como se relacionam entre si e do que se lê, muitas vezes no meio de silêncios perturbadores, em representações de grande qualidade.


Como fotógrafo, Carlos Saura torna a paisagem uma parte integrante do filme, um elemento de grande relevância na definição do estado de espírito dos habitantes e do seu isolamento. Mas o grande trunfo de Saura é ter tido sob as suas (boas) ordens um elenco de uma força incrível. Começando na dupla Juan Diego (Antonio) e José Luis Gómez (Emílio); o primeiro, o cérebro vingativo, o segundo, duvidando, mas sem conseguir pensar claramente, do absurdo que lhe ditam os irmãos; e um especial destaque para Victoria Abril (Luciana), a verdadeira instigadora dos crimes, parada no tempo, agarrada ao seu eterno vestido de noiva, símbolo do amor como génese do ódio, do medo como origem da violência.


“El Séptimo Día”, o tal em que Deus descansa, já seria perturbante de per si. Mas o verdadeiro soco no estômago é sabermos que se baseia de perto num acontecimento real, ocorrido em Puerto Urraco, uma aldeia de 120 habitantes na Extremadura espanhola, a 26 de Agosto de 1990. Os verdadeiros protagonistas foram os Izquierdo (Fuentes) e os Cabanillas (Jiménez). A decisão judicial apontou como causa uma luta por terras que desde sempre tinham sido disputadas pelas duas famílias.


Não é assim que começam todas as guerras?





CITAÇÕES:


“Dicen que Dios creo el mundo en 6 días. Por eso muchas cosas terribles pasan el domingo. Mientras Dios duerme.”





realizado por Rita às 00:01
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Segunda-feira, 24 de Outubro de 2005
DOCLISBOA 2005 - 1ª parte: O PERÍODO PESEIRO

A Perca do Nilo, um peixe de grandes dimensões (e com muita carne) que se pode encontrar no Lago Vitória, é a maior exportação da Tanzânia para a União Europeia. Todo o negócio à volta dela, na pesca, na indústria transformadora, na sua exportação, criou milhares de postos de trabalho, um verdadeiro oásis numa região tão pobre do mundo como é a região dos Grandes Lagos, na África Oriental.


A Perca do Nilo, que é um peixe carnívoro, até meados dos anos 60 não existia no Lago Vitória. Foi lá colocada pelo homem, no âmbito de uma "experiência cientifica" desenvolvida por um qualquer colono da altura. Desenvolveu-se muito bem naquele ambiente, alimentando-se das outras centenas de espécies de peixes que habitavam o lago e que hoje se encontram extintas. Espécies que não tinham o mesmo potencial económico mas que alimentavam a população local e eram vitais para a manutenção do equilíbrio ecológico do Lago, que neste momento está a morrer.


Das Percas do Nilo pescadas no Lago Vitória só as cabeças e as espinhas são consumidas pelas populações locais. Tudo o resto é exportado para o 1º Mundo (Todos os dias 2 milhões de brancos comem uma perca pescada no Lago Vitória. Eu hoje ao almoço comi perca grelhada.). O peixe pescado no Lago Vitoria tornou-se um bem demasiado caro para aqueles que o pescam.


O documentário "Darwin's Nightmare" de Hubert Sauper é sobre isto tudo. Sobre as teias que esta indústria tece, sobre as suas relações com a comunidade que a acolhe, sobre as pessoas que dela vivem, dos pescadores aos donos das indústrias transformadoras, dos pilotos que vêm da Europa para buscar o peixe às prostituas que os entretêm enquanto lá estão à espera.


Tenta também ser um documentário sobre África e os problemas que o afligem, a miséria, a fome, a SIDA, a guerra e o tráfico de armas. Mas é, acima de tudo, um documentário sobre a complexidade da globalização, que, tal como a Perca do Nilo, ao mesmo tempo origina riqueza para uma região e lhe destrói a sua fonte de riqueza, cria emprego para as populações locais e interdita-lhes o acesso ao alimento que o Lago desde sempre lhes proporcionou.


É uma obra bem conseguida, principalmente na forma como vai expondo todas estas realidades contraditórias sem nunca impor, pelo menos de uma forma ostensiva ou panfletária, uma qualquer mensagem predeterminada, mostrando as realidades que filma com a complexidade que de facto têm, não reduzindo tudo a uma simples denúncia dos malefícios da globalização.


Mas o DocLisboa já havia começado antes, com "Rize" de David LaChapelle, documentário sobre um novo estilo de dança, o "krumping" (e o seu antecessor o "clowning"), surgidos nos ghettos de LA e que se apresentam, mais do que como uma simples dança, como um novo movimento de cultura urbana, que é inclusive utilizado como uma arma contra a cultura dos gangs (como diz a mãe de um praticante "Prefiro que o meu filho seja um clown do que membro de um gang").


Excelente enquanto documento de um movimento ainda em fase de criação ("Se estás um dia sem praticar ficas completamente fora, quando voltas os passos já são outros" diz alguém durante o documentário), não tão bom quando daí sai e tenta um retrato mais abrangente da comunidade urbana onde este movimento se desenvolve.

Depois seguiu-se "Liberia: an Uncivil War" de Jonhathan Stack. Projecto basicamente jornalístico, segue os acontecimentos da última guerra civil na Libéria, em 2003, e mais concretamente a tentativa das tropas rebeldes em invadir a capital, Monrovia, cruzando as imagens dessa batalha (e dos momentos que a antecedem) com uma análise da evolução histórica do país e da sua relação com os Estados Unidos. O seu particular interesse surge do facto deste documentário ser co-realizado por outro jornalista, que estava nesse mesmo período a acompanhar (e a filmar) o avanço das tropas rebeldes, permitindo assim a visão do outro lado, visão que se torna especialmente relevante pois, durante o conflito, (e como normalmente acontece em conflitos deste género), as únicas imagens que saíram para o exterior vieram de jornalistas que cobriam o conflito a partir da capital.


Uma grande reportagem sobre um conflito que ocupou os media internacionais há 2 anos atrás e que entretanto caiu no esquecimento e com o extra de permitir espreitar para o interior de um movimento de guerrilha em acção.


O primeiro dia acabou com "Massaker" de M. Borgmann, L. Slim e H. Theissen, documento fortíssimo sobre o massacre ocorrido nos campos de refugiados (palestinianos) de Sabra e Chatila, perpetrado pelas milícias cristãs (com apoio do exército israelita), durante a guerra civil do Líbano.


Assente exclusivamente sobre as declarações dos próprios executantes do massacre, este documentário não mostra nada dos acontecimentos propriamente ditos (não existem imagens de arquivo, só são mostradas algumas fotos pelo próprios depoentes, apresentadas por eles no decorrer da sua narrativa), o que de facto vemos durante todo o filme são os corpos dos depoentes, (os rostos ficam sempre na sombra), enquanto narram os acontecimentos. E o que fica deste documentário é precisamente isso, a narração de um massacre. Num tom informal, contam como se preparam para a matança, como a planearam, como mataram (um deles conta como em vez de disparar sobre as suas vítimas, esfaqueava-as, porque com um tiro só se morre uma vez, com uma faca morre-se duas, três, quatro vezes). E mais do que os horrores descritos, o que assusta principalmente é a banalidade como o massacre é descrito pelo seus executantes.


