PROMETHEUS, de Ridley Scott
Realização: Paolo Sorrentino. Elenco: Sean Penn, Frances McDormand, Judd Hirsch, Eve Hewson, Kerry Condon, Harry Dean Stanton, Joyce Van Patten, David Byrne, Olwen Fouere, Heinz Lieven, Grant Goodman. Nacionalidade: Itália / França / Irlanda, 2011.

“This Must Be The Place” vive de duas coisas: a delicadeza da interpretação de Sean Penn como uma excêntrica estrela de rock, e a delicadeza da banda sonora, nas mãos de, entre outros, David Byrne e Will Oldham.
Impregnado de tristeza e inércia, com uma ambígua saudade do que nunca voltará a ser, o filme de Sorrentino (“Il Divo”) vai fazendo pequenas revelações de forma quase episódica, sem nunca somar um todo coerente. Cativados pela estranheza de algumas situações e pelo humor de alguns dos diálogos, somos largados sem perceber a que se deve, afinal, o crescimento emocional do protagonista.
Ao fazer contas com o passado corremos o risco de nos deparar com dívidas incobráveis. E, aí, só dois caminhos nos restam: o pagamento ou o perdão.
Realização: Gaspar Noé. Elenco: Nathaniel Brown, Paz de la Huerta, Cyril Roy, Emily ALyn Lind, Jesse Kuhn, Olly Alexander, Masato Tanno, Ed Spear. Nacionalidade: França / Alemanha / Itália / Canadá, 2009.

Começa a ser evidente que Gaspar Noé gosta de criar a náusea física no espectador. Foi a cena inicial de “Irréversible” e são agora os efeitos estroboscópicos de “Enter The Void”. Mas a densidade narrativa e emocional que pautava o primeiro, parece estar quase ausente no segundo.
A sua abordagem à mortalidade seria até de uma ingenuidade comovedora se não fosse tão absurdamente ridícula. E aquilo que é tecnicamente sedutor e até surpreendente neste filme é totalmente contrariado por uma fraca dimensão interpretativa e por soluções que parecem apenas servir o propósito da transgressão pela transgressão, com muito pouca mensagem por trás.
Na quase totalidade do filme, a câmara de Noé localiza-se nos olhos ou na nuca de Oscar (Nathaniel Brown), um dealer americano que é morto em Tóquio pela polícia. A sua “alma” paira agora sobre cidade, vigiando os passos do seu amigo Alex (Cyril Roy) e da sua irmã (Paz de la Huerta), bailarina de strip.
A ostensiva narração do Livro Tibetano dos Mortos é tão orientadora do sentido em que o argumento se desloca, que não deixa qualquer margem de surpresa. Na sua brutalidade, “Enter The Void” beneficia de ser visto como uma experiência mais do que um filme. Uma viagem espacial, temporal e, em certa medida, espiritual.
Noé é um observador, e não permite ao seu espectador ser outra coisa. Se estamos sentados na cadeira temos de ver aquilo que ele nos quer mostrar, mesmo que leve mais de duas horas e meia, sob pena de sucumbirmos ao falso moralismo do bom gosto. É por ele que o fazemos, e por mais ninguém.
Realização: Ben Wheatley. Elenco: Neil Maskell, MyAnna Buring, Harry Simpson, Michael Smiley, Emma Fryer. Nacionalidade: Reino Unido, 2011.

Sem trabalho há oito meses, Jay (Neil Maskell) é tentado por um amigo a voltar à sua actividade de assassino a soldo. Da humilhação que sofre às mãos da mulher (MyAnna Buring) pela sua improdutividade à confiança que adquire do prazer de matar, Jay vai caminhando às escuras e, como ele, nós. E nem as tentativas do amigo Gal (Harry Simpson) em controlar a fúria de Jay apelando ao seu profissionalismo atenuam a sensação de desespero.
Os argumentistas Ben Wheatley e Amy Jump vão colocando breves elementos estranhos em momentos de total normalidade, elementos que insidiosamente nos dão a entender que as coisas vão, quase certamente, acabar mal.
“Kill List” começa por ser um drama doméstico, para depois se transformar num thriller num caminho de ascendente sadismo, até culminar no terror sinistro. E apesar da sua aparente ambiguidade é um filme que sabe perfeitamente a que cantos escuros nos quer levar.
Realização: J.C. Chandor. Elenco: Kevin Spacey, Paul Bettany, Jeremy Irons, Zachary Quinto, Penn Badgley, Simon Baker, Mary McDonnell, Demi Moore, Stanley Tucci. Nacionalidade: EUA / Suécia / Reino Unido / Canadá, 2010.

Mais pelo processo que retrata do que pela tensão que cria, esta é uma história sem heróis, onde se evidencia o verdadeiro handycap que pode ser a ética no mundo dos negócios.
Preso à realidade mas sem ser de forma declarada, a estreia de J.C. Chandor nas longas-metragens acaba por se manter tão à margem que nos deixa sem uma explicação satisfatória (ou sequer inteligível) para o que se passou nas 24 horas que antecederam a crise financeira a que temos o “privilégio” de assistir.
Realização: Jason Reitman. Elenco: Charlize Theron, Patton Oswalt, Patrick Wilson, Elizabeth Reaser, Jill Eikenberry, Richard Bekins. Nacionalidade: EUA / Suécia / Reino Unido / Canadá, 2010.

Mavis (Charlize Theron) cresceu a saber que beleza é poder. Usou e abusou dele para conseguir o que queria. Até dar de caras com a inevitável limitação argumentativa de um bem que desvaloriza com extrema rapidez.
Desencantada com o que obteve da vida, e sem perceber que se defraudou a si mesma, decide procurar no passado a sua realização pessoal, habituada que está a obter validação através dos outros.
A segunda colaboração do realizador Jason Reitman e da argumentista Diablo Cody é bem mais cínica que a sua primeira, “Juno”. Da ilusão à desilusão, mostram-nos a vacuidade da perfeição (desmontando mesmo o processo físico que a ficciona), culminando na humilhação e na pena.
A personagem de Theron é amarga, egocêntrica e superficial. Mesmo com essa clareza, nós, meros mortais, não conseguimos resistir ao seu magnetismo.

Realização: Steve McQueen. Elenco: Michael Fassbender, Carey Mulligan. Nacionalidade: Reino Unido, 2011.

As compulsões são violentas e destruidoras. Consomem-se quando são satisfeitas para apenas regressarem com renovada energia. A consciência, tanto na acepção de actividade cerebral como de moral, é vencida. E é dessa derrota que nos envergonhamos. De não nos termos sabido conter, de dizer “não”, de quebrar o vício circular.
McQueen não tem compaixão pelas suas personagens. Sem ceder por um momento, ele rodeia-as de uma arquitectura fria de linhas rígidas, onde a transparência dos edifícios e a suavidade das texturas contrastam com o hermetismo e as agruras emocionais. Fala-se de solidão em planos abertos e longos, fala-se de segredos irreveláveis contidos em confrontos quotidianos, fala-se de sonhos irrealizáveis ao sabor da canção “New York, New York”.
Em “Hunger” Michael Fassbender tinha deixado McQueen moldar-lhe o corpo. Aqui, deixa-o moldar-lhe a alma. E é sem medida e sem medos que ele se entrega. E é por essa sinceridade que partilhamos da sua miséria.
Entre o controlo extremo e a raiva explosiva, foge-se de quem se é. Porque se quer deixar de ser o que se foi, finge-se.
E às vezes quase parece que se pertence (I want to be a part of it...).
E às vezes quase parece que se recomeça (I’ll make a brand new start of it...).
A dor está nas palavras.
Realização: Andrew Niccol. Elenco: Amanda Seyfried, Justin Timberlake, Cillian Murphy, Vincent Kartheiser, Olivia Wilde, Johnny Galecki. Nacionalidade: Reino Unido / EUA, 2011.

Num hipotético futuro em que a moeda corrente é o tempo, as horas, os minutos, os segundos, há quem tenha de sobreviver dia a dia e há quem tenha séculos para esbanjar. Mas a interessante premissa do argumento de Niccol acaba por se desvanecer numa alegoria sobre a redistribuição da riqueza.
Também aqui o objectivo é simplesmente ter mais, sempre mais, viver para sempre. E o tempo é gasto, essencialmente, a arranjar mais tempo. A vida reduzida ao trabalho ou ao açambarcamento.
E nestes 109 minutos, não fosse pelo sempre intrigante Cillian Murphy, o tempo, com o luxo que ele é, sentia-se um pouco mal usado.
Realização: Simon Curtis. Elenco: Michelle Williams, Eddie Redmayne, Kenneth Branagh, Julia Ormond, Dougray Scott, Judi Dench, Dominic Cooper, Emma Watson, Toby Jones. Nacionalidade: Reino Unido / EUA, 2011.