Um documentário impressionante, por isto tudo mas também pela forma como é construído, de como consegue criar um efeito de choque no espectador sem recorrer a imagens, utilizando a banda sonora, a iluminação, os cenários (quartos vazios, escuros, decrépitos, especialmente preparados para as filmagens) como suporte da narração e através deles criando um ambiente verdadeiramente opressivo. Se não deixa de ser verdade que "uma imagem vale 1000 palavras", a verdade é que o que este documentário consegue mostrar vai muito além do que qualquer imagem do massacre conseguiria.


Abordagem completamente diferente tem "Srebrenica: A Cry From the Grave" de Leslie Woodhead. Debruçando-se sobre outro massacre perpetrado sobre uma população civil, neste caso pelas tropas bósnias-sérvias sobre a população muçulmana na cidade de Srebrenica em 1995, este documentário assenta nas imagens do massacre captadas por diferentes fontes (como é dito no documentário: "Srebrenica foi um massacre gravado em Camcorder"), permitindo fazer quase um acompanhamento da evolução do massacre minuto a minuto. Assente num estrutura jornalística, impõe-se de facto pela força das imagens. Igualmente impressionante.


Seguiu-se "The Shape of the Moon" de Leonard Helmrich, documentário que acompanha a vida de uma família indonésia dos bairros de lata de Jakarta e a mudança da sua matriarca para a sua aldeia natal, mostrando-nos uma série de episódios vividos pelos seus membros, com especial destaque para a mãe e o filho mais novo (imaginem um daqueles pintas dos Anjos, mas indonésio). O forte deste documentário é precisamente as suas personagens, mas o filme nunca consegue fazer ultrapassar a sensação de que nos está unicamente a mostrar uma série de situações e personagens exóticas. Ainda assim interessante e bastante divertido.


Depois, bem, depois vieram mais 90 minutos de miséria, um golo sofrido, nenhum marcado, assobios e lenços brancos e o que se adivinhava (e veio a confirmar-se) ser o opus final de um homem que até era boa pessoa mas não dava conta do recado.




por Sérgio


 



realizado por Rita às 18:32
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Crónicas ****

Realização: Sebastián Cordero. Elenco: John Leguizamo, Leonor Watling, Damián Alcázar, José María Yazpik, Camilo Luzuriaga, Gloria Leiton, Luiggi Pulla, Henry Layana, Hugo Idrovo, Tamara Navas, Alfred Molina. Nacionalidade: México / Equador, 2004.





Numa lamacenta aldeia do Equador, uma turba rodeia um homem que acabou de atropelar acidentalmente uma criança. O pai da criança quer vingança. O homem é brutalmente agredido e encharcado em gasolina. Uma equipa de televisão, que se encontrava no local a filmar o enterro das vítimas de um violador de crianças e assassino em série, filma o acontecimento sem intervir, partilhando da loucura da multidão que quer ver sangue. Alguém acende um fósforo.


Este é o impressionante início de um impressionante filme. Um filme que fala da vítima, mas também dos que ficam a olhar sem nada fazer.


A vítima é Vinício Cepeda (Damián Alcázar), um vendedor ambulante de bíblias; e à frente da equipa de filmagem está Manolo Bonilla (John Leguizamo), um ambicioso repórter televisivo que trabalha para o programa “Uma Hora com a Verdade”, numa estação televisiva de Miami, e que persegue os crimes do “Monstro da Babahoyo”.


Vinício é preso por homicídio involuntário, e recorre a Manolo para, através de uma entrevista no seu programa, conseguir a compaixão das autoridades e a liberdade. Como moeda de troca, oferece a Manolo, informações sobre o “Monstro”. Arrogantemente, Manolo julga poder desmascarar esta situação sem recorrer à polícia (que se limitaria a espancar Vinício para uma confissão). Mas, sem se dar conta, e pensando que está a ir atrás da verdade, está apenas a deixar-se levar pelo seu ego.


Parte thriller e parte análise da ética jornalística, o segundo filme de Sebastián Cordero, foca-se numa ética mais global: o que faz do Homem herói ou monstro. No jogo psicológico que se estabelece entre Manolo e Vinício, onde o jornalista se abstém de qualquer julgamento moral, Cordero empurra-nos com agilidade entre a culpa e inocência de Vinício.


O carácter de Manolo, numa interpretação arreigada de Leguizamo, sintetiza-se na sua resposta quando lhe perguntam de alguma vez traiu a sua mulher: “Sim, mas não foi por isso que nos separámos.” Ele não assume a responsabilidade pelos seus erros, da mesma forma que não considera as consequências sobre os outros das suas acções.


Marisa Iturralde (Leonor Watling – “ Mi Vida Sin Mí”, “La Mala Educación”), a produtora do programa de Manolo, é o mais próximo que este filme chega de uma consciência. A subtil mudança de comportamento de Manolo em relação a ela – de colega para praticamente uma simples assistente – reflecte também o recalcamento dessa voz moral que parece gritar de todos os lados.


Para que uma personagem seja real, perturbante e assustadora, temos que nos identificar com ela. Cordero, de cuja equipa de produtores fazem parte Alfonso Cuarón (“Y Tu Mamá También”, 2001) e Guillermo del Toro (“El Espinazo del Diablo”, 2001), faz isso através de um argumento inteligente e consistente. Pelo seu lado, a fantástica interpretação do mexicano Damián Alcázar (“Héctor”de Gracia Querejeta, 2004), versátil e convincente, entre a compaixão e o frio calculismo, provoca uma verdadeira sensação de incómodo.

A perda de um filho é um corromper da lógica natural dos acontecimentos, significa perder o futuro. De certa maneira, “Crónicas” lida com várias formas de contra a própria natureza. A lama está entre a terra e água, como os Homens estão entre o bem e o mal, entre a generosidade e o egoísmo. Por isso a última imagem nos deixa o eco de um agudo arrepio.






CITAÇÕES:


“Un hombre solo discubre sítios que la otra gente no discubre.”
DAMIÁN ALCÁZAR (Vinicio Cepeda)





realizado por Rita às 00:26
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Sexta-feira, 21 de Outubro de 2005
Arsène Lupin ***

Realização: Jean-Paul Salomé. Elenco: Romain Duris, Kristin Scott Thomas, Pascal Greggory, Eva Green, Robin Renucci, Patrick Toomey, Mathieu Carrière, Philippe Magnan, Philippe Lemaire, Aurélien Wiik, Marie Bunel, Françoise Lépine. Nacionalidade: França / Itália / Espanha / Reino Unido, 2005.





Inspirado no livro “La Comtesse de Cagliostro”, escrito em 1924 por Maurice Leblanc, Jean-Paul Salomé assumiu um claro risco ao pegar numa personagem emblemática da literatura francesa. Felizmente, não cresci com a figura aventureira de Arsène Lupin, o que me permitiu não ter ideias feitas quando vi este filme e, muito possivelmente, foi isso que me fez divertir tanto.


No final do século XIX, Arsène Lupin, ainda um jovem rapaz, perde o pai (Aurélien Wiik), que admira grandemente, quando este é assassinado numa fuga à polícia. Seguindo a tradição familiar, Arsène Lupin (Roman Duris, “De Tanto Bater o Meu Coração Parou”, “Les Poupées Rousses”) torna-se um ladrão hábil entre a aristocracia, fazendo uso de mecanismos para desviar a atenção dos visados e com o compromisso moral de nunca matar ninguém.