“My Week With Marilyn” é baseado no livro de memórias de Colin Clark, um jovem que trabalhou com Marilyn Monroe no filme “The Prince and the Showgirl” filmado em Inglaterra em 1956 e onde ela contracena com Laurence Olivier. Infelizmente, o filme de Simon Curtis peca por isso mesmo, por se reduzir ao olhar embevecido mas superficial que um admirador dirige ao seu ídolo.
E esse ídolo, mesmo nas competentes mãos de Michelle Williams, que a impregna de todas as nuances inseguras, manipuladoras e depressivas que lhe competem, está longe de ser suficiente.
Realização: Stephen Daldry. Elenco: Tom Hanks, Sandra Bullock, Thomas Horn, Max von Sydow, Viola Davis, John Goodman, Jeffrey Wright, Zoe Caldwell. Nacionalidade: EUA, 2011.

As perdas. As dores. Os diferentes processos que temos (ou desenvolvemos) para recuperar das nossas tragédias. As tristezas. A busca (desesperada ou derrotada) de respostas.
Max von Sydow condensando a força, a sensibilidade e o humor de uma vida. Not that loud, but still incredibly close.
Realização: Marshall Curry e Sam Cullman. Género: Documentário. Nacionalidade: EUA / Reino Unido, 2011.

A Earth Liberation Front marcou o movimento ambientalista dos anos 90 nos Estados Unidos, quando os protestos pacíficos deram lugar a actos de desobediência civil, que culminaram em fogos postos e destruição de propriedade privada associada a abusos ambientais e que levaram à condenação por terrorismo de alguns dos seus elementos.
Motivados pela impotência das armas de luta civil que são colocadas à disposição dos cidadãos e pela frustração de não conseguirem fazer-se ouvir numa estrutura social viciada pelo capitalismo, jovens idealistas, por ventura ingénuos e bastante perseverantes, alvos também de uma autoridade violenta, enveredaram por acções extremas e dificilmente justificáveis.
O documentário de Marshall Curry e Sam Cullman é cuidadosamente equilibrado nos pontos de vista que apresenta. Os testemunhos dos intervenientes de ambos os lados surgem já tingidos do cinzento que em tempos foi branco ou preto. No final, fica ainda por definir se é mesmo de terrorismo que estamos a falar.
Realização: Asghar Farhadi. Elenco: Leila Hatami, Peyman Moadi, Shahab Hosseini, Sareh Bayat, Sarina Farhadi, Babak Karimi, Ali-Asghar Shahbazi, Shirin Yazdanbakhsh, Kimia Hosseini, Merila Zarei. Nacionalidade: Irão, 2011.

Pessoas decentes cometem erros e tomam más decisões. E a consciência de cada um debate-se em dilemas éticos e morais. A mentira provocada pelo pudor, a falsidade motivada pela vergonha, de ser mulher, de ser pobre, de enganar, de se enganar.
A separação de Simin (uma belíssima Leila Hatami) e Nader (um atormentado Peyman Moadi) funciona como metáfora para dissensões sociais e culturais - o colapso de um casal, um que pensa no futuro outro que se agarra ao passado, como o colapso de uma sociedade.
Uns recusam perder outros recusam pecar, uns recusam mentir outros recusam ser felizes. Sem posições partidárias nem veredicto final.