A vida de Arsène muda quando se cruza com Joséphine, a Condessa de Cagliostro (Kristin Scott Thomas), uma mulher misteriosa e enfeitiçante, que o inclui nos seus altos voos: roubar o tesouro perdido dos reis de França, também cobiçado por uma confraria monárquica, através de um jogo de pistas deixadas em crucifixos de diversas abadias francesas.


O amor pela bela mas manipuladora e perigosa condessa (maldição de tanta elegância e beleza) irá conduzi-lo às mais diversas aventuras e peripécias. Talvez os estímulos sejam excessivos, camuflando uma narrativa com menor consistência, mas a fotografia, os cenários e o guarda-roupa são tão luxuosos que é fácil perdermo-nos no simples prazer da contemplação.


Duris é camaleónico, de uma sedutora frescura, charmoso, irónico, insolente, elegante e com uns certos laivos edipianos. Pascal Greggory no papel de Beaumagnan, um rival de Lupin que ambiciona não só o tesouro, mas também a condessa, está genial e é pena não lhe ser dado mais tempo de ecrã. O mesmo vale para Eva Green (“The Dreamers”, 2003, de Bernardo Bertolucci) como Clarisse de Dreux-Soubise, a prima de Lupin.


Jean-Paul Salomé faz um bom trabalho de contextualização da personagem de Arsène Lupin, permitindo-nos compreender as suas motivações. É pena que o perca muitas vezes, pelo meio da história.


De todos modos, a fluidez dos ingredientes de romance, suspense, traição, luta por poder e sedução, permite um divertimento sem consequências de maior.


No final, com o despojar das máscaras, fica a sugestão, apetecível, de que o herói de um novo filme tenha surgido. É esperar para ver.






CITAÇÕES:


“Détourner l’attention, voilà la clef. Si tu t’en rappelles, personnes ne t’arrêtera jamais.”
AURÉLIEN WIIK (Jean Lupin)





realizado por Rita às 01:09
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Quinta-feira, 20 de Outubro de 2005
Anthony Zimmer **

Realização: Jérôme Salle. Elenco: Yvan Attal, Sophie Marceau, Sami Frey, Daniel Olbrychski, Gilles Lellouche, Samir Guesmi, Dimitri Rataud. Nacionalidade: França, 2005.





Anthony Zimmer é um traficante de droga especializado em branquear dinheiro e procurado em todo o mundo. Até hoje, escapou sempre da polícia, sobretudo porque ninguém sabe como ele é. Mas Akerman (Sami Frey), um polícia alfandegário, sabe qual é o seu calcanhar de Aquiles – Chiara (Sophie Marceau). Através dela conseguirão, mais dia menos dia, chegar até Zimmer.


Chiara tem um encontro marcado com Zimmer, mas, apercebendo-se de que ela está a ser seguida, Zimmer falta ao encontro e dá instruções a Chiara para que ela seduza um desconhecido, que deverá ser confundido por ele aos olhos da polícia. François Taillandier (Yvan Attal), um tradutor recentemente deixado pela mulher e com duas semanas de férias, é o elegido. Entre a máfia russa e a polícia alfandegária, François terá com que se entreter.


Com um sabor de Hollywood em francês, mas longe da categoria de um “Rivières Pourpres” ou um “Empire des Loups”, a primeira longa-metragem de Jérôme Salle tem o sabor desconsolador de uma tentativa frustrada.


Salle faz uso dos clichés e códigos do thriller, mas falta-lhe a subtileza necessária para manter o espectador na ignorância, e com interesse, até ao momento da verdade. A tensão alimenta-se da dinâmica da caça, ainda que percamos rapidamente o interesse sobre quem manipula quem. Apesar do bom ritmo geral do filme, o final surge tarde, porque esperado, sem surpresa de maior e embrulhado num papel não totalmente verosímil. Por sua vez, o uso dos cenários parece forçado, explorando a sua beleza em vez de os usar em benefício da narrativa.


Quanto às interpretações, Sophie Marceau é a mulher fatal por excelência, com destaque para a bela visão inicial dos seus tornozelos; Yvan Attal é um convincente homem apaixonado, incrédulo e revoltado; e Sami Frey é de uma autoridade tenebrosa.


“Anthony Zimmer” tem um visual sofisticado, cheio de charme e estilo. Mas para um filme sobre engano e traição era de esperar que o espectador fosse mais bem manipulado.





realizado por Rita às 01:18
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Quarta-feira, 19 de Outubro de 2005
Le Promeneur du Champ de Mars ***

Realização: Robert Guédiguian. Elenco: Michel Bouquet, Jalil Lespert, Philippe Fretun, Anne Cantineau, Sarah Grappin, Catherine Salviat, Jean-Claude Frissung, Philippe Lemercier, Serge Kribus, Béatrice Bruno, Geneviève Casile. Nacionalidade: França, 2005.





“Le Promeneur du Champ de Mars” é um relato ficcionado dos últimos dias de François Mitterrand (1916-1996), Presidente da República de França entre 1981 e 1995. Mitterrand (Michel Bouquet) – ainda que o seu nome não seja referido no filme –, é visto pela perspectiva de Antoine Moreau (Jalil Lespert), um jovem jornalista, convidado – à semelhança de Georges-Marc Benamou, autor do livro “Le Dernier Mitterrand” (1997) e co-argumentista deste filme – para escrever as suas memórias.


A personagem de Antoine, ficcional, mais do que simbolizar o biógrafo de Mitterrand serve de agitador da sua memória e consciência. Ele é o aprendiz, Mitterrand o mestre, de quem ele procura obter as últimas respostas, sobre a política, e sobre a vida. O fascínio de Antoine, por este ser carismático, experiente, hábil, inteligente, erudito, irónico, teimoso e indomável, roça o vampirismo, prejudicando, com efeito, a própria vida pessoal de Antoine.


Mais do que o fim de um mandato, este filme fala do fim de uma vida. Apesar de alguma insistência em esclarecer o papel de Mitterrand no Regime de Vichy em 1942, a política e os factos históricos são aqui largamente ignorados, a favor da evocação do fim de um reinado, de um monarca debilitado que recusa deixar-se dominar pela doença, como ele próprio diz “o último grande homem, na linha dos grandes imperadores da nação”.


Guédiguian quis afastar-se o mais possível dos factos, evitando a reconstituição histórica e quaisquer sensacionalismos em torno da vida sentimental ou familiar de Mitterrand, ou a responsabilidade do antigo chefe de estado no descrédito a que a classe política francesa chegou. Com esta abordagem Guédiguian protege-se de críticas mais ferozes e desenvolve um discurso mais universal. Ou reflecte apenas a dificuldade em questionar a história mais recente.


Michel Bouquet tem aqui provavelmente o grande papel da sua vida. Aliado a uma impressionante parecença física, está o talento do retrato narcisista e solitário, pretensioso e megalómano do último defensor de um estado socialista, que surge como quase profético. Mas também do homem que se extasia perante as imensas matizes do cinzento ou as pernas de Julia Roberts.


Os décors austeros reforçam a sensação de fim, e é esse fim que, por pudor, nos impede de fazer julgamentos. Isso é deixado à história e aos actos.





CITAÇÕES:


“A memória é uma coisa muito íntima.”


“O passado não é o que desaparece, é o que nos pertence.”





realizado por Rita às 00:59
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Terça-feira, 18 de Outubro de 2005
Rois et Reine ***

Realização: Arnaud Desplechin. Elenco: Emmanuelle Devos, Mathieu Amalric, Catherine Deneuve, Maurice Garrel, Nathalie Boutefeu, Jean-Paul Roussillon, Catherine Rouvel, Magalie Woch, Hippolyte Girardot, Valentin Lelong, Olivier Rabourdin, Joachim Salinger, Marie-Françoise Gonzales. Nacionalidade: França, 2004.





A “rainha” do título é Nora (Emmanuelle Devos), uma mulher luminosa, prestes a casar com Jean-Jacques (Olivier Rabourdin), e que vê o seu momento de felicidade adiado pela doença terminal do seu pai (Maurice Garrel), um severo professor de letras. E também um dos “reis”, juntamente com Elias (Valentin Lelong), o filho de Nora.


Do outro lado do espelho está Ismael (Mathieu Amalric, numa fabulosa interpretação), um homem desequilibrado, com tendências suicidas, que gosta de andar com uma capa de D’Artagnan no meio da rua, actualmente perseguido pelo fisco e mandado internar pela sua irmã num hospital psiquiátrico.


“Rois et Reine” conta a história de duas figuras em sofrimento, uma dramática, outra cómica. Diante do pai agonizante, Nora deixa-se fechar na dor e na solidão, tornando-se cada vez mais sombria. As certezas de Nora, quando confrontadas com os sentimentos que não consegue expressar, transformam-se em dúvidas. Com Ismael, o processo é inverso, ele vai descobrindo, ao ser confrontado com os sentimentos dos outros, as suas próprias certezas. Num caso e noutro, fala-se de crescimento.


Alternando entre os dois registos, Desplechin permite-nos ir mantendo o equilíbrio entre estes dois pólos, sem desvalorizar qualquer um deles. Em ambos abordam-se obsessões, sonhos e pesadelos, com humor e com dor. Egoísta e generosa, dura e sofredora, Devos move-se nestes extremos; o espectador, entre a compaixão e o incómodo. Amalric é tocante, de uma sinceridade desarmante.


A ligação afectiva familiar, como contraponto à ligação afectiva com amigos e amantes, materializa-se na relação de Nora com o filho, para quem procura uma figura masculina que substitua o avô; e na relação com pai, entre a adoração e o ódio, e que será posta à prova, de uma forma brutal, com a morte deste.


Desplechin constrói habilmente um filme, onde duas horas e meia se passam sem que se note, e onde nos guia como e onde quer, confrontando a identidade de cada um com a memória, falível, do outro.


A vontade de viver nem sempre é clara, mas a reconciliação com a vida é possível. Especialmente se dermos espaço a que o extraordinário e majestoso faça parte das nossas vidas.






CITAÇÕES:


“Amar é não ter de pedir.”
EMMANUELLE DEVOS (Nora Cotterelle)


“Você é mulher, as mulheres não têm alma.”
MATHIEU AMALRIC (Ismaël Vuillard)


“On ne sait pas ce qu’est l’eau si on n’a pas connu la soif. L’amour est un mémorial.”
EMMANUELLE DEVOS (Nora Cotterelle)


“Je me suis inspiré des cinq vers d'une poésie de Michel Leiris:
        «Rois sans arroi,
        Reine sans arène,
        Tour trouée,
        Fou à lier,
        Cavalier seul.»”
ARNAUD DESPLECHIN





realizado por Rita às 23:23
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Segunda-feira, 17 de Outubro de 2005
Caché ****

Realização: Michael Haneke. Elenco: Juliette Binoche, Daniel Auteuil, Maurice Bénichou, Annie Girardot, Lester Makedonsky, Bernard Le Coq, Walid Afkir, Daniel Duval, Nathalie Richard. Nacionalidade: França / Áustria / Alemanha / Itália, 2005.





“Caché”, o mais recente filme de Michael Kaneke (“Le Temps du Loup”, 2003), é um thriller psicológico sobre a culpa e o esquecimento.


Georges (Daniel Auteuil), jornalista literário na televisão, e a mulher Anne (Juliette Binoche), que trabalha numa editora, vivem uma vida harmoniosa numa bela casa parisiense, com o filho Pierrot (Lester Makedonsky), que, entre a escola e a natação, se encontra em plena crise de adolescência.


A vida tranquila desta família é abalada quando começam a receber, anonimamente e sem mais explicações, cassetes de vídeo mostrando a sua casa filmada do outro lado da rua. A ideia de que os seus movimentos estejam a ser espiados começa a germinar numa pesada ameaça, que, por não ser explícita, impede o avanço da polícia. O cunho pessoal destas cassetes vai aumentando, dando a entender que quem as envia conhece pormenores da infância de Georges. Chegam também desenhos inquietantes e enigmáticos, e telefonemas sem voz. O reencontro com Majid (Maurice Bénichou), um argelino com quem Georges partilhou alguns anos da sua infância, parece lançar alguma luz sobre o enigma.


Georges não se deixa sucumbir à crise de nervos, e apesar de inquieto, continua a comportar-se conforme o seu estatuto, recusando os confrontos, quer com Majid, quer com o próprio filho. A fuga parece ser o seu escape de consciência. Mas, com o crescendo da ameaça, mais sentida que explícita, a desconfiança, gerada por segredos e mentiras, acaba por se instalar no casal, evidenciando a ilusão da sua cumplicidade. A paranóia de Georges acaba por se manifestar, alicerçada num profundo sentimento de culpa, que ele recusa insistentemente.


Mais do que contar uma história, Haneke explora a tensão das angústias, das feridas e dos venenos de um homem que é um país, uma sociedade. Haneke evoca Outubro de 1961 e a morte dos pais de Majid no massacre dos argelinos da Frente de Libertação Nacional (FLN) em Paris. O remorso de Georges é o da História ocidental, a culpa e o esquecimento são os de uma nação relativamente ao seu próprio passado. Georges toma dois comprimidos para dormir e esconde-se debaixo dos lençóis, símbolo do comportamento de uma sociedade que acalma algumas culpas com esmolas, mas que se esquece de viver os valores essenciais no seu dia-a-dia.


Os longos planos fixos, que confundem o espectador entre as filmagens de vídeo e a narrativa do filme, entre a “realidade” e a “ilusão”, traduzem a ambiguidade vivida pelas personagens. Haneke fala também do poder das imagens, nas suas diversas formas de representar a realidade, e das interpretações que fazemos e que não são mais do que um reflexo de nós mesmos.


Haneke compõem e manipula todos estes elementos com grande mestria, dissecando esta espiral de uma forma fria, opressiva, incomodativa, provocadora e perturbante. E assim se justifica o prémio de Melhor Realizador na edição deste ano em Cannes.


As respostas às perguntas colocadas por Haneke são de cada um, mas para quem seja mais distraído, que os há, aconselho a que esteja atento à cena final à saída da escola.