O rescaldo da noite.
MELHOR FILME
The Artist, de Michel Hazanavicius
MELHOR ACTOR PRINCIPAL
Jean Dujardin por “The Artist”
MELHOR ACTOR SECUNDÁRIO
Christopher Plummer por “Beginners”
MELHOR ACTRIZ PRINCIPAL
Meryl Streep por “The Iron Lady”
MELHOR ACTRIZ SECUNDÁRIA
Octavia Spencer por “The Help”
MELHOR FILME DE ANIMAÇÃO
Rango, de Gore Verbinski
MELHOR DIRECÇÃO ARTÍSTICA
Dante Ferretti (Production Design), Francesca Lo Schiavo (Set Decoration) por “Hugo”
MELHOR FOTOGRAFIA
Robert Richardson por “Hugo”
MELHOR GUARDA-ROUPA
Mark Bridges por “The Artist”
MELHOR REALIZADOR
Michel Hazanavicius por “The Artist”
MELHOR DOCUMENTÁRIO
Undefeated, de Dan Lindsay e TJ Martin
MELHOR CURTA-METRAGEM DOCUMENTAL
Saving Face, de Daniel Junge
MELHOR MONTAGEM
Kirk Baxter e Angus Wall por “The Girl with the Dragon Tattoo”
MELHOR FILME DE LÍNGUA NÃO INGLESA
A Separation (Irão), de Asghar Farhadi
MELHOR CARACTERIZAÇÃO
Mark Coulier e J. Roy Helland por “The Iron Lady”
MELHOR BANDA SONORA ORIGINAL
Ludovic Bource- “The Artist”
MELHOR CANÇÃO
Man or Muppet – “The Muppets” (música e letra de Bret McKenzie)
MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore, de William Joyce e Brandon Oldenburg
MELHOR CURTA-METRAGEM
The Shore, de Terry George
MELHOR EDIÇÃO DE SOM
Philip Stockton e Eugene Gearty por “Hugo”
MELHOR SONOPLASTIA
Tom Fleischman e John Midgley por “Hugo”
MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
Rob Legato, Joss Williams, Ben Grossman e Alex Henning por “Hugo”
MELHOR ARGUMENTO ADAPTADO
Nat Faxon, Alexander Payne e Jim Rash por “The Descendants”
MELHOR ARGUMENTO ORIGINAL
Woody Allen por “Midnight In Paris”
Restantes nomeados aqui.
Realização: Rodrigo García. Elenco: Glenn Close, Mia Wasikowska, Aaron Johnson, Janet McTeer, Pauline Collins, Brenda Fricker, Jonathan Rhys Meyers, Brendan Gleeson. Nacionalidade: Reino Unido / Irlanda, 2011.

Num projecto muito pessoal, que escreve, interpreta e produz, Glenn Close regressa a Albert depois de o ter sido em palco nos anos 80.
Baseado num conto de 1918 de George Moore, Albert Nobbs é uma mulher escondida do mundo, por não se conseguir encaixar nele. Escondendo de si própria os seus sonhos por sabê-los irrealizáveis, mas numa desesperada e dorida busca de afecto.
A experiência de televisão de Rodrigo García (“Six Feet Under”, “In Treatment”) traduz-se na grande densidade das suas personagens, mesmo as secundárias. É para elas que cria um mundo de miséria física e emocional onde o juízo e o medo prevalecem.
Realização: Bruce Robinson. Elenco: Johnny Depp, Aaron Eckhart, Michael Rispoli, Amber Heard, Richard Jenkins, Giovanni Ribisi, Amaury Nolasco. Nacionalidade: EUA, 2011.

Esta não é a melhor adaptação possível de uma obra de Hunter S. Thompson e é certo que este filme nunca será uma obra determinante, nem para os seus intervenientes nem para o espectador. Ainda está para chegar alguém com a criatividade e o engenho com que Terry Gilliam pegou em Fear and Loathing in Las Vegas.
Apesar do mesmo Gilliam ter participado no argumento (a cena da droga alucinogénia só pode ter sido dele), apesar de Johnny Depp ter bisado o protagonista (novamente decalcado do próprio autor), a “The Rum Diary” falta a garra e a estranheza, a mescla de desespero e esperança, que grassa no universo de Thompson.
Há na vida momentos decisivos para percebermos a pessoa que queremos ou não ser. Hunter S. Thompson escreveu sobre isso. Infelizmente, não foi isso que Bruce Robinson filmou...
Música e subversão. Um clássico, portanto.
Realização: Clint Eastwood. Elenco: Leonardo DiCaprio, Naomi Watts, Armie Hammer, Josh Lucas, Judi Dench. Nacionalidade: EUA, 2011.

Ainda que toldado pelos seus próprios preconceitos e do alto de uma extrema arrogância moral, J. Edgar Hoover era um homem com uma missão e um patriota indefectível (como só os americanos parecem poder ser).
DiCaprio incorpora, no corpo e na voz, este homem calculista e quase desumano que subsistiu a oito presidentes. Um óptimo trabalho de caracterização, só equiparável ao mau trabalho exercido sobre Armie Hammer no papel de Clyde Tolson, mais semelhante a um manequim de loja.
Por sua vez, o argumento de Dustin Lance Black (“Milk”) oscila entre o acompanhamento dos eventos históricos e a análise de um homem que ocultava inseguranças e frustrações, sem nunca conseguir um resultado equilibrado entre os dois.
Não era preciso muito, mas Eastwood redime-se de “Hereafter” com a sua mão capaz, o seu olhar atencioso e aquele suave travo a “Psycho” de Hitchcock.