CITAÇÕES:


“Presque tous mes films traitent de la nature de la vérité au cinéma. Je doute qu'on puisse avoir une idée de la vérité quand on regarde un film. Je dis toujours qu'un long métrage, c'est vingt-quatre fois par seconde le mensonge, peut-être au service d'une vérité mais pas toujours. Je pense que le traitement de la vidéo ici déstabilise la confiance du spectateur envers la réalité. Dans Caché, on croit que le plan d'ouverture est la réalité alors qu'en fait c'est une image volée avec une caméra vidéo. Naturellement, je me méfie de cette prétendue réalité dans les médias.”
MICHAEL HANEKE





realizado por Rita às 22:36
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Domingo, 16 de Outubro de 2005
Vipère au Poing ****

Realização: Philippe de Broca. Elenco: Catherine Frot, Jacques Villeret, Jules Sitruk, Cherie Lunghi, Hannah Taylor-Gordon, Richard Bremmer, Sabine Haudepin, William Touil, Wojciech Pszoniak, Pierre Stévenin, Annick Alane. Nacionalidade: França / Reino Unido, 2004.





Primeiro volume de uma trilogia autobiográfica da autoria de Hervé Bazin, “Vipère au Poing” (De Víbora na Mão) conta a história da infância de Jean Rezeau no seio da sua família burguesa. Em 1922, depois da morte da sua avó paterna, Jean (Jules Sitruk), de 10 anos, e o seu irmão mais velho Freddy (William Touil), reencontram os pais, regressados da Indochina com um novo irmão, Marcel (Pierre Stévenin). Paule Rezeau (Catherine Frot), rapidamente apelidada pelos filhos de “Folcoche” (contracção de “folle” – louca – e “cochonne” – porca), é uma autêntica megera, o protótipo da rainha má dos contos infantis, fazendo uso de todas as armas ao seu dispor para tornar a vida dos filhos um autêntico inferno.


Autoritária, sádica, calma, calculista, de uma impressionante frieza e com um ódio natural, um papel em que Catherine Frot se excede a si mesma (depois da sua doçura em “Les Soeurs Fâchées” é um prazer vê-la fazer de má), Paule trava um autêntico combate com Jean (depois de “Monsieur Batignole”, Sitruk mostra mais uma vez as suas potencialidades).


Jacques Villeret está também genial no papel do marido submisso e apagado, absorvido pelo estudo das moscas, com um olhar que pode ir da triste resignação à alegria recalcada. As emoções dramáticas de “Vipère au Poing” são ainda ampliadas pela música de Brian Lock.


Philippe de Broca, que admite ter usado um tom menos ácido que o do livro, faz um inteligente uso da ironia para descrever o universo terrível em que se movem estas personagens. Entre o riso e o choque, entre o fascinante e o horripilante, o espírito de vingança invade cada canto daquela casa.


Um pequena visita à infância de Paule permite compreendê-la melhor, mas não desculpá-la. Aliás, o tom de redenção é quase inexistente. No entanto, paira no ar um certo optimismo, talvez relacionado com o facto de todo este passado ter estado na base do processo criativo de Hervé Bazin. No final, fica um certo sabor a Dickens.






CITAÇÕES:


“La vie est court, trés court. Surtout a la fin.”
ANNICK ALANE (Avó Rézeau)





realizado por Rita às 17:55
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Sábado, 15 de Outubro de 2005
Les Revenants **

Realização: Robin Campillo. Elenco: Géraldine Pailhas, Jonathan Zaccaï, Frédéric Pierrot, Victor Garrivier, Catherine Samie, Djemel Barek, Marie Matheron, Saady Delas. Nacionalidade: França, 2004.





Pessoas que morreram durante os últimos dez anos voltam à vida numa pequena cidade francesa. O presidente da câmara e os seus delegados reúnem-se para fazer face ao súbito excesso de população. Mas a logística talvez seja o menor problema que terão de enfrentar.


A primeira meia hora do filme ilustra a angústia imediata de um acontecimento que vem alterar não só a vida de várias famílias, mas também a estrutura social de uma cidade que tem, de repente, de absorver no seu mercado de trabalho e no sistema de segurança social um considerável número de pessoas.


São três as histórias que acompanhamos: Rachel (Géraldine Pailhas), Isham (Djemel Barek) e o presidente da câmara (Victor Garrivier) reencontram, respectivamente, o marido Mathieu (Jonathan Zaccaï), a mulher Martha (Catherine Samie) e o filho Sylvain (Saady Delas). No fundo, cada um dos “retornados” simboliza o regresso do que nunca desapareceu, ou seja, a culpa, o arrependimento e os erros dos vivos. Estranhamente, nenhum dos retornos se reveste de uma envolvente de alegria pelo reencontro.


O mérito de Robin Campillo (argumentista de “L’Emplois du Temps” (2001), de Laurent Cantet) é de romper com o estereótipo dos mortos-vivos. Estes não são violentos, apenas ecos do seu próprio passado. Presos de uma afasia generalizada, com dificuldade em se expressar, passeiam como sonâmbulos sem destino no meio da noite. Infelizmente, parece que os vivos padecem do mesmo mal, comportando-se com idêntica lentidão.


Os diálogos são pobres e é a falta de curiosidade dos vivos sobre os outros é inverosímil, ninguém se pergunta como nem porquê. E, num clima de profundo aborrecimento, roçando o morto-vivente, chega um final, que esperaríamos respondesse a algumas questões, mas que é completamente vazio.


A difícil reaproximação entre Rachel e Mathieu vive de uma interpretação perturbante de Jonathan Zaccaï (“Le Rôle de sa Vie”,“Entre ses Mains”), de quem, em todo o momento, esperamos uma explosão, e de uma irritante neutralidade de Géraldine Pailhas (“L’Adversaire”, “5x2”).


Temas como a reinserção, a memória, a dor da perda, que daria uma abordagem interessante a um filme deste tipo, são apenas aflorados, mas sem grande consequência. O mecanismo de “suspension of disbelief” teria que ser levado a um extremo por parte dos espectadores para poder aceitar as incongruências de um argumento que queria ser mais do que é.


Os estereótipos, pelo menos, funcionam.





realizado por Rita às 12:46
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Sexta-feira, 14 de Outubro de 2005
Entre Ses Mains ***

Realização: Anne Fontaine. Elenco: Benoît Poelvoorde, Isabelle Carré, Jonathan Zaccaï, Valérie Donzelli, Bernard Bloch, Véronique Nordey. Nacionalidade: França / Bélgica, 2005.





Claire (Isabelle Carré) trabalha numa companhia de seguros, onde conhece Laurent (Benoît Poelvoorde), um veterinário que veio fazer a participação de uma inundação no seu consultório. Claire tem uma vida harmoniosa com o marido Fabrice (Jonathan Zaccaï) e com a filha de ambos, mas não consegue controlar o profundo fascínio que Laurent exerce sobre ela, e rapidamente a relação entre os dois assume um carácter mais pessoal.


Laurent desperta em Claire o seu desejo adormecido por uma vida de hábitos, libertando-a. Mas a possibilidade de Laurent ser o serial killer do bisturi que tem aterrorizado a cidade de Lille parece não dissuadir Claire. Antes exerce sobre ela um efeito perigosamente magnético.


Anne Fontaine (“Natalie...”, 2003) disseca esta relação ao pormenor, mostrando-nos as mutações do comportamento de um em relação ao outro, da sua tomada de consciência dos seus próprios sentimentos. De uma forma dolorosa para ambos, assistimos a um jogo de toca e foge e de submissão.


A adaptação do livro “Les Kangourous” de Dominique Barbéris ganha com duas interpretações cheias de sensibilidade e intensidade. Isabelle Carré e Benoît Poelvoorde fazem um óptimo trabalho de composição nesta história de um amor proibido: ele não se permite amá-la, por não saber como fazê-lo; ela por não poder/dever.


Mas o fascínio da bela pelo monstro criará em Claire a ilusão de poder salvá-lo, tornando-o “belo”. E é por isso que ela que se coloca nas mãos dele. A secular competição feminina, na eterna tentativa da mulher provar que é diferente de todas as outras.






CITAÇÕES:


“On connait jamais personne.”
BENOÎT POELVOORDE (Laurent Kessler)





realizado por Rita às 00:42
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Quinta-feira, 13 de Outubro de 2005
Je Préfère Qu'on Reste Amis ***

Realização: Eric Toledano e Olivier Nakache. Elenco: Jean-Paul Rouve, Gérard Depardieu, Annie Girardot, Lionel Abelanski, Isabelle Renauld, Yves Jacques, Élisabeth Vitali, Xavier De Guillebon, Mar Sodupe, Caroline Frank, Cassandra Harrouche, Tilly Mandelbrot. Nacionalidade: França, 2005.





“Prefiro que continuemos amigos” é uma frase dolorosa. A menos que venha de um amigo.


Claude (Jean-Paul Rouve, o carteiro de “Un Long Dimanche de Fiançailles”) é um informático nos seus 30, celibatário, tímido, hipocondríaco, que não sabe dizer não, que ficou esteticamente bloqueado no tempo, que limita o seu lazer a uns jogos de Gin Rummy com colegas de trabalho e que é constantemente confundido com um empregado do supermercado. Serge (Gérard Depardieu) anda nos 50, é divorciado e pai de duas filhas, obcecado por estatísticas e determinado em romper com os tradicionais métodos de conhecer mulheres (entre os casamentos de desconhecidos, as agências matrimoniais e o “speed dating” – em que se tem 7 minutos para saber informações sobre o outro).


O encontro casual destas duas personagens, que apenas têm em comum ambos andarem à procura da alma gémea, dá início a uma história cheia de situações de um humor irresistível, numa sátira às angústias da meia-idade.


Os realizadores Eric Toledano e Olivier Nakache, amigos de longa data, basearam o conflito no choque dos opostos, à volta do qual construíram uma comédia romântica, onde, sem nunca entrar no equívoco sexual, o amor é substituído pela amizade (onde se traça o limite?). Um casal de amigos acaba por funcionar, não estranhamente, de uma forma muito próxima a um casal de amantes, entre os quais pode também existir ciúme e cumplicidade. Felizmente, os realizadores não caíram no cliché de meter uma mulher entre os dois.


Depardieu e Rouve (César para Melhor Esperança Masculina em 2003, por “Monsieur Batignole”) criam duas personagens tocantes e plenas de nuances, através das quais percebemos a diferença entre o que dizem e o que pensam, e com uma evolução credível, por via desta amizade. Um destaque também para Annie Girardot, no papel da mãe de Claude sofrendo de Alzheimer.


Este é um filme leve e sem pretensões, mas característico de uma era que se assume como sendo da comunicação, e onde comunicar, no verdadeiro sentido da palavra, é que menos se faz.


Aos amigos!





realizado por Rita às 01:02
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Quarta-feira, 12 de Outubro de 2005
La Moustache ****

Realização: Emmanuel Carrère. Elenco: Vincent Lindon, Emmanuelle Devos, Mathieu Amalric, Hippolyte Girardot, Cylia Malki, Macha Polikarpova, Fantine Camus. Nacionalidade: França, 2005.





Seguindo uma sugestão da mulher, Agnès (Emmanuelle Devos), Marc (Vincent Lindon) tira o bigode que usa há mais de dez anos. Mas, inacreditavelmente, ninguém repara, nem a mulher, nem os amigos. Marc aceita a brincadeira durante os primeiros momentos, mas depois começa a achar este um fingimento de mau gosto. A sua preocupação toma contornos mais graves quando várias pessoas em quem ele confia, entre as quais Agnès, lhe asseguram que ele nunca usou bigode.


Marc começa aqui uma espiral de verdadeira paranóia que irá abalar por completo a sua bem estruturada vida em termos amorosos, profissionais e mentais. Marc vai-se quebrando pouco a pouco, à medida que outros pormenores da sua vida se vão desfazendo quando confrontados com uma nova realidade. Marc começa a questionar-se sobre tudo, desconfia dos outros, depois da lucidez do seu próprio olhar, ao ponto de já não acreditar em nada do que vê, e confessando que só através dos olhos de Agnès é que consegue ter certezas.


Em redor deste incidente levantam-se questões sobre a indiferença que pode surgir numa vida de rotina entre um casal, ou da falta de confiança. Em nenhum momento Agnès considera deixar Marc, mesmo não acreditando nele. Mas qual deles é que ela ama? Será Marc o mesmo homem com e sem bigode?


Num momento de desespero Marc foge para Hong Kong, onde, anónimo e independente dos olhares de outros, repete incansavelmente percursos e gestos, através dos quais tenta materializar uma realidade. Neste ponto, a linearidade temporal da narrativa é interrompida: esta viagem é um sonho? anterior à crise? existiu sequer?


A percepção do espectador identifica-se com a de Marc, numa impressionante e comovente interpretação de Vincent Lindon, partilhando também da sua vertigem, da sua dolorosa solidão, da angústia de, de repente, toda uma realidade ser posta em causa. Emmanuelle Devos, que partilha com Lindon uma forte cumplicidade, é perturbante, vacilando numa preocupação sincera que pode, a qualquer momento, transformar-se numa manipulação maquiavélica.


O realizador Emmanuel Carrère, autor do livro homónimo que serve de base a este filme e argumentista de “L’Adversaire” (Nicole Garcia, 2002), desloca-se com habilidade sobre a ténue linha que divide realismo e fantástico, realidade e imaginário, numa constante atmosfera de ruptura.


O bigode transforma-se aqui num símbolo de fraqueza, de incompreensão entre um casal, o elemento frágil que separa a vida quotidiana da loucura. O final é inquietante, de digestão e divagação longas.





realizado por Rita às 23:04
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Terça-feira, 11 de Outubro de 2005
Le Rôle de sa Vie ***

Realização: François Favrat. Elenco: Agnès Jaoui, Karin Viard, Jonathan Zaccaï, Marcial Di Fonzo Bo, Claude Crétient, Laurent Lafitte, Denis Sebbah. Nacionalidade: França, 2004.





Numa sala de cinema, Claire Rocher (Karin Viard, “Le Couperet”) comove-se com a prestação da sua actriz preferida, Elisabeth Becker (Agnes Jaoui, “Les Goût des Autres”, “Comme Une Image”). Claire trabalha numa revista, onde conhece Elisabteh um pouco por acaso. A relação entre as duas inicia-se com uma fascínio mútuo: de Claire pelo sucesso e a aura de Elisabeth; de Elisabeth pela humildade e eficiência de Claire. Elisabeth convida Claire para ser sua assistente pessoal e Claire não hesita em aceitar.


Claire tem uma paixão escondida pelo jardineiro paisagista que trabalha na sua empresa, Mathias (Jonathan Zaccaï) e, sem saber, recomendando-o a Elisabeth, dá início ao romance entre eles os dois.


Ao longo do filme vamos entrando em contacto com o mundo de ambas, com as suas forças e as suas fraquezas. Claire procura afirmar-se, enquanto Elisabeth tenta apreciar os prazeres mais básicos da vida, mas com o tempo tornou-se vítima do seu meio. Arrogante e caprichosa na sua pose de diva, Elisabeth começa a representar assim que sai de casa, porque a sua vida é uma papel. Em dado momento, a mãe de Elisabeth chama-lhe Isabel, revelando que até o seu nome faz parte dessa personagem.


Claire, no seu carácter tímido, servil, apologético, sempre preocupada com os outros, acede a ser a presa da personalidade vampiresca de Elisabeth. Mas, a dinâmica entre as duas irá desenvolver-se de uma forma subtil e peculiar, numa gestão periclitante do equilíbrio entre o dar e o receber.


Os três actores principais entram confortavelmente nos seus papéis, com as nuances necessárias para desmontar os estereótipos. No entanto, François Favrat deveria ter arriscado mais na exploração da solidão e a frustração destas duas mulheres.


Nas relações de dependência existem sempre dois culpados, que mantém o círculo vicioso. A definição de sucesso deve vir de dentro de nós, não do exterior. E a serenidade, essa, é bem mais difícil de atingir.





realizado por Rita às 00:30
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Segunda-feira, 10 de Outubro de 2005
Travaux, On Sait Quand Ça Commence... ***

Realização: Brigitte Roüan. Elenco: Carole Bouquet, Jean-Pierre Castaldi, Didier Flamand, Françoise Brion, Aldo Maccione, Marcial Di Fonzo Bo, Alvaro Llanos, Carlos Gasca, Alejandro Piñeros, Lassina Touré, Geovanny Tituaña, Shafik Ahmad, Giulia Dussolier. Nacionalidade: França / Reino Unido, 2004.





Chantal (Carole Bouquet) entrega-se á sua profissão de advogada de imigrantes ilegais com tal paixão que consegue convencer o mais reticente juiz (a eloquência da oratória é aqui originalmente substituída por números artísticos). Na sua vida afectiva, no entanto, não partilha do mesmo tipo de emoções. Uma noite, cede aos avanços de um cliente, Frankie (Jean-Pierre Castaldi), para de seguida o ver transformar-se num apaixonado que a persegue por todo o lado. Para o afastar, Chantal decide fazer obras em casa, contratando, para isso, alguns trabalhadores clandestinos colombianos. É aí que o seu inferno começa.


O título do filme deriva da frase: “Sabemos quando uma obra começa... mas não quando termina.” E é isso que acontece. A vida de Chantal e dos seus dois filhos adolescentes altera-se com o número crescente de empregados que vai aparecendo, simpáticos, cheios de boa vontade, mas consideravelmente incompetentes, e liderados por um arquitecto (Marcial Di Fonzo Bo) cheio de boas intenções e ideias ambiciosas. O caos instala-se, e Chantal vê a sua vida desmoronar-se, tal como as suas paredes. Mas esta coabitação e intimidade forçadas, trará o conhecimento mútuo, o afecto e o respeito. No final, fica a nostalgia.


Brigitte Roüan força Chantal a confrontar-se com as teorias que defende na sala de audiências. Fazendo uso de algum burlesco e de personagens quase caricaturais, Roüan transmite as suas convicções, com humor e sem sermões. A sua consciência social é a coluna dorsal da narrativa. Através de uma aventura surrealista, e com a ajuda da grande veia cómica de Carole Bouquet, esta é a construção de uma nova modernidade, onde a multi-culturalidade tem um lugar importante, nos resultados e nos corações.


Em “Travaux...” levantam-se as paredes da generosidade como valor humano e da preocupação com os outros como regra de conduta. Numa sociedade cada vez mais individualista, não é algo que se possa desprezar.





CITAÇÕES:


“Un immigré, c’est sacré!”


“Si lui dort ici, pourquoi pas moi?!”





realizado por Rita às 02:36
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Domingo, 9 de Outubro de 2005
Les Soeurs Fâchées ***

Realização: Alexandra Leclère. Elenco: Isabelle Huppert, Catherine Frot, François Berléand, Brigitte Catillon, Michel Vuillermoz, Christiane Millet, Rose Thiéry, Bruno Chiche, Jean-Philippe Puymartin. Nacionalidade: França, 2004.





Louise (Catherine Frot) vive em Mans, onde é esteticista. Acaba de chegar a Paris, onde tem uma reunião marcada para segunda-feira com um possível editor para o livro que acabou de escrever. Louise aproveita para passar o fim-de-semana com a sua irmã mais velha, Martine (Isabelle Huppert), com quem tem quase nada em comum. Louise é provinciana, deslumbrada com tudo o que vê na grande cidade, é efusiva, natural, extrovertida, apaixonada, gentil e ingénua. Martine é fria, cruel, execrável e má, na sua vida de burguesa entre o cabeleireiro e um café com a sua única amiga. Louise está a lutar pelo seu sonho, ao passo que Martine nem sequer sabe qual é o seu. Mas estes três dias não a deixarão indiferente.


Nesta primeira realização, Alexandra Leclère escolhe personagens extremas (e diametralmente opostas), mas não se deixa cair na caricatura. Os bons diálogos e uma narrativa consistente vão revelando a verdade das personagens, escondida atrás da imagem que elas dão de si mesmas. Pouco a pouco, a sua personalidade vai-se desenvolvendo, tornando-se mais densa e com novas camadas, mais rica e ambígua.


Com um humor mordaz, especialmente na expressões de exasperação de Martine com a constante felicidade de Louise, “Les Soeurs Fâchées” fala das hipocrisias que servem tantas vezes de base a existências de falsa tranquilidade, vidas baseadas em conformismo. No caso de Martine, a sua maldade não é mais do que uma fuga à fragilidade e uma reacção ao confronto, pela presença da irmã, com um passado doloroso ainda não cicatrizado e o presente vazio em que se tornou a sua vida.


As interpretações de ambas as protagonistas estão perfeitas: Catherine Frot (Trilogia de Lucas Belvaux, 2002) é a generosidade e a bondade sem limites, e Isabelle Huppert (“Le Temps du Loup” – 2003, “I Heart Huckabees” – 2004) está mais uma vez irrepreensível na sua crueldade (a sua expressão habitual de estátua torna um sorriso completamente contra-natura). E, no entanto, a compaixão não nos deixa nunca recorrer à indiferença.





CITAÇÕES:


““– Vous arrivez de province.
– Pourquoi, ça se voit tant que ça?”


“Hereuse? Il y a d’autres choses dans la vie.”
ISABELLE HUPPERT (Martine)





realizado por Rita às 12:03
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Sábado, 8 de Outubro de 2005
C'est Pas Tout à Fait la Vie Dont J'avais Rêvé **

Realização: Michel Piccoli. Elenco: Roger Jendly, Michèle Gleizer, Elizabeth Margoni, Monique Eberle, Nicolas Barbot. Nacionalidade: França, 2005.





Apresentado como uma farsa e como uma fábula, “C'est Pas Tout à Fait la Vie Dont J'avais Rêvé” conta a história de um marido (Roger Jendly) que trai a mulher (Michèle Gleizer) com a amante (Elizabeth Margoni), e com a conivência da governanta (Monique Eberle).


A efusão com que bajula a amante contrasta com o silêncio das partidas de Scrabble que joga com a mulher, a quem rouba a pratas da família e garrafas da adega para seduzir a amante. A sustentabilidade desta situação só é possível graças à preciosa ajuda da governanta, que num minuto serve o jantar à amante e no minuto seguinte já serve o chá à mulher.


A rotina da vida familiar, que terá sido possivelmente uma das causas da amante, acaba, ironicamente, por se reproduzir na vida com esta última, com quem os jogos amorosos se tornam também repetitivos. A novidade não resiste ao passar do tempo e acabará por também ela perder o seu sentido.


Apenas a mulher rompe com este ciclo de comportamentos automatizados, ao descobrir a traição e seguindo o marido para confirmar as suas suspeitas. Mas estão todos de tal maneira metidos nos seus papéis que ninguém se dará conta desta sua descoberta.


O melhor deste filme é o início, extremamente bem construído. Michel Piccoli junta com extremo cuidado as peças que compõem o puzzle deste triângulo amoroso, sem nos dizer logo tudo, mas familiarizando-nos com a sua realidade. Misturando as duas casas, os dois espaços, as duas situações, da mesma forma que eles se interligam entre si e se reproduzem.


Mas Piccoli peca por um ritmo demasiado lento. Mesmo que a sua intenção tenha sido transmitir-nos a rotina do dia-a-dia e os hábitos mecanizados das personagens, não teria sido necessário fazer-nos passar pelo mesmo.


Parte da história é espelhada num espectáculo de fantoches a que o marido acompanha o neto. Este poderia ter sido um recurso útil para nos aproximar das personagens, contando-nos o seu passado e, sobretudo, as suas expectativas, que deveriam ser confrontadas com o presente de uma forma mais crassa. Mas ao invés, como o resto do filme, é uma reprodução daquilo que já sabemos, sem acrescentar nada à narrativa.


A música de Arno, “La Vie C’Est Une Partouze” (A Vida é Uma Orgia), faz mais pelo filme do que metade da sua duração. “C'est Pas Tout à Fait la Vie Dont J'avais Rêvé” teria dado uma bela curta metragem.






CITAÇÕES:


“Quand j’entends ce que j’entends, et je vois ce que je vois, j’ai raison de penser ce que je pense.”
ROGER JENDLY (O marido)



LA VIE C’EST UNE PARTOUZE
(Arno)


Il est tard ce soir
Ma tête dans l’brouillard
Mon goût salé, je sens la bière
Elle, la fraise
Le diable s’occupe de lui
Les anges sont en grève
Allongée, elle s’ennuie
Mais le pire de tout,
Elle est jolie
La vie c’est une partouze
La vie c’est une partouze

J’suis bien, bien avec rien
Mais mieux avec deux
Tout le monde a le droit
Le droit d’être con
J’suis le roi du monde
Je bois, je bois quand je veux
Je paye quand je peux
J’accepte l’hiver, j’aime bien l’été
J’suis le roi du monde
La vie c’est une partouze
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Sexta-feira, 7 de Outubro de 2005
Le Couperet ****

Realização: Costa-Gavras. Elenco: José Garcia, Karin Viard, Geordy Monfils, Christa Theret, Olivier Gourmet, Ulrich Tukur, Yvon Back, Thierry Hancisse, Philippe Bardy, Michel Carcan, Marc Legein, Dieudonné Kabongo Bashila. Nacionalidade: Bélgica / França / Espanha, 2005.





Bruno Davert (José Garcia) é quadro superior de uma empresa de papel. Despedido na sequência de medidas de deslocalização e redução de pessoal, decide recuperar a sua vida. E, para isso, ele está disposto a qualquer coisa, mesmo matar os seus concorrentes directos.


Cáustico e irreverente desde o primeiro minuto, esta adaptação do livro “The Ax”, de Donald E. Westlake, versa sobre um tema já abordado em filmes como “L’Emplois du Temp” de Laurent Cantet (2001) e “L’Adversaire” de Nicole Garcia (2002).


É fácil associar o crime e as medidas anti-sociais extremas às populações mais desfavorecidas e/ou com menos formação. Mas aqui, Costa-Gavras fala de um homem com formação superior que, ao contrário de alguns seus concorrentes que procuram trabalho em actividades menos qualificadas para continuar a sua vida, ele não concebe a mudança, nem de ramo nem de casa, por exemplo. Bruno exige a manutenção do seu status quo, nunca se colocando em causa, de uma forma prática, a sua subsistência.


Mas em vez de ceder ao desespero, à angústia e à raiva, Bruno transfere tudo isso para os outros. Felizmente, faltam-lhe escrúpulos. Apesar da inverosimilhança de algumas soluções, como a rapidez com que as suas vítimas confiam nele, fazemos da vingança dele a nossa. Porque Bruno é humano: impulsivo, ciumento com a mulher, preocupado com a delinquência do filho, disposto a tudo por eles, hesitante e desajeitado com a arma que usa, sempre com dificuldades em retirar do bolso a Luger que o seu pai trouxe da II Guerra Mundial. O seu plano é pouco consistente, completamente falível e, no entanto, resulta. O acaso está do lado dele. Nós também.


Ao longo do filme, Bruno passa da pistola às armas brancas, que exigem uma maior proximidade à vítima, reflexo da sua aproximação aos seus concorrentes, com quem prolonga as conversas, e hesita cada vez mais.


Em “Le Couperet” há uma persistente campanha de publicidade a roupa interior feminina que nos distrai do que está a acontecer, da mesma forma que a sociedade se distraiu com tudo que é material, superficial e imagem. A proposta é re-centrar a sociedade em torno do homem.


Costa-Gavras faz a tensão nascer de quase nada, de um olhar, de um ruído, ou uma arma escondida. O jogo entre aquilo que é ocultado aos personagens mas que o espectador sabe sustenta o suspense.


Karin Viard é a mãe e esposa modelo, insegura mas o pilar psicológico da unidade familiar. Mas o filme é José Garcia, numa interpretação que impressiona pela sobriedade, a loucura contida e a maldade natural.


Num ambiente cru e realista, cheio de humor negro, e de uma forma quase leve, são levantadas questões de carácter político e social, onde podemos reconhecer, com medo, algo da nossa realidade, mais ou menos próxima.


A grande vantagem (?) de Bruno é, como referiu Costa-Gavras na apresentação do filme, ele ser uma personagem amoral, para quem os fins justificam os meios. Um Maquiavel dos tempos modernos. Numa conversa familiar essa questão vem ao de cima: – O fim justifica todos meios? – Não. Excepto em tempo de guerra. – Mas só uns poucos têm acesso aos meios. – Mesmo em tempo de guerra.


Mas a guerra deste filme não é entre países, é entre indivíduos, muitas vezes ex-colegas, é sobrevivência do mais forte, o regresso da lei da selva. Darwin ficaria orgulhoso pelos progressos evolutivos do homem. Esta é a revolução dos rejeitados. Acautelem-se, porque para lá caminhamos!






CITAÇÕES:


“Il faudrait remettre l’humain au centre.”





realizado por Rita às 02:05
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Cinefools
RITA, MIGUEL, SÉRGIO, NUNO,
VASCO, LUÍS,
efeitos visuais por S.
Citação

“When morals decline and good men do nothing evil flourishes.”
LEONARDO DICAPRIO (J. Edgar Hoover) in J. EDGAR, de Clitn Eastwood
Banda sonora

PILEDRIVER WALTZ – Alex Turner
in “Submarine” de Richard Ayoade (2010)
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